terça-feira, janeiro 08, 2013

João Sem Medo na Oficina de Escrita e Leitura

Nas minhas tarefas docentes, e que procuro que sejam decentes..., na Universidade Sénior de Ourém, dou (é como quem diz) agora uma "cadeira" a que chamei Oficina de Escrita e Leitura, que pretende se mais um "banco de carpinteiro" em que as palavras sejam aplainadas... e tudo o mais que a uma oficina de marcenaria se pede.
Estou agora a pedir ajuda a um Mestre, o "Professor Doutor" José Gomes Ferreira, e à sua maravilhosa obra Aventuras de João Sem Medo (porque é obra de recorte... fantástico e de maravilha que deveria ser de leitura periódica desde que foi publicada em 1963, veja-se lá!). Por isso se está a ocupar metade da nossa hora de convívio semanal com a leitura do livrinho, capítulo a capítulo, com comentários e conversa que até podem levar a meia-hora para além da recolha do livro de ponto e a entrar pela hora seguinte.

Então, no capitulo I, o João Sem Medo, farto de choraminguices, resolve sair da terra onde vivia, chamada Chora-Que-Logo-Bebes, e são-lhe oferecidos dois caminhos, depois de ter saltado o Muro, o caminho bom (o da Felicidade) e o mau (o da infelicidade), que assim lhe são apresentados por uma Fada - no mínimo esquisita porque era um Fado travestido...
Claro que o João Sem Medo escolheu o bom caminho, o da Felicidade, mas teve logo um acolhimento pouco animador. De um "monstro sem cabeça" (os pormenores não vêm para aqui) a fazer de recepcionista.
Depois de uns preâmbulos, veio esta "saudação com voz desentoada de ventríloquo:
  - Que a paz e a estupidez sejam contigo, Vens preparado para a operação?
 - Que operação? - interrogou João Sem Medo, suspeitoso.
O descabeçado, de cigarrilha na boca do estômago, expôs-lhe então com paciência burocrática: 
 - Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e nas mãos correntes de ouro..
João Sem Medo ouriçou-se numa reacção instintiva:
 - Nunca! Bem se vê que não tens a cabeça no seu lugar.
 - Realizada esta insignificante intervenção cirúrgica - prosseguiu o monstro imperturbável -, ninguém te impedirá de gozar o resto da vida na boa da pândega e da abastança. E tudo de graça. Porque quem não tem cabeça não paga nada."

Qual a reacção do João Sem Medo e muito mais coisas do maior interesse (e oportunidade!, em 1963, hoje e amanhã) vêm a seguir... estão no livro. E na vida.

segunda-feira, maio 30, 2011

Página de "dias de agora" - aqui

Nos “50 anos…” deixei aqueles três nomes - Álvaro, Graça, Saramago - como minhas referências históricas, porque na História estão aqueles três homens que conheci e com quem convivi.

E, como me lembrei enquanto decorria a sessão na associação-a-criar Conquistas da Revolução, a eles deveria ter juntado o nome de Vasco Gonçalves.

Porque a nossa luta, na associação a criar, é a de evitar que um homem com aquela dimensão histórica (e humana, se não é redundante...), e com a enorme importância que teve na nossa História, seja desta apagado, ou que nela apenas fique como insultuosa caricatura que dele querem traçar aqueles que o não conseguem apagar. Como se não tivesse existido, ou nenhuma importância tivesse tido.







Acrescentei, agora mesmo - hoje -, o nome de José Gomes Ferreira, que apenas conheci de ler – e de ver, ao longe, com os seus longos cabelos brancos e ar bom e de poeta –, mas que, ao “descobrir” os seus Dias Comuns (vão no 5º volume), foi como se tivesse vivido com ele o que vivi enquanto ele escrevia o tempo e os acontecimentos que ambos vivemos. Com 35 anos de distância entre nós, vivendo o mesmo tempo e os mesmos acontecimentos. Que ele me fez reviver como que iluminados pela sua cultura, lucidez e militância.

E, depois dessa “descoberta” que a estes “dias de agora” me trouxe, a redescoberta da “memória das palavras ou o gosto de falar de mim” (que título!) e da “imitação dos dias” (que título!).

São os meus homens históricos.

sexta-feira, março 04, 2011

Gerry Adams


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A propósito de uma notícia (sobre as eleições na Irlanda, a 25 de Fevereiro) que vai sair no anónimo do sec. xxi, fui buscar, a uma estante, A Rua e outros contos, de Gerry Adams, de 1992, editado em português em 2002 (em tradução que muito me insatisfez), pela Campo das Letras.

Foi uma revisita. Saborosa. Quando lera o livro gostara de conhecer aquela faceta do "lider" do Sinn Féin, partido que estava no grupo em me integrei na tarefa no Parlamento Europeu, e que visitara em Belfast.
Sobretudo me tinham agradado os contos A rua e Como Paddy McGlade entrou em estado de graça, tendo deste último a reavivada memória do projecto de pôr em teatro, ou dramatizar, a história do filho que, excelente homem, estava frequentemente bêbado, o que dava enorme desgosto à mãe com quem vivia, e que se curou por ter tido uma "revelação" numa conversa com um "Anjo" num cemitério onde o levara uma grande bebedeira (a última...), e que a mãe atribuiu a intervenção de "Nossa Senhora", e a uma novena bem encomendada.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Pennac - La Débauche ou A Sacanice

É sabido - por quem de mim sabe umas coisas - que tenho pelo escritor Daniel Pennac uma grande admiração. Desde Comme un roman. Julgo ter lido tudo que publicou, ou pelo menos tudo o que vou sabendo que publicou. Agora, em Paris, lá andei a vasculhar prateleiras de livrarias, e descobri uma coisa que procurava, Ecrire. Deste livro falarei.
Hoje, escrevo sobre outro, que o Ecrire me fez retirar de um amontoado de livros, e reler. Este, a Sacanice, é um livro de banda desenhada, que Pennac fez com Tardi, e que deve ser o único Pennac que li em português, que a Terramar editou em 2000.
(a edição é cuidada, a tradução aceitável... tirando o título que não sei porque carga de água transformou La Débauche em A Sacanice, quando se está mesmo a ver que O Deboche!)

É um verdadeiro Pennac, com os seus personagens excessivos (débouchés?), o seu ambiente parisiense, com Tardi a dar boa réplica (e a tradução portuguesa também, tirando o título).
A banda desenhada é dedicada:
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Aos despedidos
Aos dispensados
Aos flexibilizados
Aos redimensionados
Aos precarizados
Aos globalizados
Em suma, a todos os que estão a ser cilindrados.
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Isto em 2000. Passaram mais de 10 anos, mais de uma década e a dedicadórias tornou-se ainda mais actual.
Deixo um bocadinho de La Débauche, em que, numa jaula do Jardim Zoológico, há uma jaula com um animal devidamente identificado:
Homo sapiens - Desempregado - Europa -
Homo sapiens -Labore carens - Europaeus


sábado, fevereiro 26, 2011

Contos não políticos - A amizade nas mãos

Estávamos num intervalo de acções de campanha eleitoral. Lanchávamos e conversávamos, no Centro de Trabalho de Alpiarça. Falávamos de "coisas de África", da guerra.
O Jerónimo contava alguns episódios por ele vividos. De forma vivida, viva. A merecer ser contada e ouvida (ou lida) para além daquela conversa de lanche entre camaradas. Disse-lho. "É pá!, isso devia ser escrito... aliás, acho que deveriam ser publicadas em livro algumas das tuas intervenções... mas estou a falar destas coisas não políticas..."
Ele olhou para mim, com um ar meio surpreso... "Se calhar..." e acrescentou, como se só para ele, timidamente, "... mas eu já publiquei umas coisitas... não leste?..., até já me publicaram um conto não político... e foi um sucesso...".
Não sabia! Disse-o, quase envergonhado.


E ele contou. Naquela conversa. Ali. Informal e amiga.

"Pois foi. Convidaram-me. Eu escrevi. E depois, vê lá tu..., o Marcelo Rebelo de Sousa, lá no programa dele, falou do livro, e fez uma referência elogiosa ao conto do Jerónimo... E mais: no lançamento do livro no Corte Inglês, o actor - não me lembro do nome... - que fora encarregado de escolher um texto do livro para ler, escolheu o meu. E leu-o muito bem. Houve alguns rangeres de dentes... Foi giro.»
E ficou por ali a conversa. Ou melhor: mudou de assunto, até porque via-se que o Jerónimo nem tanto queria ter dito sobre o seu conto A amizade nas mãos e os e Pis, nascidos de uma linda cerejeira e de um belo castanheiro, duas árvores que "cresceram juntas e fizeram uma grande amizade".
Logo que me foi possível comprei o livro (ah!, a falta que me faz o Som da Tinta...), e gostei muito (mesmo muito!) do conto não político do Jerónimo de Sousa. Quando nos encontrámos, na vez seguinte (antes do começo da reunião do Comité Central, logo a seguir às eleições), disse-lho, quando ia a caminho do meu lugar. Sorriu, com timidez e - também - alguma não escondida satisfação: "Ah! leste?... que bom teres gostado..."

Ecos do Som da Tinta - 1

Ainda aqui não voltei depois da sessão, na Biblioteca Municipal, sobre Memórias da/o Som da Tinta.
Para alguns, foi (para mim foi)... comovente. Lembrar e encontrar. Lembrar alguns que já nos deixaram, encontrar tantos que quiseram vir encontrar-se com aquelas memórias!
Todo o trabalho que está por detrás destas Memórias, o registo da documentação (para que não se perca...), a lembrança em iniciativas como aquela, não pode ficar sem aqui ser referido. Com gratidão.
A tudo isto voltarei. Como vou dizendo. E nem sempre cumprindo. Ou só adiando...

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Memórias do Som da Tinta

E para aqui está, desde 30 de Junho, este blog abandonado. Imperdoável!
Quantas vezes, me sentei, aqui, com a intenção - "desta vez é que é!" - de o reanimar, de deixar umas notas sobre leituras que não parei de fazer, sobre o/a Som da Tinta e as suas memórias?
Quantas vezes? Mas, ao abrir o computador, ao ver os blogs, e os seus comentários, ao passar pelos mails, ao ter de acabar um texto para uma solicitação, lá ficava a intenção sem ser concretizada.
Talvez, sobretudo, um "acto falhado", talvez uma fuga a confrontar a dura realidade de o/a Som da Tinta não existirem já.
Mas, se isso também está na origem da ausência - e essa dura realidade é... uma realidade -, tenho de reagir. Assim me habituei!
Vamos lá, então.
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A Câmara de Ourém, na sua actividade cultural Museu/Biblioteca, além de outras louváveis iniciativas, resolveu acordar as Memórias do Som da Tinta, reavivar os seus Ecos.
Vai ser no próximo sábado, 12, e vai ser um reencontro.
Para que tal venha a acontecer muito trabalho se fez.
Decerto mais importante que este reencontro pontual foi a criação de um arquivo digitalizado de muita documentação sobre o/a Som da Tinta. Trabalho relevante, para que demos a nossa contribuição, facultando informações e dados, mas que foi, sobretudo, dos serviços da Câmara.
As memórias, assim, não se perdem, há um arquivo a lembrar o que foi uma actividade que "mexeu" com Ourém, ainda que muita gente não tenha dado por ela, ou não lhe tenha atribuido importância, ou a tenha esquecido.
Antes da sessão, muitos de nós, que estivemos ligados ao projecto e ao que foram 7 anos muito intensos, vamos juntar-nos num almoço-convívio no Xico Santo Amaro.
Também, e sempre, para lembrar os que, logo no começo da curta caminhada, a morte levou do nosso convívio e esforço colectivo, o Luís Nuno e o René.
A eles quero dedicar esta mensagem. Deles se falará nas memórias do Som da Tinta!


sexta-feira, julho 30, 2010

"Ensaio" sobre tradução

A uma tal Maria Castro Dias

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Sim. Vou atrever-me a escrever um "ensaio" (entre aspas) sobre tradução. Em meia dúzia de linhas, à medida de um blog. Por isso, não será um ensaio (sem aspas).

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Sempre que leio um livro traduzido, perco algum tempo a pensar - e a avaliar - a tradução. Uma obra que alguém escreveu na sua língua, ou na língua que fez sua ao escrever o livro, é por mim lida numa outra língua, que é a minha, de leitor, pelo que há uma entreposta pessoa entre o autor que escreveu o que leio e eu que leio o que escrito foi.

Aliás, já algumas traduções fiz - de livros de economia -, já nalgumas traduções participei. E começo por uma destas. Ou já comecei, quando escolhi um nome (e não foi o nome), alguém, tradudora, para lhe dedicar este "ensaio".

Foi o caso de ter vivido intensamente a tradução de A História do senhor Sommer, de Patrick Süskind. Talvez sem na altura me aperceber tão bem como hoje sei que o foi. Aquela casa em que vivíamos foi, durante uns tempos, partilhada pelo autor, um alemão nascido na Baviera, mais da idade da tradutora que da minha, que se meteu na nossa vida-a-dois (e mais um).

Foi uma aprendizagem sobre designações de peças de bicicleta, sobre coisas ligadas a piano, foi um tempo de buscas para encontrar, em português, a correspondência mais ajustada para o que o tal Patrick escrevera em alemão. Foi muito giro. E, sem querer uma folhinha de louro que seja para a obra tão asseada que saiu, dela me orgulho.

E por ela me zango. Por ver, na busca de agora - para elaborar este "ensaio"... -, a tal Maria Castro Dias assim nomeada, e não como gostaria que estivesse, e por a ver poucotratada, e vá lá que não maltratada porque referida. Embora sem encontrar referências à 1ª edição, e só os ver a partir da 2ª edição, de 1993 (e vão 12), o que me impede de dizer com precisão em que anos andámos (é maneira de dizer...) às voltas com a tradução.

Poucotratada para não dizer maltratada... O que não é o caso de um outro tradutor de um livro que me marcou, pelo excelente texto que li em português, de um autor turco, traduzido do francês. Trata-se de Os românticos - a vida é bela, meu velho de Nazim Hikmet, traduzido por um tal José Saramago, 1ª edição de 1985, quando o tradutor "precisava" de fazer traduções (e ainda bem que fez esta, e outras), sendo o caso da promoção da obra, pela editora, não referir quem a traduziu.

Adiante...

Pois sobre isto de traduções haveria muito a escrever. E, feito o intróito, avançaria por dizer que há autores que só leio na língua original. Como os portugueses e brasileiros e um certo Daniel Pennac que não sei como leria em tradução para português. É que não vejo como (Chagrin d'école, por exemplo). Tal como, ao contrário, não vejo de que maneira certos autores de língua portuguesa poderiam - poderão!, porque são - ser traduzidos noutras línguas. Como Aquilino, como Mia Couto, como Luandino Vieira.

Já o caso que me trouxe a este "ensaio" é o de uma tradução que, na minha leitura, ultrapassa a grande qualidade de passar desapercebida, para me despertar, ou sobressaltar, para a sua qualidade intrínseca.

A tradutora de O complexo de Portnoy, Ana Luísa Faria, fez-me, mais de uma vez, parar na leitura. A apreciar as soluções de tradução, como na manutenção de palavras e expressões judaicas talqual (talvez a "solução" para traduzir Luandino), que o leitor se deve encarregar de traduzir, como o faria na leitura do original, ou a pensar "que bem adaptado à língua e cultura que é a de mim-leitor português".

Por exemplo (páginas 227-8):
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«Porque é que eu não casei com a rapariga? Bom, para começar havia aquele seu calão queriducho de colégio interno. Insuportável. “Deitar fora” por vomitar, “piurço” por irritado, “de gritos” por divertido, “chanfrado” por louco. Ah, e “divinal” (…). E depois havia as alcunhas dos amigos; e havia os amigos propriamente ditos! Quincas, Pipas e Cucas, Nicos, Bolotas, Xixas, Pituns, Bonecos, Babás – quem a ouvisse pensaria, disse-lhe eu, que ela tinha andado em Vassar(*) com os sobrinhos do Pato Donald… Mas a verdade é que o meu calão também a fez sofrer. Da primeira vez que disse foda-se diante dela (…) estampou-se no rosto da Peregrina uma tal expressão de sofrimento, que seria caso para pensar que eu lhe gravara na carne as seis letras a ferro em brasa. Mas porquê, perguntou-me ela em tom de queixa, assim que ficámos sós, porque é que eu tinha sido tão “detestável”? Que prazer me dava ser tão “malcriado”? O que é que eu queria “provar”? “Foste chatérrimo, e sem necessidade nenhuma. Que coisa mais gratuita.” Chatérrimo, na linguagem das debutantes, é sinónimo de desagradável.»
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(*) Vassar College é uma das mais antigas e tradicionais instituições privadas, mista de ensino e de artes, nos Estados Unidos. Situa-se em Poughkeepsie, cem quilómetros ao norte de Nova Iorque. Fundado em 1861, foi a primeira universidade exclusivamente para mulheres nos Estados Unidos.

quinta-feira, julho 29, 2010

O complexo de Portnoy - 2

Duas transcrições de O complexo de Portnoy.
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Numa primeira, em dois trechos interligados, Philip Roth ilustra como, na infância e adolescência de Alex (e na sua!), a condição de judeu o(s) marcou indelevelmente. Todo o livro, até em designações não traduzidas, é marcado pela situação dos judeus nos Estados Unidos e no mundo e, depois, em Israel.
A conversão religiosa por que ele pergunta àquela que estava a pensar que amava, e tanto que exultavam com a falha de um período menstrual deste partindo para projectos futuros, é sobre a conversão ao judaísmo, e as consequências da resposta são devastadoras para a relação, ao mesmo tempo que, em meia dúzia de linhas - em desabafo ao psicanalista - PR tanto diz sobre nós todos, judeus ou não, na perplexidade que acompanha a ruptura de uma relação:

1. - «(…) Eu disse-lhe: “E tu convertes-te, não é?”
Fiz a pergunta em tom irónico, ou pelo menos era essa minha intenção. Mas a Kay levou-a a sério. Não foi ao ponto de me dar uma resposta solene, mas respondeu a sério.
Kay Campbell, de Davenport, Iowa: "Porque é que eu havia de fazer semelhante coisa?"
(…)
Ainda assim, pelos vistos, eu nunca mais lhe perdoei: nas semanas que se seguiram ao falso alarme, comecei a achá-la enfadonhamente previsível nas conversas, e pouco mais ou menos tão desejável como um monte de banha na cama. E surpreendeu-me que ela reagisse tão mal quando finalmente tive de lhe dizer que já não gostava dela. Fui muito honesto, está a ver, como aconselha Bertrand Russell. “Não quero andar mais contigo, Kay. Não posso esconder aquilo que sinto, tenho muita pena.” Ela chorou desalmadamente: andou pela faculdade exibindo umas olheiras horríveis por baixo dos olhos azuis congestionados, deixou de aparecer à hora das refeições, faltou às aulas… E eu fiquei estarrecido. Porque sempre pensara que era eu que a amava, e não ela que me amava a mim. Que surpresa descobrir que fora exactamente o contrário.»

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A segunda transcrição tem outro motivo ou intenção. Não resisto a ela, embora me tenha contido na sua extensão:

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2.- «Eu fazia parte da subcomissão parlamentar encarregada de investigar o escândalo dos concursos televisivos. A missão perfeita para um criptossocialista como eu: logro publicitário à escala nacional, exploração do público inocente, empresas implicadas em operações fraudulentas – em suma, a boa e velha ganância capitalista.»

quarta-feira, julho 28, 2010

O Complexo de Portnoy - 1

Este livro de Philip Roth é surpreendente. Sem ter nada de imprevisível. Mas que livro deste autor não é surpreende e não passou a ser previsível?
O Complexo de Portnoy é uma longa sessão de análise de um jovem judeu estado-unidense, decerto deitado no divã freudiano, em que ele vai contando a sua vida, tendo o livro como antefácio o diagnóstico (ou definição do chamado "complexo de Portnoy"), feito pelo psicoanalista, que apenas participa no livro com esse diagnóstico e a última e única frase do último capítulo (O FINAL DA ANEDOTA): “Muito bem (disse o médico). Então àgorrra podemos talvez começarr. Sim?”
Uma nota prévia a este escrito compulsivo sobre o livro de Roth acabado de ler: Portnoy complaint foi publicado em 1969, e só agora – em 2010 – o temos em edição portuguesa. Em 1969, Roth só tinha mais dois ou três anos que o seu Alexander Portnoy (33 anos), o que coloca este livro na linha de O animal moribundo e de Exit-o fantasma sai de cena – ou melhor: coloca estes na linha daquele –, convocando à leitura em simultâneo dos três (ou só de Exit e O Complexo) para se ter o retrato confrontado de uma vida.

O Complexo de Portnoy é um romance auto-biográfico, mas não biográfico, da juventude de um judeu nascido em Newark, que com trinta e poucos anos tem já com a extraordinária (para mim, genial) capacidade de nos contar como era a vida do(s) personagem(s) e como era o meio em que ele vivia, o mais estreito – a casa, a rua, a cidade – mas também o mais largo, tudo o que envolve uma vida.
Demorei muito tempo a lê-lo. Não por o estar saboreando. Pelo contrário. Por a sua leitura começar por me ser incómoda. Eram demasiadas punhetas, demasiadas conas, demasiadas pulsões sexuais sem o filtro da moderação da linguagem escrita. Era a análise pura e dura! Às vezes desagradável por excessiva. Título do 2º capítulo: Batendo punhetas, título do 4º capítulo: Obcecado pela cona. E os miolos condizentes com os títulos...
Passada essa barreira, de – curiosamente – raiz cultural judaico-cristã, foi a leitura que Roth me proporciona. Absorvente, fluida, conversada. Saboreada.
Acabada a leitura, diria que fiquei “freguês da análise”… mas agora é tarde porque há muito a faço, sem ajudas e sem divãs.
E fiquei impressionado, surpreendido, com a precoce lucidez do autor. Se não soubesse, e não confirmasse na ficha técnica, que O Complexo de Portnoy é de 1969, o nível de maturidade da escrita, o grau de lucidez nas leituras da realidade, o traquejo de “oficina” na construção do romance, levar-me-iam a aceitar sem rebuço que Philip Roth escrevera agora, nos seus 70 e alguns anos o que só poderia ter sido escrito, assim, quando tinha metade da idade.
Que mais dizer? Por impulso compulsivo mais nada.
Por outras motivações, apenas transcrever um ou dois trechos, e fazer justiça à excelência da tradução.

domingo, junho 13, 2010

A arte de morrer longe

O mais recente livro de Mário de Carvalho (Caminho, Fevereiro de 2010, 125 páginas) lê-se (li-o!) com muito agrado.
O escritor domina a técnica de... conversar com o leitor enquanto vai contando a história. E até parece, por vezes, que se desinteressou da históra que nos está a contar para conversar connosco. Ou para ter prazer de estar a escrever.
Mário de Carvalho é um escritor que mostra ter um enorme gozo no que faz, no que fez a sua profissão, na escrita. Tanto que até pode acontecer que se esquece do que está a contar e a quem. Mas logo recupera.

A tartaruga foi morrer longe. Aquele casal reencontra-se. Contra tudo, contra todos e contra eles próprios.
O autor também.

sábado, junho 05, 2010

João Aguiar

A notícia da morte de João Aguiar surpreendeu-nos (como todas as notícias de mortes) e doeu-nos.
Não era dos nossos amigos, não tínhamos contacto com ele há alguns anos, nada dele sabiamos nem procurávamos saber por lhe sentirmos a falta. Sentimo-la agora que soubemos da sua morte.
Foi um dos muitos convidados a vir à Som da Tinta, às nossas iniciativas, às "feiras do livro" em que colaborávamos com escolas e com escritores. E foi, sempre, nos contactos preparatórios e nas viagens que o trouxeram a Ourém, um homem exemplar. De simplicidade, de simpatia, de profisssionalismo. Como escritor que era.

Pessoalmente, como leitor, "conheci-o" pelo excelente "A Voz dos Deuses", de 1984, li outros livros seus que não me desiludiram, e gostei muito do "Diálogo das Compensadas".

Aqui fica este registo. De boas recordações. E homenagem.

sexta-feira, junho 04, 2010

Sobre a ordem (e a desordem...)

Mais um pouco de Brecht (como só ele!):

(...)
Kalle
(…) A ordem não consiste em economizar…
Ziffel
Claro que não. A ordem é o desperdício metódico. Tudo o que se abandona, que apodrece ou que é destruído, deve ser registado numa folha, com um número de referência: é isso a ordem. Mas essa vontade de ordem é, antes de mais, pedagógica. Há um certo número de coisas que são absolutamente irrealizáveis pelo homem se ele não as faz dentro das regras: as coisas absurdas.
(…) Por outro lado, nos tempos que correm, você não pode manter um pouco de humanidade sem alguma corrupção, o que é uma forma de desordem. Existe humanidade onde se encontra um funcionário que se deixe untar as mãos. Pode mesmo acontecer que com um pouco de corrupção você consiga que lhe façam justiça (…) se os regimes fascistas reprimem a corrupção, essa é bem a prova de que são desumanos.
Kalle
Não sei quem disse um dia que a merda não é outra coisa senão a meteria que não está no seu lugar. (…) Eu, no fundo, sou pela ordem. Mas um dia vi um filme do Charlie Chaplin em que ele metia a sua roupa toda numa mala; depois de ter tudo metido lá dentro, ele fechou a mala. Mas uma grande quantidade de pedaços de roupa ficou de fora, o que fazia a desordem; então, ele pegou numa tesoura e, pura e simplesmente, cortou as mangas, as pernas das calças, as meias, em resumo, tudo o que transbordava da mala fechada. Esta maneira de fazer deixou-me espantado. Vejo que você não dá grande valor ao amor pela ordem…
Ziffel
Eu limito-me a reconhecer as imensas benfeitorias do deixar-andar: milhares de pessoas devem-lhe a vida. Em tempo de guerra, muitas vezes bastou um ligeiro afastamento do que eram as ordens para salvar a vida de um homem.
Kalle
É verdade. O meu tio estava numa trincheira, Argonne, quando os soldados receberam a ordem para recuar e a “toca a mecha”. Em vez de obedecer sem pestanejar, eles resolveram, antes, comer as batatas que estavam nas brasas: foi assim que foram feitos prisioneiros, e portanto salvos.
Ziffel
Ou ainda veja lá o exemplo de um aviador. Estava tão cansado que não conseguia ler bem o quadro de comandos. As suas bombas caíram ao lado de um imóvel residencial em vez de acertar no alvo: cinquenta pessoas tiveram a vida salva. Está a ver o meu sentimento? Os homens não estão suficientemente maduros para uma virtude como o amor pela ordem. Para essa virtude, a sua razão não está suficientemente desenvolvida. Eles atiram-se para empresas idiotas: só a incúria e uma certa anarquia na execução podem preservá-los do pior.
(…)
Kalle
Podíamos resumir a coisa assim: onde nada está no seu lugar, é a desordem; onde nos lugares certos nada está, é a ordem.
(…)

quinta-feira, junho 03, 2010

Exilados, Emigrantes, Pátria - lugar de exílio e de migrantes

Quase me zango comigo cada vez que aqui venho. Como quem visita um canto dos seus lugares.
Mas, se calhar, é porque me custa, porque me doi... Por aquilo que o/a Som da Tinta não é e podia (e devia) ser. Sei lá...
Por outro lado, se queria que fosse o canto guardado para falar do que vou lendo, ou para deixar notas sobre livros, leituras, revela que estou a dar pouca importância ao que, para mim, é tão importante. Até parece que não estou a ler. E acontece que não sou capaz de estar sem ler. Agora, leio o último do Mário de Carvalho e estou a gostar. Breve terminará o gosto desta leitura e prometo(-me) aqui vir. Mas também estou a ler o Dialogue d'exilés, do Brecht, é um verdadeiro encantamento.
É uma edição francesa, de 1965, da primeira obra de Bertolt Brecht publicada, em 1961, depois da sua morte em 1956.
Num café de uma gare de caminho de ferro, dois alemães exilados conversam, pasando da filosofia de Hegel à pornografia, do papel da virtudes cívicas à necessidade da ordem, dos métodos de educação ao prazer que dá pensar (ou não dá!). Sempre com o seu exílio comopano de fundo.
Ao ler, levantando frequentemente os olhos do papel, fico a pensar (como e sem prazer) na Pátria como lugar de exílio, no Daniel Filipe, nos nossos emigrantes, dos portugueses bem de aqui, que de aqui abalaram e que de aqui se perderam. Não todos, não todos. Perco-me. A pensar na democracia, no poder do povo. Na luta.
Bretcht tem uma capacidade única de juntar lucidez (dura, por vezes brutal) e ironia (fina, delicadíssima), de nos dar a conhecer a nós próprios.
Apenas um bocadinho da conversa entre estes dois homens, tão diferentes e tão iguais, entre si e a cada um de nós, dois homens que se ncontram para beber cerveja e conversar sobre a pátria, sobre a vida. Sobre... tudo.
Aí vai:

(...)

Ziffel
(…) Eles não tinham compreendido o sentido da palavra democracia. Eu quero dizê-la no seu sentido literal: poder do povo.
Kalle
A palavra “povo” é um termo muito particular, isso nunca o chocou? Não tem o mesmo sentido dentro e fora. De fora, em relação aos outros povos, os grandes industriais, os fidalgotes, os altos funcionários, os generais, os bispos, etc., fazem naturalmente parte do povo alemão e não de um outro. Mas no interior, lá onde está o poder, você ouve sempre esses senhores falar do povo dizendo: “a turba”, “a gentalha” ou “a gentinha”, etc.; eles não fazem parte do povo.
O povo bem devia falar a mesma linguagem e dizer que esses senhores não fazem parte do povo.
Então a expressão “poder do povo” teria todo o sentido, completamente racional, reconheça-o.
Ziffel
Mas isso não seria um poder democrático mas uma ditadura do povo…
Kalle
Exactamente: seria a ditadura de 999 sobre o milésimo.
Ziffel
Isso seria o bom e o bonito se não significasse o comunismo. Você tem de admitir que o comunismo reduz a nada a liberdade do indivíduo.
Kalle
Você sente-se livre?
Ziffel
Não particularmente, se me põe a questão assim. Mas porque deveria trocar a falta de liberdade em regime capitalista pela falta de liberdade em regime comunista? Parece que você aceita, de qualquer maneira, que há falta de liberdade em regime comunista.
Kalle
Sem qualquer dificuldade. Não vou estar com charlatanices. Ninguém é totalmente livre quando detém o poder, muito menos o povo. Também não o são os capitalistas, que é que pensa? Não são livres, por exemplo, para deixar um comunista instalar-se como Presidente da República. Ou para fabricar a roupa que é necessária, quanto muito fabricam a que possam vender. Por outro lado, em regime comunista, não é permitido deixar-se explorar: ora aqui está uma liberdade suprimida.
Ziffel
Deixe-me dizer uma coisa: o povo não toma o poder a não ser em caso de necessidade extrema. O que resulta do homem só pensar em caso de extrema necessidade. Quando a água lhe chega ao rés do pescoço. As gentes têm medo do caos.
Kalle
Não é medo do caos... eles acabarão por se encontrar em caves, nos baixos de casas bombardeadas, tendo, nas suas costas, SS de revólver em punho.
Ziffel
Não terão nada na barriga, não poderão sepultar as suas crianças, mas a ordem reinará e quase não terão necessidade de pensar.

Ziffel empertigou-se. A sua atenção que, durante as divagações políticas de Kalle, tinha esmorecido, reanimou-se.

Ziffel
Não queria que ficasse com a impressão que critico essa gente. Pelo contrário. Ser lúcido é difícil. Todo o homem razoável evita-os quanto pode. Em países como aqueles que conheço, onde uma tal dose de reflexão é indispensável, não é possível viver. Aquilo a que chamo viver...


Emborcou o seu copo com ar ansioso. Pouco depois, separaram-se, afastaram-se cada um para seu lado.


(Ah!, como eu gostaria de "pôr isto em cena",

encenar e - sei lá... - fazer de Ziffel ou de Kalle,

dar corpo a estes personagens!)

domingo, maio 16, 2010

Eu sou português aqui

Na viagem matinal pelos blogs - nem sempre possível... - passei pelo papoila25 e encontrei esta mensagem relativa a um serão diferente.
Obrigado, embora a mim não fosse dirigida. Gostei... e deu-me a nostalgia!
Antes mesmo da sua abertura formal, com Prémio Nobel e televisão (assim acontece), a livraria e editora Som da Tinta teve a visita do José Fanha, que ofereceu alguma da sua poesia aos portugueses daqui, oureenses presentes. Foi muito bonito. E prometedor!
E foram sete anos que, como servidores, a cultura quisemos servir. Valeu a pena. Mas tudo tem um fim, sobretudo quando esse fim é desejado por outros e apressado. Mas... valeu a pena!
Lembrei, nostálgico, esse segundo momento da Som da Tinta (o primeiro fora uma exposição de pintura). Que entusiasmo tínhamos. Era um nosso projecto para os dias do resto da nossa vida. Outros havia. E há! Com eles continuamos. Vivos. Na luta.
Também, o pequenino projecto de não deixar morrer as sementes que a Som da Tinta quis lançar. E atirou ao chão que pisamos. Como este blog, um tanto abandonado. Mas aqui, português e oureense.

segunda-feira, maio 03, 2010

Obrigado, Andrés

Este Andrés é cá um urug(u)ajo!
É, decerto, o mais português (e o mais oureense!) de todos os uruguaios.
Obrigado, amigo (e camarada)!

sexta-feira, abril 09, 2010

Kusturica em Ourém - Gato Preto, Gato Branco

A segunda sessão de Kusturika em Ourém, que se deseja que seja de noites de cinema no Museu Municipal, venceu de novo a concorrência do Benfica-Liverpool, e... não desmereceu a vontade da equipa promotora. Salinha bem composta!

Gato Preto, Gato Branco não é Underground. Depois de Underground, de certo modo continuando Underground (na banda sonora). quase se pode dizer que pretende apagar Underground. O mesmo humor, a mesma maestria no contar história(s) de forma diferente, aparentemente caótica, o mesmo (e melhor) manejo da câmara... mas a despolitização antitética da politização, que teria sido etiquetada de excessiva (pró-sérvia), de Undeground.

De Gato Preto, Gato Branco - que já vira antes, sem antes ter visto Underground -, talvez sobretudo me tenha ficado a vontade de voltar a ver Underground. Coisas minhas...

E lembrei, e trouxe comigo, a lembrança do que considero das coisas mais bonitas que tenho visto em cinema: o campo de girassóis a encher-se de risadas e de jogo de juventude e de amor.

Aliás, é sobre esses planos que me apeteceria dizer mais, e não sobre as escatológicas cenas de mergulho nos dejectos e de servirem os gansos de toalha ou lençol de banho de limpeza, que talvez tenham tido mais efeito que esses planos... Mas seria isso que desejava Kusturika, que queria fazer uma comédia, que queria fazer o que fizesse rir porque, para pensar em coisas muito sérias, chegara (e teria abusado, a juízo de alguns...) Underground.
.
Gato Preto, Gato Branco é: algum desvario circense e uma caricatura etnográfica desenfreada (como já li, mais ou menos...) e, de certo modo, banda desenhada com banda sonora incorporada e irresistível.

Para acabar o apontamento, duas frases rascunhadas às escuras:

  1. «a um casamento azarado pode fugir-se, mas não ao destino»

  2. «cala-te quando falas comigo!»
Venha a terceira sessão (em que, infelizmente, não poderei estar...)

quinta-feira, abril 08, 2010

Rubem Fonseca - O Seminarista


Páginas 84/5:

« (…) e fui me arrastando, arrastando como um verme. Então me lembrei de uma frase que li num dos livros de Bruce Chatwin, sobre a importância da postura ereta, ainda mais do que o desenvolvimento da linguagem, ainda mais do que a presença do superego, entre esses atributos do homem que o elevaram acima do reino animal, a postura ereta era o mais importante. Anda, seu filho da puta, eu disse para mim, fica em pé, ereto, seu merda, ereto.
Então, com grande esforço me ajoelhei, depois me ergui lentamente, ficando em pé. Ereto. Poder sair do lixo sem rastejar me deu uma das maiores alegrias da minha vida. Fui andando, cambaleando mas ereto, dando passos lentos, mas ereto, como um homem deve caminhar, ereto. (…)»
.

(tal-qual na edição original, segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009... mas custa trans-escrever erecto sem c...)

quarta-feira, abril 07, 2010

Rubem Fonseca - sobre Lima Barreto e o futebol

Há dois ou três autores assim. Estou a lê-los… e só me apetecia ter escrito aquilo. Por isso, sublinho, dou cabo dos livros, transcrevo.
Rubem Fonseca é um deles. Estou a ler O Seminarista:
Págs. 73/4:
«"(… ) além de grande escritor, era um cara interessante, remava contra a maré, odiava arranha-céus e futebol. De futebol, naquela altura como até hoje, todo mundo gostava. Mas então era um esporte de brancos ricos, e isso o mulato pobre, recalcado, que comia o pão-que-o-diabo-amassou, odiava, com toda a razão. E o futebol continuou sendo um tumor discriminatório até que o Vasco da Gama fez um time com pretos e pobres e ganhou o campeonato em 1923. Por causa dos pretos e dos pobres do time o Vasco foi expulso da Liga de Futebol, mas o golpe na discriminação já havia sido dado e com o tempo a criolada e os pés-rapados dominaram os campos. Mas em 1923 o Lima Barreto já estava morto… ele morreu em… vê aí no livro."
"Primeiro de Novembro de 1923."
…»

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13.05.1881 - Rio de Janeiro, 01.11.1923), foi um jornalista e um dos maiores escritores libertários brasileiros. Filho de mulato nascido escravo e de "escrava agregada", as lembranças e vivências do fim do período imperial no Brasil e da abolição da escravatura exerceram influência na importante obra de Lima Barreto.