domingo, junho 13, 2010

A arte de morrer longe

O mais recente livro de Mário de Carvalho (Caminho, Fevereiro de 2010, 125 páginas) lê-se (li-o!) com muito agrado.
O escritor domina a técnica de... conversar com o leitor enquanto vai contando a história. E até parece, por vezes, que se desinteressou da históra que nos está a contar para conversar connosco. Ou para ter prazer de estar a escrever.
Mário de Carvalho é um escritor que mostra ter um enorme gozo no que faz, no que fez a sua profissão, na escrita. Tanto que até pode acontecer que se esquece do que está a contar e a quem. Mas logo recupera.

A tartaruga foi morrer longe. Aquele casal reencontra-se. Contra tudo, contra todos e contra eles próprios.
O autor também.

sábado, junho 05, 2010

João Aguiar

A notícia da morte de João Aguiar surpreendeu-nos (como todas as notícias de mortes) e doeu-nos.
Não era dos nossos amigos, não tínhamos contacto com ele há alguns anos, nada dele sabiamos nem procurávamos saber por lhe sentirmos a falta. Sentimo-la agora que soubemos da sua morte.
Foi um dos muitos convidados a vir à Som da Tinta, às nossas iniciativas, às "feiras do livro" em que colaborávamos com escolas e com escritores. E foi, sempre, nos contactos preparatórios e nas viagens que o trouxeram a Ourém, um homem exemplar. De simplicidade, de simpatia, de profisssionalismo. Como escritor que era.

Pessoalmente, como leitor, "conheci-o" pelo excelente "A Voz dos Deuses", de 1984, li outros livros seus que não me desiludiram, e gostei muito do "Diálogo das Compensadas".

Aqui fica este registo. De boas recordações. E homenagem.

sexta-feira, junho 04, 2010

Sobre a ordem (e a desordem...)

Mais um pouco de Brecht (como só ele!):

(...)
Kalle
(…) A ordem não consiste em economizar…
Ziffel
Claro que não. A ordem é o desperdício metódico. Tudo o que se abandona, que apodrece ou que é destruído, deve ser registado numa folha, com um número de referência: é isso a ordem. Mas essa vontade de ordem é, antes de mais, pedagógica. Há um certo número de coisas que são absolutamente irrealizáveis pelo homem se ele não as faz dentro das regras: as coisas absurdas.
(…) Por outro lado, nos tempos que correm, você não pode manter um pouco de humanidade sem alguma corrupção, o que é uma forma de desordem. Existe humanidade onde se encontra um funcionário que se deixe untar as mãos. Pode mesmo acontecer que com um pouco de corrupção você consiga que lhe façam justiça (…) se os regimes fascistas reprimem a corrupção, essa é bem a prova de que são desumanos.
Kalle
Não sei quem disse um dia que a merda não é outra coisa senão a meteria que não está no seu lugar. (…) Eu, no fundo, sou pela ordem. Mas um dia vi um filme do Charlie Chaplin em que ele metia a sua roupa toda numa mala; depois de ter tudo metido lá dentro, ele fechou a mala. Mas uma grande quantidade de pedaços de roupa ficou de fora, o que fazia a desordem; então, ele pegou numa tesoura e, pura e simplesmente, cortou as mangas, as pernas das calças, as meias, em resumo, tudo o que transbordava da mala fechada. Esta maneira de fazer deixou-me espantado. Vejo que você não dá grande valor ao amor pela ordem…
Ziffel
Eu limito-me a reconhecer as imensas benfeitorias do deixar-andar: milhares de pessoas devem-lhe a vida. Em tempo de guerra, muitas vezes bastou um ligeiro afastamento do que eram as ordens para salvar a vida de um homem.
Kalle
É verdade. O meu tio estava numa trincheira, Argonne, quando os soldados receberam a ordem para recuar e a “toca a mecha”. Em vez de obedecer sem pestanejar, eles resolveram, antes, comer as batatas que estavam nas brasas: foi assim que foram feitos prisioneiros, e portanto salvos.
Ziffel
Ou ainda veja lá o exemplo de um aviador. Estava tão cansado que não conseguia ler bem o quadro de comandos. As suas bombas caíram ao lado de um imóvel residencial em vez de acertar no alvo: cinquenta pessoas tiveram a vida salva. Está a ver o meu sentimento? Os homens não estão suficientemente maduros para uma virtude como o amor pela ordem. Para essa virtude, a sua razão não está suficientemente desenvolvida. Eles atiram-se para empresas idiotas: só a incúria e uma certa anarquia na execução podem preservá-los do pior.
(…)
Kalle
Podíamos resumir a coisa assim: onde nada está no seu lugar, é a desordem; onde nos lugares certos nada está, é a ordem.
(…)

quinta-feira, junho 03, 2010

Exilados, Emigrantes, Pátria - lugar de exílio e de migrantes

Quase me zango comigo cada vez que aqui venho. Como quem visita um canto dos seus lugares.
Mas, se calhar, é porque me custa, porque me doi... Por aquilo que o/a Som da Tinta não é e podia (e devia) ser. Sei lá...
Por outro lado, se queria que fosse o canto guardado para falar do que vou lendo, ou para deixar notas sobre livros, leituras, revela que estou a dar pouca importância ao que, para mim, é tão importante. Até parece que não estou a ler. E acontece que não sou capaz de estar sem ler. Agora, leio o último do Mário de Carvalho e estou a gostar. Breve terminará o gosto desta leitura e prometo(-me) aqui vir. Mas também estou a ler o Dialogue d'exilés, do Brecht, é um verdadeiro encantamento.
É uma edição francesa, de 1965, da primeira obra de Bertolt Brecht publicada, em 1961, depois da sua morte em 1956.
Num café de uma gare de caminho de ferro, dois alemães exilados conversam, pasando da filosofia de Hegel à pornografia, do papel da virtudes cívicas à necessidade da ordem, dos métodos de educação ao prazer que dá pensar (ou não dá!). Sempre com o seu exílio comopano de fundo.
Ao ler, levantando frequentemente os olhos do papel, fico a pensar (como e sem prazer) na Pátria como lugar de exílio, no Daniel Filipe, nos nossos emigrantes, dos portugueses bem de aqui, que de aqui abalaram e que de aqui se perderam. Não todos, não todos. Perco-me. A pensar na democracia, no poder do povo. Na luta.
Bretcht tem uma capacidade única de juntar lucidez (dura, por vezes brutal) e ironia (fina, delicadíssima), de nos dar a conhecer a nós próprios.
Apenas um bocadinho da conversa entre estes dois homens, tão diferentes e tão iguais, entre si e a cada um de nós, dois homens que se ncontram para beber cerveja e conversar sobre a pátria, sobre a vida. Sobre... tudo.
Aí vai:

(...)

Ziffel
(…) Eles não tinham compreendido o sentido da palavra democracia. Eu quero dizê-la no seu sentido literal: poder do povo.
Kalle
A palavra “povo” é um termo muito particular, isso nunca o chocou? Não tem o mesmo sentido dentro e fora. De fora, em relação aos outros povos, os grandes industriais, os fidalgotes, os altos funcionários, os generais, os bispos, etc., fazem naturalmente parte do povo alemão e não de um outro. Mas no interior, lá onde está o poder, você ouve sempre esses senhores falar do povo dizendo: “a turba”, “a gentalha” ou “a gentinha”, etc.; eles não fazem parte do povo.
O povo bem devia falar a mesma linguagem e dizer que esses senhores não fazem parte do povo.
Então a expressão “poder do povo” teria todo o sentido, completamente racional, reconheça-o.
Ziffel
Mas isso não seria um poder democrático mas uma ditadura do povo…
Kalle
Exactamente: seria a ditadura de 999 sobre o milésimo.
Ziffel
Isso seria o bom e o bonito se não significasse o comunismo. Você tem de admitir que o comunismo reduz a nada a liberdade do indivíduo.
Kalle
Você sente-se livre?
Ziffel
Não particularmente, se me põe a questão assim. Mas porque deveria trocar a falta de liberdade em regime capitalista pela falta de liberdade em regime comunista? Parece que você aceita, de qualquer maneira, que há falta de liberdade em regime comunista.
Kalle
Sem qualquer dificuldade. Não vou estar com charlatanices. Ninguém é totalmente livre quando detém o poder, muito menos o povo. Também não o são os capitalistas, que é que pensa? Não são livres, por exemplo, para deixar um comunista instalar-se como Presidente da República. Ou para fabricar a roupa que é necessária, quanto muito fabricam a que possam vender. Por outro lado, em regime comunista, não é permitido deixar-se explorar: ora aqui está uma liberdade suprimida.
Ziffel
Deixe-me dizer uma coisa: o povo não toma o poder a não ser em caso de necessidade extrema. O que resulta do homem só pensar em caso de extrema necessidade. Quando a água lhe chega ao rés do pescoço. As gentes têm medo do caos.
Kalle
Não é medo do caos... eles acabarão por se encontrar em caves, nos baixos de casas bombardeadas, tendo, nas suas costas, SS de revólver em punho.
Ziffel
Não terão nada na barriga, não poderão sepultar as suas crianças, mas a ordem reinará e quase não terão necessidade de pensar.

Ziffel empertigou-se. A sua atenção que, durante as divagações políticas de Kalle, tinha esmorecido, reanimou-se.

Ziffel
Não queria que ficasse com a impressão que critico essa gente. Pelo contrário. Ser lúcido é difícil. Todo o homem razoável evita-os quanto pode. Em países como aqueles que conheço, onde uma tal dose de reflexão é indispensável, não é possível viver. Aquilo a que chamo viver...


Emborcou o seu copo com ar ansioso. Pouco depois, separaram-se, afastaram-se cada um para seu lado.


(Ah!, como eu gostaria de "pôr isto em cena",

encenar e - sei lá... - fazer de Ziffel ou de Kalle,

dar corpo a estes personagens!)

domingo, maio 16, 2010

Eu sou português aqui

Na viagem matinal pelos blogs - nem sempre possível... - passei pelo papoila25 e encontrei esta mensagem relativa a um serão diferente.
Obrigado, embora a mim não fosse dirigida. Gostei... e deu-me a nostalgia!
Antes mesmo da sua abertura formal, com Prémio Nobel e televisão (assim acontece), a livraria e editora Som da Tinta teve a visita do José Fanha, que ofereceu alguma da sua poesia aos portugueses daqui, oureenses presentes. Foi muito bonito. E prometedor!
E foram sete anos que, como servidores, a cultura quisemos servir. Valeu a pena. Mas tudo tem um fim, sobretudo quando esse fim é desejado por outros e apressado. Mas... valeu a pena!
Lembrei, nostálgico, esse segundo momento da Som da Tinta (o primeiro fora uma exposição de pintura). Que entusiasmo tínhamos. Era um nosso projecto para os dias do resto da nossa vida. Outros havia. E há! Com eles continuamos. Vivos. Na luta.
Também, o pequenino projecto de não deixar morrer as sementes que a Som da Tinta quis lançar. E atirou ao chão que pisamos. Como este blog, um tanto abandonado. Mas aqui, português e oureense.

segunda-feira, maio 03, 2010

Obrigado, Andrés

Este Andrés é cá um urug(u)ajo!
É, decerto, o mais português (e o mais oureense!) de todos os uruguaios.
Obrigado, amigo (e camarada)!

sexta-feira, abril 09, 2010

Kusturica em Ourém - Gato Preto, Gato Branco

A segunda sessão de Kusturika em Ourém, que se deseja que seja de noites de cinema no Museu Municipal, venceu de novo a concorrência do Benfica-Liverpool, e... não desmereceu a vontade da equipa promotora. Salinha bem composta!

Gato Preto, Gato Branco não é Underground. Depois de Underground, de certo modo continuando Underground (na banda sonora). quase se pode dizer que pretende apagar Underground. O mesmo humor, a mesma maestria no contar história(s) de forma diferente, aparentemente caótica, o mesmo (e melhor) manejo da câmara... mas a despolitização antitética da politização, que teria sido etiquetada de excessiva (pró-sérvia), de Undeground.

De Gato Preto, Gato Branco - que já vira antes, sem antes ter visto Underground -, talvez sobretudo me tenha ficado a vontade de voltar a ver Underground. Coisas minhas...

E lembrei, e trouxe comigo, a lembrança do que considero das coisas mais bonitas que tenho visto em cinema: o campo de girassóis a encher-se de risadas e de jogo de juventude e de amor.

Aliás, é sobre esses planos que me apeteceria dizer mais, e não sobre as escatológicas cenas de mergulho nos dejectos e de servirem os gansos de toalha ou lençol de banho de limpeza, que talvez tenham tido mais efeito que esses planos... Mas seria isso que desejava Kusturika, que queria fazer uma comédia, que queria fazer o que fizesse rir porque, para pensar em coisas muito sérias, chegara (e teria abusado, a juízo de alguns...) Underground.
.
Gato Preto, Gato Branco é: algum desvario circense e uma caricatura etnográfica desenfreada (como já li, mais ou menos...) e, de certo modo, banda desenhada com banda sonora incorporada e irresistível.

Para acabar o apontamento, duas frases rascunhadas às escuras:

  1. «a um casamento azarado pode fugir-se, mas não ao destino»

  2. «cala-te quando falas comigo!»
Venha a terceira sessão (em que, infelizmente, não poderei estar...)

quinta-feira, abril 08, 2010

Rubem Fonseca - O Seminarista


Páginas 84/5:

« (…) e fui me arrastando, arrastando como um verme. Então me lembrei de uma frase que li num dos livros de Bruce Chatwin, sobre a importância da postura ereta, ainda mais do que o desenvolvimento da linguagem, ainda mais do que a presença do superego, entre esses atributos do homem que o elevaram acima do reino animal, a postura ereta era o mais importante. Anda, seu filho da puta, eu disse para mim, fica em pé, ereto, seu merda, ereto.
Então, com grande esforço me ajoelhei, depois me ergui lentamente, ficando em pé. Ereto. Poder sair do lixo sem rastejar me deu uma das maiores alegrias da minha vida. Fui andando, cambaleando mas ereto, dando passos lentos, mas ereto, como um homem deve caminhar, ereto. (…)»
.

(tal-qual na edição original, segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009... mas custa trans-escrever erecto sem c...)

quarta-feira, abril 07, 2010

Rubem Fonseca - sobre Lima Barreto e o futebol

Há dois ou três autores assim. Estou a lê-los… e só me apetecia ter escrito aquilo. Por isso, sublinho, dou cabo dos livros, transcrevo.
Rubem Fonseca é um deles. Estou a ler O Seminarista:
Págs. 73/4:
«"(… ) além de grande escritor, era um cara interessante, remava contra a maré, odiava arranha-céus e futebol. De futebol, naquela altura como até hoje, todo mundo gostava. Mas então era um esporte de brancos ricos, e isso o mulato pobre, recalcado, que comia o pão-que-o-diabo-amassou, odiava, com toda a razão. E o futebol continuou sendo um tumor discriminatório até que o Vasco da Gama fez um time com pretos e pobres e ganhou o campeonato em 1923. Por causa dos pretos e dos pobres do time o Vasco foi expulso da Liga de Futebol, mas o golpe na discriminação já havia sido dado e com o tempo a criolada e os pés-rapados dominaram os campos. Mas em 1923 o Lima Barreto já estava morto… ele morreu em… vê aí no livro."
"Primeiro de Novembro de 1923."
…»

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13.05.1881 - Rio de Janeiro, 01.11.1923), foi um jornalista e um dos maiores escritores libertários brasileiros. Filho de mulato nascido escravo e de "escrava agregada", as lembranças e vivências do fim do período imperial no Brasil e da abolição da escravatura exerceram influência na importante obra de Lima Barreto.

terça-feira, abril 06, 2010

Rubem Fonseca-Petrarca (ou vice-versa)

Bendito seja o dia,
e o mês,
e o ano,
e a estação,
e o tempo,
e a hora,
e o momento,
e o formoso país,
e o lugar
em que fui preso aos dois belos olhos que me cativaram...
.
(O Seminarista... aqui voltarei... breve!)
.

(o momento foi a Festa do avante!,
o lugar Jamor,
o mês Setembro,
o ano 1978
... não foi?)

sexta-feira, abril 02, 2010

Underground - Kusturika

Venho de regresso de uma noite diferente. Em Ourém. Porque houve quem a proporcionasse. Iniciativa e trabalho de uma equipa (julgo eu...) que merece parabéns e estímulo
Um serão cultural. De cinema. No Museu Municipal. O ciclo Kusturika. Em Abril.
Venho satisfeito. E impressionado. Não diria em estado de choque... impressionado, está bem.
Não sabia se tinha visto Underground. Não tinha. É Kusturika, em 1996, a contar-nos, doridamente (muito doridamente, embora às vezes não parece, e nos faça sorrir e rir), o seu País, a Iugoslávia. Que era uma vez...
Só três frases gravadas (e não por serem das últimas, embora por razões kusturikas o sejam), e para ficarem como registo desta primeira noite... do resto das nossas vidas oureenses?

  1. Uma guerra só é mesmo uma guerra se irmão mata irmão.

  2. Era uma vez um País. (a penúltima do filme, também sub~título, como também é «Mentiras de Guerra»)

  3. Esta história não tem fim. (a última do filme.)

domingo, março 21, 2010

Estado de guerra

Estado de guerra

  • o sem sentido do estado de guerra em que estamos vivendo, filmado (bem) do lado dos Estados Unidos da América (mas haverá outro lado, perguntar-se-á...)

Enquanto (vi)via, lembrei-me bastas vezes de Apocalipse Now

  • a/uma tomada de consciência (do lado dos EUA... mas haverá outro?) do sem sentido do sem sentido do estado de guerra em que estamos vivendo.

quarta-feira, março 17, 2010

À conversa com... Woody Allen

‘Tás porreiro, pá?[1]
‘Tás velhote… mas não és o único, aliás somos do mesmo "ano das sortes” (1935)! Deixa lá. Não há-de ser nada...
.
Há que tempos que não te via. Até porque há muitos meses não íamos (ela e eu) ao cinema. Temos visto filmes, mas “ir ao cinema” é outra coisa.
Gostei de estar contigo. Estás cada vez mais na mesma. E ainda bem.
Como sabes (não sabes, mas é como se soubesses), sempre apreciei muito esse teu lado bretchtiano levado para o cinema. A tua maneira de contar, como te esforças para que não haja paredes entre nós, nem de vidro no teatro, nem de tela no cinema, esta maneira de estarmos à conversa.
Desta vez, neste teu filme, várias vezes nos interpelaste enquanto contavas coisas cá da gente, melhor, cá das gentes que somos, e pelos caminhos por que andamos.

Gentes comuns, como dizia o outro? Mas quem é que não é gente comum, quem não nasce do acaso de um espermatezóide que encontrou o caminho e sofre a angústia de ir deixar de ser… talvez hoje porque não foi ontem? Quem?! O frustrado genial Prémio Nobel da química quântica?, o genial contador de vida (e de Nova Iorque em cinema) com um nome estranho e judeu e conhecido por Woody Allen?
Pois... Chamaste-nos de lado, aos que perceberam e quiseram acorrer à tua interpelação, para umas pequenas conversinhas de “ao pé da orelha”, que se calhar passaram desapercebidas a muitos de nós, mas que só eram – acho eu… – a forma (o truque?) de nos dizeres, a todos, que era assim que estavas a contar a estória. Sem nada entre nós. Nem “na manga"!...
Muito das nossas vidas sobre que conversavas connosco até pareciam nem serem nossas, naturais, do dia-a-dia, dado o traço grosso, finíssimo!, caricaturado, com que fazias os desenhos, mas tudo era a nossa vida, bem cá de dentro de cada um. E tu sabias. E por isso nos interpelavas.
Anda é tudo distraído. Aliás, é o estado normal. Em que nos querem congelar.
Como tu chamavas a atenção, nem os que te acompanhavam no contar da estória nos viam, ou “se viam” (a si), quando tu nos vias e connosco falavas directamente, como os “do lado de cá”. Talvez com a excepção da miúda loura, e cretina, e estúpida, que não era nem estúpida, nem cretina mas que era loura e tinha uns olhos lindos e um corpinho para começar a valer uns 5 e ficar nos 8 (e sem favor!).
Olha… gostei de conversar contigo. Saudações à companheira que te tenha calhado em destino para este momento, ou que se te tenha destinado por ser médium… Boa sorte!


Aparece no Zambujal!
Era giro...

PS: Só uma espécie (só uma espécie…) de conselho: devias ler um autor que referes, um tal de Karl Marx. Fazia-te/nos bem.
_________________________
(1) - Poupo-te às explicações de como esta amigável elocução foi conspurcada. Coisas lusas...

domingo, fevereiro 14, 2010

Livros em leitura

Passo por aqui e vejo que desde 5 de Janeiro nem uma mensagenzinha. Acho mal.
É certo que o último post era mesmo uma mensagem que não teve o efeito desejado (e endereçado)... mas acho mal não ter aqui voltado.
Não que me preocupe que possam pensar que não estou a ler... mas não queria que este blog de leitura fosse desaparecendo. Seria como se o/a Som da Tinta fenecesse definitivamente.
Tenho lido, sim senhor.


Uma novela policial do Dashiell Hammet. Interessante.
Um livro de crónicas do Nuno Lobo Antunes (sempre, antes de adormecer) que me foi muito amigavelmente oferecido. Umas crónicas... curiosas. Algumas agradando-me muito, outras não tanto. Mas um escorreito contar de vivências, aqui e ali perfeitamente conseguido. Talvez, para as (des)horas a que leio, não propiciando dormires tranquilos porque há por ali demasiada doença... e logo cancros. Mas lá vou dormindo. A crónica sobre a IGV tem que se lhe diga. Terá... Até porque me parece séria, honesta. Não política na péssimo uso que dão ao belo vocábulo, Talvez cá volte.
Um folhear um pouco à toa de uma outra oferta amiga, o Dicionário Lula. Vale a pena ir acompanhando. O homem, e como é, ajuda a compreender umas coisecas da maior importância. Para o nosso futuro. Aquele em que não estaremos mas para que queremos contribuir.
Livro vindo na bagagem do Brasil. Como o do Dashiell, como muitos outros.

E este. Este que me está absorvendo. E a que não chamaria leituras. Que foi editado há duas décadas e que é de urgente reedição.

terça-feira, janeiro 05, 2010

No Comboio Nocturno...

No princípio, foi o gesto. Da oferta e da dedicatória amigas e solidárias. Só depois foi o verbo, foram as palavras. Da dedicatória. Das 400 páginas do livro. Das 400 páginas de Comboio Nocturno para Lisboa, que me acompanhou nas viagens deste mês. Umas para longe, outras antes de fechar a luz para adormecer.
Não sei se o livro tem muitas referências nos locais em que se escreve sobre livros. Por razões (e sem razões também) ando afastado dessas leituras. Mas tenho indícios de que está a ser um êxito de edição. A quem falo dele me respondem que já o conhecem. Alguns porque o têm… nenhum porque o tenha lido ou querido comentar. A edição portuguesa que me foi oferecida em meados de Novembro é a 3ª edição, a brasileira (Trem da noite em vez de Comboio nocturno…), está bem visível nos escaparates, e folheei-a na casa dos amigos que o tinham comprado, até para confrontar pedaços das traduções.

Um livro… interessante. Muito significativo do tempo que vivemos. E não me refiro aos anos, talvez nem às décadas. Refiro-me ao tempo sem medida certa que vivemos.
O autor, o narrador, o(s) personagem(ns) vivem e especulam sobre a sua existência. Enquanto é, e para depois de ser. Como indivíduos. Relendo a dedicatória, ncontrei lá, no livro, a natureza humana, é certo, mas bem limitada, bem confinada à individual natureza humana. E creio eu estar certo de que há uma segunda natureza humana, que é a condição social, a que transcende o indivíduo que cada um de nós é.
Está ela, esta segunda (but not the least!) natureza humana, ausente do livro? Claro que não, claro que não poderia estar. Mas faz figura de figurante, de paisagem, de cenário em que se movem os personagens. Cada um, um. E cada um à procura de si. De si próprio.
No livro, há parcelas. Mas não se vêem somas, a não ser ao longe, e reduzidas a simples conjuntos de parcelas. Não outra coisa. Somas, qualitativamente diferentes das parcelas!
A definição do substrato do livro – que ensaio filosófico, ou de filosofia, é – está no discurso (Reverência e aversão perante a palavra de Deus) do personagem central que, ao terminar, diz, em jeito de ameaça "E que ninguém (quem?, Deus?) me obrigue a escolher". Mas poderia/quereria ele escolher, poderá/quererá cada um de nós escolher? Ou poderá, cada um de nós, não escolher, ou escolher não escolher?
Aliás, e em parênteses, devo dizer que a evolução e degenerescência Amadeu Prada é muito bem dada. Porque “escolheu” não deixar de ser o que era! Ou, melhor dizendo, não teve força para deixar de ser o que era, um indivíduo do/no mundo das catedrais e, noutra acepção, da classe dominante, com incursões diletantes por posturas de resistente.
Não me vou alongar. Só duas ou três notas sobre um dos motivos da oferta amiga: o meu testemunho vivo, vivido, “desse tempo”.
No livro – interessante, interessante – só há resistentes, não há resistência, não há colectivos e suas dinâmicas, e quando se pretende (se se pretende) lá chegar, talvez através do João Eça, falha em toda a linha; no livro, não há repressão, há repressores, há “homens maus”, há esbirros como o personagem bizarro do Mendes (e acólitos que aparecem em aulas de alfabetização…).
A dramatização do triângulo amoroso/passional Jorge-Estefânia-Amadeu através da decisão de executar quem, por saber demais, poderia pôr em risco a resistência, e a decisão (por amor, por paixão? porquê?) de não o fazer é… caricata.
O Tarrafal tem um relevantíssimo significado na nossa História, recente ou não. Foi a criação do campo da morte lenta, em 1936. Foi o clímax/símbolo da repressão fascista. Mas… o último preso foi transferido em 1953 (Francisco Miguel para Caxias), e o campo foi oficialmente fechado em Janeiro de 1954, tendo sido reaberto em 1962 apenas para os presos das colónias e em razão (!) da guerra colonial.
A figura do juiz, pai de Amadeu, só teria alguma coerência se fosse juiz do chamado Tribunal Plenário, criado para julgamentos políticos (antes deles era em tribunais militares), porque as instituições judiciais não estavam directamente ligadas à repressão fascista. O tal “Tribunal Plenário”, enquanto existiu (de 1945 a 1974, em Lisboa e no Porto) foi constituído por meia dúzia de juízes, escolhidos “a dedo”.
O autor, sem prejuízo da erudição que fundamenta as suas reflexões e do seu evidente interesse por esse período da História de Portugal poderia (e deveria) ter-se informado minimamente para não ser tão pouco (ou nada) rigoroso com figuras e factos que refere e que são históricos.
.
Foi uma boa leitura a partir de um gesto que muito me tocou.

quarta-feira, novembro 11, 2009

11 de Novembro

Dia de S. Martinho (É pelo São Martinho que um homem descobre como em-velho-sou) .

Dia da Independência de Angola, em 1975 (unilateral, depois de Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Princípe, Cabo Verde... uma história para contar!)

De Luandino Vieira:

«Cantarei 0 herói, o que sempre exemplificou seu povo, vida e morte e luta, o dos cinco combatentes. Mas quero depois esquecer tudo, não vou de reinventar a verdade. Tem documentos, papéis passados e guardados, recebidos nas mãos de um jornalista, um mulato oxigenado no sotaque português, na estrada que de Benguela sobe na Serra de Xicuma, naqueles dias ímpios de 75, quando a nossa pátria, acantonada num quintal, era só de bandeira e hino.»

Uma noite não são dias... nem todos os gajos são parvos!

Acabo de ler o último do Mário Zambujal. Lê-se bem e faz rir. A sério. Embora saiba que o Mário pode fazer melhor, o livrinho tem algumas muito bem achadas.
Embalado pela leitura, vou reproduzir um mail ultra-nético enviado pelo meu neto John Dimitrius ao meu outro neto Gonçalo Nunes, nesse esquisito ano de 2044, e que, por obra do destino (o destino tem cada obra...), me chegou ao computador:

Mano,
Como de costume, vou faltar ao almoço combinado, no Restaurante do Mercado Paulo Portas, não pelas não-razões habituais, mas porque tive de vir a Oporto tratar de uma coisa inacreditável que só visto e à vista: uma gaja muito boa (ao que se vê no bodybook) que não quer sexo virtual… vamos lá a ver se ainda sou capaz de sexo real!
Viajo no Relâmpago Sócrates (ex-CGV) e, além desta mensagem, estou a rever umas notas para a aula de amanhã que vou dar a Timor sobre a História de Portugal. A partida é no Aeroporto Mário Lino às X e XIV (o meu Rollex foi comprado em Roma, e em Roma sê romano…). Se puderes ir à Gare Palma Inácio, ao embarque, ainda te levava uma embalagem liofilizada de papas de sarrabulho.
Mas... voltando à História de Portugal, vou explicar lá aos timorenses unidos (e que, por isso, jamais serão vencidos... dizia o nosso avô) como é que, aqui em Portugal, se fez a reforma da educação conhecida pela "reforma da lurdinhas", apesar da incrível oposição de um façanhudo comunista (nesse tempo havia uns gajos assim, antes da perestroca)) chamado Mário Nogueira que não queria era ser avaliado nem por nada .
Estou a atravessar o túnel sob o rio Manuel Alegre (parece que vinha para cá pescar, esse bardo-maior da nossa política), e estou aqui estou a chegar a Oporto, depois de uma estafante viagem de XXXVII minutos, no meu relógio..., desde Lisbon-on-Carmona River (houve mais que um Carmona, mas este que mudou o nome ao Tagus parece que foi presidente provisório da Câmara no século passado).
Estou quase a chegar mas ainda te digo que estou preocupado com a saúde das nossas mães, até porque não têm médico de família, coisa que está por resolver desde que se decidiu melhorar o Serviço Nacional de Saúde criado pela Rainha D. Leonor, e revisto por um francês de nome Arnaud, que veio para Portugal com os imigrantes à babujem do tal 25 de Abril é que era para ser.
Vejo aqui na TV Marcelo da minha poltrona, no canal Histórias, que no julgamento do caso Casa Pia, que uns putos inventaram, um tal Armando Vara foi arguido até morrer (e de velho!), por ter telefonado ao seu amigo e correligionário Sócrates a falar sobre um Freeport qualquer, a dizer não se sabe o quê porque o Supremo Tribunal de Contas privatizou todas as escutas em que entrasse o Presidente do Conselho. E fez um grande negócio...
Olha, cheguei à Gare Pinto da Costa, e vou a correr para a cama da tal fulana que está à minha espera. Já viste isto? Ele há cada ela… Espero que o colchão seja de água destilada e ela tenha tomado as devidas precauções. Porque o sexo real tem os seus riscos. E não quero cá gravidezes. Dela ou minha.
Se não for antes, até à próxima, no meu regresso de Lorosai City.
Osculo-te fraternalmente, e à tua cara-metade mais aos rebentos meus sobrinhos.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 4ª nota-transcrição

Estarei a repetir-me, ou é o autor que se repete porque o personagem se repete e repito o personagem (ou será o autor que eu repito?). Será que isto da velhice é repetir histórias já recontadas (ou requentadas?).

Não sei, mas tenho uma compensação (isto digo eu...) é que não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida.


página 184:


"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida."

domingo, outubro 25, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 3ª nota-transcrição


"São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora. Nem sei se era muito moço ou muito velho, só sei que me olhava quase com medo, sem compreender a intensidade daquele meu desejo."


(páginas 138/139)


São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que nem sei em que camada da memória eu estou às vezes. Nem sei se agora sou muito jovem numa lembrança de ontem ou se, daqui a um tempo (quanto?), sou muito velho numa lembrança de há muitos anos passados, só sei que, numas vezes, me olho e vejo como um jovem com medo da vida e que, noutras vezes, me olho e vejo como um velho destemido perante a morte. Ou é o contrário: um jovem destemido perante a morte e um velho com medo da vida?
(Isto digo eu... enquanto me lembro... e de tanto me lembro!)

Caim e os ódios que Saramago concita


Caim é um romance. De um escritor chamado José Saramago.
Estava na fila, à espera de vez. Com dois com-correntes de muito peso á frente. Nada menos que um Roth – Indignação –, já começado, e logo entusiasmando desde as primeiras páginas, e um Luandino Vieira – O Livro dos Guerrilheiros – que muitas e acrescidas razões fazem prioritário.
Mas outras razões, e sem-razão algumas, se levantaram. E estou a ler Caim. Uma das sem-razões é a de que não me quero deixar cair na tentação de ignorar o romance ao vê-lo afogado na polémica aparentemente teológica, se deus, num romance, deve (ou pode) ser chamado filho da puta ou não, se Saramago tem o direito ou não de continuar nosso compatriota.
Saramago concita ódios. Porque é, (quase) consensualmente, um enorme escritor. Porque ganhou o Nobel. Porque se afirma comunista e membro do Partido Comunista (embora tantas vezes não o pareça, ou pareça ser do Partido Comunista-José Saramago – PCP-JS). Porque não foge a temas – ou até os procura – polémicos, e sobre os temas que a sua capacidade inventiva escolhe, romanceia com prodigiosa criatividade e manejo da língua escrita. Porque acicata frustrações em falhados que o álcool torna piores ainda. Porque tem aquele feitio que a idade, a doença e outras circunstâncias exacerbaram. Também talvez porque ele goste de estar no centro do mundo, e algo o empurre para se substituir ao deus em que não acredita mas que o formatou.
Nesta espécie de polémica que nos avassalou, não faltou quem tivesse vindo anavalhar canhalhamente o homem, ignorando deliberamente o escritor. E o romance.
Não entro nesse lodaçal. Estou a ler o romance. Como quem se refugia num canto da sua casa para não apanhar com salpicos da lama levantada pela pedra atirada ao charco.
Aqui voltarei com o livro lido.