sábado, março 31, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 29

Arrependimento? Vamos já já ver o que pensa Mestre Aquilino do arrependimento no sentir castelhano:

O arrependimento, já o dissemos, não faz parte do emocional espanhol. Madalenas ali não se sabe o que sejam. Um castelhano nunca lamenta ter sido vingativo, fero na desafronta, desmedido na chacina, mau na maldade, excessivo no bem. Lamentará apenas que o não tenha sido em grau superno, o mesmo é que esquilianamente. Arrepende-se, sim, se procedeu com torpeza, quer dizer, sem arte no que a palavra encerra de recalcamento das forças activas ou estáticas do carácter. Esta frase do D. Quixote equivale a uma definição: los más quedaron tristes y melancólicos de ver que no se habían hecho pedazos los tan esperados combatientes, bien así como los muchachos quedan tristes cuando no sale el ahorcado que esperan, porque le ha perdonado o la parte o la justicia.
Cervantes, em despeito do ressumbramento mefítico que é lícito supor lhe contagiasse os sectores afins da piedade, vibra de simpatia por todos os infelizes e irregulares da terra. Posto seja condão dos príncipes do entendimento, com ele é qualidade prima, como se esta singularidade fosse uma espécie de antibiótico contra a relice e apatia ovelhum do género humano.
Como muitas vezes nos tem acontecido, apesar da publicação do ensaio ser de 1960, as considerações de Mestre Aquilino sobre o carácter espanhol (ou castelhano), se muito importantes até para a identificação do português na Ibéria, parecem-nos muito perto, ou muito marcadas, pelo que foi a guerra civil em Espanha.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 28

Vamos lá aproveitar estar na estrada para fazer mais um pedaço de caminho. Que, como dizia um outro (Machado), se faz al camiñar. E há ainda tanto caminho por fazer! Agora, será um saltinho até à página 168, lamentando sempre o que ficou pelo meio sem ser aqui trazido. Mas isto não é uma transcrição do ensaio de Aquilino em folhetins...
(...) hoje ainda é admissível que, sob cartaz de certame, uma caterva de ratões, bem comidos e bebidos, apeiem dos automóveis, e, de luvas, charuto na boca, com as suas hammerless de luxo, sacadas de estojos de camurça, se ponham a fuzilar pobres pombos prisioneiros, quando, logrados pela esperança de readquirir o que há de mais precioso do mundo a todo o ser vivo, remontam no céu, imaginando-se a são e salvo. É verdade, mas não se deitam os escravos às moreias para as engordarem e tornarem, com a carne cevada a trigo e vinho, mais saborosas aos epicuristas.
Tal seria o teor da época que reflecte aqui e além o D. Quixote. Mas a novela, além de caricatura dos livros de Cavalaria, querem os cervantistas que seja um libelo contra as prepotências, um idearium apologético e uma crítica de costumes. E esta palavra de Cervantes, que gostaríamos fosse um estigma, representa uma pura contemporização: No quedaron arrependidos los duques de la burla hecha a Sancho Pança del gobierno que le dieron.
Arrependimento? A ver vamos. Logo a seguir...

sexta-feira, março 30, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 27

Isto é que tem sido repousar, meu cavalicoque de pau! Também não sabes andar de patins...
Mas voltemos à nossa viagem e a mais um passeiozito.
Tínhamos ficado numa pergunta, a que, na mesma página 163, Mestre Aquilino dá resposta:
Antes de se expatriar para Roma, (Cervantes) já cultivava as musas. Por sinal que balbucios poéticos, pouco auspiciosos. No cativeiro escrevera poesia ditirâmbica, mormente versos ao divino, se não se trata dum endosso piedoso dos amigos para antídoto à requisitória de Juan Blanco de Paz, espião do Santo Ofício. Desde logo, a pena de escritor não lhe era pois novidade. Compôs El trato de Argel. O êxito relativo animou-o a carpinteirar outras peças. (...) Na sua estadia em Lisboa, Cervantes tivera o palpite de que o temperamento português, taciturno se não saudoso, se comprazia no bucolismo, como uma oxigenação bronquial. O amor era ali uma espécie de voto subtil, regulado por princípios trovadorescos, que poèticamente se exprimia e deleitava na ode e na écloga.
(...) Comédias, novelas de costumes, tudo isso levou pouco além das raias da mediocridade, sem desprimor.
E não resisto a lembrar que, na Associação Recreativa e Cultural da Atouguia (ARCA), em tempos propus e encenei uma dessas comédias de Miguel Cervantes, O Velho Ciumento. Não terá ficado para o meu currículum mas ficou nas minhas boas memórias...

domingo, março 11, 2007

António Gedeão contado/cantado por Manuel Freire

Foi uma tarde Som da Tinta.
Desta vez, congratulando-nos com a "casa cheia".
E o Manel, a contar e a cantar Gedeão (e o professor Rómulo de Caravalho), foi um excelente animador da tarde.




















Das que valem a pena viver.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 26

Também acontece que quando as núvens estão tão baixas e carregadas que pesam na cabeça, apetece dar uma volta em cavalo de pau. Depois de, na pág. 162, Mestre Aquilini contar do Juiz de Barrelas, e lembrar-me a Rainha Zinga (o que ficará para outra altura), nessa mesma página e na seguinte há pedaços que merecem parança:
O que não sofre dúvidas é que metade dos dias passou-os Cervantes a resolver problemas que para tantos imbecis estão resolvidos de nascença. Daí a sua inconformidade, menos ostensiva que visceral, contra a sociedade. Tão em contra do seu temperamento, a sua constante condição foi servir. Acedia a servir para logo se furtar à canga. Ele nos esclarece que aceitou apajear o cardeal Acquaviva, se é que o apajeou, na mira de se forjar um paládio, ainda que temporário, ou enquanto não assentasse pé em Roma. Isto obtido, ou apercebendo-se da sujeição, ala! Serviu nos terços, idólatra, como bom espanhol da era heróica, do príncipe D. João de Áustria, e breve despia o uniforme, coacto não apenas pelo estropiamento como, talvez, pelo tédio que o tomara. As letras foram para ele um refúgio ou representam na sua índole uma incoercível tendência?
Por aqui, pela pergunta, me fico. Logo vem a resposta... e Lisboa. Até lá!

sexta-feira, março 09, 2007

As palavras exactas

Hoje, sei lá porquê, ou até sei..., apeteceu-me chamar biltre a um fulano que eu cá sei. E até sei porquê embora quisesse fazer de conta que não sei.
E fiquei nessa de chamo-não chamo... talvez chame... se ele fizer outra igual ou parecida... e se ele estiver por perto.
Por aí me fiquei a chamar biltre a um fulano sem biltre lhe ter chamado. E a palavra comigo ficou, como uma etiqueta a colar quando oportuno.
Biltre... Pois. A palavra exacta.
Era para ir ao dicionário ver o exacto significado da palavra exacta. Mas, antes, abri, ao acaso, um livro do Gedeão e logo me aparece a página com o

Poema da palavra exacta

Eu dou-te uma palavra, e tu jogarás nela
e nela apostarás com determinação.

Seja a palavra "biltre".

Talvez penses num cesto,
açafate de ráfia, prenhe de flores e frutos.

Talvez numa almofada num regaço
onde as mãos ágeis manobrando as linhas
as complicadas teias vão tecendo.

Talvez num insecto de élitros metálicos
emergindo da terra empapada de chuva.

Talvez num jogo lúdico, numa esfera de vidro,
pequena, contra outra arremessada.

Talvez...

Mas não.
Biltre é um homem vil, infame, ordinário.
São assim as palavras.

António Gedeão, no espaço Som da Tinta, amanhã, às 16 horas, contado/cantado por Manuel Freire. Com as palavras exactas.

segunda-feira, março 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 25

Tendo nós chegado ao ponto em Cervantes cria D. Quixote muito à sua própria imagem, quase como um seu retrato ficcionado, E encontramos Mestre Aquilino a, por vezes, mostrar alguma irritação pelo que chama os "devotos de Cervantes". Como se, por se gostar do que alguém escreve, se tenha de vangloriar o autor do que foi escrito, não como escritor mas como homem. Temos, agora e em Portugal, Saramago e Lobo Antunes que poderriam servir de exemplo para a necessidade de separar os homens dos escritores, com critérios de avaliação que nada têm a ver uns com os outros. Mas vamos lá à página 161:
Em geral os devotos de Cervantes, no intuito de exalçar o ídolo, procuram riscar da uma vida e carreira tudo aquilo que traga a marca do trivialmente terrestre, como sejam amores de ocasião e as necessidades económicas que o compeliram a curvatura de espinha lamentáveis e ainda o que se chama hoje indelicadezas em matéria de dinheiros públicos. Ora a vida é inimiga do heróico ao contrário do pensamento divinizador. Cervantes poderá não encarnar o homem de rígido carácter que se comprazem em ver nele os Catões do lado de lá da fronteira; nem um católico fervente como gostariam de apresentá-lo curas e ultramontanos; nem um tradicionalista ferrenho ao paladar do requetés. Mas ninguém nega que dispôs de admirável fantasia e D. Quixote é um dos luzeiros acesos na marcha titubeante da humanidade através da sua longa, ínvia e tantas vezes tenebrosa caminhada. Poderá não inculcar-se como modelo acabado de cidadão, nem ele concorreu a tal categoria, sempre ficará, em despeito dos seus altos e baixos de humano, um príncipe do pensamento e da moral literária. Mas este afã com que acepilham a pessoa, a alindam, a desbastam do terrenal, como que obedecendo a um mandato subconsciente, vem dar razão a quem vê no D. Quixote o símbolo da Espanha, sequiosa de absoluto e nada compreendendo para fora destas coordenadas.
Cervantes, homem pobre, prezando a vida no que tem de materialmente fruidor, nunca a logrou a seu gosto.

António Gedeão

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis.
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

No dia 10 de Março, pelas 16 horas, no espaço Som da Tinta, António Gedeão por Manuel Freire.

sexta-feira, março 02, 2007

Manuel Freire e a "Pedra Filosofal" de António Gedeão - 10 de Março no espaço Som da Tinta

Há quase 40 anos foi uma pedrada no charco!
Vamos ouvir e falar disso, e de outras "coisas" do António Gedeão, com o Manuel Freire, no dia 10 de Março, a partir das 16 horas.

quinta-feira, março 01, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 24

Este percurso vai ser longo. Segue ao que Aquilino vinha contando a transposição de Miguel Cervantes para D. Quixote, como a vida de um deu vida ao outro. Vamos a isto que as linhas são muitas, passando da página 159 para a 160:

Cervantes era coerente consigo mesmo e com o que escrevia. Que figados poderiam ser os seus depois daqueles desgraçados anos ao serviço d'El-rei, com o odioso lápis e a caderneta de perceptor em punho, invectivado e apupado pelos habitantes, apedrejado, batido, expulso?! Depois, chamado a responder pela porção de géneros prelevados que não deixariam de maquiar moleiros, almocreves, forneiros e coadjutores famélicos?! Que havia de ter em mente senão alucinantes moinhos de vento, absurdos odres de vinho e de azeite, curas nédios montados em horsas do Apocalipse, fidalguinhos marionetes e fidalgarrões de barba branca fluvial, com a vasta choldra de quadrilheiros e pícaros à roda, capazes todos eles, filipinos como eram até à medula, de jogar a túnica do Senhor dos Passos quanto mais de roubar a Manutenção?! Cervantes, em rixa com os moleiros, deu, transposto para o burlesco, o D. Quixote que arremeteu contra moinhos de vento, transfigurados em titãs. Excomungado pelos cabidos e alto clero, nada mais compreensível que o Engenhoso Fidalgo jogasse a sua lança contra os gordos frades de S. Bento. A liteira, guardada pelo biscainho, com a dama que vai ao encontro do seu senhor, alto burocrata nas Índias, - é o dégonflement da sua eterna obsessão de mercê, no Novo Mundo, como o cura de Alcobendas representa o desfrute de seu cunhado seminarista, que lhe havia de palmar a legítima da mulher, ou de seu tio por afinidade Juan Salazar de Palácios, um sacerdote chato e honrado, figurações essas da sua trovoada de sonhos nocturnais. E quem me diz se não foi que mantearam se não em Ecija, em La Rumbla, se não em Castro del Rio, em Carmona, uma vez que é tão fora de razão ver aqueles birbantões, cardadores de Segóvia, vendedores de agulhas e alfinetes de Córdova, belfurinheiros da feira de Sevilha, fazerem-no a Sancho Pança, pobre diabo como eles, tomando dores pelo Canhoto estalajadeiro? A Cova de Montesinhos não é a Cova de Cabra, cujo boqueirão ficaria sempre a lobreguejar na imaginação pávida do menino, quando a família, acossada pelo vendaval da vida, vinha acolher-se à sombra do parente remediado? E Dulcineia não terá pedido emprestada a Catalina aquela sua cerebral e inacessível altanaria, distância idealizada e rigidez de ressentida em que petrificou para com o aventureiro? Não foi com ela que aprendeu a volátil significação do amor?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

António Gedeão-Manuel Freire, a "pedra filosofal" (e outras!)

INFORMAÇÃO-CONVITE

A livraria


inicia, no seu espaço
no dia 10 de Março,
pelas 16 horas,
uma série de iniciativas,
a que deu o nome,
leitores ao encontro de autores,
em que um grupo de leitores
se prepara para conversar com um autor escolhido,
o que poderá ser animado
por um “leitor especial” desse autor.

Para começar,


o autor será António Gedeão e o "leitor" Manuel Freire









- venham sentar-se connosco


sobre uma "pedra filosofal"


(e outras que lhes são comuns)

e conviver

domingo, fevereiro 25, 2007

Os jovens e Zeca Afonso

No sábado, 23 de Fevereiro, fez 20 anos que morreu Zeca Afonso. Um grupo de jovens pediu o espaço Som da Tinta para promover uma iniciativa que homenageasse o cantor e o homem.

O espaço foi cedido com todo o gosto e, além disso, a Som da Tinta mostrou toda a disponibilidade para colaborar na iniciativa.

Foi uma noite linda, pá!

O facto de Zeca Afonso tanto dizer a jovens e a menos jovens, vinte anos passados sobre a sua morte, revela bem a importância da sua mensagem em poema e música, da sua forma de resistência, que tão actual parece. Tão dos nossos dias!

À livraria Som da Tinta só resta agradecer aos jovens promotores e à Vanessa (que bela voz!), ao professor José António e ao João, a excelente noite que a todos proporcionaram.
Venham mais 5... noites como esta!


No cavalo de pau com Sancho Pança - 23

Cá estamos de volta, sem nunca termos deixado de estar. Estas viagens são assim. Vão-se fazendo mesmo quando parece que não estão a ser feitas. E voltamos à página 158, porque dela há muito a (transcre)ver e dela transbordamos para a 159, que não menos tem para ser transcrito. É que estamos no cruzamento dos caminhos de Cervantes com D. Quixote, onde nos trouxe Mestre Aquilino :

Teve alguma vez Cervantes o sentimento de que estava a tirar da alma os imensos pesadelos que a ensombravam e, dobando-os como lã de dobadoira, os traduzia para uma linguagem susceptível de duas percepções? De facto, ele escrevia o seu auto-retrato e, num plano superior, a história de Espanha que, segundo um professor universitário, vista na versão oficial ou acreditada, é uma gigantomaquia sinistra do princípio ao cabo. Se assim é, para conseguir ser exacto, consciente ou subconscientemente, pouco interessa, teve de abstrair das noções estabelecidas, mexer com a ordem das coisas, pôr, digamos, o chamado senso comum de pernas para o ar. O que daí resultou - verdade das verdades - foi uma odisseia de irrisão e de amargura.

Estamos mesmo no cruzamento em que Cervantes cede o passo a D. Quixote. É um momento crucial do livro de Aquilino Ribeiro. Nele nos devemos deter, saboreando a prosa e confrontando as duas vidas, ou uma vida que a outrém (o engenhoso fidalgo dom Quixote de la Mancha) vida deu ao escrever um livro com o nome deste por título, debaixo do nome seu (Miguel de Cervantes Saavedra) como autor (ou acima, conforme as edições).

Voltamos já!

Uma conversa em convívio à volta de Escrever nas paredes

No sábado, realizou-se, no espaço Som da Tinta, a iniciativa anunciada de apresentação do livro de João Lázaro Escrever nas paredes. Foi um começo de tarde agradável, em que se conversou e conviveu, falando das crónicas que compõem o livro. Houve três animadores da conversa: Sérgio Ribeiro (em nome dos "donos da casa" e como apresentador do livro), Georgina Rocha (que seleccionou as crónicas e coordenou) e João Lázaro (que, como autor, não conseguiu escapar-se à exposição pública de que foge mas que, agarrado, se revela um excelente comunicador... sobretudo se não tem que falar da obra própria mas dos temas que a alimentam).
A editora também se fez representar, e bem, por Paula Carvalho.
Embora não tenha sido a enchente que sempre se deseja, a sala estava muito composta, com assistentes interessados e participantes.
Mas não se falou só de Escrever nas paredes, também se conversou sobre as Mulheres à flor da pele, outro livro de João Lázaro que merece ser lido, e de tudo que veio à baila.

Foi "joli c'mo caraças", diria o "pintas" da Zündapp, personagem de uma das crónicas de Escrever nas paredes!

terça-feira, fevereiro 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 22

Acompanhando Cervantes, e a sua atribulada vida, vamo-nos aproximando de D. Quixote. A página 158 é uma "ponte", que se atravessa encantado, ao contrário do que sente Cervantes:
O que parece ter valido a Cervantes é que o desencantamento que experimentava agora e logo era menos forte que o seu poder de ilusão. Vencido, sim, mas vencido que não se rende. Escarmenteado de todos os bons e maus trabalhos com o fidalgo e o vilão, o frade e o leigo, o alcaide e o carabineiro, além de pobre, aperreado, era o cão malhadiço que vai sempre ao direito do nariz, fungando, rabo entre as pernas, depois de uma pedrada evitando outra.
Examinando bem, os passos da vida de Cervantes são pois as patacoadas de D. Quixote, traduzidas para ridículo. Compreende-se. O seu prazer de revel foi, servindo-se de um herói estapafúrdio e que ninguém tomaria a sério, zombar du monde et de son père. Que regalo revessar na cara de todos o seu fastio humano, quando não é desprezo descomposto, e ninguém pode pedir-lhe contas?! Ser um doido imenso e irresponsável como Deus, o que em Espanha não é raro, mas se processa sempre na escala homérica!

sábado, fevereiro 17, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 21

Mas voltemos à vida atribulada de Miguel Cervantes. Ainda na página 146, é-nos contado, naquela prosa impar de Aquilino:

Uns sete anos esteve Cervantes sem ir a Esquívias. Apenas uma vez se encontrou com Catalina, sua mulher, e é de supor que, esta, só então comparecesse depois de muito rogada e por comiseração com o prófugo no cartório dum notário. Tão espaçado silêncio significa divórcio de pessoas e lugares. Quem deu causa? Pelo que se conhece da vida de Cervantes, este é que devia ter fornecido à moça inteiriça, digna planta da terreola toledana, suspicaz e apegada à cartilha dos seus maiores, a razão eficiente. Catalina seria daquelas que, quando se entregam, a sua rendição é incondicional. Também, quando lhes dão azo a terem rompido o pacto jurado, nunca mais este se solda como sucede com a faiança fina.
A esposa, ou porque Cervantes desse provas de cansaço e bocejasse, ou a sua atitude fosse de desafecto, pondo a descoberto o móbil interesseiro que o induzira a contrair o enlace, devia tê-lo visto partir sem mágoa. (...) Pode aceitar-se também que se tenham revelado temperamentos diferentes e inconciliáveis, Catalina uma pobre alma antiquada, Cervantes um aventureiro que provara todos os venenos do corpo e do espírito. Convir-se-ia então que seria este um desacordo perdoável. Um zoilo ou um realista dirá que para o homem batido do mundo, que beijara muitas bocas, saboreara o prazer dos sentidos com o requinte que reveste nas cidades e, particularmente, na terra devassa de Argel, envolver-se num negócio de amor, em tudo adamítico e insonso, com uma Eva rústica e sem graça, só havia um remédio, fugir a sete pés. E ele, de facto, fugiu a pés de lobo. Fugiu para Sevilha, e não consta que ela fosse atrás dele ou alguma vez o chamasse.
Mas isto já nos fora contado por Aquilino, que vai desenleando a meada e, por isso, tem de voltar atrás e pegar em fios deixados soltos. E só se repete porque esta prosa é irresistível.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 20

Nesta cavalgada que venho fazendo, um pouco solitário, e melhor diria burricada porque o cavalo, sendo de pau, mais burro parece (e digo-o baixinho para ele não me ouvir com suas orelhas de madeira), e em que vimos acompanhando as peripécias de Miguel Cervantes no que vai sendo recolha de material para o seu livro sobre a vida de D. Quixote, que sua e nossa é, é preciso não perder o ambiente que envolve - e contribui - para esse acervo de experiências que vai levar a tão importante marco da literatura. Mestre Aquilino está sempre atento. Atentos temos de estar nós, os leitores. Vejamos as páginas 144 a 146:
A derrota equivaleu à derrocada moral da arrogância espanhola, se neste plâncton meio mitológico, indeciso e fluído, se podem verificar tais sismos invisíveis.Fisicamente, o espanhol mal cambaleou das pernas, como Filipe. As metáforas que daí surgiram são mais de inventiva cortesã, salvo a carta circular que os secretários expediram em seu nome. Nela Filipe revelou-se tal qual aquele fidalgo minhoto, D. José de Enfartauntos, que se fez pintar num retábulo em louvor do Senhor dos Milagres porque, tendo caído duma escada, partiu uma perna quando podia ter partido duas:
(...)
Que os soldados levassem ou não ordem, pondo pé vitorioso em Inglaterra. de passar à naifa homens, mulheres e meninos maiores de 7 anos, e assinalar os menores com o ferro em brasa da escravidão, será calúnia britânica. Os descendentes dos conquistadores do Peru, se encarregariam de fazer obra limpa e asseada. Pelo que respeita a recatolizar Inglaterra e dar cumprimento à bula de Sisto V, renovando a excomunhão fulminada por seus predecessores contra Isabel I, o que ninguém nega, calculamos a que extremos iriam parar as demonstrações de justiça divina exercida pelo braço castelhano. Seguramente à prisão da raínha e entrega ao Papa. Deferida por esta à Santa Inquisição, tínhamos crematório certo do real corpo luterano na praça pública para regozijo dos anjos e não menos regozijo do poviléu, que dava o cavaquinho por estas festas. Havia, ainda, a considerar a elevação das boas almas, em justa contrapartida, aliás, do que a soberana protestante fizera à catolicíssima Maria Tudor.
Filipe nas Instruções não se cansara de incutir ânimo aos expedicionários e rogar-lhes que rezassem muito "por que las vitorias son don de Deus e el las da e quita como quiere".

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

João Lázaro na Som da Tinta

INFORMAÇÃO-CONVITE

Dia 24 de Fevereiro de 2007,
às 16 horas,
em Ourém,
na
apresentação do livro de
JOÃO LÁZAROEscrever nas Paredes
JOÃO LÁZARO é psicólogo clínico e director artístico do Te-Ato, Grupo de Teatro de Leiria. Nasceu em Leiria em 1958, dá aulas na EPO-Ourém.
Em 2000, publicou Mulheres à Flor da Pele.

ESCREVER NAS PAREDES é uma selecção de algumas crónicas que o autor vem publicando, desde 2002, no Jornal de Leiria:
“Tenho urgência de escrever nas paredes (…) Escrever sem pudor fazendo de cada coisa escrita testemunho assumido de uma atitude ocasional, do pensamento ou emoção pressentida. É por isso que há vezes em que gostaria de ser um bocadinho poeta. Não muito."
apareçam!
Jorlis, e Edições e Publicações,Lda
paula.carvalho@movicortes.pt

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 19

Longa vai - e ainda mais longa será - a viagem. Vamos alargar a passada, ultrapassando 12 páginas - e com pesar pois não menos mereciam transcrição que as que já estão e irão ser transcritas. Mas tem de ser!
"Homem desarvorado", Cervantes não podia estar muito tempo casado, recatado e quedo, em Esquívias, suportando suspicácias e outros olhares de través. E a Sevilha voltou, assim como ao serviço do rei. Para função ingrata que nem ofício era. A de comissário cobrador de impostos...
Passemos então à página 139:
Cervantes, se não por génio, evidentemente que por necessidade, teve de desempenhar esse árduo papel. A certa altura, estava de mal com Deus e com os homens. De mal com Deus, pois que foi excomungado duas vezes pelo cabido e arcipreste, seus ministros na terra, e com os homens, isto é, com os governantes, já que três vezes o meteram na cadeia por não apresentar as contas certas ou a tempo, sob acusação de se ter alcançado e cometido indelicadezas com os dinheiros do rei.
É possível que Cervantes se prontificasse a exercer tão execrável função, à falta de melhor sem dúvida, e ainda na esperança de que, desta feita, os seus serviços fossem galardoados com o almejado emprego nas Índias. E então adeus letras!
Pobre e iluso homem! Se malversões cometeu além das que estavam implícitas no seu papel de comissário, não lhe renderam com que sair da cepa torta! Entrou para ele pobre e saiu a tinir. Segundo os documentos exumados do pó dos tombos por Pérez Pastor, se quis, em Novembro de 1590, vestir-se e comprar a Miguel de Cavides & C.ª, mercadores de Sevilha, contra o inverno que se anunciava, raxa de mescla para se vestir, houve de dar Tomás Gutiérrez como fiador de dez ducados em que importava a fazenda. Além de excomungado. e três vezes encarcerado, pago tão tarde e às más horas que teve de levar o débito do seu ordenado para juízo, quando acabou a enorme incumbência não lhe restava no bolso com que mandar cantar um cego.
Viu levantarem-se contra ele os frades, os cabidos, os bispos, personalidades gigantescas e preponderantes do grande mundo eclesiástico. Penou no cárcere de Sevilha, metrópole truculenta do vício, em que aprendeu geringonça e flamenca, e entrou em contacto com pícaros e delinquentes de alta moina. A sua experiência enriqueceu-se à custa de sofrimento e de vexames.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 18

Este vai ser um "post" tipo cópia, sem comentários nem imagens, pois é um longo excerto da vid(inh)a do Cervantes enquanto esposo. Lá por Esquívias. Páginas 126 e 127:
Todavia, a sorte de ser mulher, majorada tempos depois da terça que lhe fez a mãe - contanto que não a pudesse alienar, o que equivale a ter-lhe imposto o regime dotal, havendo por bem recatá-la das unhas do genro, no que aliás Catalina viria a reincidir mais tarde, expressamente, no testamento - daria para matrimónio género burguês, regradinho, estes casais onde o marido faz de barca e a mulher de arca, um a trazer, outro a guardar. Para isso era necessário que Cervantes tomasse o papel a sério, ao mesmo tempo que fidalgo dando leis na arcada, pegando à vara do pálio aos domigos e dias santos, fosse um verdadeiro proprietário de Esquívias. Como tal, teria que à sua altura pegar no podão e podar as cepas, limpar as oliveiras dos galhos mortos e ramagem parasita, plantar o cebolinho, assistir à vindima, à pisa das uvas, à encubação do mosto, ir todas as noites e todas as manhãs encostar o ouvido ao batoque do tonel para avaliar pelo rumor se a fermentação se ia operando satisfatòriamente, não ter escrúpulo de aparelhar as mulas, ser mestre regatão a vender e aprovisionar aos almocreves com o produto das fazendas, etc., etc. Tais funções para Cervantes eram grego. Todavia, com um homem de engenho superior, com era o seu, a agronomia oportuna encontra-se no seguimento da alameda rústica que se trilha. Tivesse ele a pachorra necessária, e sobrar-lhe-ia capacidade para se instruir duma arte que tudo demanda do bom senso, do jeito e do tacto previdente e minucioso. Mas seria preciso que o Cervantes farandoleiro se desdobrasse em abegão, podador, seareiro, viticultor. Pedi-lo a um homem que foi soldado de pré e poeta que se entregou ao sonho a perder de vista terra e mar, para mais aventureiro e corredor das sete partidas, era meter o vento numa arca.
Pobre Cervantes, ainda nos atrevemos a dizer nós... mas logo Aquilino continua "Cervantes devia sentir-se recalcado em sua pessoa, objecto de suspicácia dos parentes da mulher, a começar pela sogra". Adiante, cavalinho, que os "posts" têm limites e isto são coisas lá da vida privada de Miguel e Catalina...