domingo, fevereiro 14, 2010

Livros em leitura

Passo por aqui e vejo que desde 5 de Janeiro nem uma mensagenzinha. Acho mal.
É certo que o último post era mesmo uma mensagem que não teve o efeito desejado (e endereçado)... mas acho mal não ter aqui voltado.
Não que me preocupe que possam pensar que não estou a ler... mas não queria que este blog de leitura fosse desaparecendo. Seria como se o/a Som da Tinta fenecesse definitivamente.
Tenho lido, sim senhor.


Uma novela policial do Dashiell Hammet. Interessante.
Um livro de crónicas do Nuno Lobo Antunes (sempre, antes de adormecer) que me foi muito amigavelmente oferecido. Umas crónicas... curiosas. Algumas agradando-me muito, outras não tanto. Mas um escorreito contar de vivências, aqui e ali perfeitamente conseguido. Talvez, para as (des)horas a que leio, não propiciando dormires tranquilos porque há por ali demasiada doença... e logo cancros. Mas lá vou dormindo. A crónica sobre a IGV tem que se lhe diga. Terá... Até porque me parece séria, honesta. Não política na péssimo uso que dão ao belo vocábulo, Talvez cá volte.
Um folhear um pouco à toa de uma outra oferta amiga, o Dicionário Lula. Vale a pena ir acompanhando. O homem, e como é, ajuda a compreender umas coisecas da maior importância. Para o nosso futuro. Aquele em que não estaremos mas para que queremos contribuir.
Livro vindo na bagagem do Brasil. Como o do Dashiell, como muitos outros.

E este. Este que me está absorvendo. E a que não chamaria leituras. Que foi editado há duas décadas e que é de urgente reedição.

terça-feira, janeiro 05, 2010

No Comboio Nocturno...

No princípio, foi o gesto. Da oferta e da dedicatória amigas e solidárias. Só depois foi o verbo, foram as palavras. Da dedicatória. Das 400 páginas do livro. Das 400 páginas de Comboio Nocturno para Lisboa, que me acompanhou nas viagens deste mês. Umas para longe, outras antes de fechar a luz para adormecer.
Não sei se o livro tem muitas referências nos locais em que se escreve sobre livros. Por razões (e sem razões também) ando afastado dessas leituras. Mas tenho indícios de que está a ser um êxito de edição. A quem falo dele me respondem que já o conhecem. Alguns porque o têm… nenhum porque o tenha lido ou querido comentar. A edição portuguesa que me foi oferecida em meados de Novembro é a 3ª edição, a brasileira (Trem da noite em vez de Comboio nocturno…), está bem visível nos escaparates, e folheei-a na casa dos amigos que o tinham comprado, até para confrontar pedaços das traduções.

Um livro… interessante. Muito significativo do tempo que vivemos. E não me refiro aos anos, talvez nem às décadas. Refiro-me ao tempo sem medida certa que vivemos.
O autor, o narrador, o(s) personagem(ns) vivem e especulam sobre a sua existência. Enquanto é, e para depois de ser. Como indivíduos. Relendo a dedicatória, ncontrei lá, no livro, a natureza humana, é certo, mas bem limitada, bem confinada à individual natureza humana. E creio eu estar certo de que há uma segunda natureza humana, que é a condição social, a que transcende o indivíduo que cada um de nós é.
Está ela, esta segunda (but not the least!) natureza humana, ausente do livro? Claro que não, claro que não poderia estar. Mas faz figura de figurante, de paisagem, de cenário em que se movem os personagens. Cada um, um. E cada um à procura de si. De si próprio.
No livro, há parcelas. Mas não se vêem somas, a não ser ao longe, e reduzidas a simples conjuntos de parcelas. Não outra coisa. Somas, qualitativamente diferentes das parcelas!
A definição do substrato do livro – que ensaio filosófico, ou de filosofia, é – está no discurso (Reverência e aversão perante a palavra de Deus) do personagem central que, ao terminar, diz, em jeito de ameaça "E que ninguém (quem?, Deus?) me obrigue a escolher". Mas poderia/quereria ele escolher, poderá/quererá cada um de nós escolher? Ou poderá, cada um de nós, não escolher, ou escolher não escolher?
Aliás, e em parênteses, devo dizer que a evolução e degenerescência Amadeu Prada é muito bem dada. Porque “escolheu” não deixar de ser o que era! Ou, melhor dizendo, não teve força para deixar de ser o que era, um indivíduo do/no mundo das catedrais e, noutra acepção, da classe dominante, com incursões diletantes por posturas de resistente.
Não me vou alongar. Só duas ou três notas sobre um dos motivos da oferta amiga: o meu testemunho vivo, vivido, “desse tempo”.
No livro – interessante, interessante – só há resistentes, não há resistência, não há colectivos e suas dinâmicas, e quando se pretende (se se pretende) lá chegar, talvez através do João Eça, falha em toda a linha; no livro, não há repressão, há repressores, há “homens maus”, há esbirros como o personagem bizarro do Mendes (e acólitos que aparecem em aulas de alfabetização…).
A dramatização do triângulo amoroso/passional Jorge-Estefânia-Amadeu através da decisão de executar quem, por saber demais, poderia pôr em risco a resistência, e a decisão (por amor, por paixão? porquê?) de não o fazer é… caricata.
O Tarrafal tem um relevantíssimo significado na nossa História, recente ou não. Foi a criação do campo da morte lenta, em 1936. Foi o clímax/símbolo da repressão fascista. Mas… o último preso foi transferido em 1953 (Francisco Miguel para Caxias), e o campo foi oficialmente fechado em Janeiro de 1954, tendo sido reaberto em 1962 apenas para os presos das colónias e em razão (!) da guerra colonial.
A figura do juiz, pai de Amadeu, só teria alguma coerência se fosse juiz do chamado Tribunal Plenário, criado para julgamentos políticos (antes deles era em tribunais militares), porque as instituições judiciais não estavam directamente ligadas à repressão fascista. O tal “Tribunal Plenário”, enquanto existiu (de 1945 a 1974, em Lisboa e no Porto) foi constituído por meia dúzia de juízes, escolhidos “a dedo”.
O autor, sem prejuízo da erudição que fundamenta as suas reflexões e do seu evidente interesse por esse período da História de Portugal poderia (e deveria) ter-se informado minimamente para não ser tão pouco (ou nada) rigoroso com figuras e factos que refere e que são históricos.
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Foi uma boa leitura a partir de um gesto que muito me tocou.

quarta-feira, novembro 11, 2009

11 de Novembro

Dia de S. Martinho (É pelo São Martinho que um homem descobre como em-velho-sou) .

Dia da Independência de Angola, em 1975 (unilateral, depois de Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Princípe, Cabo Verde... uma história para contar!)

De Luandino Vieira:

«Cantarei 0 herói, o que sempre exemplificou seu povo, vida e morte e luta, o dos cinco combatentes. Mas quero depois esquecer tudo, não vou de reinventar a verdade. Tem documentos, papéis passados e guardados, recebidos nas mãos de um jornalista, um mulato oxigenado no sotaque português, na estrada que de Benguela sobe na Serra de Xicuma, naqueles dias ímpios de 75, quando a nossa pátria, acantonada num quintal, era só de bandeira e hino.»

Uma noite não são dias... nem todos os gajos são parvos!

Acabo de ler o último do Mário Zambujal. Lê-se bem e faz rir. A sério. Embora saiba que o Mário pode fazer melhor, o livrinho tem algumas muito bem achadas.
Embalado pela leitura, vou reproduzir um mail ultra-nético enviado pelo meu neto John Dimitrius ao meu outro neto Gonçalo Nunes, nesse esquisito ano de 2044, e que, por obra do destino (o destino tem cada obra...), me chegou ao computador:

Mano,
Como de costume, vou faltar ao almoço combinado, no Restaurante do Mercado Paulo Portas, não pelas não-razões habituais, mas porque tive de vir a Oporto tratar de uma coisa inacreditável que só visto e à vista: uma gaja muito boa (ao que se vê no bodybook) que não quer sexo virtual… vamos lá a ver se ainda sou capaz de sexo real!
Viajo no Relâmpago Sócrates (ex-CGV) e, além desta mensagem, estou a rever umas notas para a aula de amanhã que vou dar a Timor sobre a História de Portugal. A partida é no Aeroporto Mário Lino às X e XIV (o meu Rollex foi comprado em Roma, e em Roma sê romano…). Se puderes ir à Gare Palma Inácio, ao embarque, ainda te levava uma embalagem liofilizada de papas de sarrabulho.
Mas... voltando à História de Portugal, vou explicar lá aos timorenses unidos (e que, por isso, jamais serão vencidos... dizia o nosso avô) como é que, aqui em Portugal, se fez a reforma da educação conhecida pela "reforma da lurdinhas", apesar da incrível oposição de um façanhudo comunista (nesse tempo havia uns gajos assim, antes da perestroca)) chamado Mário Nogueira que não queria era ser avaliado nem por nada .
Estou a atravessar o túnel sob o rio Manuel Alegre (parece que vinha para cá pescar, esse bardo-maior da nossa política), e estou aqui estou a chegar a Oporto, depois de uma estafante viagem de XXXVII minutos, no meu relógio..., desde Lisbon-on-Carmona River (houve mais que um Carmona, mas este que mudou o nome ao Tagus parece que foi presidente provisório da Câmara no século passado).
Estou quase a chegar mas ainda te digo que estou preocupado com a saúde das nossas mães, até porque não têm médico de família, coisa que está por resolver desde que se decidiu melhorar o Serviço Nacional de Saúde criado pela Rainha D. Leonor, e revisto por um francês de nome Arnaud, que veio para Portugal com os imigrantes à babujem do tal 25 de Abril é que era para ser.
Vejo aqui na TV Marcelo da minha poltrona, no canal Histórias, que no julgamento do caso Casa Pia, que uns putos inventaram, um tal Armando Vara foi arguido até morrer (e de velho!), por ter telefonado ao seu amigo e correligionário Sócrates a falar sobre um Freeport qualquer, a dizer não se sabe o quê porque o Supremo Tribunal de Contas privatizou todas as escutas em que entrasse o Presidente do Conselho. E fez um grande negócio...
Olha, cheguei à Gare Pinto da Costa, e vou a correr para a cama da tal fulana que está à minha espera. Já viste isto? Ele há cada ela… Espero que o colchão seja de água destilada e ela tenha tomado as devidas precauções. Porque o sexo real tem os seus riscos. E não quero cá gravidezes. Dela ou minha.
Se não for antes, até à próxima, no meu regresso de Lorosai City.
Osculo-te fraternalmente, e à tua cara-metade mais aos rebentos meus sobrinhos.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 4ª nota-transcrição

Estarei a repetir-me, ou é o autor que se repete porque o personagem se repete e repito o personagem (ou será o autor que eu repito?). Será que isto da velhice é repetir histórias já recontadas (ou requentadas?).

Não sei, mas tenho uma compensação (isto digo eu...) é que não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida.


página 184:


"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida."

domingo, outubro 25, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 3ª nota-transcrição


"São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora. Nem sei se era muito moço ou muito velho, só sei que me olhava quase com medo, sem compreender a intensidade daquele meu desejo."


(páginas 138/139)


São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que nem sei em que camada da memória eu estou às vezes. Nem sei se agora sou muito jovem numa lembrança de ontem ou se, daqui a um tempo (quanto?), sou muito velho numa lembrança de há muitos anos passados, só sei que, numas vezes, me olho e vejo como um jovem com medo da vida e que, noutras vezes, me olho e vejo como um velho destemido perante a morte. Ou é o contrário: um jovem destemido perante a morte e um velho com medo da vida?
(Isto digo eu... enquanto me lembro... e de tanto me lembro!)

Caim e os ódios que Saramago concita


Caim é um romance. De um escritor chamado José Saramago.
Estava na fila, à espera de vez. Com dois com-correntes de muito peso á frente. Nada menos que um Roth – Indignação –, já começado, e logo entusiasmando desde as primeiras páginas, e um Luandino Vieira – O Livro dos Guerrilheiros – que muitas e acrescidas razões fazem prioritário.
Mas outras razões, e sem-razão algumas, se levantaram. E estou a ler Caim. Uma das sem-razões é a de que não me quero deixar cair na tentação de ignorar o romance ao vê-lo afogado na polémica aparentemente teológica, se deus, num romance, deve (ou pode) ser chamado filho da puta ou não, se Saramago tem o direito ou não de continuar nosso compatriota.
Saramago concita ódios. Porque é, (quase) consensualmente, um enorme escritor. Porque ganhou o Nobel. Porque se afirma comunista e membro do Partido Comunista (embora tantas vezes não o pareça, ou pareça ser do Partido Comunista-José Saramago – PCP-JS). Porque não foge a temas – ou até os procura – polémicos, e sobre os temas que a sua capacidade inventiva escolhe, romanceia com prodigiosa criatividade e manejo da língua escrita. Porque acicata frustrações em falhados que o álcool torna piores ainda. Porque tem aquele feitio que a idade, a doença e outras circunstâncias exacerbaram. Também talvez porque ele goste de estar no centro do mundo, e algo o empurre para se substituir ao deus em que não acredita mas que o formatou.
Nesta espécie de polémica que nos avassalou, não faltou quem tivesse vindo anavalhar canhalhamente o homem, ignorando deliberamente o escritor. E o romance.
Não entro nesse lodaçal. Estou a ler o romance. Como quem se refugia num canto da sua casa para não apanhar com salpicos da lama levantada pela pedra atirada ao charco.
Aqui voltarei com o livro lido.

sábado, outubro 24, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 2ª nota-transcrição

"... Porque talvez tivesse a intuição de que em breve os tempos seriam outros, e meu pai jamais se prestaria a permanecer num tempo que não era o seu. (...)
Na política, a civilidade daria lugar ao cabotinismo e ao espalhafato, e tampouco vejo meu pai pedindo votos em praça pública, subindo em palanques, apertando a mão de populares, sorrindo para fotografias com a roupa suja de gordura."

(páginas 131/132)










O tempo trouxe-me a certeza de que os tempos são outros, que os tempos de hoje são (de) outros. Não me consinto é viver num tempo que não seja meu. Não nestes tempos que querem que eu aceite como se meus fossem.
Nestes tempos (de) outros, a política, a civilidade, o esclarecimento e o debate têm o espaço ocupado pelo espectáculo e pela ostentação, é o "vale tudo" que prevalece, não me vejo a pedir votos na praça pública a troco de promessas, a subir a palanque para discursos demagógicos, a jorrar ilusões em catadupa, a ir a festas a que não iria, a apertar mãos que não apertaria, a beijar crianças que não beijaria, a sorrir para fotografias em que estaria sizudo se não fosse tempo de eleições.
(Isto digo eu... e teria dito o meu pai)

sexta-feira, outubro 23, 2009

Reflexões lentas e curtas - leituras à margem das polémicas e da Bíblia

Não me contradito. Persisto e assino o já dito.
Não se discutem dogmas! Não se polemiza com dogmáticos.
Os dogmas aceitam-se ou rejeitam-se. Por princípio, rejeito-os; por proto-dogma, não os discuto, até porque o dogma é “um ponto indiscutível de uma crença”.
Posso (posso?) é perguntar, aos que aceitaram uns dogmas, se conhecem os dogmas que aceitaram.
Por exemplo, à margem da actual polémica suscitada pelo livro de José Saramago, há quem tenha vindo, prenhe de dogmas (decerto gémeos…), invocar os Dez Mandamentos como um “código de boa conduta”, e logo ali, expeditamente, excomungar o autor de um romance que não leu, expulsando-o de seu (e nosso) compatriota.
Pego só no último mandamento desse exemplar código de conduta... No 10º mandamento (aliás 17., no capítulo xx de Exodo, Antigo Testamento-II, 1961). Na redacção, tal como nesta edição, da Bíblia Ilustrada, das “tábuas da lei” entregues a Moisés, está: “não cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás a mulher do teu próximo, nem seu servo ou serva, o seu boi ou o seu jumento, nem nada que lhe pertença”.
Não desejar “a mulher do próximo”, ao mesmo nível da interdição de cobiçar a casa do próximo e de não desejar, do próximo, o servo ou a serva, o boi ou o jumento, ou qualquer outra coisa que a este pertença?!
Então… e se a mulher do próximo, reciprocamente, me desejar a mim – por estar próximo… – ou a outro, e não se considerar coisa possuída mas ser humano… apesar de ser mulher?!
Estarei a descontextualizar? Talvez. Mas o curioso é que as contextualizações e adaptações, para aggiornamiento dos textos, não obviam a que, em resumos actuais, se diga, enquanto "Lei de Deus", 10º - Não cobiçarás a casa do teu próximo e nem a mulher do teu próximo.
Conhecerá, o dogmático, o dogma? E a sua esposa, conhecê-lo-á… e aceita-o?
Se conhecem e aceitam... ponto final!

Leite Derramado, Chico Buarque - 1ª nota-transcrição

"Mais coisas direi. A mim mesmo… Tiradas do livro. Só três ou quatro."



Assim terminei, vai para um mês, o último "post". Sobre Leite Derramado, do Chico Buarque. Antes das legislativas e das autárquicas. Aqui não voltei, faltando às promessas (a mim próprio... porque só a mim as faço).

Passo em revista este "mês de loucura" e vejo que, apesar de tudo, não deixei de ler, de ter matéria para aqui vir. Mas, antes disso, cumpram-se as promessas.


pág. 96 de Leite Derramado:


"Então me desculpe, esqueça, dê cá um beijo. Vai ver que andei delirando, e de bom grado voltarei a falar somente de coisas que você já sabe. Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço de alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese da história se extraviar."


É para si próprio que um velho repete as histórias que conta do que viveu, como se estivesse a tirar fotocópias nessas máquinas que agora por aí há, repete para evitar que as hstórias se esqueçam ou se extraviem! (Isto digo eu...)

domingo, setembro 20, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque

Tenho “a escrita atrasada”! O que, para um “contabilista”, é preocupante.
Há muito tempo não presto contas das leituras. A quem? A mim mesmo se a mais ninguém for.
E um livro lido não me larga. Resiste ao tempo transcorrido, a necessidade de sobre ele escrever – sim, a necessidade – sobrevive a muita e tanta outra ocupação do tempo e do espírito.
Começo logo, ao "pôr a escrita (sobre as leituras) em dia”, por uma apóstrofe “Grande Chico! Grande livro, senhor Chico Buarque!”.
É que o livro é Leite Derramado, de Chico Buarque, Companhia das Letras, Brasil, 2009.
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Acontece que o li depois de Exit – o fantasma sai de cena, de Phillip Roth, o que tornou a leitura mais… complicada. Dois grandes livros sobre a velhice. Muito diferentes mas iguais no/para este leitor. Que velho é, e se encontrou – aqui e ali… - no que lia em um e no outro livro.
Do de Roth já “prestei contas”. E não foram fáceis… Já do de Chico, essas contas são bem diferentes.
Depois de ter lido umas “coisas interessantes” em que visitou o universo da literatura, com este Leite Derramado, Chico Buarque instalou-se nesse universo de reservado direito de admissão. Este é, na minha leiga opinião, o livro de um escritor.
Um texto consistente, muito bem urdido, com as medidas todas e certas.
E pergunta-se, o leitor que fui do seu livro, como é que ele conseguiu.
É como se o escritor tivesse sido velho, com a memória a falhar e a confundir tudo, e tivesse voltado, novo, rejuvenescido, para contar como tinha sido, como fora ser velho.
Já outros grandes escritores fizeram parecido. Mas só parecido. Por exemplo, e só para exemplo, José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires estiveram, por doença, quase “do outro lado” e voltaram para contar. Mas o Chico não. Porque não é a mesma situação de regresso. É um regresso de onde não se pode ter ido, um regresso de onde se não regressa.

De uma estada num hospital, de um colapso cardíaco, volta-se, ou pode voltar-se, para contar como foi. De um estado de senilidade mesclado de lucidez não se regressa. Até porque as intermitências são definitivas até chegar o fim de tudo.
Chico Buarque sem ter ido, sem ter vivido, sem ter sofrido o que nem sofrido será, regressou. Para contar. Como se tivesse ido, vivido, sofrido.
E, escritor a construir ficção, conta onde foi, como viveu, o que teria sofrido se sofrido fosse, mas conta também, e muito bem, tudo o que é o quadro dessa viagem individual, solitária, que não pode ter feito. Conta o Brasil, conta o contexto, o que foi passado e o que é.
Depois de Roth me ter conquistado e esmagado, Chico veio conquistar-me e fazer-me acreditar que um escritor pode contar o que não viveu, regressar de viagens que não fez, que não podia ter feito.

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Mais coisas direi. A mim mesmo… Tiradas do livro. Só três ou quatro.

sexta-feira, agosto 21, 2009

terça-feira, julho 28, 2009

O fantasma sai de cena... porque já não pertence a este lugar - 8

Vou terminar!
Tenho de passar a outro livro, a outras leituras.
E fecho estas notas sobre um livro que me impressionou com um apontamento sobre um trechoparágrafo aparentemente marginal mas que saboreei, com um gosto agridoce, mais acre que doce...

"(...) Estávamos sentados junto à vitrina da cafetaria e víamos as pessoas que passavam na rua. No momento em que levantei os olhos, cada uma falava ao seu telemóvel. Porque é que aqueles telefones pareciam corporizar tudo aquilo a que eu tinha de fugir? Eram um progresso tecnológico inevitável e no entanto, na sua abundância, eu via até que ponto me tinha afastado da comunidade das almas contemporâneas. Já não pertenço a este lugar, pensei. (...)"
O fantasma sai de cena!
(Qual deles... ou quais deles?)
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segunda-feira, julho 27, 2009

O fantasma sai de cena? ... isto acaba é mal! - 7

Morrer? Estou-me nas tintas... envelhecer é que é uma chatice! Esta era a forma (traduzida livremente) que Brel encontrou para dizer o que sentia, o que sentimos quando a idade avança.
A vida? Ah, é uma coisa muito, muito boa... acaba é mal, dizia (mais ou menos assim) o Manel da Fonseca com o seu modo alentejano de seroar.
E o Philip Roth escreveu este Exit - o fantasma sai de cena para dizer o mesmo, ou parecido, como se fossem outros a dizê-lo lá pelo meio das páginas.
Veja-se só uma dessas páginas, a 258:

«De forma humorística e invulgar - era assim que Georges e os seus amigos se imaginavam a morrer no tempo em que ainda não acreditavam que isso lhes iria acontecer, no tempo em que morrer aera apenas mais uma ideia com que se podia brincar. "Ah, e há também a morte!". Mas a morte de Georges Plimpton não foi humorística nem invulgar. E também não foi nenhuma fantasia. Não morreu envergando o equipamento às riscas no Yankee Stadium mas sim em pijama durante o sono. Morreu como todos nós morremos: como um perfeito amador.»
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Morremos todos como uns perfeitos amadores?! Genial, sr. Philip Roth..

sábado, julho 25, 2009

os já-não e os ainda-não, segundo o fantasma que sai de cena - 6

Das notas que acompanharam e seguiram a leitura de Exit - o fantasma sai de cena, muitas ficam pelo caminho. Outras ao caminho voltarão. Ou não.
Acabo de saltar uma série delas, mas não passo das nascidas na página 250. Até porque retomam a discussão entre Zuckerman e Kliman cento e cinquenta páginas passadas, e em que, pelo meio, algumas outras "conversas" (entre os dois, e as ficcionadas dentro da ficção entre ELA e ELE) foram sendo deixadas para outra altura.
Na página 250, Roth, ou Zuckerman por ele, "confessa"

«(...) eu sentia-me - contra minha vontade - cada vez mais pequeno à medida que crescia em exuberância a demonstração de presunção de Kliman. Mailer já não anda à procura de briga e mal consegue andar. Amy já não é bela nem está na posse da totalidade do seu cérebro. Eu já não tenho a totalidade das minhas funções mentais, nem a minha virilidade, nem a minha continência. Georges Plimpton já não está vivo. E.I.Lonoff já não tem o seu grande segredo, se é que esse segredo alguma vez existiu. Todos somos agora "já-nãos" enquanto a mente exaltada de Richard Kliman acredita que o seu coração, os seus joelhos, o seu cérebro, a sua próstata, o esfincter da sua bexiga, o seu tudo é indestrutível e que ele, e só ele, não está nas mãos das suas células. Acreditar nisso não é grande façanha para quem tem vinte e oito anos, para mais se sabem que que são tocados pela grandeza. Não são "já-nãos" em perda de faculdades, em perda de domínio, vergonhosamente desapossados de si mesmos, marcados pela privação e subjugados pela rebelião orgânica que o corpo desencadeia contra os velhos; são os "ainda-nãos" que não fazem ideia da rapidez com que as coisas mudam de rumo."

Os «já-nãos» e os «ainda-nãos»! Lucidez ou desespero assumido com crueza, com brutalidade?
Razão terá quem, sem deixar comentário no "post" anterior, me disse do seu desacordo quanto a serem as linhas divisórias entre a ficção e a realidade os caboucos, as traves mestras, os tijolos do romance, ripostando que o livro é sobre a velhice e é o livro de um velho. Talvez... mas o romance, também pelo menos, e à volta da velhice e da lucidez - se lucidez é - de um homem de 71 anos, é um extraordinário exercício de contrabando entre os aléns e os aquéns da fronteira do que é o autor a contar-se e a ficção que o escritor constrói. Sem nunca desligar o romance da realidade que envolve o que escreve e o que lê.
Sobretudo para um leitor próximo, na idade e não só, de quem escreveu, não há dois mundos, o da realidade e o da ficção que é o romance, mas apenas um só com fronteiras que cada qual - o que escreveu e o que lê - coloca onde mais reconhece a realidade que vive e melhor saboreia o romance que é obra criada por um grande escritor.

sexta-feira, julho 24, 2009

A que cheira o "fantasma" que pretende(ia) sair de cena? - 5

Quais as fronteiras? Para além da linha divisória entre o real e a ficção, onde colocar, na ficção, a fronteira entre o que é ficcionar a realidade e o que é "chafurdar no lixo" que se diz ser investigação e se apresenta - e publica - como biografia de gente pública, de um escritor em concreto, com o pretexto de lhe fazer justiça, de "repô-lo no lugar que ele merece", isto é, de o tirar da ausência de notoriedade, da morte com esquecimento da obra?
Essas linhas divisórias, essas fronteiras para além e aquém de cada um dos lados, são, em Roth, os caboucos, ou as traves mestras, ou os tijolos de Exit - o fantasma sai de cena.

Página 102, pergunta Kliman a Zuckerman: «Porque insiste em trivializar aquilo que eu me proponho fazer? Porque tem tanta pressa em amesquinhar aquilo que desconhece por completo?»
E continua o diálogo, azedo e sem ponto de encontro:
«"Porque o sórdido chafurdar no lixo que se apresenta como investigação é certamente a mais baixa das fraudes literárias"
"E o chafurdar desenfreado que se apresenta como ficção?"
"Agora é você que me caracteriza a mim?"
"Estou a caracterizar a literatura. Também ela alimenta a curiosidade. Diz que há qualquer coisa para além da imagem que queremos dar - chamemos-lhe a verdade do eu. Não estou a fazer mais nem menos do que aquilo que você faz. Do que faz qualquer ser pensante. É a vida que alimenta a curiosidade."»

Sem ponto de encontro... Com uma ruptura. Uma das rupturas que se encontram nas páginas do romance.

«"E, sendo assim, pensei, ao desafiar a juventude e a o expor-me a todos os riscos de uma pessoa desta idade que se envolve com pessoas daquela idade, não posso deixar de acabar cheio de sangue, uma chaga que é um alvo grande e gordo para jovens ignorantes, estuantes de saúde e armados de tempo até aos dentes. "Estou a avisá-lo, Kliman - deixe Lonoff em paz."
(...)
"Você tresanda", berrou-me ele, "você cheira mal! Volte de rastos para o seu buraco e morra lá". Em passo atlético, ágil e solto, arrancou, lançando por cima do ombro musculoso: "Você está a morrer, velho, não tarda que esteja morto! Cheira a podre! Cheira a morte!"
Mas que sabia um sujeito como Kliman sobre o cheiro da morte? A única coisa a que eu cheirava era a urina.»

Para simplificar e ironizar: conflito de gerações. Ou... a partir de que idade se sabe a que cheira a morte?

Exit - ou... a jogar a macaca? - 4

No autêntico "jogo da macaca" de que Phillip Roth fez um romance (ou o contrário), ou o romance que Phillipe Roth me deu a ler e que eu, este leitor que sou, com a idade e tanto mais que nele encontrei - no e com e contra o autor -, transformei em "jogo da macaca", em que as linhas divisórias são apenas uma que se desenha ao longo da(s) história(s). E essa é a "linha intransponível que separa a ficção da realidade" transposta "(n)a confissão atormentada sob o disfarce de um romance".


Aqui vai mais uma malha, retirada da página 72:

"E alguma vez houve eleições como as que opuseram Gore a Bush, resolvidas por vias traiçoeiras, tão perfeitamente calculadas para acabar com o último e desgraçado vestígio de ingenuidade de um cidadão cumpridor da lei? Nunca tinha estado propriamente afastado dos antagonismos da política partidária, mas agora, depois de viver fascinado pela América durante quase três quartos de século, tinha decidido não continuar a deixar-me dominar de quatro em quatro anos pelas emoções de uma criança - as emoções de uma criança e a dor de um adulto. Pelo menos, enquanto estivesse refugiado na minha cabana, onde podia continuar na América sem que a América voltasse a entranhar-se em mim. Além de escrever livros e me embrenhar uma vez mais, a última, nos primeiros grandes autores que li, tudo o resto que outrora foi da maior importância deixou pura e simplesmente de importar, e eu eliminei uma boa metade, se não mais, dos vínculos e interesses de uma vida inteira. Depois do 11 de Setembro cortei definitivamente com as contradiçoes."

E esta fala continua. E continuá-la-ei...
Agora, agora mesmo, o que quero é pôr tudo de pantanas. O livro, chatear-me com o autor, obrigá-lo a re-escrever, a rever a sua "biografia atormentada". Mas ele acaba por o fazer. Porque as contradições nunca se cortam definitivamente estando em nós enquanto vivos estivermos, Como o fantasma, ao querer sair de cena, jogando à macaca da vida, o comprova.
E tenho ganas, agora, agora mesmo, aqui deste meu refúgio, pegar neste texto, substituir Gore e Bush por Vitor e Paulo e... desancar.

quinta-feira, julho 23, 2009

Pode o fantasma sair de cena? - 3

O escritor, ou seja, o homem com 71 anos, mais ano menos ano, diz que (e o leitor, ou seja, este homem com pouco mais - por agora... - de 71 anos, transcreve ou sobre-escreve):
"Era agora avassaladora a vontade de cortar com a ilusão vã e tola da regeneração, ir buscar o carro à garagem da esquina e partir a toda a velocidade em direcção ao norte e à minha casa, onde podia rapidamente voltar a pôr as ideias no seu lugar, sob as exigências transformadoras da ficção em prosa, em que não há espaço para os sonhos doces. O que não tens não te faz falta - tens setenta e um anos, e isso é que conta. Os dias de orgulho e afirmação pessoal já lá vão. Pensar de outro modo é ridículo." (pág. 48)
Depois, como que a procurar auto-convencer-se, desenvolve, ou desenrola, ou glosa, o tema (obsessivo?!) até à página seguinte (49)
"Como alguém que noutros tempos fora intensamente receptivo (e interventivo, acrescenta o leitor por sua conta e seu risco próprios) e na última década se tinha transformado num discreto solitário, tinha perdido o hábito de ceder a qualquer impulso que me atravessasse as terminações nervosas,"
e termina a elucubração comprovando, contraditoriamente, que nunca a saída de cena é definitiva, nem mesmo quando o ridículo levaria a obrigar a que definitiva se tornasse, enquanto o homem se mantiver, em pouco que seja do seu corpo, fiel ao que sempre foi, pelo que
"e no entanto nos últimos poucos dias tinha chegado àquela que talvez viesse a revelar-se a mais insensata das resoluções repentinas que alguma vez tinha tomado".

E assim arranca e se contrói a ficção, o romance.

terça-feira, julho 21, 2009

O fantasma sai de cena? - 2

Não sei se Lonoff existiu ou é só ficção de Roth. Como não sei se Zuckerman é Roth, a sua realidade ou a sua ficção.
Também não sei, nem quero saber como Kliman será capaz de tudo fazer para conseguir saber, se Roth tinha 71 anos quando escreveu Exit, tinha sido operado à próstata e usava fraldas dada a incontinência. Ou se o fantasma que sai de cena, segundo Roth, é ele próprio, se é Zuckerman ou se é outro de tantos fantasmas (de Roth e de quem for o leitor) que povoam o livro. E Jammie, e Amy, e Billy, quem são?, ou que realidade foram para serem a ficção que são?
Sei, ah! isso sei, que existiram Hemingway, e Conrad, e Plimpton, e Hawthorne, e igualmente os Bush, e as eleições, e o 11 de Setembro, e todo o ambiente que é, também, o romance. Ah!, e acabo de saber que existem a 71th., e a First Avenue (andei por lá , há dias... pus lá os meus pézinhos).

E estou como ele diz na pág. 38 (quem?, Zuckerman ou Roth, ou os dois?) "Fiz o que fiz - é tudo o que uma pessoa sabe quando olha para trás. Passei pelo que passei levado pela inspiração e pela inépcia que eram minhas - a inspiração era a inépcia - e o mais provável é que agora esteja a fazer o mesmo." E tanto o estou que, agora!, sou eu que estou a fazer o mesmo. Isto é, a subscrever, ou, melhor, a escreversobre.

domingo, julho 19, 2009

Há muitas maneiras de sair de cena - 1

25 de Abril, último "post". Maio. Junho. 20 de Julho. Cabo Verde, Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro), Nova Iorque.
E este "blog" de leituras ao abandono. Por terem parado as leituras? Não. A minha vida é feita de leituras, embora seja certo que muitas tarefas (ah!, a crise, ah!, a campanha das "europeias") e muitas viagens terão tornado menor o ritmo de leitura e/ou esmorecido o estímulo a transcrever impressões de leitura. Até que... Exit - o fantasma sai de cena me tomou de assalto.
(edições Dom Quixote)

Phillip Roth é um autor que se (me) impôs. Quando não se pode ler tudo, há autores de que não se pode perder um livro. Tenho alguns. Este Roth, Pennac, Saramago, Rubem Fonseca. Gostos... embora de muitos outros goste muito.
Já aqui pelas vizinhanças se falou deste livro. E adequadamente. Adequadamente ao livro, ao autor, a quem o leu e comentou. Em quartetodealexandria.blogspot.com. Sem fôlego!
"De uma crueldade fria e impiedosa. De uma lucidez metódica e despudorada. Que fere, rompe e esmaga, e me deixou alerta e sem fôlego.
O prazer incomparável da leitura.
O livro que todos os maiores de 60 anos deveriam ler.
E os outros também."

Claro que sim, diz quem agora acabou de o ler. Mas a crueldade fria e impiedosa, a lucidez metódica e despudorada- que fere, rompe e esmaga -. deixa muito mais alerta e sem fôlego quem, sendo maior de 60 anos, também o é dos 70, e tem mais 2/3 anos que o narrador/autor/peronagem escritor.
Apetece dizer que Roth abusa e, pondo logo no título que o fantasma vai sair de cena, não nos poupa ao "... sermão sobre a linha intransponível que separa a ficção da realidade", ou à "confissão atormentada sob o disfarce de um romance" (pág. 260) que, como autor, parece estigmatizar. Mas que, nesse mesmo diálogo, logo recupera como quem se compraz a remexer nas feridas próprias e no que desperta no leitor que, na ficção, encontra a sua própria realidade, ou o que ela poderia ser, ou que ameaça vir a ser. E brinca, aparentemente jogando com as palavras: "A não ser que seja um romance sob o disfarce de uma confissão atormentada"/"Então porque ficou arrasado ao escrevê-lo?"/"Porque escrever pode arrasar quem escreve...". E pode arrasar quem lê, dirá o leitor, este leitor.
Ademais, o desenrolar do jogo das palavras e das linhas e dos capítulos e dos diálogos do romance, um pé cá um pé lá da fronteira/linha (in)transponível que separa a ficção da realidade, é levado ao excesso de não se referir ao romance que foi escrito, que é aquele daquele escritor que é o autor do romance que está a ser lido, mas a um outro romance que ele quer impedir que seja publicado porque, se vier a ser ficção pode tornar-se uma realidade que não se quer conhecida ou, sendo realidade, não se deseja revelada ao vir a ser ficção.

Que dizer mais? Ah! muito mais... mas, por agora, chega. Há que recuperar algum fôlego.