sexta-feira, maio 25, 2007

O Tempo das giestas", no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

Explicações necessárias(*)

A ideia de escrever este livro surgiu-me quando, há cerca de dois anos, uma senhora se dirigiu à sede do PCP, em Lisboa, procurando saber notícias de um rapaz que conhecera e pelo qual se apaixonara, em 1936, e que, a dada altura, desapareceu misteriosa e definitivamente. No decorrer das buscas a que, durante muito tempo, procedeu, a senhora chegara à conlusão de que o seu apaixonado de então perfilhava ideias comunistas. Daí a procurá-lo onde, presumivelmente, lhe poderiam dar, e deram, notícias: o desaparecimento do jovem - na realidade, militante comunista - decorrera do facto de ter sido preso e deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado.
Obviamente que nem a referida senhora é a personagem Teresa, nem o rapaz por ela procurado é o Simão deste romance. Assim, e porque em ficção (quase) tudo é possível, a personagem Simão será o trigésimo terceiro resistente assassinado pelo fascismo no Campo da Morte Lenta.
Tratando-se de uma obra de ficção, quer os personagens quer a trama desta história são fruto da imaginação do autor.
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(*) - do autor
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O tempo das giestas será apresentado, por Pedro Namora, no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

quarta-feira, maio 23, 2007

Reverte - O escritor, o pintor, o fotógrafo, o repórter de batalhas (por esta ordem... misturando tudo)

O pintor (que fora fotógrafo) deu por terminado o mural em que ajustou contas com a vida (e as guerras) e com os homens, antes de todos com o homem em que as guerras (e a vida) o tinham tornado. Assassino de quem amara, isto é, também de si próprio.
O escritor (que foi repórter) releu as últimas linhas do livro e de novo se interrogou sobre o que encontraria o pintor no final das cento e cinquenta braçadas de ida e mais as cento e cinquenta braçadas que de volta não seriam. Carregou nas teclas ctrl + alt + delete como se fizesse detonar uma mina que lhe destruisse a vida. Aquela vida que vivera, vivendo batalhas. E soube, o escritor, que se vivo queria continuar teria de começar tudo de novo. Deixando o pintor entregue ao destino onde o levassem as trezentas ou mais braçadas mar adentro.

Um livro pare, leia, pense, questione(-se) e ao escritor (e ao pintor, e ao fotógrafo que o pintor foi por jornalista de batalhas ter sido o escritor)

S.R.

domingo, maio 13, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 34

O capítulo VIII, que começa pelo "berço de D. Quixote de la Mancha", dá ganas de que o reproduza todo (qual capítulo não o dá?). Mas não pode ser... vou tentar ser contido. O que tem de ser recontado é como, contado por Mestre Aquilino, aparece Sancho (páginas 177 e 178)

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(...) D. Quixote é o poema da alma popular, escarmentada e sofredora. (...) Faltavam cavadores. Farto de andar pelas estradas e bodegas, (Cervantes) nunca reparara bem em tal gente dobrada para a terra que nos dá de comer e nos come, a regá-la com o suor do rosto. Militar, agente do fisco, pajem de gentis-homens, ocupou-se com a tropa fandanga que topou pelo caminho. Sancho Pança cobriu a lacuna. (...) Faltava ali Sancho. Para onde se meteu o homem que vem escravo desde o princípio do mundo?!

Debalde D. Quixote, quando recebe hospedagem dos cabreiros, o puxa para a sua beira. Ele recusa, é certo que não em nome dos respeitos plebeus, mas da sua comodidade. Acha-se assim mais à vontadinha para comer, beber, arrotar, limpar os beiços ao canhão da véstia, do que muito direito ao lado do amo, velho fidalgo de etiquetas, consoante está afeito a ver, obrigado a trincar com decência e a fingir de bem-educado.

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Por aqui me fico. Por agora, e muito custosamente, pois logo no seguinte parágrafo Aquilino nos diz coisas em que entram palavras como deputado, socialista e conservador. O que tem muita piada (oportuna, direi eu). Lá iremos...

quinta-feira, maio 10, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 33

"O berço de D. Quixote de la Mancha. O cárcere ou os caminhos ensoalhados da Mancha? Índole da novela. A arraia-miúda é chamada a figurar no presépio castelhano. Sancho Pança também é gente (...)".É este o começo do enunciado do capítulo VIII do ensaio de Mestre Aquilino. Que diz tudo - além de tudo o mais que também diz logo a seguir - e dispensa as palavras de introdução e "ponte" que tenho vindo a deixar de minha lavra. Pois caminhemos pelas páginas 176-7 que começam o capítulo.
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O D. Quixote devia ter sido inspirado a Cervantes quando, reagindo o homem de mal consigo e com o mundo, bifurcado no lombo de uma mula passeira, através de caminhos velhos da Mancha, via da terra desdobrar-se o manto florido, as aves em seu bulício, o sol maravilhoso nascer e mergulhar no catafalco da púrpura vespertina, sentindo em suma o repululamento exaltador da vida. A pústula conduz à náusea e não ao arroubo sensorial. E, quanto a elevação, o que medra e cresce desmesuradamente no cárcere é o sentido da liberdade inato em todo o ser vivo. Se os tiranos fossem coagidos a um estágio entre ferros, como aula política, sujeitos ao regime comum, acabariam por ter noção mais exacta e com certeza mais profícua de humanidade.
É bem manifesto que D. Quixote, livro popular, deve à sua índole o império que alcançou sobre a curiosidade comburente do mundo. Tal como a Bíblia, onde os grandes capítulos são aqueles em que palpita e vibra o homem de barro comum: Job, o livro de Rute, os Macabeus, etc. Tal como a Odisseia.
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E por aí fora... como iremos ver mais adiante.

domingo, maio 06, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 32

Aproveito uma trégua em outras obrigações e deveres, para dar mais um pequeno passeio, procurando ajustá-los à dimensão do que chamam "post", ainda pelas mesmas páginas 173/4, onde Mestre Aquilino se encontrou com Ribeiro Colaço, que faz de D. Quixote um desejado D. Sebastião tão idiossincraticamente português.
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Este livro tem a propriedade, pois, de ser uma espécie de quadro parietal, fosforescente, de todos os intuitos filosóficos e sociais, ou apenas a torre roqueira, onde veio esbarrar a Cavalaria. Com igual verosimilhança, o adaptaram a este e aquele padrão, sem igualmente haver seguridade no desmentido.
Assim como assim, depois do Quixote, os romances de Cavalaria caíram no limbo. Estava o desfecho implícito na evolução natural das escolas literárias. Mas a durindana do cavaleiro manchego deu-lhes o golpe de misericórdia. Não foi apenas para as novelas de Cavalaria que soou o dobre a finados. Se-lo-ia, também, para a feudalidade, sobreviva ao Renascimento, com seus condottieri, suas Ordens militares, seu direito absoluto, seu monarquismo absorvente e autocrata. Pelo menos por um longo período. Di-lo Byron no seu D. Juan:
(...)
«Zombando, Cervantes decepou o braço direito de Espanha, que era a sua Cavalaria. A partir dessa data, acabaram ali os heróis. Pagou caro com tal perda a glória de possuir semelhante livro.»
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Apesar de ter dado um salto, pequenino que cavalo de pau não é saltador, saiu o passeio mais largo que o anunciado. Mas que hei-de fazer? Quando me ponho a dar estes passeios difícil é parar quando tudo se antolha matéria a ver e a transcrever. E apetece logo passar ao que Mestre Aquilino chama o "berço do D. Quixote de la Mancha". Lá iremos. Espero que breve.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 31

Desde 5 de Abril, um mês passado, que não dou um passeio neste cavalo de pau, que de tanto repouso tem abusado. E a falta que me tem feito... Como a vida nos afasta de fazer coisas que tanto prazer nos dão! Volto aos ludíbrios que D. Quixote de la Mancha descerra em maior quantidade que "um prisma de cristal ao sol". E só por um exemplos que a nós diz respeito me fico.
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E, vai, uns (dos "astrólogos da literatura") descobriram ali uma sátira e coisas e loisas coevas, outros uma configuração dos tempos futuros. E não faltou quem, avantajando a alça, visse no reticulado do megalómano personificado, não vemos bem com que geometria, o tribunal do Santo Ofício. Finalmente, na mesma ordem de interpretações, Tomás Ribeiro Colaço, no belo livro D. Quixote, Rei de Portugal, sustentou com nutridos e calorosos argumentos a tese de que o cavaleiro manchego, alcandorado a destemperos e loucuras sobre-humanas, era nem mais nem menos D. Sebastião, o Desejado, cuja memória infeliz e trágica, delirante e absurda - notou Cervantes - a piedade do povo lusitano começava a revestir dum indulto exorável de lenda. E neste guindado símbolo, Ribeiro Colaço não foi menos lógico que os outros exegetas.
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E como andei arredado destas tarefas, a elas voltarei breve, se é que não já a seguir...

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia do Livro

Hoje, é o Dia Mundial do Livro. E, se mundial, também o é - ou deveria ser - em Ourém, também o é na livraria Som da Tinta.
Hoje, fomos buscar à estante este livrinho, Aux Livres, Citoyens!, da editora Le Temps des Cerises, publicado em 1993, e que consideramos uma preciosidade.
Traduz-se como o autor, Jean-Michel Leterrier, introduz a sua obra, de 60 páginas, que bem ilustram o sub-título, De la Grande Utilité d'un Plaisir Interdit:

"Se o mundo do trabalho é o mais vezes evocado por aqueles que não o frequentam a não ser de muito longe, a leitura usufrui de um privilégio contrário. Os que mais escrevem ou comentam a crise da leitura são naturalmente aqueles que mais escrevem e lêem."

sábado, abril 07, 2007

A PASSAGEM - uma biografia de Soeiro Pereira Gomes

Acabei, neste sábado, de ler A PASSAGEM - uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis. Deixou-me uma fortíssima impressão.
Como diz Isabel Câncio Reis Nunes (sobrinha da autora), ao introduzir o livro, "Esta é uma história de amor. A história de amor de um homem e de uma mulher, a história de amor de um homem pela terra e pelo Homem", e ao fechá-lo com uma frase de que só quem termina a leitura do livro apreende todo o significado: "Não esqueçamos jamais todos os filhos e filhas das mulheres que nunca foram meninas!".
É uma biografia diferente, humaníssima, em que a ternura, a compreensão do outro e o respeito por si próprio(a) estão em todas as páginas que a autora escreve, servindo-se, por vezes, de depoimentos muito bem integrados no texto, até porque esses depoimentos tão esclarecedores de quem foi e como viveu Soeiro Pereira Gomes servem para distender um pouco, talvez para aliviar alguma excessiva tensão, talvez para enxugar uma lágrima, e muito bem nos localizam entre os meados dos anos 30 (o Tarrafal, a Guerra Civil em Espanha, a luta) e já a segunda metade dos anos 40 (o final da guerra, as esperanças frustradas, a luta), quando Soeiro Pereira Gomes voltou da clandestinidade para morrer.
S.R.

sexta-feira, abril 06, 2007

José Vegar no espaço Som da Tinta

Sábado, 14 de Abril, 16.00 horas
No próximo sábado, dia 14 de Abril, pelas 16.00 horas, José Vegar estará em Ourém, no espaço da livraria-editora Som da Tinta,

não apenas para falar da sua profissão e da sua obra, mas também para, por via da apresentação do seu mais recente livro, contribuir para uma reflexão sobre as transformações por que estão a passar as forças de segurança em Portugal e os desafios que se colocam à sua missão. Reflexão que, face a acontecimentos recentes também vividos por cá – com a redefinição da orgânica e dos territórios de intervenção da GNR e da PSP –, também importa desenvolver localmente.
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José Vegar nasceu em Luanda, em 1969. É jornalista profissional desde 1989, freelancer desde 2000. Trabalhou em jornais diários, Público e 24 Horas, e em hebdomadários, Expresso, O Independente, Semanário e Tal & Qual. Colaborou com revistas diversas, Fortuna, Grande Reportagem, Janus, Jornalismos e Jornalistas, Livros, Maxim e Sábado. Enquanto repórter, esteve presente em cenários de conflito vários, Bósnia, Ruanda, Sara Ocidental, Los Angeles ou Timor-Leste.
Em 1992, foi-lhe atribuída a Menção Honrosa do Clube Português de Imprensa e, em 1993, a Menção Honrosa do Clube de Jornalistas. Em 1997, foi considerado o «Jornalista do Ano». Em 2000, recebeu o Grande Prémio «Gazeta» e, ainda no mesmo ano, os prémios «Jornalismo e Direitos Humanos» e «SAIS – Novartis Portugal». Em 2002, foi galardoado com o Grande Prémio «AMI – Jornalismo contra a Indiferença».
Organizou antologias de reportagem (por exemplo, Reportagem – Uma Antologia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001) e, em conjunto com a procuradora Maria José Morgado, escreveu um dos livros de referência sobre o fenómeno da corrupção, O Inimigo sem Rosto. Fraude e Corrupção em Portugal (Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003). É também autor de um livro policial, Cerco a um Duro (Lisboa, Editorial Notícias, 2005).
O seu livro mais recente, Serviços Secretos Portugueses. História e Poder da Espionagem Nacional (Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007), é o resultado de uma investigação longa e apurada e visa revelar a realidade opaca dos serviços secretos portugueses. Este título é ainda, convém referir, mais um contributo de José Vegar para a compreensão do fenómeno da segurança, ao qual tem dedicado parte significa da sua atenção, o que faz de si uma das vozes portuguesas autorizadas sobre a matéria.

quinta-feira, abril 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 30

Isto está a ficar complicado! Quanto mais avança a viagem, mais difícil se torna. Não por cansaço mas porque a vontade de parar em cada página é quase irresistível. No entanto, é preciso continuar e passar páginas que mereceriam para aqui vir - a meu critério - se é que não todas o mereceriam. Meti-me nisto, e contente estou por o ter feito..., mas está a ser difícil! E mais o irá ficar! Por agora, dou um saltinho até à página 171:
D. Quixote de la Mancha descerra porém mais ludíbrios à vista que um prisma de cristal ao sol. Porque é que sendo cheio de puerilidades e partes gagas resiste ao tempo como qualquer séria e substanciosa obra, digamos estes livros de granito e bronze no género Velho Testamento ou da Odisseia? Demais da indemnidade ao tempo, bate a todos na concorrência do público, o mesmo é que no seu poder de engodo e sedução.
O Engenhoso Fidalgo está dentro de anos a perfazer quatro séculos. Em despeito de haver-se tornado, mormente para os espanhois, uma Sagrada Escritura, portanto uma dogmática com a sua mística, continua a ter leitores que o folheiam com honra e devotos espontâneos que tomam banho mental na linfa das suas páginas como os fiéis de Buda nas águas do Ganges purificador.
Um dos seus aspectos singulares é que se presta às mais variadas interpretações. Cada qual conclui do conteúdo a sabor das suas ideias e do seu credo. Para o realista, é a magna carta; para o democrata, um evangelho. Estão assim recheadas de caricaturas e de símbolos, no parecer de Fulano mais de Beltrano, estas páginas febris.
Como iremos comprovar, em alguns dos muitos exemplos que Meste Aquilino arrola, logo que voltemos a montar no cavalo de pau e prossigamos viagem...

sábado, março 31, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 29

Arrependimento? Vamos já já ver o que pensa Mestre Aquilino do arrependimento no sentir castelhano:

O arrependimento, já o dissemos, não faz parte do emocional espanhol. Madalenas ali não se sabe o que sejam. Um castelhano nunca lamenta ter sido vingativo, fero na desafronta, desmedido na chacina, mau na maldade, excessivo no bem. Lamentará apenas que o não tenha sido em grau superno, o mesmo é que esquilianamente. Arrepende-se, sim, se procedeu com torpeza, quer dizer, sem arte no que a palavra encerra de recalcamento das forças activas ou estáticas do carácter. Esta frase do D. Quixote equivale a uma definição: los más quedaron tristes y melancólicos de ver que no se habían hecho pedazos los tan esperados combatientes, bien así como los muchachos quedan tristes cuando no sale el ahorcado que esperan, porque le ha perdonado o la parte o la justicia.
Cervantes, em despeito do ressumbramento mefítico que é lícito supor lhe contagiasse os sectores afins da piedade, vibra de simpatia por todos os infelizes e irregulares da terra. Posto seja condão dos príncipes do entendimento, com ele é qualidade prima, como se esta singularidade fosse uma espécie de antibiótico contra a relice e apatia ovelhum do género humano.
Como muitas vezes nos tem acontecido, apesar da publicação do ensaio ser de 1960, as considerações de Mestre Aquilino sobre o carácter espanhol (ou castelhano), se muito importantes até para a identificação do português na Ibéria, parecem-nos muito perto, ou muito marcadas, pelo que foi a guerra civil em Espanha.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 28

Vamos lá aproveitar estar na estrada para fazer mais um pedaço de caminho. Que, como dizia um outro (Machado), se faz al camiñar. E há ainda tanto caminho por fazer! Agora, será um saltinho até à página 168, lamentando sempre o que ficou pelo meio sem ser aqui trazido. Mas isto não é uma transcrição do ensaio de Aquilino em folhetins...
(...) hoje ainda é admissível que, sob cartaz de certame, uma caterva de ratões, bem comidos e bebidos, apeiem dos automóveis, e, de luvas, charuto na boca, com as suas hammerless de luxo, sacadas de estojos de camurça, se ponham a fuzilar pobres pombos prisioneiros, quando, logrados pela esperança de readquirir o que há de mais precioso do mundo a todo o ser vivo, remontam no céu, imaginando-se a são e salvo. É verdade, mas não se deitam os escravos às moreias para as engordarem e tornarem, com a carne cevada a trigo e vinho, mais saborosas aos epicuristas.
Tal seria o teor da época que reflecte aqui e além o D. Quixote. Mas a novela, além de caricatura dos livros de Cavalaria, querem os cervantistas que seja um libelo contra as prepotências, um idearium apologético e uma crítica de costumes. E esta palavra de Cervantes, que gostaríamos fosse um estigma, representa uma pura contemporização: No quedaron arrependidos los duques de la burla hecha a Sancho Pança del gobierno que le dieron.
Arrependimento? A ver vamos. Logo a seguir...

sexta-feira, março 30, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 27

Isto é que tem sido repousar, meu cavalicoque de pau! Também não sabes andar de patins...
Mas voltemos à nossa viagem e a mais um passeiozito.
Tínhamos ficado numa pergunta, a que, na mesma página 163, Mestre Aquilino dá resposta:
Antes de se expatriar para Roma, (Cervantes) já cultivava as musas. Por sinal que balbucios poéticos, pouco auspiciosos. No cativeiro escrevera poesia ditirâmbica, mormente versos ao divino, se não se trata dum endosso piedoso dos amigos para antídoto à requisitória de Juan Blanco de Paz, espião do Santo Ofício. Desde logo, a pena de escritor não lhe era pois novidade. Compôs El trato de Argel. O êxito relativo animou-o a carpinteirar outras peças. (...) Na sua estadia em Lisboa, Cervantes tivera o palpite de que o temperamento português, taciturno se não saudoso, se comprazia no bucolismo, como uma oxigenação bronquial. O amor era ali uma espécie de voto subtil, regulado por princípios trovadorescos, que poèticamente se exprimia e deleitava na ode e na écloga.
(...) Comédias, novelas de costumes, tudo isso levou pouco além das raias da mediocridade, sem desprimor.
E não resisto a lembrar que, na Associação Recreativa e Cultural da Atouguia (ARCA), em tempos propus e encenei uma dessas comédias de Miguel Cervantes, O Velho Ciumento. Não terá ficado para o meu currículum mas ficou nas minhas boas memórias...

domingo, março 11, 2007

António Gedeão contado/cantado por Manuel Freire

Foi uma tarde Som da Tinta.
Desta vez, congratulando-nos com a "casa cheia".
E o Manel, a contar e a cantar Gedeão (e o professor Rómulo de Caravalho), foi um excelente animador da tarde.




















Das que valem a pena viver.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 26

Também acontece que quando as núvens estão tão baixas e carregadas que pesam na cabeça, apetece dar uma volta em cavalo de pau. Depois de, na pág. 162, Mestre Aquilini contar do Juiz de Barrelas, e lembrar-me a Rainha Zinga (o que ficará para outra altura), nessa mesma página e na seguinte há pedaços que merecem parança:
O que não sofre dúvidas é que metade dos dias passou-os Cervantes a resolver problemas que para tantos imbecis estão resolvidos de nascença. Daí a sua inconformidade, menos ostensiva que visceral, contra a sociedade. Tão em contra do seu temperamento, a sua constante condição foi servir. Acedia a servir para logo se furtar à canga. Ele nos esclarece que aceitou apajear o cardeal Acquaviva, se é que o apajeou, na mira de se forjar um paládio, ainda que temporário, ou enquanto não assentasse pé em Roma. Isto obtido, ou apercebendo-se da sujeição, ala! Serviu nos terços, idólatra, como bom espanhol da era heróica, do príncipe D. João de Áustria, e breve despia o uniforme, coacto não apenas pelo estropiamento como, talvez, pelo tédio que o tomara. As letras foram para ele um refúgio ou representam na sua índole uma incoercível tendência?
Por aqui, pela pergunta, me fico. Logo vem a resposta... e Lisboa. Até lá!

sexta-feira, março 09, 2007

As palavras exactas

Hoje, sei lá porquê, ou até sei..., apeteceu-me chamar biltre a um fulano que eu cá sei. E até sei porquê embora quisesse fazer de conta que não sei.
E fiquei nessa de chamo-não chamo... talvez chame... se ele fizer outra igual ou parecida... e se ele estiver por perto.
Por aí me fiquei a chamar biltre a um fulano sem biltre lhe ter chamado. E a palavra comigo ficou, como uma etiqueta a colar quando oportuno.
Biltre... Pois. A palavra exacta.
Era para ir ao dicionário ver o exacto significado da palavra exacta. Mas, antes, abri, ao acaso, um livro do Gedeão e logo me aparece a página com o

Poema da palavra exacta

Eu dou-te uma palavra, e tu jogarás nela
e nela apostarás com determinação.

Seja a palavra "biltre".

Talvez penses num cesto,
açafate de ráfia, prenhe de flores e frutos.

Talvez numa almofada num regaço
onde as mãos ágeis manobrando as linhas
as complicadas teias vão tecendo.

Talvez num insecto de élitros metálicos
emergindo da terra empapada de chuva.

Talvez num jogo lúdico, numa esfera de vidro,
pequena, contra outra arremessada.

Talvez...

Mas não.
Biltre é um homem vil, infame, ordinário.
São assim as palavras.

António Gedeão, no espaço Som da Tinta, amanhã, às 16 horas, contado/cantado por Manuel Freire. Com as palavras exactas.

segunda-feira, março 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 25

Tendo nós chegado ao ponto em Cervantes cria D. Quixote muito à sua própria imagem, quase como um seu retrato ficcionado, E encontramos Mestre Aquilino a, por vezes, mostrar alguma irritação pelo que chama os "devotos de Cervantes". Como se, por se gostar do que alguém escreve, se tenha de vangloriar o autor do que foi escrito, não como escritor mas como homem. Temos, agora e em Portugal, Saramago e Lobo Antunes que poderriam servir de exemplo para a necessidade de separar os homens dos escritores, com critérios de avaliação que nada têm a ver uns com os outros. Mas vamos lá à página 161:
Em geral os devotos de Cervantes, no intuito de exalçar o ídolo, procuram riscar da uma vida e carreira tudo aquilo que traga a marca do trivialmente terrestre, como sejam amores de ocasião e as necessidades económicas que o compeliram a curvatura de espinha lamentáveis e ainda o que se chama hoje indelicadezas em matéria de dinheiros públicos. Ora a vida é inimiga do heróico ao contrário do pensamento divinizador. Cervantes poderá não encarnar o homem de rígido carácter que se comprazem em ver nele os Catões do lado de lá da fronteira; nem um católico fervente como gostariam de apresentá-lo curas e ultramontanos; nem um tradicionalista ferrenho ao paladar do requetés. Mas ninguém nega que dispôs de admirável fantasia e D. Quixote é um dos luzeiros acesos na marcha titubeante da humanidade através da sua longa, ínvia e tantas vezes tenebrosa caminhada. Poderá não inculcar-se como modelo acabado de cidadão, nem ele concorreu a tal categoria, sempre ficará, em despeito dos seus altos e baixos de humano, um príncipe do pensamento e da moral literária. Mas este afã com que acepilham a pessoa, a alindam, a desbastam do terrenal, como que obedecendo a um mandato subconsciente, vem dar razão a quem vê no D. Quixote o símbolo da Espanha, sequiosa de absoluto e nada compreendendo para fora destas coordenadas.
Cervantes, homem pobre, prezando a vida no que tem de materialmente fruidor, nunca a logrou a seu gosto.

António Gedeão

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis.
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

No dia 10 de Março, pelas 16 horas, no espaço Som da Tinta, António Gedeão por Manuel Freire.

sexta-feira, março 02, 2007

Manuel Freire e a "Pedra Filosofal" de António Gedeão - 10 de Março no espaço Som da Tinta

Há quase 40 anos foi uma pedrada no charco!
Vamos ouvir e falar disso, e de outras "coisas" do António Gedeão, com o Manuel Freire, no dia 10 de Março, a partir das 16 horas.

quinta-feira, março 01, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 24

Este percurso vai ser longo. Segue ao que Aquilino vinha contando a transposição de Miguel Cervantes para D. Quixote, como a vida de um deu vida ao outro. Vamos a isto que as linhas são muitas, passando da página 159 para a 160:

Cervantes era coerente consigo mesmo e com o que escrevia. Que figados poderiam ser os seus depois daqueles desgraçados anos ao serviço d'El-rei, com o odioso lápis e a caderneta de perceptor em punho, invectivado e apupado pelos habitantes, apedrejado, batido, expulso?! Depois, chamado a responder pela porção de géneros prelevados que não deixariam de maquiar moleiros, almocreves, forneiros e coadjutores famélicos?! Que havia de ter em mente senão alucinantes moinhos de vento, absurdos odres de vinho e de azeite, curas nédios montados em horsas do Apocalipse, fidalguinhos marionetes e fidalgarrões de barba branca fluvial, com a vasta choldra de quadrilheiros e pícaros à roda, capazes todos eles, filipinos como eram até à medula, de jogar a túnica do Senhor dos Passos quanto mais de roubar a Manutenção?! Cervantes, em rixa com os moleiros, deu, transposto para o burlesco, o D. Quixote que arremeteu contra moinhos de vento, transfigurados em titãs. Excomungado pelos cabidos e alto clero, nada mais compreensível que o Engenhoso Fidalgo jogasse a sua lança contra os gordos frades de S. Bento. A liteira, guardada pelo biscainho, com a dama que vai ao encontro do seu senhor, alto burocrata nas Índias, - é o dégonflement da sua eterna obsessão de mercê, no Novo Mundo, como o cura de Alcobendas representa o desfrute de seu cunhado seminarista, que lhe havia de palmar a legítima da mulher, ou de seu tio por afinidade Juan Salazar de Palácios, um sacerdote chato e honrado, figurações essas da sua trovoada de sonhos nocturnais. E quem me diz se não foi que mantearam se não em Ecija, em La Rumbla, se não em Castro del Rio, em Carmona, uma vez que é tão fora de razão ver aqueles birbantões, cardadores de Segóvia, vendedores de agulhas e alfinetes de Córdova, belfurinheiros da feira de Sevilha, fazerem-no a Sancho Pança, pobre diabo como eles, tomando dores pelo Canhoto estalajadeiro? A Cova de Montesinhos não é a Cova de Cabra, cujo boqueirão ficaria sempre a lobreguejar na imaginação pávida do menino, quando a família, acossada pelo vendaval da vida, vinha acolher-se à sombra do parente remediado? E Dulcineia não terá pedido emprestada a Catalina aquela sua cerebral e inacessível altanaria, distância idealizada e rigidez de ressentida em que petrificou para com o aventureiro? Não foi com ela que aprendeu a volátil significação do amor?