terça-feira, janeiro 08, 2013

João Sem Medo na Oficina de Escrita e Leitura

Nas minhas tarefas docentes, e que procuro que sejam decentes..., na Universidade Sénior de Ourém, dou (é como quem diz) agora uma "cadeira" a que chamei Oficina de Escrita e Leitura, que pretende se mais um "banco de carpinteiro" em que as palavras sejam aplainadas... e tudo o mais que a uma oficina de marcenaria se pede.
Estou agora a pedir ajuda a um Mestre, o "Professor Doutor" José Gomes Ferreira, e à sua maravilhosa obra Aventuras de João Sem Medo (porque é obra de recorte... fantástico e de maravilha que deveria ser de leitura periódica desde que foi publicada em 1963, veja-se lá!). Por isso se está a ocupar metade da nossa hora de convívio semanal com a leitura do livrinho, capítulo a capítulo, com comentários e conversa que até podem levar a meia-hora para além da recolha do livro de ponto e a entrar pela hora seguinte.

Então, no capitulo I, o João Sem Medo, farto de choraminguices, resolve sair da terra onde vivia, chamada Chora-Que-Logo-Bebes, e são-lhe oferecidos dois caminhos, depois de ter saltado o Muro, o caminho bom (o da Felicidade) e o mau (o da infelicidade), que assim lhe são apresentados por uma Fada - no mínimo esquisita porque era um Fado travestido...
Claro que o João Sem Medo escolheu o bom caminho, o da Felicidade, mas teve logo um acolhimento pouco animador. De um "monstro sem cabeça" (os pormenores não vêm para aqui) a fazer de recepcionista.
Depois de uns preâmbulos, veio esta "saudação com voz desentoada de ventríloquo:
  - Que a paz e a estupidez sejam contigo, Vens preparado para a operação?
 - Que operação? - interrogou João Sem Medo, suspeitoso.
O descabeçado, de cigarrilha na boca do estômago, expôs-lhe então com paciência burocrática: 
 - Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e nas mãos correntes de ouro..
João Sem Medo ouriçou-se numa reacção instintiva:
 - Nunca! Bem se vê que não tens a cabeça no seu lugar.
 - Realizada esta insignificante intervenção cirúrgica - prosseguiu o monstro imperturbável -, ninguém te impedirá de gozar o resto da vida na boa da pândega e da abastança. E tudo de graça. Porque quem não tem cabeça não paga nada."

Qual a reacção do João Sem Medo e muito mais coisas do maior interesse (e oportunidade!, em 1963, hoje e amanhã) vêm a seguir... estão no livro. E na vida.

Um comentário:

Relógio de Corda disse...

Gosto muito das Aventuras de João Sem Medo e deste seu texto também.