
Logo na página 93, embora sempre contando-nos Miguel de Cervantes, lá está:
"O certo é que nem Filipe II nem os áulicos se importaram mais com ele. Na corte imperavam outros cuidados, embora entretecidos de regozijos e parabéns. Os portugueses da nobreza, um a um, em carreiro de formigas, apaparicados por Cristóvão de Moura, corruptor de primeira, iam-se chegando ao beija-mão. Chovia-lhes o maná e as codornizes do farto relambório. Para comprazer com eles, o rei taciturno despiu mesmo a sua roupa negra, assotainada, com gola severa de canudos, tal como trajam os cavaleiros do Espólio. Deitou camisa de holanda, gibão claro de veludo, e cavaqueava familiarmente, chalaceava até com os grandes de Portugal, récua macambúzia e crepuscular como ele, em estado normal, quando não representava. Não teve a coragem de mudar a capital para Lisboa, mas prestou a melhor atenção a um italiano que, através do Tejo, por Toledo, imaginou uma via rápida para Madrid. À força de fazer a boquinha doce a uns e outros, tornou-se corriqueira entre as colarejas esta frase de louvaminha: mal empregado rei para os castelhanos!"
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