quinta-feira, março 06, 2008
Ponto final... parágrafo!
No dia 29 de Fevereiro de 2008, acabou a empresa Som da Tinta , livraria e editora, limitada. Isto é, os sócios, em assembleia geral, puseram fim, formal, ao que já tinham decidido dissolver, liquidar, extinguir. Como as normas determinam, embora ainda haja formalidades por cumprir, como fazer a acta, fazer assinar a acta, como registar, declarar, (a)pagar em suma...
Aqui, iremos - talvez... - contar o que foi esta bela aventura e dizer alguns porquês.
Por agora, fica a informação.
E a afirmação, também, da intenção de continuar. Aqui. Retirando do cabeçado do blog "uma livraria, uma editora" e mantendo "um espaço cultural, um blog".
É assim a vida. Que continua. Como é de uso dizer. Mas difícil de fazer. Com a certeza, sempre renovada, de que sozinho ninguém é capaz. Que com poucos - mesmo muito bons - é quase impossível.
segunda-feira, outubro 22, 2007
quinta-feira, outubro 04, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 59
Feita a paragem, aproveito a ainda embalagem, e passo já à continuidade do trecho:
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O tonus da nossa época, ou antes a espécie de ondulação psíquica, que se toma do panorama social, vem-lhe mesmo daí. Já a palavra tinha alguma coisa de impostura léxica. Com efeito, este vocábulo foi enxertado na raíz de mistérium, o mesmo é que arcano. Mistificar, na vera acepção, seria pois enganar mercê de processos escuros, pela calada, abusar da boa fé do próximo por artes de berliques e berloques. Quando os oráculos da antiga Roma recolhiam aos santuários e voltavam a dizer que os deuses lhes haviam comunicado tal ou tal desígnio, aqueles que por interesse ou auto-sugestão se não houvessem identificado com a pantominice eram vítimas de uma autêntica mistificação segundo a lei e a forma.
Mistificar tornou-se uma ciência, e lá temos os efeitos em palácio e noutros lugares. Por isso, D. Quixote é a sagrada escritura da rectidão e da pura verdade. E que mais não fosse, pelo inciso contraste de tais factos, uma vez erguida a máscara da pobre res humana, se torna trágica e constrangedor esta farsa larvada de irrisão e dor.
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E teríamos chegado à última paragem antes daquelas já transcritas oportunamente noutro lugar, sobre Portugal, a Espanha, a Ibéria. Aqui as retomaremos para terminar viagem. Longa, sim, mas também saborosa e a pedir que seja destacada e de outro modo tratada.
No cavalo de pau com Sancho Pança - 58
Se o trecho anterior poderia parecer demasiado datado, e por isso algo ultrapassado, este que segue, páginas 325/326, estará também datado mas parece que datado de agora:
_____________________________________________Hoje, a grande ciência está nos modos de aplicar a mentira. Depois que o homem aprendeu a exercer faculdades do livre exame e a determinar-se perante os fenómenos da natureza, bem decerto que começou a secretar, para isso que Julian Huxley chama o oceano sideral das ideias, intelligentia, ou o seu contributo psiquíco. Cada alma é como uma pequenina fonte que se vai lançando para o córrego, este para o rio, o rio para o mar. Ali se opera a concentração espiritual. Evidente se torna pois que alguns homens são Ebros e Niágaras, outros simples lágimas à superfície da terra. É nesse oceano que flutua toda a sorte de ideias, de opiniões audaciosas, de sistemas exaltados, desde a sabedoria milenária, cujos autores desapareceram há muitos anos ou mesmo há muitos séculos, ao saber crepitantemente actual, com as especulações dos poetas e dos artistas, em suma, a floração do espírito através das idades. O nosso cérebro sobrenada nesse plágio imaterial. Quem quer vai aí buscar o plâncton que lhe permite corporizar os seus conceitos originais, ou o modo de enriquecer a natureza em conhecimento, vontade moral, fé generatriz e até em exaltação e amor.
Deverá acrescentar-se - por honra da firma humana - que a história fazem-na os escrivães da puridade, os apaniguados dos poderosos, as gazetas afectas ou coactas, a literatura regida ou condicionada, e não nasce feita. Em tal grave operação mistificar tornou-se prática universal.
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Por vários motivos é de fazer aqui uma paragem. Por exemlo, por dimensão do texto que os posts consentem como não exagerado (e alguns já deixei...), porque este último parágrafo é dos que pede "páre, olhe... e pense". Tentarei voltar depressa...
domingo, setembro 30, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 57

O tempo estã difícil, as solicitações são muitas, Mas queremos levar a jornada até ao fim. Não com sacrifício, com a alegria de cumprir um objectivo e o prazer de ler e reler e dar a ler um livro que bem o merece. e tão esquecido...
Pois vamos até à página 325, onde vamos encontrar o bom (será?) do Sancho:
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Sancho não será pois bom, nem mau, apenas o homem no seu posto. O que são os camponeses, obrigados à força de ardis a defender-se do rico que os explora, do poderoso que lhes bate, do Estado que os carda, ora carneiros, lobos, milhafres sabe-o quem lida com eles. Tudo afinal é a vida, a condicionação do homem, género Sancho, dentro do restante mundo, mas não a bondade intrínseca que Unamuno supôs no escudeiro manchego. Bondade, entanto que postiço, é a de S. Martinho, que repartia a capa com o pedinte; a de Lutero, que, para não quebrar o sono do bichano adormecido, uma vez cortou à tesoura a parte da garnacha em que ele se aninhava; a de S. João de Deus, que pegava nos enfermos às costas e os conduzia ao hospital; a do pobre dos caminhos que reparte o pão com outro mais faminto; em suma, é uma virtude de santos e porventura de tolos. O nosso semelhante, ingrato, pretencioso e troca-tintas, merece tais sacrifícios?
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Estamos nas páginas finais. Esta imagem do camponês, escusado seria dizê-lo, é a de um tempo em que a agricultura, por aqui, era uma actividade produtiva, e em que não havia televisão e outras formas de aproximar os mundos sem que os mundos tenham deixado de ser vários e díspares.
E esperamos não demorar muito tempo a aqui regressar. Mas alguém, além deste encantado escriba/ copista daria pela falta? Daria ele por não cumprir um propósito e já muito seria.
quarta-feira, setembro 19, 2007
Aquilino
Hoje, não podia deixar de referir a homenagem nacional a Mestre Aquilino, que nos tem acompanhado, há longos meses, neste blog.
Mais diremos quando possível mas, hoje, apenas fica esta palavra. E a não-surpresa por não ter ouvido uma vez - não ouvi tudo... - citada a versão do D. Quixote e o "nosso" No cavalo de pau com Sancho Pança
Mais diremos quando possível mas, hoje, apenas fica esta palavra. E a não-surpresa por não ter ouvido uma vez - não ouvi tudo... - citada a versão do D. Quixote e o "nosso" No cavalo de pau com Sancho Pança
quinta-feira, setembro 13, 2007
GMR e SdaT no Jornal de Letras (Listopad)
quinta-feira, setembro 06, 2007
Informação/convite
No dia 16 de Setembro, domingo, às 17 horas
a
a
vai promover, num torreão dos Castelos de Ourém
(disponibilizado pela Câmara Municipal),
um debate-apresentação de:
(uma maneira original, fundamentada numa longa investigação,
de levantar uma questão que atravessa a nossa História)
com o autor,
Gonçalo Morais Ribeiro
e “Vossa Mercê”….
onde vai estar no dia 16?
onde vai estar no dia 16?
segunda-feira, setembro 03, 2007
Onde estava Vossa Mercê nos painéis?

No termo e nos termos deste seu labor, usando e abusando das disjuntivas, vem o editor e actor de outros estatutos, deixar duas palavras (que sempre mais que duas são…) em honra e louvor de quem congeminou e foi autor desta obra.
Totus in illis, Gonçalo Morais Ribeiro, que parece ter querido fugir a deixar a sua identificação para além de três iniciais arrevesadamente responsabilizadoras, fez das “tábuas” jangada sua, e por elas e nelas viajou, descobrindo caminhos novos, julgando outros ter descoberto, alguns inventando com imaginação e mão fina e afinada.
A outréns, doutores e professores, caberá, ou melhor: caberia, avaliar o mérito (e talvez o atrevimento) desta viagem em que G.M.R. se investiu e revestiu de por vezes curiosas roupagens, e por via da qual se entranhou adentro estranhas gentes, cousas e feitos.
A nós, das edições e de outras (boas) acções e (malas) artes, coube transformar o metódico e caótico (sim, as duas coisas!) original neste volume.
Em nome de

No cavalo de pau com Sancho Pança - 56
Nisto de observar o mundo... palavra a Mestre Aquilino (pág. 324):
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Nisto de observar o mundo há dois métodos de prospecção. Um que consiste em encarar as coisas no primeiro plano do horizonte. É o processo comum e cómodo, mais condicente com o uso dos sentidos. No primeiro plano, a mulher que amamos é bonita, desejável, cheia de dons. No segundo plano, desdenha-se dela porque há-de envelhecer, tornar-se feia, se não hedionda, matéria pútrida, enfim caveira.
No primeiro plano ama-se a vida, o bem, a glória. No segundo, detesta-se a vida, porque nada há mais transitório, menosprezável, e porque tudo que tem princípio tem fim. Segundo a origem teológica da Terra, tudo começou num nihil mediante uma vontade e acaba em nihil. Também segundo a teoria geológica do nosso Globo, uma série de catástrofes modelaram a sua configuração actual em continentes, mares e ilhas; qualquer catástrofe imprevisível pode produzir nova transmutação, e de uma hora para a outra subverter, com as nossas cidades, o nosso orgulho, a nossa ciência e o nosso património de civilizados. No segundo plano, pois que tudo é efémero, bem e mal, beleza e disformidade equivalem-se na meta de todas as coisas, e tanto vale , enfim, a Vénus de Milo como a estátua de bronze comercial que se vende no bazar. Unamuno via os figurantes do D. Quixote através as lentes fumadas de velho homem, desiluso do plano amável das coisas, de modo geral, às avessas do restante mundo. Dir-se-á: tudo é relativo. Precisamente, a relatividade é ainda, como certeza dialéctica, uma consolação de primeiro plano.
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E pronto. Até já.
domingo, setembro 02, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 55
Às vezes, há surpresas. Boas. Uma amiga, das que não fazem comentários..., trouxe-me uma prenda. Para mais pela mão do neto. Uma edição, lá dos anos 50, de D. Quichote - rei de Portugal. de Thomaz Ribeiro Colaço. Já o folheei, e estou preso. O 4º prefácio do autor (!) - D. Sebastião e Camões - é uma carta a Aquilino Ribeiro. O que para lá está, em termos civilizados, muito correctos, de cavalheiros! E Cervantes, e D. Sebastião, e Camões, e D. Quixote, e Sancho. Que material! Mas vou continuar a viagem... Agora, sobre o camponês (pág. 323)
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O camponês, em si, não é bom nem mau. Mas porque está perto da natureza em tudo o que ela conserva de estático no que concerne às leis genéticas, possui as manhas do homem, ao fundo da escala racional, resultantes do contacto estreito com as necessidades elementares e os seres que lhe parecem úteis. É intuitivo que o entendimento se lhe tenha desenvolvido em conformidade. Cervantes pinta-nos Sancho despojando o frade que D. Quixote deita abaixo da mula com um bote de lança; regateando com o amo a soldada; logrando-o no cômputo e natureza dos açoites que deveria dar na bunda e subestabelece nas árvores para desencanto de Dulcineia, a tanto por peça; sonegando o pecúlio achado na Serra Morena; extorquindo três poldrinhos a Quixote; aferrolhando bem aferrolhada a gratificação com que o duque procura coonestar as pachouchadas que os dois, como uns pelotiqueiros, vieram representar a palácio para seu desenfado. Numa palavra, temos nele o perfeito velhaco (...)
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Assim, temos Aquilino sociólogo, ou antropõlogo, a fazer alarde de uma dessas cieências sociais. Depois de historiador e, sempre, ensaista e excepcional manejador da língua portuguesa.
quinta-feira, agosto 30, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 54
Aquilino não se fica, no seu ensaio, pelo riquissimo acervo de informações e comentários sobre Cervantes, o seu tempo, a sua vida, os seus livros e personagens que criou (de que D. Quixote e Sancho são universais e imortais), também trata (e às vezes não muito bem...) outros que dedicaram tempo e páginas a Cervantes e à sua obra. Como Unamuno, que há pouco foi lembrado por também ser Miguel como Cervantes e serem, os dois, "padrinhos" de um outro (falso) Miguel, o Torga.
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Unamuno não temia entrar em contradições porque para ele uma das formas dos entendimentos superiores era o prazer de rectificar-se. Apenas não são susceptíveis de cometer a rectificação os espíritos dogmáticos e portanto tacanhos ou medíocres. Assim, apropósito de D. Quixote, ora lança o anátema: - Morra D. Quixote, e viva Alonso Quixano o Bom! - como virá, mais tarde, neste livro, a bater no peito, repeso do que dissera: - Perdoa-me senhor D. Quixote! Pega-me a tua loucura, pois que sem ti, sem os homens iguais a ti, cavaleiros do ideal, que seria do mundo! Não, viva D. Quixote! D. Quixote maltratado, D. Quixote morto!
Para um artista, Alonso Quixano tem interesse muito aleatório. Este cidadão sensato, que corre as lebres, possui uma livraria recheada de velhos autores, vai à missa, procura trazer igualmente em dia as contas da lavoura e da alma, interessa mais o sociólogo. É nele que repousa a saúde e o bom funcionamento da República. O artista prefere-lhe o maníaco, o original, o excêntrico. Mas à civilização, à Espanha integrada na Europa ou que terá que integrar-se na Europa, ao mundo, poderá haver dúvidas que lhe caiba hesitar e não tenha de decidir-se a extirpar como um cirro este fátuo vivente? Em nome, pois, da paz e do progresso teremos que clamar com Cervantes e o Unamuno da primeira leitura: Viva Alonso Quixano o Bom, e morra D. Quixote! É verdade que um espanhol sem areia não presta; não é espanhol castiço; falta ao quilate. Por outro lado, certas ideias, para que triunfem, têm de enlambuzar-se de loucura. É como certas drogas que a farmacopeia ministra em granjeias cor-de-rosa ou pílulas douradas. Mas o mundo novo tem de fazer-se em equilíbrio e com todas as higienes.
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Desculpem lá. é de perder a respiração. Começa logo por (me) lembrar o sempre lembrado Bento de Jesus Caraça e aquela frase que está no seu busto no ISEG, na R. Miguel Lupi "não receio o erro porque estou sempre pronto a corrigi-lo", que me esforço para que me acompanhe a par e passo.
Depois, a Espanha a integrar-se na Europa (!), depois... bom, passo É demais!

o pretenso retrato de Cervantes
(ou será de Alonso Quixano, o Bom?)
quarta-feira, agosto 29, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 53
Ao entrar na estação/capítulo XIV, logo deparamos com Passos na arada, seguidos de A misoginia de Cervantes e de D. Quixote orador socialista. É aliciante. E tanto que paramos nesta última passagem.
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O lado fraco de D. Quixote está na retórica. Algumas vezes lembra um mestre de Salamanca nas Orações de Sapiência, outras vezes um deputado discursando em Cortes. D. Quixote é um arengador e moralista à maneira tão predilecta dos pregadores e exegetas castelhanos, salvo a sapiência e os versículos da Sagrada Escritura.
A discriminação do género humano em classes e suas estirpes, com um desdém manifesto pela ralé e conceitos ridículos quanto à natureza do homem, mostra a pouca ou nenhuma cultura sociológica de Cervantes. A página respectiva, embora escudada na pedantaria didáctica dum mentecapto, é do pior que se escreveu. Quando o novelista sai do terreno da vida comum e entra a discorrer sobre altos temas em estilo de lente, temos droga. o D. Quixote, homem de baldões e tropeçadas, arrancou-o da pele.
(...)
À medida que se vai desenrolando o D. Quixote de la Mancha, a figura do Engenhoso Fidalgo bem como a de Sancho vão-se sublimando. Cervantes acaba por enternecer-se com o seu herói, não digo apiedar-se, que um castelhano não sabe o que é piedade, mas toma-lhe amizade. Parece que sofre com os seus infortúnios e naturais percalços. Por outro lado, as suas loucuras, cambalhotas e extravagâncias já não são tão grotescas. São partes gagas dum doido da família, coitado!
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Que delícia!
E, sobre a primeira parte desta transcrição, lembre-se que o livro foi publicado em 1961!
domingo, agosto 19, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 52
Entretanto, 1640. E um outro caminho para Portugal. Ou o seu caminho. E, de metrópole tipográfica para editar em castelhano, o cadinho da língua portuguesa, outra e bem diferente, nossa e fazendo-nos. E lá vem Mestre Aquilino dizê-lo. Nas páginas 286 e 287:
________________________Não falando nas citadas edições em castelhano, a primeira demonstração cervantina em Portugal, cronologicamente anterior ao trasladado para português do Engenhoso Fidalgo, que deu a lume a Tipografia Rolandiana, está na representação que teve lugar no teatro do Bairro Alto em 1733 com a Vida do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, por António José. 

Primeira tradução livre, fragmentária, para teatro do D. Quixote, por António José da Siva, o Judeu
e Primeira tradução do D. Quixote para português
(de 1794, Com licença da Real Meza da Comissão Geral sobre o Exame, e Censura dos Livros)
A comédia em Portugal, como o resto, não passava de humilde vegetação, meia hierática, meia truanesca, e assim compreende-se que esta fosse uma grosseira vergôntea da grandiosa árvore que plantaram especialmente Lope de Vega, Calderón e Cervantes. De resto, o autor tinha que comprazer com o rebaixado gosto do público, pelo que as cenas decorrem no geral em bufonaria barata, sem lógica, nem graça digna de nome. Se não fossem assim, não tinham um espectador para amostra. Calcule-se o gosto do público lisboeta pelo do público rural hoje em dia. Só compreende a patacoada. Se ouve ler a página mais dramática, desata a rir, sendo o riso a única forma de emotividade.
______________________Ah, Aquilino, Aquilino... nem te comento.
Lembrar-me eu que, aqui há uns anos, tive o desplante de encenar (pois!) uma comédia de Miguel Cervantes na ARCA (Atouguia)...
Não faço o comentário habitual, pronto!
No cavalo de pau com Sancho Pança - 51
Aquilino passa, a seguir, ao que chama "a irradiação de D. Quixote". Sobretudo em Portugal Que. parte de Espanha era quando Cervantes o escreveu, e por Lisboa foi editado... em castelhano, claro. Ele bem o sublinha, a páginas 285:
_____________________________________
Duas edições lisboninas sairam em 1605, primeiro ano de aparecimento da novela, sucessivamente nas oficinas de Jorge Rodrigues e uma, depois, na de Pedro Craesbeeck. Mas estas não contam, por serem em castelhano, nada tendo a ver com o movimento literário português, em si. Devem, antes, integrar-se no sistema de vascularização idiomática a que se procedia, mais ou menos subconscientemente, a partir de 1580. Mas, uma vez traduzido, começou, como em França, a partir de 1614 a vaga incessante e alterosa de edições.
(...) O certo é que três estampas saíram, a breve prazo umas das outras, dos prelos lisbonenses, facto que pela singularidade requer a sua explicação. Àquela altura dos tempos, as línguas castelhana e portuguesa quase se pareciam como os dois lóbulos de uma dicotilédone depois de lançada à terra e germinar. (...) Mas, o que era mais, Lisboa tornara-se a metrópole tipográfica da Península.
Fosse casual incremento da indústria, fosse que a política dos Filipes reconhecesse no desenvolvimento de uma actividade, assim orientada, uma forma de assimilação, o facto é que em Lisboa editavam-se a granel as obras castelhanas.

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Interessante. A fazer pensar. Embora com alguma pressa de dar já já o passo seguinte. Que vai, decerto, ajudar à reflexão.
Interessante. A fazer pensar. Embora com alguma pressa de dar já já o passo seguinte. Que vai, decerto, ajudar à reflexão.
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Edição raríssima de Lisboa,
a 5ª da obra,
vinda a lume
(com todas as licenças necessárias!)
no mesmo ano da 1ª (1617)
sábado, agosto 18, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 50
O capítulo XII é o da denúncia da contrafacção. Em que Aquilino se irrita com "quem, vivo Cervantes, compôs e publicou aquela segunda parte do Engenhoso Fidalgo que saiu em Tarragona sob o pseudónimo do licenciado Alonso Fernandez de Avellaneda, natural da vila de Tordesillas?". E o zurze. Não vou deter-me nele. Não porque não tenha coisas interessantíssimas mas pelas razões já tantas vezes ditas de que não estou a fazer uma cópia. Deixo, apenas, o sumário de tal capítulo.
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XII
O D. Quixote de la Mancha de Avellaneda. Quem seria o falsário?
Exame sucinto do desaforo.
Condene-se pelo mau gosto; a deformação dos caracteres; a truculência beduína; a falta de curialidade; a indelicadeza nata e agressiva; o escatológico; o pitoresco forjado a martelo; o atraiçoamento da natureza e a incompreensão da vida.
D. Quixote desquixotou-se e Sancho Pança é mais torpe que o bobo da Cória.
Pela esteira de outro é fácil rumar.
Avellaneda permanece catraieiro. A sombra caluniada de Quevedo.
Como se pode confundir a fina prata com o barro mal cozido?
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Assim, damos uma larga passada. Para não dizer um razoável salto. Mas é preciso. O caminho vai longo.
segunda-feira, agosto 13, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 49
Estas passagens em que Aquilino fala mais de Cervantes que de D. Quixote e de Sancho Pança, em que vai escrevendo sobre a sua posição sobre a religião, as suas relações com a Inquisição, ajudam a perceber o tempo em que o livro foi escrito e como o autor vivia uma faceta fulcral desse tempo. Lá está, nas páginas 248 e 249:

Um pretenso retrato de Cervantes que tem sido muito discutido
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Miguel de Cervantes Saavedra era um velho católico, meio ralaço quanto a praticar os actos de culto, o que lhe facultavam seus filactérios de godo, e versando os casos da Santa Inquisição com uma sem-cerimónia doméstica, que significava ser aquele um assunto julgado e aceito nos seus hábitos e consciência. É evidente que semelhante atitude de um dos homens de letras mais notados no primeiro quartel do século só podia aprazer, como condicente, à política da mesma Inquisição, para não dizer à sua ética. Em verdade a terrível alçada, antes religiosa que profana, pois que o seu hibridismo, mais aparente que outra coisa, provinha precisamente da confusão de funções que ao tempo caracterizava o poder, com o que se têm logrado os simples, ou aqueles que não desejam mais que ser logrados, tinha-se identificado com o ser espanhol. Uma perfeita anastomose. Os grandes homens não se envergonhavam, como Lope de Veja, de assoalhar a dignidade de familiar. Rodrigo de Cervantes à sombra do pai, que era juiz no inventário dos judios presos e penitenciados, desempenhou, ao que se depreende, qualquer cargo no tribunal do Santo Ofício de Córdova. O filho não era, pois, alérgico à instituição. O espanhol, na generalidade, acabara por considerá-la tão consubstancial ao curso da vida e necessária como hoje no nosso mundo policiado o papel mundificador de uma piscina.
(…) As alusões à Inquisição, no D. Quixote, nas comédias e entremezes, são bastante frequentes e traduzem esta naturalidade, estado de interpenetração que seria inexplicável doutro modo. Não há facécia, nem desprimor, nem insinuação por parte de Cervantes quando se refere a ela. É o tu cá, tu lá das velhas intimidades. Chama-se tratar um negócio em mangas de camisa.
(…) As alusões à Inquisição, no D. Quixote, nas comédias e entremezes, são bastante frequentes e traduzem esta naturalidade, estado de interpenetração que seria inexplicável doutro modo. Não há facécia, nem desprimor, nem insinuação por parte de Cervantes quando se refere a ela. É o tu cá, tu lá das velhas intimidades. Chama-se tratar um negócio em mangas de camisa.
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... como se têm feito cair em logro os simples, ou aqueles que não desejam mais que em logro cair e nele se deixarem estar... Por outro lado, "o medo guarda a vinha" é fórmula usada ao longo dos tempos por quem detém o poder e que, para o deter e reter, faz dele uso e abuso. Cervantes não seria um exemplo no que respeita a virtudes cívicas, qualquer o tempo e os critérios, serviu-se de artes e manhas para publicar o que publicável fosse do que e como ia escrevendo. Releve-se o homem por mor daquilo de que foi autor e a nós chegou, e motivo foi para o que Aquilino lhe veio acrescentar.
quinta-feira, agosto 09, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 48

"Con todas as licencias & aprouaciones necessarias"
Aquilino pôs em tratos (e de polé se diria) Cervantes com a Inquisição. Mas pelos resultados, se consequências houve (e terá havido), bem pode ele dizer que os inquisidores foram tolerantes. É certo que usou Dom Miguel de artes e de manhas, mas também desceu medidos degraus de abdicação, mas também o fez o preciso para ter o "salvo-conduto da loucura". Assim se escreveu, sobretudo a 2ª parte, a várias mãos, ou melhor: com as mãos pelo menos um pouco atadas. Capítulo XI, página 234:
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Haveria pressões, advertências, ameaças à volta de Cervantes e quantos degraus teria descido na escala das abdicações para que lhe deixassem sair a Segunda Parte? Não se sabe. Tudo é abalançar-se a imaginativa aos ventos da conjectura. Não deve porém rejeitar-se a hipótese de que no longo espaço de tempo que mediou entre as Duas Partes Cervantes pudesse ter evoluído. Sempre os indivíduos sofrerão um acendramento espontâneo e surdo, que se opera em conformidade com a índole, nestes pousios cronológicos, tanto no que respeita à inteligência do mundo exterior como à disposição do eu. Sancho, se não mudou de pele como as cobras ruças que comiam os ratos nas saibreiras da Mancha de Toledo, deixou de ser um palonço. Quando o é, fá-lo por maroto. Sabe rifões como se houvesse estudado Virgílio Polidoro. Parece a falar um acertado doutor. Toma-se amiudadas vezes dessa ronha, peculiar aos equilibristas da vida das relações, fértil em cortesias e reticências, e é interessantissimo. Outras vezes prevalece-se da superioridade física que lhe dão as circunstâncias em raptos de cólera, e é um terrível felisteu. Então, saltam-lhe ao ar todas as idolatrias. Numa palavra, refinou, como se houvesse desemburrado em Salamanca, o próprio amo lho diz, esquecido de que saíram poucos dias antes do Eido. Mas o calendário para Cervantes não existe. Peça-se-lhes contas de tudo, menos do descompasso com semelhante monstro.
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Também "pousios cronológicos" temos tido nesta viagem. Sem as contingências que obrigam a descer degraus na escala das abdicações. Claro que não se fica por aqui Aquilino, e as conversas de Cervantes com os oficiais do Santo Ofício são deliciosas. Mas todo o livro o é... e não o posso todo transcrever. No entanto, ainda a estas passagens-paisagens se voltará.
terça-feira, agosto 07, 2007
No cavalo de pau com Sancho Pança - 47
Quem muitos burricos quer tocar, alguns há-de deixar para trás. Não é verdade, cavalo de pau, que tantas vezes tenho deixado para trás? Mas nem por isso menos interessante tem sido a viagem. Para mim, para mim... Então, agora, chegámos ao cap. X, em que Mestre Aquilino conta da vida de Cervantes, das suas convicções religiosas e como acabou irmão do Santíssimo. Não me vou deter muito. Não porque não encontre que mereça transcrição, que muito há, mas porque se faz tarde. Só um pedacinho... da página 230:
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«.. Já ouvi (dizia o oficial do Santo Ofício que interrogava Cervantes, entre as duas partes de D. Quixote) que os partidários do amor desenvergonhado, o amor sem estola, o amor sem a sanção de Deus, se prevalecem da mesma doutrina do Sr. Miguel Cervantes. Imundo, e aceitá-lo seria a subversão da família a que a Igreja é particularmente atenta, como se vê pela consagração da trindade Jesus, Maria e José. Mas a disciplina, neste particular, já estava há muito estabelecida e, é-me lícito acrescentar, com a sua definição. Qual ela seja eu lho digo, pois parece ignorá-la: "Aquele que prometeu fingidamente casar com alguma mulher solteira não está por si obrigado a cumprir a promessa, mas a compensar o dano que daí nasceu. Porém, se com tal promessa induziu a moça a consentir na cópula, está obrigado a casar com ela, salvo se ela for de inferior condição. Por exemplo, sendo o homem nobre e ela filha de agricultor. Mas satisfaz, dotando-a. Agora, sabendo ela da desigualdade e consentindo na cópula, perde o direito ao dote, porque se infere que ela quis livremente ser enganada."
(...) Cervantes, posto que homem franco e leal, não era destituido de cautelas e manhas. Não trazia bentinhos ao pescoço como as pessoas compleicionalmente simples ou estudadamente cavilosas, empenhadas em tornar públicos os sentimentos de beneplácito comum, mas ia à missa e nunca faltava à mesa da Sagrada Eucarístia pela Páscoa da Ressurreição. Comportava-se, em suma, como um cristão-velho que não precisa de estar constantemente a bater no peito, de maneira ostensiva, para que creiam na sua religiosidade. Em sua consciência bem secretamente devia prevalecer-se de uma regra moral para lá da ética de qualquer credo.
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E muito penou Cervantes. Porque "... há (nas páginas do D. Quixote) uma vegetação libertina que este santo tribunal não pode deixar sem correcção", advertiu duramente o oficial do Santo Ofício, antes da benevolente sentença ("...modere-se nas suas ambições de originalidade feitas à custa de irreverências, desacato do legal e sagrado, e da lei dos bons costumes..."). Teria sido por isso, pelas "cautelas e manhas", que algum tempo medeou entre a 1ª e a 2ª parte de D. Quixote (longo pousio lhe chama Aquilino, que tudo isto ficcionou no seu ensaio). Mas tudo acabou em bem... Na graça do Senhor e Cervantes "irmão do Santíssimo". Ah!, como ainda mais interessante poderia ter sido D. Quixote!...
... que las hay las hay...
Quando a Som da Tinta estava a preparar o lançamento de uma sua edição sobre os “painéis de S. Vicente”, com uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga, e já havia contactos – do autor e da editora – com a directora do museu, esta, de repentemente, não é reconduzida, ou, de forma mais chã, esta é retirada de funções.
Depois, não digam que não há bruxas…
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