sexta-feira, maio 25, 2007

O Tempo das giestas", no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

Explicações necessárias(*)

A ideia de escrever este livro surgiu-me quando, há cerca de dois anos, uma senhora se dirigiu à sede do PCP, em Lisboa, procurando saber notícias de um rapaz que conhecera e pelo qual se apaixonara, em 1936, e que, a dada altura, desapareceu misteriosa e definitivamente. No decorrer das buscas a que, durante muito tempo, procedeu, a senhora chegara à conlusão de que o seu apaixonado de então perfilhava ideias comunistas. Daí a procurá-lo onde, presumivelmente, lhe poderiam dar, e deram, notícias: o desaparecimento do jovem - na realidade, militante comunista - decorrera do facto de ter sido preso e deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado.
Obviamente que nem a referida senhora é a personagem Teresa, nem o rapaz por ela procurado é o Simão deste romance. Assim, e porque em ficção (quase) tudo é possível, a personagem Simão será o trigésimo terceiro resistente assassinado pelo fascismo no Campo da Morte Lenta.
Tratando-se de uma obra de ficção, quer os personagens quer a trama desta história são fruto da imaginação do autor.
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(*) - do autor
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O tempo das giestas será apresentado, por Pedro Namora, no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

quarta-feira, maio 23, 2007

Reverte - O escritor, o pintor, o fotógrafo, o repórter de batalhas (por esta ordem... misturando tudo)

O pintor (que fora fotógrafo) deu por terminado o mural em que ajustou contas com a vida (e as guerras) e com os homens, antes de todos com o homem em que as guerras (e a vida) o tinham tornado. Assassino de quem amara, isto é, também de si próprio.
O escritor (que foi repórter) releu as últimas linhas do livro e de novo se interrogou sobre o que encontraria o pintor no final das cento e cinquenta braçadas de ida e mais as cento e cinquenta braçadas que de volta não seriam. Carregou nas teclas ctrl + alt + delete como se fizesse detonar uma mina que lhe destruisse a vida. Aquela vida que vivera, vivendo batalhas. E soube, o escritor, que se vivo queria continuar teria de começar tudo de novo. Deixando o pintor entregue ao destino onde o levassem as trezentas ou mais braçadas mar adentro.

Um livro pare, leia, pense, questione(-se) e ao escritor (e ao pintor, e ao fotógrafo que o pintor foi por jornalista de batalhas ter sido o escritor)

S.R.

domingo, maio 13, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 34

O capítulo VIII, que começa pelo "berço de D. Quixote de la Mancha", dá ganas de que o reproduza todo (qual capítulo não o dá?). Mas não pode ser... vou tentar ser contido. O que tem de ser recontado é como, contado por Mestre Aquilino, aparece Sancho (páginas 177 e 178)

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(...) D. Quixote é o poema da alma popular, escarmentada e sofredora. (...) Faltavam cavadores. Farto de andar pelas estradas e bodegas, (Cervantes) nunca reparara bem em tal gente dobrada para a terra que nos dá de comer e nos come, a regá-la com o suor do rosto. Militar, agente do fisco, pajem de gentis-homens, ocupou-se com a tropa fandanga que topou pelo caminho. Sancho Pança cobriu a lacuna. (...) Faltava ali Sancho. Para onde se meteu o homem que vem escravo desde o princípio do mundo?!

Debalde D. Quixote, quando recebe hospedagem dos cabreiros, o puxa para a sua beira. Ele recusa, é certo que não em nome dos respeitos plebeus, mas da sua comodidade. Acha-se assim mais à vontadinha para comer, beber, arrotar, limpar os beiços ao canhão da véstia, do que muito direito ao lado do amo, velho fidalgo de etiquetas, consoante está afeito a ver, obrigado a trincar com decência e a fingir de bem-educado.

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Por aqui me fico. Por agora, e muito custosamente, pois logo no seguinte parágrafo Aquilino nos diz coisas em que entram palavras como deputado, socialista e conservador. O que tem muita piada (oportuna, direi eu). Lá iremos...

quinta-feira, maio 10, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 33

"O berço de D. Quixote de la Mancha. O cárcere ou os caminhos ensoalhados da Mancha? Índole da novela. A arraia-miúda é chamada a figurar no presépio castelhano. Sancho Pança também é gente (...)".É este o começo do enunciado do capítulo VIII do ensaio de Mestre Aquilino. Que diz tudo - além de tudo o mais que também diz logo a seguir - e dispensa as palavras de introdução e "ponte" que tenho vindo a deixar de minha lavra. Pois caminhemos pelas páginas 176-7 que começam o capítulo.
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O D. Quixote devia ter sido inspirado a Cervantes quando, reagindo o homem de mal consigo e com o mundo, bifurcado no lombo de uma mula passeira, através de caminhos velhos da Mancha, via da terra desdobrar-se o manto florido, as aves em seu bulício, o sol maravilhoso nascer e mergulhar no catafalco da púrpura vespertina, sentindo em suma o repululamento exaltador da vida. A pústula conduz à náusea e não ao arroubo sensorial. E, quanto a elevação, o que medra e cresce desmesuradamente no cárcere é o sentido da liberdade inato em todo o ser vivo. Se os tiranos fossem coagidos a um estágio entre ferros, como aula política, sujeitos ao regime comum, acabariam por ter noção mais exacta e com certeza mais profícua de humanidade.
É bem manifesto que D. Quixote, livro popular, deve à sua índole o império que alcançou sobre a curiosidade comburente do mundo. Tal como a Bíblia, onde os grandes capítulos são aqueles em que palpita e vibra o homem de barro comum: Job, o livro de Rute, os Macabeus, etc. Tal como a Odisseia.
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E por aí fora... como iremos ver mais adiante.

domingo, maio 06, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 32

Aproveito uma trégua em outras obrigações e deveres, para dar mais um pequeno passeio, procurando ajustá-los à dimensão do que chamam "post", ainda pelas mesmas páginas 173/4, onde Mestre Aquilino se encontrou com Ribeiro Colaço, que faz de D. Quixote um desejado D. Sebastião tão idiossincraticamente português.
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Este livro tem a propriedade, pois, de ser uma espécie de quadro parietal, fosforescente, de todos os intuitos filosóficos e sociais, ou apenas a torre roqueira, onde veio esbarrar a Cavalaria. Com igual verosimilhança, o adaptaram a este e aquele padrão, sem igualmente haver seguridade no desmentido.
Assim como assim, depois do Quixote, os romances de Cavalaria caíram no limbo. Estava o desfecho implícito na evolução natural das escolas literárias. Mas a durindana do cavaleiro manchego deu-lhes o golpe de misericórdia. Não foi apenas para as novelas de Cavalaria que soou o dobre a finados. Se-lo-ia, também, para a feudalidade, sobreviva ao Renascimento, com seus condottieri, suas Ordens militares, seu direito absoluto, seu monarquismo absorvente e autocrata. Pelo menos por um longo período. Di-lo Byron no seu D. Juan:
(...)
«Zombando, Cervantes decepou o braço direito de Espanha, que era a sua Cavalaria. A partir dessa data, acabaram ali os heróis. Pagou caro com tal perda a glória de possuir semelhante livro.»
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Apesar de ter dado um salto, pequenino que cavalo de pau não é saltador, saiu o passeio mais largo que o anunciado. Mas que hei-de fazer? Quando me ponho a dar estes passeios difícil é parar quando tudo se antolha matéria a ver e a transcrever. E apetece logo passar ao que Mestre Aquilino chama o "berço do D. Quixote de la Mancha". Lá iremos. Espero que breve.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 31

Desde 5 de Abril, um mês passado, que não dou um passeio neste cavalo de pau, que de tanto repouso tem abusado. E a falta que me tem feito... Como a vida nos afasta de fazer coisas que tanto prazer nos dão! Volto aos ludíbrios que D. Quixote de la Mancha descerra em maior quantidade que "um prisma de cristal ao sol". E só por um exemplos que a nós diz respeito me fico.
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E, vai, uns (dos "astrólogos da literatura") descobriram ali uma sátira e coisas e loisas coevas, outros uma configuração dos tempos futuros. E não faltou quem, avantajando a alça, visse no reticulado do megalómano personificado, não vemos bem com que geometria, o tribunal do Santo Ofício. Finalmente, na mesma ordem de interpretações, Tomás Ribeiro Colaço, no belo livro D. Quixote, Rei de Portugal, sustentou com nutridos e calorosos argumentos a tese de que o cavaleiro manchego, alcandorado a destemperos e loucuras sobre-humanas, era nem mais nem menos D. Sebastião, o Desejado, cuja memória infeliz e trágica, delirante e absurda - notou Cervantes - a piedade do povo lusitano começava a revestir dum indulto exorável de lenda. E neste guindado símbolo, Ribeiro Colaço não foi menos lógico que os outros exegetas.
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E como andei arredado destas tarefas, a elas voltarei breve, se é que não já a seguir...

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia do Livro

Hoje, é o Dia Mundial do Livro. E, se mundial, também o é - ou deveria ser - em Ourém, também o é na livraria Som da Tinta.
Hoje, fomos buscar à estante este livrinho, Aux Livres, Citoyens!, da editora Le Temps des Cerises, publicado em 1993, e que consideramos uma preciosidade.
Traduz-se como o autor, Jean-Michel Leterrier, introduz a sua obra, de 60 páginas, que bem ilustram o sub-título, De la Grande Utilité d'un Plaisir Interdit:

"Se o mundo do trabalho é o mais vezes evocado por aqueles que não o frequentam a não ser de muito longe, a leitura usufrui de um privilégio contrário. Os que mais escrevem ou comentam a crise da leitura são naturalmente aqueles que mais escrevem e lêem."

sábado, abril 07, 2007

A PASSAGEM - uma biografia de Soeiro Pereira Gomes

Acabei, neste sábado, de ler A PASSAGEM - uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis. Deixou-me uma fortíssima impressão.
Como diz Isabel Câncio Reis Nunes (sobrinha da autora), ao introduzir o livro, "Esta é uma história de amor. A história de amor de um homem e de uma mulher, a história de amor de um homem pela terra e pelo Homem", e ao fechá-lo com uma frase de que só quem termina a leitura do livro apreende todo o significado: "Não esqueçamos jamais todos os filhos e filhas das mulheres que nunca foram meninas!".
É uma biografia diferente, humaníssima, em que a ternura, a compreensão do outro e o respeito por si próprio(a) estão em todas as páginas que a autora escreve, servindo-se, por vezes, de depoimentos muito bem integrados no texto, até porque esses depoimentos tão esclarecedores de quem foi e como viveu Soeiro Pereira Gomes servem para distender um pouco, talvez para aliviar alguma excessiva tensão, talvez para enxugar uma lágrima, e muito bem nos localizam entre os meados dos anos 30 (o Tarrafal, a Guerra Civil em Espanha, a luta) e já a segunda metade dos anos 40 (o final da guerra, as esperanças frustradas, a luta), quando Soeiro Pereira Gomes voltou da clandestinidade para morrer.
S.R.

sexta-feira, abril 06, 2007

José Vegar no espaço Som da Tinta

Sábado, 14 de Abril, 16.00 horas
No próximo sábado, dia 14 de Abril, pelas 16.00 horas, José Vegar estará em Ourém, no espaço da livraria-editora Som da Tinta,

não apenas para falar da sua profissão e da sua obra, mas também para, por via da apresentação do seu mais recente livro, contribuir para uma reflexão sobre as transformações por que estão a passar as forças de segurança em Portugal e os desafios que se colocam à sua missão. Reflexão que, face a acontecimentos recentes também vividos por cá – com a redefinição da orgânica e dos territórios de intervenção da GNR e da PSP –, também importa desenvolver localmente.
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José Vegar nasceu em Luanda, em 1969. É jornalista profissional desde 1989, freelancer desde 2000. Trabalhou em jornais diários, Público e 24 Horas, e em hebdomadários, Expresso, O Independente, Semanário e Tal & Qual. Colaborou com revistas diversas, Fortuna, Grande Reportagem, Janus, Jornalismos e Jornalistas, Livros, Maxim e Sábado. Enquanto repórter, esteve presente em cenários de conflito vários, Bósnia, Ruanda, Sara Ocidental, Los Angeles ou Timor-Leste.
Em 1992, foi-lhe atribuída a Menção Honrosa do Clube Português de Imprensa e, em 1993, a Menção Honrosa do Clube de Jornalistas. Em 1997, foi considerado o «Jornalista do Ano». Em 2000, recebeu o Grande Prémio «Gazeta» e, ainda no mesmo ano, os prémios «Jornalismo e Direitos Humanos» e «SAIS – Novartis Portugal». Em 2002, foi galardoado com o Grande Prémio «AMI – Jornalismo contra a Indiferença».
Organizou antologias de reportagem (por exemplo, Reportagem – Uma Antologia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001) e, em conjunto com a procuradora Maria José Morgado, escreveu um dos livros de referência sobre o fenómeno da corrupção, O Inimigo sem Rosto. Fraude e Corrupção em Portugal (Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003). É também autor de um livro policial, Cerco a um Duro (Lisboa, Editorial Notícias, 2005).
O seu livro mais recente, Serviços Secretos Portugueses. História e Poder da Espionagem Nacional (Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007), é o resultado de uma investigação longa e apurada e visa revelar a realidade opaca dos serviços secretos portugueses. Este título é ainda, convém referir, mais um contributo de José Vegar para a compreensão do fenómeno da segurança, ao qual tem dedicado parte significa da sua atenção, o que faz de si uma das vozes portuguesas autorizadas sobre a matéria.

quinta-feira, abril 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 30

Isto está a ficar complicado! Quanto mais avança a viagem, mais difícil se torna. Não por cansaço mas porque a vontade de parar em cada página é quase irresistível. No entanto, é preciso continuar e passar páginas que mereceriam para aqui vir - a meu critério - se é que não todas o mereceriam. Meti-me nisto, e contente estou por o ter feito..., mas está a ser difícil! E mais o irá ficar! Por agora, dou um saltinho até à página 171:
D. Quixote de la Mancha descerra porém mais ludíbrios à vista que um prisma de cristal ao sol. Porque é que sendo cheio de puerilidades e partes gagas resiste ao tempo como qualquer séria e substanciosa obra, digamos estes livros de granito e bronze no género Velho Testamento ou da Odisseia? Demais da indemnidade ao tempo, bate a todos na concorrência do público, o mesmo é que no seu poder de engodo e sedução.
O Engenhoso Fidalgo está dentro de anos a perfazer quatro séculos. Em despeito de haver-se tornado, mormente para os espanhois, uma Sagrada Escritura, portanto uma dogmática com a sua mística, continua a ter leitores que o folheiam com honra e devotos espontâneos que tomam banho mental na linfa das suas páginas como os fiéis de Buda nas águas do Ganges purificador.
Um dos seus aspectos singulares é que se presta às mais variadas interpretações. Cada qual conclui do conteúdo a sabor das suas ideias e do seu credo. Para o realista, é a magna carta; para o democrata, um evangelho. Estão assim recheadas de caricaturas e de símbolos, no parecer de Fulano mais de Beltrano, estas páginas febris.
Como iremos comprovar, em alguns dos muitos exemplos que Meste Aquilino arrola, logo que voltemos a montar no cavalo de pau e prossigamos viagem...

sábado, março 31, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 29

Arrependimento? Vamos já já ver o que pensa Mestre Aquilino do arrependimento no sentir castelhano:

O arrependimento, já o dissemos, não faz parte do emocional espanhol. Madalenas ali não se sabe o que sejam. Um castelhano nunca lamenta ter sido vingativo, fero na desafronta, desmedido na chacina, mau na maldade, excessivo no bem. Lamentará apenas que o não tenha sido em grau superno, o mesmo é que esquilianamente. Arrepende-se, sim, se procedeu com torpeza, quer dizer, sem arte no que a palavra encerra de recalcamento das forças activas ou estáticas do carácter. Esta frase do D. Quixote equivale a uma definição: los más quedaron tristes y melancólicos de ver que no se habían hecho pedazos los tan esperados combatientes, bien así como los muchachos quedan tristes cuando no sale el ahorcado que esperan, porque le ha perdonado o la parte o la justicia.
Cervantes, em despeito do ressumbramento mefítico que é lícito supor lhe contagiasse os sectores afins da piedade, vibra de simpatia por todos os infelizes e irregulares da terra. Posto seja condão dos príncipes do entendimento, com ele é qualidade prima, como se esta singularidade fosse uma espécie de antibiótico contra a relice e apatia ovelhum do género humano.
Como muitas vezes nos tem acontecido, apesar da publicação do ensaio ser de 1960, as considerações de Mestre Aquilino sobre o carácter espanhol (ou castelhano), se muito importantes até para a identificação do português na Ibéria, parecem-nos muito perto, ou muito marcadas, pelo que foi a guerra civil em Espanha.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 28

Vamos lá aproveitar estar na estrada para fazer mais um pedaço de caminho. Que, como dizia um outro (Machado), se faz al camiñar. E há ainda tanto caminho por fazer! Agora, será um saltinho até à página 168, lamentando sempre o que ficou pelo meio sem ser aqui trazido. Mas isto não é uma transcrição do ensaio de Aquilino em folhetins...
(...) hoje ainda é admissível que, sob cartaz de certame, uma caterva de ratões, bem comidos e bebidos, apeiem dos automóveis, e, de luvas, charuto na boca, com as suas hammerless de luxo, sacadas de estojos de camurça, se ponham a fuzilar pobres pombos prisioneiros, quando, logrados pela esperança de readquirir o que há de mais precioso do mundo a todo o ser vivo, remontam no céu, imaginando-se a são e salvo. É verdade, mas não se deitam os escravos às moreias para as engordarem e tornarem, com a carne cevada a trigo e vinho, mais saborosas aos epicuristas.
Tal seria o teor da época que reflecte aqui e além o D. Quixote. Mas a novela, além de caricatura dos livros de Cavalaria, querem os cervantistas que seja um libelo contra as prepotências, um idearium apologético e uma crítica de costumes. E esta palavra de Cervantes, que gostaríamos fosse um estigma, representa uma pura contemporização: No quedaron arrependidos los duques de la burla hecha a Sancho Pança del gobierno que le dieron.
Arrependimento? A ver vamos. Logo a seguir...

sexta-feira, março 30, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 27

Isto é que tem sido repousar, meu cavalicoque de pau! Também não sabes andar de patins...
Mas voltemos à nossa viagem e a mais um passeiozito.
Tínhamos ficado numa pergunta, a que, na mesma página 163, Mestre Aquilino dá resposta:
Antes de se expatriar para Roma, (Cervantes) já cultivava as musas. Por sinal que balbucios poéticos, pouco auspiciosos. No cativeiro escrevera poesia ditirâmbica, mormente versos ao divino, se não se trata dum endosso piedoso dos amigos para antídoto à requisitória de Juan Blanco de Paz, espião do Santo Ofício. Desde logo, a pena de escritor não lhe era pois novidade. Compôs El trato de Argel. O êxito relativo animou-o a carpinteirar outras peças. (...) Na sua estadia em Lisboa, Cervantes tivera o palpite de que o temperamento português, taciturno se não saudoso, se comprazia no bucolismo, como uma oxigenação bronquial. O amor era ali uma espécie de voto subtil, regulado por princípios trovadorescos, que poèticamente se exprimia e deleitava na ode e na écloga.
(...) Comédias, novelas de costumes, tudo isso levou pouco além das raias da mediocridade, sem desprimor.
E não resisto a lembrar que, na Associação Recreativa e Cultural da Atouguia (ARCA), em tempos propus e encenei uma dessas comédias de Miguel Cervantes, O Velho Ciumento. Não terá ficado para o meu currículum mas ficou nas minhas boas memórias...

domingo, março 11, 2007

António Gedeão contado/cantado por Manuel Freire

Foi uma tarde Som da Tinta.
Desta vez, congratulando-nos com a "casa cheia".
E o Manel, a contar e a cantar Gedeão (e o professor Rómulo de Caravalho), foi um excelente animador da tarde.




















Das que valem a pena viver.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 26

Também acontece que quando as núvens estão tão baixas e carregadas que pesam na cabeça, apetece dar uma volta em cavalo de pau. Depois de, na pág. 162, Mestre Aquilini contar do Juiz de Barrelas, e lembrar-me a Rainha Zinga (o que ficará para outra altura), nessa mesma página e na seguinte há pedaços que merecem parança:
O que não sofre dúvidas é que metade dos dias passou-os Cervantes a resolver problemas que para tantos imbecis estão resolvidos de nascença. Daí a sua inconformidade, menos ostensiva que visceral, contra a sociedade. Tão em contra do seu temperamento, a sua constante condição foi servir. Acedia a servir para logo se furtar à canga. Ele nos esclarece que aceitou apajear o cardeal Acquaviva, se é que o apajeou, na mira de se forjar um paládio, ainda que temporário, ou enquanto não assentasse pé em Roma. Isto obtido, ou apercebendo-se da sujeição, ala! Serviu nos terços, idólatra, como bom espanhol da era heróica, do príncipe D. João de Áustria, e breve despia o uniforme, coacto não apenas pelo estropiamento como, talvez, pelo tédio que o tomara. As letras foram para ele um refúgio ou representam na sua índole uma incoercível tendência?
Por aqui, pela pergunta, me fico. Logo vem a resposta... e Lisboa. Até lá!

sexta-feira, março 09, 2007

As palavras exactas

Hoje, sei lá porquê, ou até sei..., apeteceu-me chamar biltre a um fulano que eu cá sei. E até sei porquê embora quisesse fazer de conta que não sei.
E fiquei nessa de chamo-não chamo... talvez chame... se ele fizer outra igual ou parecida... e se ele estiver por perto.
Por aí me fiquei a chamar biltre a um fulano sem biltre lhe ter chamado. E a palavra comigo ficou, como uma etiqueta a colar quando oportuno.
Biltre... Pois. A palavra exacta.
Era para ir ao dicionário ver o exacto significado da palavra exacta. Mas, antes, abri, ao acaso, um livro do Gedeão e logo me aparece a página com o

Poema da palavra exacta

Eu dou-te uma palavra, e tu jogarás nela
e nela apostarás com determinação.

Seja a palavra "biltre".

Talvez penses num cesto,
açafate de ráfia, prenhe de flores e frutos.

Talvez numa almofada num regaço
onde as mãos ágeis manobrando as linhas
as complicadas teias vão tecendo.

Talvez num insecto de élitros metálicos
emergindo da terra empapada de chuva.

Talvez num jogo lúdico, numa esfera de vidro,
pequena, contra outra arremessada.

Talvez...

Mas não.
Biltre é um homem vil, infame, ordinário.
São assim as palavras.

António Gedeão, no espaço Som da Tinta, amanhã, às 16 horas, contado/cantado por Manuel Freire. Com as palavras exactas.

segunda-feira, março 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 25

Tendo nós chegado ao ponto em Cervantes cria D. Quixote muito à sua própria imagem, quase como um seu retrato ficcionado, E encontramos Mestre Aquilino a, por vezes, mostrar alguma irritação pelo que chama os "devotos de Cervantes". Como se, por se gostar do que alguém escreve, se tenha de vangloriar o autor do que foi escrito, não como escritor mas como homem. Temos, agora e em Portugal, Saramago e Lobo Antunes que poderriam servir de exemplo para a necessidade de separar os homens dos escritores, com critérios de avaliação que nada têm a ver uns com os outros. Mas vamos lá à página 161:
Em geral os devotos de Cervantes, no intuito de exalçar o ídolo, procuram riscar da uma vida e carreira tudo aquilo que traga a marca do trivialmente terrestre, como sejam amores de ocasião e as necessidades económicas que o compeliram a curvatura de espinha lamentáveis e ainda o que se chama hoje indelicadezas em matéria de dinheiros públicos. Ora a vida é inimiga do heróico ao contrário do pensamento divinizador. Cervantes poderá não encarnar o homem de rígido carácter que se comprazem em ver nele os Catões do lado de lá da fronteira; nem um católico fervente como gostariam de apresentá-lo curas e ultramontanos; nem um tradicionalista ferrenho ao paladar do requetés. Mas ninguém nega que dispôs de admirável fantasia e D. Quixote é um dos luzeiros acesos na marcha titubeante da humanidade através da sua longa, ínvia e tantas vezes tenebrosa caminhada. Poderá não inculcar-se como modelo acabado de cidadão, nem ele concorreu a tal categoria, sempre ficará, em despeito dos seus altos e baixos de humano, um príncipe do pensamento e da moral literária. Mas este afã com que acepilham a pessoa, a alindam, a desbastam do terrenal, como que obedecendo a um mandato subconsciente, vem dar razão a quem vê no D. Quixote o símbolo da Espanha, sequiosa de absoluto e nada compreendendo para fora destas coordenadas.
Cervantes, homem pobre, prezando a vida no que tem de materialmente fruidor, nunca a logrou a seu gosto.

António Gedeão

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis.
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

No dia 10 de Março, pelas 16 horas, no espaço Som da Tinta, António Gedeão por Manuel Freire.

sexta-feira, março 02, 2007

Manuel Freire e a "Pedra Filosofal" de António Gedeão - 10 de Março no espaço Som da Tinta

Há quase 40 anos foi uma pedrada no charco!
Vamos ouvir e falar disso, e de outras "coisas" do António Gedeão, com o Manuel Freire, no dia 10 de Março, a partir das 16 horas.

quinta-feira, março 01, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 24

Este percurso vai ser longo. Segue ao que Aquilino vinha contando a transposição de Miguel Cervantes para D. Quixote, como a vida de um deu vida ao outro. Vamos a isto que as linhas são muitas, passando da página 159 para a 160:

Cervantes era coerente consigo mesmo e com o que escrevia. Que figados poderiam ser os seus depois daqueles desgraçados anos ao serviço d'El-rei, com o odioso lápis e a caderneta de perceptor em punho, invectivado e apupado pelos habitantes, apedrejado, batido, expulso?! Depois, chamado a responder pela porção de géneros prelevados que não deixariam de maquiar moleiros, almocreves, forneiros e coadjutores famélicos?! Que havia de ter em mente senão alucinantes moinhos de vento, absurdos odres de vinho e de azeite, curas nédios montados em horsas do Apocalipse, fidalguinhos marionetes e fidalgarrões de barba branca fluvial, com a vasta choldra de quadrilheiros e pícaros à roda, capazes todos eles, filipinos como eram até à medula, de jogar a túnica do Senhor dos Passos quanto mais de roubar a Manutenção?! Cervantes, em rixa com os moleiros, deu, transposto para o burlesco, o D. Quixote que arremeteu contra moinhos de vento, transfigurados em titãs. Excomungado pelos cabidos e alto clero, nada mais compreensível que o Engenhoso Fidalgo jogasse a sua lança contra os gordos frades de S. Bento. A liteira, guardada pelo biscainho, com a dama que vai ao encontro do seu senhor, alto burocrata nas Índias, - é o dégonflement da sua eterna obsessão de mercê, no Novo Mundo, como o cura de Alcobendas representa o desfrute de seu cunhado seminarista, que lhe havia de palmar a legítima da mulher, ou de seu tio por afinidade Juan Salazar de Palácios, um sacerdote chato e honrado, figurações essas da sua trovoada de sonhos nocturnais. E quem me diz se não foi que mantearam se não em Ecija, em La Rumbla, se não em Castro del Rio, em Carmona, uma vez que é tão fora de razão ver aqueles birbantões, cardadores de Segóvia, vendedores de agulhas e alfinetes de Córdova, belfurinheiros da feira de Sevilha, fazerem-no a Sancho Pança, pobre diabo como eles, tomando dores pelo Canhoto estalajadeiro? A Cova de Montesinhos não é a Cova de Cabra, cujo boqueirão ficaria sempre a lobreguejar na imaginação pávida do menino, quando a família, acossada pelo vendaval da vida, vinha acolher-se à sombra do parente remediado? E Dulcineia não terá pedido emprestada a Catalina aquela sua cerebral e inacessível altanaria, distância idealizada e rigidez de ressentida em que petrificou para com o aventureiro? Não foi com ela que aprendeu a volátil significação do amor?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

António Gedeão-Manuel Freire, a "pedra filosofal" (e outras!)

INFORMAÇÃO-CONVITE

A livraria


inicia, no seu espaço
no dia 10 de Março,
pelas 16 horas,
uma série de iniciativas,
a que deu o nome,
leitores ao encontro de autores,
em que um grupo de leitores
se prepara para conversar com um autor escolhido,
o que poderá ser animado
por um “leitor especial” desse autor.

Para começar,


o autor será António Gedeão e o "leitor" Manuel Freire









- venham sentar-se connosco


sobre uma "pedra filosofal"


(e outras que lhes são comuns)

e conviver

domingo, fevereiro 25, 2007

Os jovens e Zeca Afonso

No sábado, 23 de Fevereiro, fez 20 anos que morreu Zeca Afonso. Um grupo de jovens pediu o espaço Som da Tinta para promover uma iniciativa que homenageasse o cantor e o homem.

O espaço foi cedido com todo o gosto e, além disso, a Som da Tinta mostrou toda a disponibilidade para colaborar na iniciativa.

Foi uma noite linda, pá!

O facto de Zeca Afonso tanto dizer a jovens e a menos jovens, vinte anos passados sobre a sua morte, revela bem a importância da sua mensagem em poema e música, da sua forma de resistência, que tão actual parece. Tão dos nossos dias!

À livraria Som da Tinta só resta agradecer aos jovens promotores e à Vanessa (que bela voz!), ao professor José António e ao João, a excelente noite que a todos proporcionaram.
Venham mais 5... noites como esta!


No cavalo de pau com Sancho Pança - 23

Cá estamos de volta, sem nunca termos deixado de estar. Estas viagens são assim. Vão-se fazendo mesmo quando parece que não estão a ser feitas. E voltamos à página 158, porque dela há muito a (transcre)ver e dela transbordamos para a 159, que não menos tem para ser transcrito. É que estamos no cruzamento dos caminhos de Cervantes com D. Quixote, onde nos trouxe Mestre Aquilino :

Teve alguma vez Cervantes o sentimento de que estava a tirar da alma os imensos pesadelos que a ensombravam e, dobando-os como lã de dobadoira, os traduzia para uma linguagem susceptível de duas percepções? De facto, ele escrevia o seu auto-retrato e, num plano superior, a história de Espanha que, segundo um professor universitário, vista na versão oficial ou acreditada, é uma gigantomaquia sinistra do princípio ao cabo. Se assim é, para conseguir ser exacto, consciente ou subconscientemente, pouco interessa, teve de abstrair das noções estabelecidas, mexer com a ordem das coisas, pôr, digamos, o chamado senso comum de pernas para o ar. O que daí resultou - verdade das verdades - foi uma odisseia de irrisão e de amargura.

Estamos mesmo no cruzamento em que Cervantes cede o passo a D. Quixote. É um momento crucial do livro de Aquilino Ribeiro. Nele nos devemos deter, saboreando a prosa e confrontando as duas vidas, ou uma vida que a outrém (o engenhoso fidalgo dom Quixote de la Mancha) vida deu ao escrever um livro com o nome deste por título, debaixo do nome seu (Miguel de Cervantes Saavedra) como autor (ou acima, conforme as edições).

Voltamos já!

Uma conversa em convívio à volta de Escrever nas paredes

No sábado, realizou-se, no espaço Som da Tinta, a iniciativa anunciada de apresentação do livro de João Lázaro Escrever nas paredes. Foi um começo de tarde agradável, em que se conversou e conviveu, falando das crónicas que compõem o livro. Houve três animadores da conversa: Sérgio Ribeiro (em nome dos "donos da casa" e como apresentador do livro), Georgina Rocha (que seleccionou as crónicas e coordenou) e João Lázaro (que, como autor, não conseguiu escapar-se à exposição pública de que foge mas que, agarrado, se revela um excelente comunicador... sobretudo se não tem que falar da obra própria mas dos temas que a alimentam).
A editora também se fez representar, e bem, por Paula Carvalho.
Embora não tenha sido a enchente que sempre se deseja, a sala estava muito composta, com assistentes interessados e participantes.
Mas não se falou só de Escrever nas paredes, também se conversou sobre as Mulheres à flor da pele, outro livro de João Lázaro que merece ser lido, e de tudo que veio à baila.

Foi "joli c'mo caraças", diria o "pintas" da Zündapp, personagem de uma das crónicas de Escrever nas paredes!

terça-feira, fevereiro 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 22

Acompanhando Cervantes, e a sua atribulada vida, vamo-nos aproximando de D. Quixote. A página 158 é uma "ponte", que se atravessa encantado, ao contrário do que sente Cervantes:
O que parece ter valido a Cervantes é que o desencantamento que experimentava agora e logo era menos forte que o seu poder de ilusão. Vencido, sim, mas vencido que não se rende. Escarmenteado de todos os bons e maus trabalhos com o fidalgo e o vilão, o frade e o leigo, o alcaide e o carabineiro, além de pobre, aperreado, era o cão malhadiço que vai sempre ao direito do nariz, fungando, rabo entre as pernas, depois de uma pedrada evitando outra.
Examinando bem, os passos da vida de Cervantes são pois as patacoadas de D. Quixote, traduzidas para ridículo. Compreende-se. O seu prazer de revel foi, servindo-se de um herói estapafúrdio e que ninguém tomaria a sério, zombar du monde et de son père. Que regalo revessar na cara de todos o seu fastio humano, quando não é desprezo descomposto, e ninguém pode pedir-lhe contas?! Ser um doido imenso e irresponsável como Deus, o que em Espanha não é raro, mas se processa sempre na escala homérica!

sábado, fevereiro 17, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 21

Mas voltemos à vida atribulada de Miguel Cervantes. Ainda na página 146, é-nos contado, naquela prosa impar de Aquilino:

Uns sete anos esteve Cervantes sem ir a Esquívias. Apenas uma vez se encontrou com Catalina, sua mulher, e é de supor que, esta, só então comparecesse depois de muito rogada e por comiseração com o prófugo no cartório dum notário. Tão espaçado silêncio significa divórcio de pessoas e lugares. Quem deu causa? Pelo que se conhece da vida de Cervantes, este é que devia ter fornecido à moça inteiriça, digna planta da terreola toledana, suspicaz e apegada à cartilha dos seus maiores, a razão eficiente. Catalina seria daquelas que, quando se entregam, a sua rendição é incondicional. Também, quando lhes dão azo a terem rompido o pacto jurado, nunca mais este se solda como sucede com a faiança fina.
A esposa, ou porque Cervantes desse provas de cansaço e bocejasse, ou a sua atitude fosse de desafecto, pondo a descoberto o móbil interesseiro que o induzira a contrair o enlace, devia tê-lo visto partir sem mágoa. (...) Pode aceitar-se também que se tenham revelado temperamentos diferentes e inconciliáveis, Catalina uma pobre alma antiquada, Cervantes um aventureiro que provara todos os venenos do corpo e do espírito. Convir-se-ia então que seria este um desacordo perdoável. Um zoilo ou um realista dirá que para o homem batido do mundo, que beijara muitas bocas, saboreara o prazer dos sentidos com o requinte que reveste nas cidades e, particularmente, na terra devassa de Argel, envolver-se num negócio de amor, em tudo adamítico e insonso, com uma Eva rústica e sem graça, só havia um remédio, fugir a sete pés. E ele, de facto, fugiu a pés de lobo. Fugiu para Sevilha, e não consta que ela fosse atrás dele ou alguma vez o chamasse.
Mas isto já nos fora contado por Aquilino, que vai desenleando a meada e, por isso, tem de voltar atrás e pegar em fios deixados soltos. E só se repete porque esta prosa é irresistível.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 20

Nesta cavalgada que venho fazendo, um pouco solitário, e melhor diria burricada porque o cavalo, sendo de pau, mais burro parece (e digo-o baixinho para ele não me ouvir com suas orelhas de madeira), e em que vimos acompanhando as peripécias de Miguel Cervantes no que vai sendo recolha de material para o seu livro sobre a vida de D. Quixote, que sua e nossa é, é preciso não perder o ambiente que envolve - e contribui - para esse acervo de experiências que vai levar a tão importante marco da literatura. Mestre Aquilino está sempre atento. Atentos temos de estar nós, os leitores. Vejamos as páginas 144 a 146:
A derrota equivaleu à derrocada moral da arrogância espanhola, se neste plâncton meio mitológico, indeciso e fluído, se podem verificar tais sismos invisíveis.Fisicamente, o espanhol mal cambaleou das pernas, como Filipe. As metáforas que daí surgiram são mais de inventiva cortesã, salvo a carta circular que os secretários expediram em seu nome. Nela Filipe revelou-se tal qual aquele fidalgo minhoto, D. José de Enfartauntos, que se fez pintar num retábulo em louvor do Senhor dos Milagres porque, tendo caído duma escada, partiu uma perna quando podia ter partido duas:
(...)
Que os soldados levassem ou não ordem, pondo pé vitorioso em Inglaterra. de passar à naifa homens, mulheres e meninos maiores de 7 anos, e assinalar os menores com o ferro em brasa da escravidão, será calúnia britânica. Os descendentes dos conquistadores do Peru, se encarregariam de fazer obra limpa e asseada. Pelo que respeita a recatolizar Inglaterra e dar cumprimento à bula de Sisto V, renovando a excomunhão fulminada por seus predecessores contra Isabel I, o que ninguém nega, calculamos a que extremos iriam parar as demonstrações de justiça divina exercida pelo braço castelhano. Seguramente à prisão da raínha e entrega ao Papa. Deferida por esta à Santa Inquisição, tínhamos crematório certo do real corpo luterano na praça pública para regozijo dos anjos e não menos regozijo do poviléu, que dava o cavaquinho por estas festas. Havia, ainda, a considerar a elevação das boas almas, em justa contrapartida, aliás, do que a soberana protestante fizera à catolicíssima Maria Tudor.
Filipe nas Instruções não se cansara de incutir ânimo aos expedicionários e rogar-lhes que rezassem muito "por que las vitorias son don de Deus e el las da e quita como quiere".

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

João Lázaro na Som da Tinta

INFORMAÇÃO-CONVITE

Dia 24 de Fevereiro de 2007,
às 16 horas,
em Ourém,
na
apresentação do livro de
JOÃO LÁZAROEscrever nas Paredes
JOÃO LÁZARO é psicólogo clínico e director artístico do Te-Ato, Grupo de Teatro de Leiria. Nasceu em Leiria em 1958, dá aulas na EPO-Ourém.
Em 2000, publicou Mulheres à Flor da Pele.

ESCREVER NAS PAREDES é uma selecção de algumas crónicas que o autor vem publicando, desde 2002, no Jornal de Leiria:
“Tenho urgência de escrever nas paredes (…) Escrever sem pudor fazendo de cada coisa escrita testemunho assumido de uma atitude ocasional, do pensamento ou emoção pressentida. É por isso que há vezes em que gostaria de ser um bocadinho poeta. Não muito."
apareçam!
Jorlis, e Edições e Publicações,Lda
paula.carvalho@movicortes.pt

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 19

Longa vai - e ainda mais longa será - a viagem. Vamos alargar a passada, ultrapassando 12 páginas - e com pesar pois não menos mereciam transcrição que as que já estão e irão ser transcritas. Mas tem de ser!
"Homem desarvorado", Cervantes não podia estar muito tempo casado, recatado e quedo, em Esquívias, suportando suspicácias e outros olhares de través. E a Sevilha voltou, assim como ao serviço do rei. Para função ingrata que nem ofício era. A de comissário cobrador de impostos...
Passemos então à página 139:
Cervantes, se não por génio, evidentemente que por necessidade, teve de desempenhar esse árduo papel. A certa altura, estava de mal com Deus e com os homens. De mal com Deus, pois que foi excomungado duas vezes pelo cabido e arcipreste, seus ministros na terra, e com os homens, isto é, com os governantes, já que três vezes o meteram na cadeia por não apresentar as contas certas ou a tempo, sob acusação de se ter alcançado e cometido indelicadezas com os dinheiros do rei.
É possível que Cervantes se prontificasse a exercer tão execrável função, à falta de melhor sem dúvida, e ainda na esperança de que, desta feita, os seus serviços fossem galardoados com o almejado emprego nas Índias. E então adeus letras!
Pobre e iluso homem! Se malversões cometeu além das que estavam implícitas no seu papel de comissário, não lhe renderam com que sair da cepa torta! Entrou para ele pobre e saiu a tinir. Segundo os documentos exumados do pó dos tombos por Pérez Pastor, se quis, em Novembro de 1590, vestir-se e comprar a Miguel de Cavides & C.ª, mercadores de Sevilha, contra o inverno que se anunciava, raxa de mescla para se vestir, houve de dar Tomás Gutiérrez como fiador de dez ducados em que importava a fazenda. Além de excomungado. e três vezes encarcerado, pago tão tarde e às más horas que teve de levar o débito do seu ordenado para juízo, quando acabou a enorme incumbência não lhe restava no bolso com que mandar cantar um cego.
Viu levantarem-se contra ele os frades, os cabidos, os bispos, personalidades gigantescas e preponderantes do grande mundo eclesiástico. Penou no cárcere de Sevilha, metrópole truculenta do vício, em que aprendeu geringonça e flamenca, e entrou em contacto com pícaros e delinquentes de alta moina. A sua experiência enriqueceu-se à custa de sofrimento e de vexames.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 18

Este vai ser um "post" tipo cópia, sem comentários nem imagens, pois é um longo excerto da vid(inh)a do Cervantes enquanto esposo. Lá por Esquívias. Páginas 126 e 127:
Todavia, a sorte de ser mulher, majorada tempos depois da terça que lhe fez a mãe - contanto que não a pudesse alienar, o que equivale a ter-lhe imposto o regime dotal, havendo por bem recatá-la das unhas do genro, no que aliás Catalina viria a reincidir mais tarde, expressamente, no testamento - daria para matrimónio género burguês, regradinho, estes casais onde o marido faz de barca e a mulher de arca, um a trazer, outro a guardar. Para isso era necessário que Cervantes tomasse o papel a sério, ao mesmo tempo que fidalgo dando leis na arcada, pegando à vara do pálio aos domigos e dias santos, fosse um verdadeiro proprietário de Esquívias. Como tal, teria que à sua altura pegar no podão e podar as cepas, limpar as oliveiras dos galhos mortos e ramagem parasita, plantar o cebolinho, assistir à vindima, à pisa das uvas, à encubação do mosto, ir todas as noites e todas as manhãs encostar o ouvido ao batoque do tonel para avaliar pelo rumor se a fermentação se ia operando satisfatòriamente, não ter escrúpulo de aparelhar as mulas, ser mestre regatão a vender e aprovisionar aos almocreves com o produto das fazendas, etc., etc. Tais funções para Cervantes eram grego. Todavia, com um homem de engenho superior, com era o seu, a agronomia oportuna encontra-se no seguimento da alameda rústica que se trilha. Tivesse ele a pachorra necessária, e sobrar-lhe-ia capacidade para se instruir duma arte que tudo demanda do bom senso, do jeito e do tacto previdente e minucioso. Mas seria preciso que o Cervantes farandoleiro se desdobrasse em abegão, podador, seareiro, viticultor. Pedi-lo a um homem que foi soldado de pré e poeta que se entregou ao sonho a perder de vista terra e mar, para mais aventureiro e corredor das sete partidas, era meter o vento numa arca.
Pobre Cervantes, ainda nos atrevemos a dizer nós... mas logo Aquilino continua "Cervantes devia sentir-se recalcado em sua pessoa, objecto de suspicácia dos parentes da mulher, a começar pela sogra". Adiante, cavalinho, que os "posts" têm limites e isto são coisas lá da vida privada de Miguel e Catalina...

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 17

Casou-se o homem, mais por interesse e recato que por amor - assim sugere Aquilino...
E em Esquívias, nova morada, parece muito ter avançado o D.Quixote. Com a curiosidade de, nesta página 125, aparecer um nome que, em 1960, teria incomodado leitores-censores, se acaso Aquilino não lhes conseguiu escapar à inquisição.

No redondo de muitas léguas, impunha-se pelo borbulhante. De mistura, Quijanos, os bons, Salazares, ávidos e demandistas, e toda a fidalguia provinvial de meia-tijela, poupadinha, cautelosa, prestando ouvido empolgado ao mexerico, lidos de Amadis e do Livro de Carlos Magno, poucos os que assinavam mais do que de cruz, no geral honrando-se todos de suas letras gordas. Se a estes figurantes do Quixote, das novelas e entremezes, nem sempre os trasladou dali, tais quais, com o próprio nome, forneceu-lhe Esquívias bom madeirame para a sua oficina de ficcionista. Pelo processo dos enxambladores, tirando deste e ajuntando daquele, afeiçoando tal outro, corregendo além, assim perfez a lotação da sua romanceada arca de Noé.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 16

Depois da última conversa com a alimária, que nem conversa foi..., tentei reatar as charlas que venho tendo com ela/ele "então... bem disposto? vamos pôr-nos a caminho?!". Mais resmungou que respondeu "bem disposto... bem disposto... ninguém nos liga nenhuma...". Não pude deixar de lhe dar alguma razão, e aproveitei o arremedo de diálogo "na verdade, ninguém nos liga nenhuma...". Quase me interrompeu "... e lá queres tu ir a caminho de lugar nenhum...". Aí irritei-me um bocadinho "... qual a caminho de lugar nenhum?! vamos para a página 124, quando morre o pai do nosso Cervantes... não achas a viagem interessante?" . Assentiu "tá' bem, a viagem é muito gira... gosto tanto como tu de me reencontrar com esse Cervantes e o seu Rocinante, são porreiros... mas ninguém nos liga nenhuma... o que vais fazer, depois, com isto que para aí estás a escrecer e transcrever e ninguém lê?, depois desta caminhada cavalgada nos meus costados?... uma dessas espécie de livrecos para a arca?". Foi a minha vez de resmungar "talvez... e depois? tenho pena que não nos liguem nenhuma mas a viagem vale a pena... vá lá... a caminho da página 124"
Em Junho de 1585 faleceu o pai de Miguel, Rodrigo de Cervantes. Era um tropeço que andava no mundo. Não deixou dívidas, sinal de extrema pobreza. Os ricos, os proprietários, a quem todos fiam, que compram e não pagam logo, é que deixam sempre passivo, por vezes superior à legítima dos herdeiros. Os pobres comparecem limpinhos dessas sarandalhas perante o divino juiz. Figuraram de testemunhas no testamento, tão radical em mandas, dois frades das Mercês, e dois calceteiros. Para Cervantes e família, foi uma semanada, duas, que houve que consagrar à morte do velho. Em 1 de Agosto do mesmo ano, Cervantes comparecia no tabeliãos a assinar uma escritura como fiador dum empresário de comédias. Lá voou outra semanada em Madrid.

Não resisto, desculpem lá os que, eventualmente..., leram este pequeno trecho: que maravilha!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 15

Saltei para a garupa do animal, afaguei-lhe a crina de aparas de madeira, e procurei dar-lhe alento: Eia, vamos lá para a página 107. Então não é que o gajo me voltou um olhar recriminador e me apostrefou entre a enorme dentuça: Disseste, no dia 26de Janeiro, que era ainda hoje ou amanhã... e já passou bem mais que uma semana...? Claro que não me ia desculpar perante tal alimária, e retorqui: 'Tá bem, 'tá bem... dei-te folga e ainda refilas. E olha que depois temos uma longa caminhada até à página 124 e 125. Prepara-te.
Nem me respondeu, só zurrou...
Vamos lá, então, à página 107:
A Espanha preferiu conservar-se abraçada ao espectro da Monarquia Universal e relegou o problema do país insurgido a segunda leitura. Foi o que salvou a frágil nacionalidade, que ao tempo carecia de fibra e espinha própria para resistir ao empalme. Senhorear-se efectivamente de Portugal era questão, mais que de força, de tacto político. Observaram a Filipe, quando chegou a Lisboa, se não foi ele que o concebeu ou o duque de Alba, que era homem astucioso e com largas vistas: - Deixai a Portugal suas leis e usanças; cativai seus fidalgos e sacerdotes com benesses e honrarias; não toqueis em nada que lhes seja sagrado. Esta é a boa táctica e o melhor processo de governar este povo brando e bastante acarneirado. Agora, senhor, se quereis fazer de Portugal uma província espanhola, como o é a Galiza, por exemplo, de modo que jamais se quebrem os vínculos, e que nem ele dê conta, cultivai-lhe o orgulho e a vaidade, mudai a capital de vossos reinos para Lisboa. O português facilmente se ilude; julga que foi ele que ganhou a partida, que é ele que dá leis e, dentro de duas ou três décadas, não há mais nação lusitana nem coisa que se pareça.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 14

Em que trabalhos me meti! Vejo o número de excertos que aqui quero trazer... e assusto-me. Mais ainda quando (tres)leio e acho que devia, também, aproveitar mais este bocadinho... Um sarilho.
Hoje, retomo, numa espécie de encantamento, a página 105 e passo à 106, deixando a 107 para mais logo ou para amanhã, embora já agora aqui fiquem as duas primeiras linhas.
Como iamos transcrevendo...
"E porque não o fez? Filipe II era um homem cheio de dons, mas de defeitos improporcionalmente superiores. O grande óbice dos seus projectos foi querer abarcar e dilatar o mundo, que lhe legou Carlos V, com os restritos braços espanhóis. Sonhava com a monarquia católica universal, e sonhos destes, imperialistas, deram sempre com o sonhador em pantanas. (...) Afinal, foi o rei das grandes frustrações. Pretendeu avassalar a Inglaterra, e as duas ou três vezes que o tentou falhou mais ou menos estrondosamente. (...) procurou subjugar a Inglaterra pelas armas, e a Armada Invencível foi o grande desasatre, primeiro degrau da ruína galopante. Desde esse dia, a Espanha ficou com chaga aberta no flanco . Não houve porém logo sinal. O diagnóstio não fixa, tão-pouco, prazos. E compreende-se, as doenças das nações, sejam graves septicemias ou passageiras furuncoloses, duram o tempo, comparado com o organismo do indivíduo, proporcional à sua longevidade.
(...) Se a Espanha se não distrai com a Flandres e com a Itália e concentra a sua ofensiva sobre Portugal, bem certo que seria absorvido.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 13

Ainda nessa página (já 105...), Aquilino continua a discorrer sobre o tema, e com ele vai até ao fim do capítulo, retomando-o mais adiante e no final do livro.
E, já que me meti nestes trabalhos, não resisto a reproduzir alguns trechos, partindo-os por forma a manter a dimensão que julgo adequada a "post":
Posto isto, parecia que a integração efectiva, corpo e alma, se efectuasse entre Espanha e Portugal por simples impregnação como a levedura na masseira. Para mais,o ocupante saira da mesma cepa, falava uma língua irmã, era similar em costumes e religião, uma fronteira comum e bem vadeável corria de Norte a Sul. Além disso, levava-lhe vantagens em dinamismo, dispor de recursos militares superiores, ser cinco vezes mais populoso e com uma economia muito mais sólida. A absorção não se deu, porém. Mas com certeza ter-se-ia dado, se a Espanha pusesse em jogo os elementos de que virtualmente dispunha.
E porque não o fez? Filipe II era um homem cheio de dons, mas de defeitos improporcionalmente superiores ...
... voltarei breve, Logo que possa!

João Carlos Silva no espaço Som da Tinta

Embora o tempo tivesse sido muito escasso para divulgação e promoção da iniciativa, a oportunidade de ter, de novo, João Carlos Silva no nosso espaço resultou num muito agradável encontro, com apresentação do seu novo livro e com um convívio e uma conversa muito agradáveis em que o nosso convidado confirmou as suas excelentes capacidades de comunicador e de divulgar da cultura, ressaltando-se preocupação com a preservação e a valorização da língua portuguesa. Aliás, o próximo programa de televisão de João Carlos Silva chamar-se-á Sal na língua, título inspirado em Eugénio de Andrade, e percorrerá todos os países onde se fale (e cozinhe) em português.
Embora não tivesse estado uma "enchente", o nosso espaço esteve bem recheado de assistentes... e participantes na conversa.

... e, já agora, "façam o favor de ser felizes"! 'Tá bem?!

quarta-feira, janeiro 24, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 12

Não é largo o passo. Logo na página 104 e seguintes, Aquilino volta ao tema sempre presente, mas nem sempre explícito de Portugal e da Espanha (do láparo e da jibóia), tema que, nestes tempos de uniões europeias e de adesões coincidentes no tempo, tem actualidade maior:
Na conjunção de sessenta anos de Portugal com Espanha, o que mais admira não é o movimento libertador de 1640, que nós ampliámos até à epopeia e que em todas as cortes se chamou conjura e nem atingiu sequer o grau de motim. Com efeito, não se despendeu mais que um tiro, o que matou o secretário de Estado Miguel de Vasconcelos. O que admira é que a Espanha, durante sessenta anos de domínio, não houvesse digerido Portugal. Como se explica que o láparo resistisse ao estômago da jibóia? Reunia o povo português tais qualidades de auto-independência, havendo-de tornado um ser colectivo tão fortemente compleicionado, que a assimilação fosse impossível? Pelo contrário. Mercê, segundo é notório, das virtudes negativas que lhe vinham cultivando desde D. João III, perdera a virilidade e o carácter. A vis de uma nação é feita da sua consciente cidadania. Esta existe consoante o grau de liberdade e de bem-estar que usufrui. Ora em Portugal, com o andar dos tempos, deixara de haver cidadãos para só haver pedintes, escravos e áulicos. Nem uns, nem outros contam para a estruturação de uma pátria. No sentir de Oliveira Martins, a tragédia da sua aniquilação fora decorrendo em lágrimas e desesperos. Tudo isso é falso épos. A verdade é que o colóide perdera todas as condições de vibratilidade. Respondia com indiferença absoluta a males, misérias, extorsões e indignidades do Poder. O português contentava-se em rilhar, metido dentro da sua broa. Não houve sequer pânico. Foi perante um imenso nirvana que se encontraram os Filipes. Mal assomaram à fronteira com certo rompante, abriram-se-lhes as portas de par em par e caíram, tão fácil como em Jericó, os muros dos castelos.
Já volto...

sexta-feira, janeiro 19, 2007

"Façam favor de ser felizes!"

INFORMAÇÃO-CONVITE

Aproveitando a sua estadia em Portugal
e a sua disponibilidade
(gostámos muito de o ter em OURÉM,
mas parece que ele também gostou de cá ter estado…)

JOÃO CARLOS SILVA
vai estar na

no dia 24 de Janeiro, 4ª feira,
a partir das 18.30 horas,
para conversar e conviver,
e apresentar o livro-intimação


apareçam!

No cavalo de pau com Sancho Pança - 11


A vida de Cervantes foi muito atribulada. E dela nos vai dando conta Aquilino no seu ensaio.
Depois de Lisboa (e a ela, e a Portugal, se voltará), "no ano da Graça de 1582", Cervantes escreveu uma carta que mereceu a Aquilino estes comentários (na página 103):

A carta de Cervantes, pródiga em salamaleques e de redacção retorcida, endereçada já de Madrid para Lisboa, parece mais a de um demandante vulgar, corrido, mas sempre delicado, acalentando em si voltar com o cantil, pois que evita queimar as pontes, mas de letras mal estreadas nestas maranhas. Afinal, denuncia o estado de espírito e a situação do homem aux abois com aquele estilo tão fora das normas do cursivo burocrático. esse para o qual os escritores de raça têm visceral inaptidão. O enrodilhado da frase constitui ainda a prova iniludível de quanto o escritor se via contrafeito, sabe-se lá em que horas de desnudez absoluta. Quem em semelhantes auges escreve uma carta com altivez e rectitude mental? O mesmo acontece ao postulante que se apresenta à potestade, de corda ao pescoço. Entaramela-se-lhe a voz e as palavras que profere carecem de propriedade, se algum nexo encerram. O infeliz é canhestro. Odioso. Vendo-se ao espelho, seria o primeiro a reconhecer que merecia ser corrido a pontapés. Em geral despedem-no com requintes de cerimónia e compostura.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

No dia 27, às 15 horas, Ourém na Som da Tinta

INFORMAÇÃO-CONVITE

No dia 27 de Janeiro, pelas 15 horas,
mais uma apresentação de um livro...
mas de um livro especial:

um livro que tem Ourém lá dentro
(e muita gente de Ourém, conhecida e amiga)

Será um reencontro e conversa
de quem fotografou e legendou
com
quem foi fotografado e legendado

vai ser giro!

No cavalo de pau com Sancho Pança - 10

E os portugueses? Como reagiram os portugueses (se é que como portugueses reagiram...) à entrada de Filipe II em Lisboa e aos 60 anos de soberania filipina? Em vários momentos do seu ensaio Aquilino escreve sobre esse tempo e essa "convivência", quase sempre actualizando-os (para 1960 e, também, para hoje, quase 50 anos passados).
Logo na página 93, embora sempre contando-nos Miguel de Cervantes, lá está:


"O certo é que nem Filipe II nem os áulicos se importaram mais com ele. Na corte imperavam outros cuidados, embora entretecidos de regozijos e parabéns. Os portugueses da nobreza, um a um, em carreiro de formigas, apaparicados por Cristóvão de Moura, corruptor de primeira, iam-se chegando ao beija-mão. Chovia-lhes o maná e as codornizes do farto relambório. Para comprazer com eles, o rei taciturno despiu mesmo a sua roupa negra, assotainada, com gola severa de canudos, tal como trajam os cavaleiros do Espólio. Deitou camisa de holanda, gibão claro de veludo, e cavaqueava familiarmente, chalaceava até com os grandes de Portugal, récua macambúzia e crepuscular como ele, em estado normal, quando não representava. Não teve a coragem de mudar a capital para Lisboa, mas prestou a melhor atenção a um italiano que, através do Tejo, por Toledo, imaginou uma via rápida para Madrid. À força de fazer a boquinha doce a uns e outros, tornou-se corriqueira entre as colarejas esta frase de louvaminha: mal empregado rei para os castelhanos!"

quarta-feira, janeiro 17, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 9

A chegada de Filipe II a Lisboa, em 1580, e esses 80 anos de Portugal parte de Espanha, coincide com muito da vida de Cervantes. E Aquilino faz dessa coincidência motivo para páginas que muito fazem pensar. Por agora, fica uma transcrição da página 92... mas há tantas e tantas outras que mereciam ser transcritas (e algumas serão) sobre o tema da Ibéria, de Espanha e de Portugal, dos portugueses e dos espanhois:
"Miguel de Cervantes teve então lugar e tempo de se impregnar da cidade. Na novela póstuma Persiles y Sigismunda decantou-a como a primeira e maior do mundo, a mais amena, mais amável, mais digna, pelo sítio, pelo céu, pelos moradores, de ser habitada por um casal feliz. E porventura os dias lhe corressem propícios e alados, pois que suprema consolação, para um homem ou cão batido, é não os ver correr. Quando há cidades que se fica a amar para sempre é porque naturalmente a vida não teve as mãos ferradas no pescoço daquele que lá viveu. Quanto às povoações que se detestam, é porque à sua lembrança se reacende o revolvedoiro das fezes. Lisboa ficou para ele a terra marcada no calendário como uma pedra branca. Como Lisboa foram seus amores Sevilha, Toledo, Barcelona. Hermes tinha-lhas mostrado na encruzilhada dos caminhos, com a face a flectir para a direita.
"O que ele diz de enormidades simpáticas, de mentirosas virtudes, de falsos dons acerca de Lisboa, a pobre cidade pestiferada, com cadáveres de negros e escravos a apodrecer a céu aberto sob núvens de moscaria ondulante, andadores de almas e frades mendicantes de hábito roto inçando ruas e praças, cheiro de carne queimada nos autos-de-fé a impregnar a atmosfera, excede a melhor disposição de alma, disparada às fantasias. Soube ele em Lisboa o que isso era?"

terça-feira, janeiro 16, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 8

Antes de passar a uma das muitas partes deste ensaio de Aquilino em que a circunstância de Cervantes ter sido contemporâneo do período dos Filipes em Portugal é motivo de reflexões muito interessantes, até porque Cervantes faz muitas referências a Lisboa e a Portugal, não resisto a deixar esta breve passagem, n página 84, e ainda relacionada com o cativeiro em Argel:
"Nos tempos de hoje a homossexualidade deixou de ser um pecado nefando para se tornar o jardim viçoso em que se alteiam as mais esquisitas e redolentes espécies literárias. Veja-se o partido que tiraram dela Gide, Colette, Proust. De resto, não fizeram mais do que reatar a tradição clássica que vinha dos gregos, desde Sócrates, e dos romanos com Augusto e Petrónio."
E a primeira transcrição desta gravura... como aperitivo:

segunda-feira, janeiro 15, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 7

Pergunto-me como foi possível estar uma semana sem aqui trazer Aquilino, andando com ele na pasta e nos projectos... para quando tempo livre encontrasse.
Isto dos jogos de hóquei a meio e no fim da semana e todos os problemas que ser dirigente de um clube como o Juventude Ouriense traz, e mais uma reunião de dois dias do Comité Central, impediram-me de montar no cavalo de pau e de acompanhar Sancho Pança. Mas fez-me cá uma falta!... Decerto só a mim porque não descubro reacções a este trabalho que tanto prazer me está a dar. A ele volto, ainda com Cervantes no cativeiro, e muito longa seria a transcrição se o espaço não tivesse de ter limites apertados. Por isso me quedo (atormentado) por alguns curtos trechos das páginas 66 e 67.
"Quem não ignora o que é a psicologia dos desterrados avalia o que era naquele estarim o refervedouro das paizões, dos pareceres desencontrados, das inimizades, das intrigas e insídias, em suma, da desordem e confusão em toda a linha. (...) O desterrado, e quem diz desterrado com dobrada razão diz cativo, nunca está contente nem conforme com a ordem do mundo. (...) Exacerbam-se nele todas as inclinações da civilização, como seja brio, honra, timbre, justo orgulho e a vaidade, que é a primeira plumagem que mais se engrifa no pescoço do galo e, por metáfora, no coração do homem. (...) Quanto a costumes, quem caía em Argel deixava-se impregnar muito ou pouco. Vivia-se na devassidão ou, melhor, à rédea solta. Para os cativos, o facto mesmo de terem sido postos à margem da sociedade, como detritos da ressaca, impelia-os automaticamente, ou seja como um termo da instintiva revindicta, para o desfrute daquilo que a existência podia oferecer de mais próximo e recuperador. Por certo que criaturas do jaez daqueles alferes, aprisionados, daqueles homens de letras com as suas ambições quebradas, embora entre elas houvesse eclesiásticos, quando se achavam juntos, decerto se não punham a rezar o terço.
Juan Blanco de Paz devia ter-se tornado o fantasma dos cativos e, por sua vez, o bode expiatório no banho de El-rei. Prestaria também o flanco por estar sempre a meter o nariz na vida do próximo, parecendo intrigar quando o seu objectivo era destorcer as meadas dos sucessos menos ortodoxos que se fossem dando, inquirindo e tomando notas. (...) O Demónio do Meio-Dia tinha espiões em toda a parte, a seu serviço e de Deus. Podia deixar aquele lugar tão crucial sem esculca?! "
Tenho de parar. A custo o faço, até porque o "retrato" da inquisição ("o Demónio do Meio-Dia") e o "filme" dos seus procedimentos são traçados, por Aquilino de forma magistral, enquadrando-a no tempo em que foi - e tanto continua a ainda ser...

segunda-feira, janeiro 08, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 6

... e acrescento já já, esta pequena "pérola" que está na página 65:

"Contribuir para o resgate tornara-se, piamente, uma das modalidades religiosas ou arte de conquistar a bem-aventurança, como rezas e encomendas de octavários a el cura. No testamento das pessoas fortunadas, das fidalgas fins de raça e sem herdeiros, dos grandes pecadores contritos, com arcas atestadas de dobrões, da mesma maneira que hoje se deixam legados para os hospitais, as Misericórdias, as cantinas das escolas e até para os sinos das igrejas, figurava a redenção dos cativos.
Argel, Tetuão, Fez, tinham-se tornado com esta comercializada espiritualização o mealheiro das almas. Quem acalentava a cobiça de salvar-se contraía daquelas caridosas hipotecas."
Logo nas páginas seguintes de escrevem, sobre os cativeiros e os cativos, belíssimos (e profundos) trechos. Lá iremos, montados neste cavalo de pau.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 5

Os momentos em que releio e transcrevo Aquilino (no blog da Som da Tinta) são momentos de deleite, de gozo. O pior é a “ressaca” de não ver esses momentos partilhados, de não saber lidos os “posts” e de não os ver comentados.
São reacções que terão a ver, talvez, com o que li, na página 49, em que Aquilino fala “do(s) vago(s) poeta(s) de água doce nas horas de ócio”.
Muito se escreve neste livro sobre Portugal e os portugueses. Na página 61, ainda no episódio do cativeiro de Cervantes, em Alger, pode ler-se:

“Vicente Espinel dizia que não havia ninguém mais doido que um português. Era essa uma forma de elogiá-los, pois que não é com bom senso que se forjam os heróis, nem dos sensatos e prudentes saem os grandes homens em qualquer coisa, mesmo com mulheres. Para Cervantes os portugueses, haja ainda em vista o que diz na Galateia, são os únicos que morrem de amor. Contando a história – escreve ele – la creyerán, por tener casi en costumbre el morir de amor los portugueses."

sábado, janeiro 06, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 4

Da estadia de Cervantes no norte de África, como militar e como cativo, não resisto a transcrever, de duas páginas (41 e 43), uns curtos trechos ilustrado por uma gravura entre as que tive a sorte de encontrar no meio do livro que procurava há 40 anos e encontrei em alfarrabista do Porto (No cavalo de pau com Sancho Pança, Aquilino Ribeiro - 1ª edição, 1960):

"(...)Da massa destes cativos, sem nome, sem medo e sem responsabilidades, saíam os renegados. O sofrimento tinha limites. Uma vez que abjurassem da lei em que haviam nascido e abraçassem o novo estado de coisas, acabava-se o cativeiro. Era disso que se temia o Pe. Graciano no Tratado de la redempción de captivos. Por toda a Berberia se verificava andar a grande maioria dos cristãos esquecida da lei de Deus e em risco de perder-se. Os moiros empenhavam-se particularmente em conduzi-los a renegar, casando-os com as filhas, às vezes ricas e bonitas. E acrescenta na mesma ordem de ideias o padre: Doze mil escudos, ouro, prometia certo moiro a um sacerdote cativo em Tunes se quisesse renegar e casar com a sua menina de 15 anos, a qual era extremamente bem-parecida. Com semelhantes tentações por um lado, sevícias por outro, os trânsfugas para o arraial de Mafona eram aos cardumes."

(...)

"A França amansou e civilizou aquela corda de terras agarenas que andavam fora de toda a lei, arrasando os antros abomináveis. E agora pesam aos argelinos e tunisinos os grilhões que outrora deitavam aos outros. A história vai-se desdobrando segundo um ciclo sem fim e mal é que paguem os homens dois dias de sol com cem anos de tempestade (...)"




sexta-feira, janeiro 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 3

Logo logo, na página 27, uma outra pincelada em que, de Aquilino, nos oferecem umas linhas do quadro onde retrata o ambiente em que Miguel Cervantes crescia:

"(...) Madrid adormecia ruminando infinitas hipóteses de perversidade, e a imaginação espanhola, por si fértil, esporeada pelo gume do mistério, tornava-se um muladar fumegante. Que admira que os homens corrompessem e na família não houvesse moral alguma embora com o Cristo pregado do frontal a vigiá-los, ou com a luz do azeite a bruxulear às suas chagas verdes no oratório?
O espanhol vivia exorbitado. E os grandes de Espanha, recios e graves, dir-se-iam todos à uma imbuídos duma pétrea sobranceria, posto que sobre o melancólico, género de altivez como a fachada da catedral de Plasência (...)"

No cavalo de pau com Sancho Pança - 2

Sobre as irmãs de Miguel Cervantes, estas breves e aquilinas pinceladas (páginas 24-25), a que muitas outras se poderiam juntar:

"(...) Presume-se que todas as manhãs, uma das casquivanas pusesse a mantilha:
- Me voy, madre...
- Onde te vas?
- Me voy.
E lá iam para voltar dedigressões de que ninguém lhes pedia contas, como mulheres livres e discretas, muito educadinhas e amáveis ao sentir dos vizinhos, sempre em regra com o cura e as variadas obrigações paroquiais. O termo discreto, que em Cervantes assume uma amplitude enciclopédica no sentido do bom entendimento das coisas e decoro pessoal, aqui tem exacta aplicação(...)"

quinta-feira, janeiro 04, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 1

Reler Aquilino, reler o No cavalo de pau com Sancho Pança, é, para mim, intraduzível. Sinto uma sensação de gozo, de saborear, talvez maiores por serem um gozo e um saboreamento adiados .
A acompanhar a tradução do D. Quixote, e antes, e depois, Aquilino documentou-se, estudou, comentou, escreveu sobre Cervantes, a sua vida, o D. Quixote (e o Sancho Pança) que criou.

Cada página quase convida a ser transcrita. Como estímulo à leitura (e não só de Aquilino), vou aproveitar textos sem a certeza de que serei capaz de travar, de não ser excessivo.
Começo pela página 17, em que, ao esboçar o retrato da família de Cervantes, Aquilino escreve:

"(...) O patriarca, Rodrigo Cervantes, era barbeiro-cirurgião, mal-avindo de clientes devido à surdez. O que lhe valia era ser pai de umas raparigas fanchonaças, que representam sempre o melhor chamariz de freguesia em qualquer ramo de negócio. Ao tempo, a arte médica consistia, mais que tudo, em sangrar, sarjar um leicenço com a mesma lanceta da flebotomia, levantar a espinhela caída. Encanar um braço ou perna partida, mediante uma chapada de pez e canas laminadas, era função particular dos algebristas, que mais correntemente chamavam endireitas. Ao tempo revinha ainda aos barbeiros fazer a barba, enfeitar e vestir aos defuntos de qualidade, e desta função piedosa auferiam os melhores réditos(...)"