domingo, maio 16, 2010

Eu sou português aqui

Na viagem matinal pelos blogs - nem sempre possível... - passei pelo papoila25 e encontrei esta mensagem relativa a um serão diferente.
Obrigado, embora a mim não fosse dirigida. Gostei... e deu-me a nostalgia!
Antes mesmo da sua abertura formal, com Prémio Nobel e televisão (assim acontece), a livraria e editora Som da Tinta teve a visita do José Fanha, que ofereceu alguma da sua poesia aos portugueses daqui, oureenses presentes. Foi muito bonito. E prometedor!
E foram sete anos que, como servidores, a cultura quisemos servir. Valeu a pena. Mas tudo tem um fim, sobretudo quando esse fim é desejado por outros e apressado. Mas... valeu a pena!
Lembrei, nostálgico, esse segundo momento da Som da Tinta (o primeiro fora uma exposição de pintura). Que entusiasmo tínhamos. Era um nosso projecto para os dias do resto da nossa vida. Outros havia. E há! Com eles continuamos. Vivos. Na luta.
Também, o pequenino projecto de não deixar morrer as sementes que a Som da Tinta quis lançar. E atirou ao chão que pisamos. Como este blog, um tanto abandonado. Mas aqui, português e oureense.

segunda-feira, maio 03, 2010

Obrigado, Andrés

Este Andrés é cá um urug(u)ajo!
É, decerto, o mais português (e o mais oureense!) de todos os uruguaios.
Obrigado, amigo (e camarada)!

sexta-feira, abril 09, 2010

Kusturica em Ourém - Gato Preto, Gato Branco

A segunda sessão de Kusturika em Ourém, que se deseja que seja de noites de cinema no Museu Municipal, venceu de novo a concorrência do Benfica-Liverpool, e... não desmereceu a vontade da equipa promotora. Salinha bem composta!

Gato Preto, Gato Branco não é Underground. Depois de Underground, de certo modo continuando Underground (na banda sonora). quase se pode dizer que pretende apagar Underground. O mesmo humor, a mesma maestria no contar história(s) de forma diferente, aparentemente caótica, o mesmo (e melhor) manejo da câmara... mas a despolitização antitética da politização, que teria sido etiquetada de excessiva (pró-sérvia), de Undeground.

De Gato Preto, Gato Branco - que já vira antes, sem antes ter visto Underground -, talvez sobretudo me tenha ficado a vontade de voltar a ver Underground. Coisas minhas...

E lembrei, e trouxe comigo, a lembrança do que considero das coisas mais bonitas que tenho visto em cinema: o campo de girassóis a encher-se de risadas e de jogo de juventude e de amor.

Aliás, é sobre esses planos que me apeteceria dizer mais, e não sobre as escatológicas cenas de mergulho nos dejectos e de servirem os gansos de toalha ou lençol de banho de limpeza, que talvez tenham tido mais efeito que esses planos... Mas seria isso que desejava Kusturika, que queria fazer uma comédia, que queria fazer o que fizesse rir porque, para pensar em coisas muito sérias, chegara (e teria abusado, a juízo de alguns...) Underground.
.
Gato Preto, Gato Branco é: algum desvario circense e uma caricatura etnográfica desenfreada (como já li, mais ou menos...) e, de certo modo, banda desenhada com banda sonora incorporada e irresistível.

Para acabar o apontamento, duas frases rascunhadas às escuras:

  1. «a um casamento azarado pode fugir-se, mas não ao destino»

  2. «cala-te quando falas comigo!»
Venha a terceira sessão (em que, infelizmente, não poderei estar...)

quinta-feira, abril 08, 2010

Rubem Fonseca - O Seminarista


Páginas 84/5:

« (…) e fui me arrastando, arrastando como um verme. Então me lembrei de uma frase que li num dos livros de Bruce Chatwin, sobre a importância da postura ereta, ainda mais do que o desenvolvimento da linguagem, ainda mais do que a presença do superego, entre esses atributos do homem que o elevaram acima do reino animal, a postura ereta era o mais importante. Anda, seu filho da puta, eu disse para mim, fica em pé, ereto, seu merda, ereto.
Então, com grande esforço me ajoelhei, depois me ergui lentamente, ficando em pé. Ereto. Poder sair do lixo sem rastejar me deu uma das maiores alegrias da minha vida. Fui andando, cambaleando mas ereto, dando passos lentos, mas ereto, como um homem deve caminhar, ereto. (…)»
.

(tal-qual na edição original, segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009... mas custa trans-escrever erecto sem c...)

quarta-feira, abril 07, 2010

Rubem Fonseca - sobre Lima Barreto e o futebol

Há dois ou três autores assim. Estou a lê-los… e só me apetecia ter escrito aquilo. Por isso, sublinho, dou cabo dos livros, transcrevo.
Rubem Fonseca é um deles. Estou a ler O Seminarista:
Págs. 73/4:
«"(… ) além de grande escritor, era um cara interessante, remava contra a maré, odiava arranha-céus e futebol. De futebol, naquela altura como até hoje, todo mundo gostava. Mas então era um esporte de brancos ricos, e isso o mulato pobre, recalcado, que comia o pão-que-o-diabo-amassou, odiava, com toda a razão. E o futebol continuou sendo um tumor discriminatório até que o Vasco da Gama fez um time com pretos e pobres e ganhou o campeonato em 1923. Por causa dos pretos e dos pobres do time o Vasco foi expulso da Liga de Futebol, mas o golpe na discriminação já havia sido dado e com o tempo a criolada e os pés-rapados dominaram os campos. Mas em 1923 o Lima Barreto já estava morto… ele morreu em… vê aí no livro."
"Primeiro de Novembro de 1923."
…»

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13.05.1881 - Rio de Janeiro, 01.11.1923), foi um jornalista e um dos maiores escritores libertários brasileiros. Filho de mulato nascido escravo e de "escrava agregada", as lembranças e vivências do fim do período imperial no Brasil e da abolição da escravatura exerceram influência na importante obra de Lima Barreto.

terça-feira, abril 06, 2010

Rubem Fonseca-Petrarca (ou vice-versa)

Bendito seja o dia,
e o mês,
e o ano,
e a estação,
e o tempo,
e a hora,
e o momento,
e o formoso país,
e o lugar
em que fui preso aos dois belos olhos que me cativaram...
.
(O Seminarista... aqui voltarei... breve!)
.

(o momento foi a Festa do avante!,
o lugar Jamor,
o mês Setembro,
o ano 1978
... não foi?)

sexta-feira, abril 02, 2010

Underground - Kusturika

Venho de regresso de uma noite diferente. Em Ourém. Porque houve quem a proporcionasse. Iniciativa e trabalho de uma equipa (julgo eu...) que merece parabéns e estímulo
Um serão cultural. De cinema. No Museu Municipal. O ciclo Kusturika. Em Abril.
Venho satisfeito. E impressionado. Não diria em estado de choque... impressionado, está bem.
Não sabia se tinha visto Underground. Não tinha. É Kusturika, em 1996, a contar-nos, doridamente (muito doridamente, embora às vezes não parece, e nos faça sorrir e rir), o seu País, a Iugoslávia. Que era uma vez...
Só três frases gravadas (e não por serem das últimas, embora por razões kusturikas o sejam), e para ficarem como registo desta primeira noite... do resto das nossas vidas oureenses?

  1. Uma guerra só é mesmo uma guerra se irmão mata irmão.

  2. Era uma vez um País. (a penúltima do filme, também sub~título, como também é «Mentiras de Guerra»)

  3. Esta história não tem fim. (a última do filme.)

domingo, março 21, 2010

Estado de guerra

Estado de guerra

  • o sem sentido do estado de guerra em que estamos vivendo, filmado (bem) do lado dos Estados Unidos da América (mas haverá outro lado, perguntar-se-á...)

Enquanto (vi)via, lembrei-me bastas vezes de Apocalipse Now

  • a/uma tomada de consciência (do lado dos EUA... mas haverá outro?) do sem sentido do sem sentido do estado de guerra em que estamos vivendo.

quarta-feira, março 17, 2010

À conversa com... Woody Allen

‘Tás porreiro, pá?[1]
‘Tás velhote… mas não és o único, aliás somos do mesmo "ano das sortes” (1935)! Deixa lá. Não há-de ser nada...
.
Há que tempos que não te via. Até porque há muitos meses não íamos (ela e eu) ao cinema. Temos visto filmes, mas “ir ao cinema” é outra coisa.
Gostei de estar contigo. Estás cada vez mais na mesma. E ainda bem.
Como sabes (não sabes, mas é como se soubesses), sempre apreciei muito esse teu lado bretchtiano levado para o cinema. A tua maneira de contar, como te esforças para que não haja paredes entre nós, nem de vidro no teatro, nem de tela no cinema, esta maneira de estarmos à conversa.
Desta vez, neste teu filme, várias vezes nos interpelaste enquanto contavas coisas cá da gente, melhor, cá das gentes que somos, e pelos caminhos por que andamos.

Gentes comuns, como dizia o outro? Mas quem é que não é gente comum, quem não nasce do acaso de um espermatezóide que encontrou o caminho e sofre a angústia de ir deixar de ser… talvez hoje porque não foi ontem? Quem?! O frustrado genial Prémio Nobel da química quântica?, o genial contador de vida (e de Nova Iorque em cinema) com um nome estranho e judeu e conhecido por Woody Allen?
Pois... Chamaste-nos de lado, aos que perceberam e quiseram acorrer à tua interpelação, para umas pequenas conversinhas de “ao pé da orelha”, que se calhar passaram desapercebidas a muitos de nós, mas que só eram – acho eu… – a forma (o truque?) de nos dizeres, a todos, que era assim que estavas a contar a estória. Sem nada entre nós. Nem “na manga"!...
Muito das nossas vidas sobre que conversavas connosco até pareciam nem serem nossas, naturais, do dia-a-dia, dado o traço grosso, finíssimo!, caricaturado, com que fazias os desenhos, mas tudo era a nossa vida, bem cá de dentro de cada um. E tu sabias. E por isso nos interpelavas.
Anda é tudo distraído. Aliás, é o estado normal. Em que nos querem congelar.
Como tu chamavas a atenção, nem os que te acompanhavam no contar da estória nos viam, ou “se viam” (a si), quando tu nos vias e connosco falavas directamente, como os “do lado de cá”. Talvez com a excepção da miúda loura, e cretina, e estúpida, que não era nem estúpida, nem cretina mas que era loura e tinha uns olhos lindos e um corpinho para começar a valer uns 5 e ficar nos 8 (e sem favor!).
Olha… gostei de conversar contigo. Saudações à companheira que te tenha calhado em destino para este momento, ou que se te tenha destinado por ser médium… Boa sorte!


Aparece no Zambujal!
Era giro...

PS: Só uma espécie (só uma espécie…) de conselho: devias ler um autor que referes, um tal de Karl Marx. Fazia-te/nos bem.
_________________________
(1) - Poupo-te às explicações de como esta amigável elocução foi conspurcada. Coisas lusas...

domingo, fevereiro 14, 2010

Livros em leitura

Passo por aqui e vejo que desde 5 de Janeiro nem uma mensagenzinha. Acho mal.
É certo que o último post era mesmo uma mensagem que não teve o efeito desejado (e endereçado)... mas acho mal não ter aqui voltado.
Não que me preocupe que possam pensar que não estou a ler... mas não queria que este blog de leitura fosse desaparecendo. Seria como se o/a Som da Tinta fenecesse definitivamente.
Tenho lido, sim senhor.


Uma novela policial do Dashiell Hammet. Interessante.
Um livro de crónicas do Nuno Lobo Antunes (sempre, antes de adormecer) que me foi muito amigavelmente oferecido. Umas crónicas... curiosas. Algumas agradando-me muito, outras não tanto. Mas um escorreito contar de vivências, aqui e ali perfeitamente conseguido. Talvez, para as (des)horas a que leio, não propiciando dormires tranquilos porque há por ali demasiada doença... e logo cancros. Mas lá vou dormindo. A crónica sobre a IGV tem que se lhe diga. Terá... Até porque me parece séria, honesta. Não política na péssimo uso que dão ao belo vocábulo, Talvez cá volte.
Um folhear um pouco à toa de uma outra oferta amiga, o Dicionário Lula. Vale a pena ir acompanhando. O homem, e como é, ajuda a compreender umas coisecas da maior importância. Para o nosso futuro. Aquele em que não estaremos mas para que queremos contribuir.
Livro vindo na bagagem do Brasil. Como o do Dashiell, como muitos outros.

E este. Este que me está absorvendo. E a que não chamaria leituras. Que foi editado há duas décadas e que é de urgente reedição.

terça-feira, janeiro 05, 2010

No Comboio Nocturno...

No princípio, foi o gesto. Da oferta e da dedicatória amigas e solidárias. Só depois foi o verbo, foram as palavras. Da dedicatória. Das 400 páginas do livro. Das 400 páginas de Comboio Nocturno para Lisboa, que me acompanhou nas viagens deste mês. Umas para longe, outras antes de fechar a luz para adormecer.
Não sei se o livro tem muitas referências nos locais em que se escreve sobre livros. Por razões (e sem razões também) ando afastado dessas leituras. Mas tenho indícios de que está a ser um êxito de edição. A quem falo dele me respondem que já o conhecem. Alguns porque o têm… nenhum porque o tenha lido ou querido comentar. A edição portuguesa que me foi oferecida em meados de Novembro é a 3ª edição, a brasileira (Trem da noite em vez de Comboio nocturno…), está bem visível nos escaparates, e folheei-a na casa dos amigos que o tinham comprado, até para confrontar pedaços das traduções.

Um livro… interessante. Muito significativo do tempo que vivemos. E não me refiro aos anos, talvez nem às décadas. Refiro-me ao tempo sem medida certa que vivemos.
O autor, o narrador, o(s) personagem(ns) vivem e especulam sobre a sua existência. Enquanto é, e para depois de ser. Como indivíduos. Relendo a dedicatória, ncontrei lá, no livro, a natureza humana, é certo, mas bem limitada, bem confinada à individual natureza humana. E creio eu estar certo de que há uma segunda natureza humana, que é a condição social, a que transcende o indivíduo que cada um de nós é.
Está ela, esta segunda (but not the least!) natureza humana, ausente do livro? Claro que não, claro que não poderia estar. Mas faz figura de figurante, de paisagem, de cenário em que se movem os personagens. Cada um, um. E cada um à procura de si. De si próprio.
No livro, há parcelas. Mas não se vêem somas, a não ser ao longe, e reduzidas a simples conjuntos de parcelas. Não outra coisa. Somas, qualitativamente diferentes das parcelas!
A definição do substrato do livro – que ensaio filosófico, ou de filosofia, é – está no discurso (Reverência e aversão perante a palavra de Deus) do personagem central que, ao terminar, diz, em jeito de ameaça "E que ninguém (quem?, Deus?) me obrigue a escolher". Mas poderia/quereria ele escolher, poderá/quererá cada um de nós escolher? Ou poderá, cada um de nós, não escolher, ou escolher não escolher?
Aliás, e em parênteses, devo dizer que a evolução e degenerescência Amadeu Prada é muito bem dada. Porque “escolheu” não deixar de ser o que era! Ou, melhor dizendo, não teve força para deixar de ser o que era, um indivíduo do/no mundo das catedrais e, noutra acepção, da classe dominante, com incursões diletantes por posturas de resistente.
Não me vou alongar. Só duas ou três notas sobre um dos motivos da oferta amiga: o meu testemunho vivo, vivido, “desse tempo”.
No livro – interessante, interessante – só há resistentes, não há resistência, não há colectivos e suas dinâmicas, e quando se pretende (se se pretende) lá chegar, talvez através do João Eça, falha em toda a linha; no livro, não há repressão, há repressores, há “homens maus”, há esbirros como o personagem bizarro do Mendes (e acólitos que aparecem em aulas de alfabetização…).
A dramatização do triângulo amoroso/passional Jorge-Estefânia-Amadeu através da decisão de executar quem, por saber demais, poderia pôr em risco a resistência, e a decisão (por amor, por paixão? porquê?) de não o fazer é… caricata.
O Tarrafal tem um relevantíssimo significado na nossa História, recente ou não. Foi a criação do campo da morte lenta, em 1936. Foi o clímax/símbolo da repressão fascista. Mas… o último preso foi transferido em 1953 (Francisco Miguel para Caxias), e o campo foi oficialmente fechado em Janeiro de 1954, tendo sido reaberto em 1962 apenas para os presos das colónias e em razão (!) da guerra colonial.
A figura do juiz, pai de Amadeu, só teria alguma coerência se fosse juiz do chamado Tribunal Plenário, criado para julgamentos políticos (antes deles era em tribunais militares), porque as instituições judiciais não estavam directamente ligadas à repressão fascista. O tal “Tribunal Plenário”, enquanto existiu (de 1945 a 1974, em Lisboa e no Porto) foi constituído por meia dúzia de juízes, escolhidos “a dedo”.
O autor, sem prejuízo da erudição que fundamenta as suas reflexões e do seu evidente interesse por esse período da História de Portugal poderia (e deveria) ter-se informado minimamente para não ser tão pouco (ou nada) rigoroso com figuras e factos que refere e que são históricos.
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Foi uma boa leitura a partir de um gesto que muito me tocou.

quarta-feira, novembro 11, 2009

11 de Novembro

Dia de S. Martinho (É pelo São Martinho que um homem descobre como em-velho-sou) .

Dia da Independência de Angola, em 1975 (unilateral, depois de Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Princípe, Cabo Verde... uma história para contar!)

De Luandino Vieira:

«Cantarei 0 herói, o que sempre exemplificou seu povo, vida e morte e luta, o dos cinco combatentes. Mas quero depois esquecer tudo, não vou de reinventar a verdade. Tem documentos, papéis passados e guardados, recebidos nas mãos de um jornalista, um mulato oxigenado no sotaque português, na estrada que de Benguela sobe na Serra de Xicuma, naqueles dias ímpios de 75, quando a nossa pátria, acantonada num quintal, era só de bandeira e hino.»

Uma noite não são dias... nem todos os gajos são parvos!

Acabo de ler o último do Mário Zambujal. Lê-se bem e faz rir. A sério. Embora saiba que o Mário pode fazer melhor, o livrinho tem algumas muito bem achadas.
Embalado pela leitura, vou reproduzir um mail ultra-nético enviado pelo meu neto John Dimitrius ao meu outro neto Gonçalo Nunes, nesse esquisito ano de 2044, e que, por obra do destino (o destino tem cada obra...), me chegou ao computador:

Mano,
Como de costume, vou faltar ao almoço combinado, no Restaurante do Mercado Paulo Portas, não pelas não-razões habituais, mas porque tive de vir a Oporto tratar de uma coisa inacreditável que só visto e à vista: uma gaja muito boa (ao que se vê no bodybook) que não quer sexo virtual… vamos lá a ver se ainda sou capaz de sexo real!
Viajo no Relâmpago Sócrates (ex-CGV) e, além desta mensagem, estou a rever umas notas para a aula de amanhã que vou dar a Timor sobre a História de Portugal. A partida é no Aeroporto Mário Lino às X e XIV (o meu Rollex foi comprado em Roma, e em Roma sê romano…). Se puderes ir à Gare Palma Inácio, ao embarque, ainda te levava uma embalagem liofilizada de papas de sarrabulho.
Mas... voltando à História de Portugal, vou explicar lá aos timorenses unidos (e que, por isso, jamais serão vencidos... dizia o nosso avô) como é que, aqui em Portugal, se fez a reforma da educação conhecida pela "reforma da lurdinhas", apesar da incrível oposição de um façanhudo comunista (nesse tempo havia uns gajos assim, antes da perestroca)) chamado Mário Nogueira que não queria era ser avaliado nem por nada .
Estou a atravessar o túnel sob o rio Manuel Alegre (parece que vinha para cá pescar, esse bardo-maior da nossa política), e estou aqui estou a chegar a Oporto, depois de uma estafante viagem de XXXVII minutos, no meu relógio..., desde Lisbon-on-Carmona River (houve mais que um Carmona, mas este que mudou o nome ao Tagus parece que foi presidente provisório da Câmara no século passado).
Estou quase a chegar mas ainda te digo que estou preocupado com a saúde das nossas mães, até porque não têm médico de família, coisa que está por resolver desde que se decidiu melhorar o Serviço Nacional de Saúde criado pela Rainha D. Leonor, e revisto por um francês de nome Arnaud, que veio para Portugal com os imigrantes à babujem do tal 25 de Abril é que era para ser.
Vejo aqui na TV Marcelo da minha poltrona, no canal Histórias, que no julgamento do caso Casa Pia, que uns putos inventaram, um tal Armando Vara foi arguido até morrer (e de velho!), por ter telefonado ao seu amigo e correligionário Sócrates a falar sobre um Freeport qualquer, a dizer não se sabe o quê porque o Supremo Tribunal de Contas privatizou todas as escutas em que entrasse o Presidente do Conselho. E fez um grande negócio...
Olha, cheguei à Gare Pinto da Costa, e vou a correr para a cama da tal fulana que está à minha espera. Já viste isto? Ele há cada ela… Espero que o colchão seja de água destilada e ela tenha tomado as devidas precauções. Porque o sexo real tem os seus riscos. E não quero cá gravidezes. Dela ou minha.
Se não for antes, até à próxima, no meu regresso de Lorosai City.
Osculo-te fraternalmente, e à tua cara-metade mais aos rebentos meus sobrinhos.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 4ª nota-transcrição

Estarei a repetir-me, ou é o autor que se repete porque o personagem se repete e repito o personagem (ou será o autor que eu repito?). Será que isto da velhice é repetir histórias já recontadas (ou requentadas?).

Não sei, mas tenho uma compensação (isto digo eu...) é que não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida.


página 184:


"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida."

domingo, outubro 25, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 3ª nota-transcrição


"São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora. Nem sei se era muito moço ou muito velho, só sei que me olhava quase com medo, sem compreender a intensidade daquele meu desejo."


(páginas 138/139)


São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que nem sei em que camada da memória eu estou às vezes. Nem sei se agora sou muito jovem numa lembrança de ontem ou se, daqui a um tempo (quanto?), sou muito velho numa lembrança de há muitos anos passados, só sei que, numas vezes, me olho e vejo como um jovem com medo da vida e que, noutras vezes, me olho e vejo como um velho destemido perante a morte. Ou é o contrário: um jovem destemido perante a morte e um velho com medo da vida?
(Isto digo eu... enquanto me lembro... e de tanto me lembro!)

Caim e os ódios que Saramago concita


Caim é um romance. De um escritor chamado José Saramago.
Estava na fila, à espera de vez. Com dois com-correntes de muito peso á frente. Nada menos que um Roth – Indignação –, já começado, e logo entusiasmando desde as primeiras páginas, e um Luandino Vieira – O Livro dos Guerrilheiros – que muitas e acrescidas razões fazem prioritário.
Mas outras razões, e sem-razão algumas, se levantaram. E estou a ler Caim. Uma das sem-razões é a de que não me quero deixar cair na tentação de ignorar o romance ao vê-lo afogado na polémica aparentemente teológica, se deus, num romance, deve (ou pode) ser chamado filho da puta ou não, se Saramago tem o direito ou não de continuar nosso compatriota.
Saramago concita ódios. Porque é, (quase) consensualmente, um enorme escritor. Porque ganhou o Nobel. Porque se afirma comunista e membro do Partido Comunista (embora tantas vezes não o pareça, ou pareça ser do Partido Comunista-José Saramago – PCP-JS). Porque não foge a temas – ou até os procura – polémicos, e sobre os temas que a sua capacidade inventiva escolhe, romanceia com prodigiosa criatividade e manejo da língua escrita. Porque acicata frustrações em falhados que o álcool torna piores ainda. Porque tem aquele feitio que a idade, a doença e outras circunstâncias exacerbaram. Também talvez porque ele goste de estar no centro do mundo, e algo o empurre para se substituir ao deus em que não acredita mas que o formatou.
Nesta espécie de polémica que nos avassalou, não faltou quem tivesse vindo anavalhar canhalhamente o homem, ignorando deliberamente o escritor. E o romance.
Não entro nesse lodaçal. Estou a ler o romance. Como quem se refugia num canto da sua casa para não apanhar com salpicos da lama levantada pela pedra atirada ao charco.
Aqui voltarei com o livro lido.

sábado, outubro 24, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque - 2ª nota-transcrição

"... Porque talvez tivesse a intuição de que em breve os tempos seriam outros, e meu pai jamais se prestaria a permanecer num tempo que não era o seu. (...)
Na política, a civilidade daria lugar ao cabotinismo e ao espalhafato, e tampouco vejo meu pai pedindo votos em praça pública, subindo em palanques, apertando a mão de populares, sorrindo para fotografias com a roupa suja de gordura."

(páginas 131/132)










O tempo trouxe-me a certeza de que os tempos são outros, que os tempos de hoje são (de) outros. Não me consinto é viver num tempo que não seja meu. Não nestes tempos que querem que eu aceite como se meus fossem.
Nestes tempos (de) outros, a política, a civilidade, o esclarecimento e o debate têm o espaço ocupado pelo espectáculo e pela ostentação, é o "vale tudo" que prevalece, não me vejo a pedir votos na praça pública a troco de promessas, a subir a palanque para discursos demagógicos, a jorrar ilusões em catadupa, a ir a festas a que não iria, a apertar mãos que não apertaria, a beijar crianças que não beijaria, a sorrir para fotografias em que estaria sizudo se não fosse tempo de eleições.
(Isto digo eu... e teria dito o meu pai)

sexta-feira, outubro 23, 2009

Reflexões lentas e curtas - leituras à margem das polémicas e da Bíblia

Não me contradito. Persisto e assino o já dito.
Não se discutem dogmas! Não se polemiza com dogmáticos.
Os dogmas aceitam-se ou rejeitam-se. Por princípio, rejeito-os; por proto-dogma, não os discuto, até porque o dogma é “um ponto indiscutível de uma crença”.
Posso (posso?) é perguntar, aos que aceitaram uns dogmas, se conhecem os dogmas que aceitaram.
Por exemplo, à margem da actual polémica suscitada pelo livro de José Saramago, há quem tenha vindo, prenhe de dogmas (decerto gémeos…), invocar os Dez Mandamentos como um “código de boa conduta”, e logo ali, expeditamente, excomungar o autor de um romance que não leu, expulsando-o de seu (e nosso) compatriota.
Pego só no último mandamento desse exemplar código de conduta... No 10º mandamento (aliás 17., no capítulo xx de Exodo, Antigo Testamento-II, 1961). Na redacção, tal como nesta edição, da Bíblia Ilustrada, das “tábuas da lei” entregues a Moisés, está: “não cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás a mulher do teu próximo, nem seu servo ou serva, o seu boi ou o seu jumento, nem nada que lhe pertença”.
Não desejar “a mulher do próximo”, ao mesmo nível da interdição de cobiçar a casa do próximo e de não desejar, do próximo, o servo ou a serva, o boi ou o jumento, ou qualquer outra coisa que a este pertença?!
Então… e se a mulher do próximo, reciprocamente, me desejar a mim – por estar próximo… – ou a outro, e não se considerar coisa possuída mas ser humano… apesar de ser mulher?!
Estarei a descontextualizar? Talvez. Mas o curioso é que as contextualizações e adaptações, para aggiornamiento dos textos, não obviam a que, em resumos actuais, se diga, enquanto "Lei de Deus", 10º - Não cobiçarás a casa do teu próximo e nem a mulher do teu próximo.
Conhecerá, o dogmático, o dogma? E a sua esposa, conhecê-lo-á… e aceita-o?
Se conhecem e aceitam... ponto final!

Leite Derramado, Chico Buarque - 1ª nota-transcrição

"Mais coisas direi. A mim mesmo… Tiradas do livro. Só três ou quatro."



Assim terminei, vai para um mês, o último "post". Sobre Leite Derramado, do Chico Buarque. Antes das legislativas e das autárquicas. Aqui não voltei, faltando às promessas (a mim próprio... porque só a mim as faço).

Passo em revista este "mês de loucura" e vejo que, apesar de tudo, não deixei de ler, de ter matéria para aqui vir. Mas, antes disso, cumpram-se as promessas.


pág. 96 de Leite Derramado:


"Então me desculpe, esqueça, dê cá um beijo. Vai ver que andei delirando, e de bom grado voltarei a falar somente de coisas que você já sabe. Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço de alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese da história se extraviar."


É para si próprio que um velho repete as histórias que conta do que viveu, como se estivesse a tirar fotocópias nessas máquinas que agora por aí há, repete para evitar que as hstórias se esqueçam ou se extraviem! (Isto digo eu...)

domingo, setembro 20, 2009

Leite Derramado, Chico Buarque

Tenho “a escrita atrasada”! O que, para um “contabilista”, é preocupante.
Há muito tempo não presto contas das leituras. A quem? A mim mesmo se a mais ninguém for.
E um livro lido não me larga. Resiste ao tempo transcorrido, a necessidade de sobre ele escrever – sim, a necessidade – sobrevive a muita e tanta outra ocupação do tempo e do espírito.
Começo logo, ao "pôr a escrita (sobre as leituras) em dia”, por uma apóstrofe “Grande Chico! Grande livro, senhor Chico Buarque!”.
É que o livro é Leite Derramado, de Chico Buarque, Companhia das Letras, Brasil, 2009.
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Acontece que o li depois de Exit – o fantasma sai de cena, de Phillip Roth, o que tornou a leitura mais… complicada. Dois grandes livros sobre a velhice. Muito diferentes mas iguais no/para este leitor. Que velho é, e se encontrou – aqui e ali… - no que lia em um e no outro livro.
Do de Roth já “prestei contas”. E não foram fáceis… Já do de Chico, essas contas são bem diferentes.
Depois de ter lido umas “coisas interessantes” em que visitou o universo da literatura, com este Leite Derramado, Chico Buarque instalou-se nesse universo de reservado direito de admissão. Este é, na minha leiga opinião, o livro de um escritor.
Um texto consistente, muito bem urdido, com as medidas todas e certas.
E pergunta-se, o leitor que fui do seu livro, como é que ele conseguiu.
É como se o escritor tivesse sido velho, com a memória a falhar e a confundir tudo, e tivesse voltado, novo, rejuvenescido, para contar como tinha sido, como fora ser velho.
Já outros grandes escritores fizeram parecido. Mas só parecido. Por exemplo, e só para exemplo, José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires estiveram, por doença, quase “do outro lado” e voltaram para contar. Mas o Chico não. Porque não é a mesma situação de regresso. É um regresso de onde não se pode ter ido, um regresso de onde se não regressa.

De uma estada num hospital, de um colapso cardíaco, volta-se, ou pode voltar-se, para contar como foi. De um estado de senilidade mesclado de lucidez não se regressa. Até porque as intermitências são definitivas até chegar o fim de tudo.
Chico Buarque sem ter ido, sem ter vivido, sem ter sofrido o que nem sofrido será, regressou. Para contar. Como se tivesse ido, vivido, sofrido.
E, escritor a construir ficção, conta onde foi, como viveu, o que teria sofrido se sofrido fosse, mas conta também, e muito bem, tudo o que é o quadro dessa viagem individual, solitária, que não pode ter feito. Conta o Brasil, conta o contexto, o que foi passado e o que é.
Depois de Roth me ter conquistado e esmagado, Chico veio conquistar-me e fazer-me acreditar que um escritor pode contar o que não viveu, regressar de viagens que não fez, que não podia ter feito.

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Mais coisas direi. A mim mesmo… Tiradas do livro. Só três ou quatro.