sexta-feira, agosto 21, 2009

terça-feira, julho 28, 2009

O fantasma sai de cena... porque já não pertence a este lugar - 8

Vou terminar!
Tenho de passar a outro livro, a outras leituras.
E fecho estas notas sobre um livro que me impressionou com um apontamento sobre um trechoparágrafo aparentemente marginal mas que saboreei, com um gosto agridoce, mais acre que doce...

"(...) Estávamos sentados junto à vitrina da cafetaria e víamos as pessoas que passavam na rua. No momento em que levantei os olhos, cada uma falava ao seu telemóvel. Porque é que aqueles telefones pareciam corporizar tudo aquilo a que eu tinha de fugir? Eram um progresso tecnológico inevitável e no entanto, na sua abundância, eu via até que ponto me tinha afastado da comunidade das almas contemporâneas. Já não pertenço a este lugar, pensei. (...)"
O fantasma sai de cena!
(Qual deles... ou quais deles?)
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segunda-feira, julho 27, 2009

O fantasma sai de cena? ... isto acaba é mal! - 7

Morrer? Estou-me nas tintas... envelhecer é que é uma chatice! Esta era a forma (traduzida livremente) que Brel encontrou para dizer o que sentia, o que sentimos quando a idade avança.
A vida? Ah, é uma coisa muito, muito boa... acaba é mal, dizia (mais ou menos assim) o Manel da Fonseca com o seu modo alentejano de seroar.
E o Philip Roth escreveu este Exit - o fantasma sai de cena para dizer o mesmo, ou parecido, como se fossem outros a dizê-lo lá pelo meio das páginas.
Veja-se só uma dessas páginas, a 258:

«De forma humorística e invulgar - era assim que Georges e os seus amigos se imaginavam a morrer no tempo em que ainda não acreditavam que isso lhes iria acontecer, no tempo em que morrer aera apenas mais uma ideia com que se podia brincar. "Ah, e há também a morte!". Mas a morte de Georges Plimpton não foi humorística nem invulgar. E também não foi nenhuma fantasia. Não morreu envergando o equipamento às riscas no Yankee Stadium mas sim em pijama durante o sono. Morreu como todos nós morremos: como um perfeito amador.»
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Morremos todos como uns perfeitos amadores?! Genial, sr. Philip Roth..

sábado, julho 25, 2009

os já-não e os ainda-não, segundo o fantasma que sai de cena - 6

Das notas que acompanharam e seguiram a leitura de Exit - o fantasma sai de cena, muitas ficam pelo caminho. Outras ao caminho voltarão. Ou não.
Acabo de saltar uma série delas, mas não passo das nascidas na página 250. Até porque retomam a discussão entre Zuckerman e Kliman cento e cinquenta páginas passadas, e em que, pelo meio, algumas outras "conversas" (entre os dois, e as ficcionadas dentro da ficção entre ELA e ELE) foram sendo deixadas para outra altura.
Na página 250, Roth, ou Zuckerman por ele, "confessa"

«(...) eu sentia-me - contra minha vontade - cada vez mais pequeno à medida que crescia em exuberância a demonstração de presunção de Kliman. Mailer já não anda à procura de briga e mal consegue andar. Amy já não é bela nem está na posse da totalidade do seu cérebro. Eu já não tenho a totalidade das minhas funções mentais, nem a minha virilidade, nem a minha continência. Georges Plimpton já não está vivo. E.I.Lonoff já não tem o seu grande segredo, se é que esse segredo alguma vez existiu. Todos somos agora "já-nãos" enquanto a mente exaltada de Richard Kliman acredita que o seu coração, os seus joelhos, o seu cérebro, a sua próstata, o esfincter da sua bexiga, o seu tudo é indestrutível e que ele, e só ele, não está nas mãos das suas células. Acreditar nisso não é grande façanha para quem tem vinte e oito anos, para mais se sabem que que são tocados pela grandeza. Não são "já-nãos" em perda de faculdades, em perda de domínio, vergonhosamente desapossados de si mesmos, marcados pela privação e subjugados pela rebelião orgânica que o corpo desencadeia contra os velhos; são os "ainda-nãos" que não fazem ideia da rapidez com que as coisas mudam de rumo."

Os «já-nãos» e os «ainda-nãos»! Lucidez ou desespero assumido com crueza, com brutalidade?
Razão terá quem, sem deixar comentário no "post" anterior, me disse do seu desacordo quanto a serem as linhas divisórias entre a ficção e a realidade os caboucos, as traves mestras, os tijolos do romance, ripostando que o livro é sobre a velhice e é o livro de um velho. Talvez... mas o romance, também pelo menos, e à volta da velhice e da lucidez - se lucidez é - de um homem de 71 anos, é um extraordinário exercício de contrabando entre os aléns e os aquéns da fronteira do que é o autor a contar-se e a ficção que o escritor constrói. Sem nunca desligar o romance da realidade que envolve o que escreve e o que lê.
Sobretudo para um leitor próximo, na idade e não só, de quem escreveu, não há dois mundos, o da realidade e o da ficção que é o romance, mas apenas um só com fronteiras que cada qual - o que escreveu e o que lê - coloca onde mais reconhece a realidade que vive e melhor saboreia o romance que é obra criada por um grande escritor.

sexta-feira, julho 24, 2009

A que cheira o "fantasma" que pretende(ia) sair de cena? - 5

Quais as fronteiras? Para além da linha divisória entre o real e a ficção, onde colocar, na ficção, a fronteira entre o que é ficcionar a realidade e o que é "chafurdar no lixo" que se diz ser investigação e se apresenta - e publica - como biografia de gente pública, de um escritor em concreto, com o pretexto de lhe fazer justiça, de "repô-lo no lugar que ele merece", isto é, de o tirar da ausência de notoriedade, da morte com esquecimento da obra?
Essas linhas divisórias, essas fronteiras para além e aquém de cada um dos lados, são, em Roth, os caboucos, ou as traves mestras, ou os tijolos de Exit - o fantasma sai de cena.

Página 102, pergunta Kliman a Zuckerman: «Porque insiste em trivializar aquilo que eu me proponho fazer? Porque tem tanta pressa em amesquinhar aquilo que desconhece por completo?»
E continua o diálogo, azedo e sem ponto de encontro:
«"Porque o sórdido chafurdar no lixo que se apresenta como investigação é certamente a mais baixa das fraudes literárias"
"E o chafurdar desenfreado que se apresenta como ficção?"
"Agora é você que me caracteriza a mim?"
"Estou a caracterizar a literatura. Também ela alimenta a curiosidade. Diz que há qualquer coisa para além da imagem que queremos dar - chamemos-lhe a verdade do eu. Não estou a fazer mais nem menos do que aquilo que você faz. Do que faz qualquer ser pensante. É a vida que alimenta a curiosidade."»

Sem ponto de encontro... Com uma ruptura. Uma das rupturas que se encontram nas páginas do romance.

«"E, sendo assim, pensei, ao desafiar a juventude e a o expor-me a todos os riscos de uma pessoa desta idade que se envolve com pessoas daquela idade, não posso deixar de acabar cheio de sangue, uma chaga que é um alvo grande e gordo para jovens ignorantes, estuantes de saúde e armados de tempo até aos dentes. "Estou a avisá-lo, Kliman - deixe Lonoff em paz."
(...)
"Você tresanda", berrou-me ele, "você cheira mal! Volte de rastos para o seu buraco e morra lá". Em passo atlético, ágil e solto, arrancou, lançando por cima do ombro musculoso: "Você está a morrer, velho, não tarda que esteja morto! Cheira a podre! Cheira a morte!"
Mas que sabia um sujeito como Kliman sobre o cheiro da morte? A única coisa a que eu cheirava era a urina.»

Para simplificar e ironizar: conflito de gerações. Ou... a partir de que idade se sabe a que cheira a morte?

Exit - ou... a jogar a macaca? - 4

No autêntico "jogo da macaca" de que Phillip Roth fez um romance (ou o contrário), ou o romance que Phillipe Roth me deu a ler e que eu, este leitor que sou, com a idade e tanto mais que nele encontrei - no e com e contra o autor -, transformei em "jogo da macaca", em que as linhas divisórias são apenas uma que se desenha ao longo da(s) história(s). E essa é a "linha intransponível que separa a ficção da realidade" transposta "(n)a confissão atormentada sob o disfarce de um romance".


Aqui vai mais uma malha, retirada da página 72:

"E alguma vez houve eleições como as que opuseram Gore a Bush, resolvidas por vias traiçoeiras, tão perfeitamente calculadas para acabar com o último e desgraçado vestígio de ingenuidade de um cidadão cumpridor da lei? Nunca tinha estado propriamente afastado dos antagonismos da política partidária, mas agora, depois de viver fascinado pela América durante quase três quartos de século, tinha decidido não continuar a deixar-me dominar de quatro em quatro anos pelas emoções de uma criança - as emoções de uma criança e a dor de um adulto. Pelo menos, enquanto estivesse refugiado na minha cabana, onde podia continuar na América sem que a América voltasse a entranhar-se em mim. Além de escrever livros e me embrenhar uma vez mais, a última, nos primeiros grandes autores que li, tudo o resto que outrora foi da maior importância deixou pura e simplesmente de importar, e eu eliminei uma boa metade, se não mais, dos vínculos e interesses de uma vida inteira. Depois do 11 de Setembro cortei definitivamente com as contradiçoes."

E esta fala continua. E continuá-la-ei...
Agora, agora mesmo, o que quero é pôr tudo de pantanas. O livro, chatear-me com o autor, obrigá-lo a re-escrever, a rever a sua "biografia atormentada". Mas ele acaba por o fazer. Porque as contradições nunca se cortam definitivamente estando em nós enquanto vivos estivermos, Como o fantasma, ao querer sair de cena, jogando à macaca da vida, o comprova.
E tenho ganas, agora, agora mesmo, aqui deste meu refúgio, pegar neste texto, substituir Gore e Bush por Vitor e Paulo e... desancar.

quinta-feira, julho 23, 2009

Pode o fantasma sair de cena? - 3

O escritor, ou seja, o homem com 71 anos, mais ano menos ano, diz que (e o leitor, ou seja, este homem com pouco mais - por agora... - de 71 anos, transcreve ou sobre-escreve):
"Era agora avassaladora a vontade de cortar com a ilusão vã e tola da regeneração, ir buscar o carro à garagem da esquina e partir a toda a velocidade em direcção ao norte e à minha casa, onde podia rapidamente voltar a pôr as ideias no seu lugar, sob as exigências transformadoras da ficção em prosa, em que não há espaço para os sonhos doces. O que não tens não te faz falta - tens setenta e um anos, e isso é que conta. Os dias de orgulho e afirmação pessoal já lá vão. Pensar de outro modo é ridículo." (pág. 48)
Depois, como que a procurar auto-convencer-se, desenvolve, ou desenrola, ou glosa, o tema (obsessivo?!) até à página seguinte (49)
"Como alguém que noutros tempos fora intensamente receptivo (e interventivo, acrescenta o leitor por sua conta e seu risco próprios) e na última década se tinha transformado num discreto solitário, tinha perdido o hábito de ceder a qualquer impulso que me atravessasse as terminações nervosas,"
e termina a elucubração comprovando, contraditoriamente, que nunca a saída de cena é definitiva, nem mesmo quando o ridículo levaria a obrigar a que definitiva se tornasse, enquanto o homem se mantiver, em pouco que seja do seu corpo, fiel ao que sempre foi, pelo que
"e no entanto nos últimos poucos dias tinha chegado àquela que talvez viesse a revelar-se a mais insensata das resoluções repentinas que alguma vez tinha tomado".

E assim arranca e se contrói a ficção, o romance.

terça-feira, julho 21, 2009

O fantasma sai de cena? - 2

Não sei se Lonoff existiu ou é só ficção de Roth. Como não sei se Zuckerman é Roth, a sua realidade ou a sua ficção.
Também não sei, nem quero saber como Kliman será capaz de tudo fazer para conseguir saber, se Roth tinha 71 anos quando escreveu Exit, tinha sido operado à próstata e usava fraldas dada a incontinência. Ou se o fantasma que sai de cena, segundo Roth, é ele próprio, se é Zuckerman ou se é outro de tantos fantasmas (de Roth e de quem for o leitor) que povoam o livro. E Jammie, e Amy, e Billy, quem são?, ou que realidade foram para serem a ficção que são?
Sei, ah! isso sei, que existiram Hemingway, e Conrad, e Plimpton, e Hawthorne, e igualmente os Bush, e as eleições, e o 11 de Setembro, e todo o ambiente que é, também, o romance. Ah!, e acabo de saber que existem a 71th., e a First Avenue (andei por lá , há dias... pus lá os meus pézinhos).

E estou como ele diz na pág. 38 (quem?, Zuckerman ou Roth, ou os dois?) "Fiz o que fiz - é tudo o que uma pessoa sabe quando olha para trás. Passei pelo que passei levado pela inspiração e pela inépcia que eram minhas - a inspiração era a inépcia - e o mais provável é que agora esteja a fazer o mesmo." E tanto o estou que, agora!, sou eu que estou a fazer o mesmo. Isto é, a subscrever, ou, melhor, a escreversobre.

domingo, julho 19, 2009

Há muitas maneiras de sair de cena - 1

25 de Abril, último "post". Maio. Junho. 20 de Julho. Cabo Verde, Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro), Nova Iorque.
E este "blog" de leituras ao abandono. Por terem parado as leituras? Não. A minha vida é feita de leituras, embora seja certo que muitas tarefas (ah!, a crise, ah!, a campanha das "europeias") e muitas viagens terão tornado menor o ritmo de leitura e/ou esmorecido o estímulo a transcrever impressões de leitura. Até que... Exit - o fantasma sai de cena me tomou de assalto.
(edições Dom Quixote)

Phillip Roth é um autor que se (me) impôs. Quando não se pode ler tudo, há autores de que não se pode perder um livro. Tenho alguns. Este Roth, Pennac, Saramago, Rubem Fonseca. Gostos... embora de muitos outros goste muito.
Já aqui pelas vizinhanças se falou deste livro. E adequadamente. Adequadamente ao livro, ao autor, a quem o leu e comentou. Em quartetodealexandria.blogspot.com. Sem fôlego!
"De uma crueldade fria e impiedosa. De uma lucidez metódica e despudorada. Que fere, rompe e esmaga, e me deixou alerta e sem fôlego.
O prazer incomparável da leitura.
O livro que todos os maiores de 60 anos deveriam ler.
E os outros também."

Claro que sim, diz quem agora acabou de o ler. Mas a crueldade fria e impiedosa, a lucidez metódica e despudorada- que fere, rompe e esmaga -. deixa muito mais alerta e sem fôlego quem, sendo maior de 60 anos, também o é dos 70, e tem mais 2/3 anos que o narrador/autor/peronagem escritor.
Apetece dizer que Roth abusa e, pondo logo no título que o fantasma vai sair de cena, não nos poupa ao "... sermão sobre a linha intransponível que separa a ficção da realidade", ou à "confissão atormentada sob o disfarce de um romance" (pág. 260) que, como autor, parece estigmatizar. Mas que, nesse mesmo diálogo, logo recupera como quem se compraz a remexer nas feridas próprias e no que desperta no leitor que, na ficção, encontra a sua própria realidade, ou o que ela poderia ser, ou que ameaça vir a ser. E brinca, aparentemente jogando com as palavras: "A não ser que seja um romance sob o disfarce de uma confissão atormentada"/"Então porque ficou arrasado ao escrevê-lo?"/"Porque escrever pode arrasar quem escreve...". E pode arrasar quem lê, dirá o leitor, este leitor.
Ademais, o desenrolar do jogo das palavras e das linhas e dos capítulos e dos diálogos do romance, um pé cá um pé lá da fronteira/linha (in)transponível que separa a ficção da realidade, é levado ao excesso de não se referir ao romance que foi escrito, que é aquele daquele escritor que é o autor do romance que está a ser lido, mas a um outro romance que ele quer impedir que seja publicado porque, se vier a ser ficção pode tornar-se uma realidade que não se quer conhecida ou, sendo realidade, não se deseja revelada ao vir a ser ficção.

Que dizer mais? Ah! muito mais... mas, por agora, chega. Há que recuperar algum fôlego.

sábado, abril 25, 2009

Memória do 25 de Abril?

Amanhã, 25 de Abril, que já hoje é, vou "partilhar experiências" a partir do comentário a este livro, de um jovem antropólogo, Tiago Matos Silva, que ainda mais jovem era quando o publicou, há 7 anos.
É um livro interessante, construído sobre depoimentos de "informantes" de 4 famílias (1 de "direita", 2 do "centro", 1 de "esquerda"), com bem discutíveis "etiquestas". As conclusões do livro são, também, uma verdadeira auto-crítica pois denuncia o que o próprio autor fez ao escolher os "informantes", as famílias que ouviu. Talvez, sobretudo, para procurar respostas para as muitas dúvidas que tinha. Dúvidas que estão claras nessas conclusões, em que o vi como um 17º informante. Não me deixando, a mim, dúvidas sobre a sua boa-fé...

Mas. Mas, ao fim destes 7 anos que passaram após a publicação, estou muito curioso em tentar ver como essa boa fé resistiu, em que se tornou, como se confrontará o autor com a experiência, com as vivências, com algumas irrefutáveis verdades históricas, com a crítica às amostras escolhidas e a sua não representação do universo da realidade, tudo coisas que tentarei partilhar. Com ele, e com quem estiver na Biblioteca Municipal de Ourém.

As malhas que o impéri(alismo) ideológico tece!

segunda-feira, abril 13, 2009

No centenário de Soeiro Pereira Gomes

A entrevista com Manuela Câncio Reis (com 99 anos!), em O Mirante, pode ler-se aqui.

domingo, abril 12, 2009

Nos 100 anos de Soeiro Pereira Gomes...

... é interessante ler esta entrevista com Manuela Câncio Reisem

sexta-feira, abril 03, 2009

Leituras desfasadas da "crise"

Estávamos numa outra livraria, na Arquivo, de Leiria, um espaço de que gosto... apesar de algumas más recordações. Passava os olhos pelas capas, naquele exercício tão agradável (mas não só, nem sempre) de saborear títulos, autores, grafismos. Muitos sobre a "crise". Num me detenho

"43 reflexões de figuras de referência da Universidade e da vida económica portuguesa". Nem um com uma reflexão marxista-leninista, resmunguei e pousei-o. Ou melhor: rejeitei-o. Depois, repeguei-lhe. O Carvalho da Silva? A sua leitura é, decerto, sindical e para "equilibrar" a do João Proença. Folheei-o. Excerto do Krugman? Tinha de ser! Para fechar o livro, esta verdadeira provocação idiota de um qualquer Arnaldo José da Silva dizendo que "Não existe crise!!! Existe sim, uma propaganda negativa e destruidora feita pelas emissoras de televisão em troca de audiência. Desligue a televisão e trabalhe. Você surpreender-se-á com o seu sucesso!"... A culpa dos trabalhadores, claro!, que vêm muita televisão e trabalham pouco...

Em vez de o pousar apeteceu-me atirá-lo porta fora. Mas podia acertar em alguém...

Continuei a folheá-lo. Se calhar estava a fugir de ler a "reflexão" do meu ex- jovem camarada, colega de brilhante carreira académica, do António Mendonça: A natureza da crise actual.

Comprei o livro, claro. Já li umas páginas. As do António Mendonça, obviamente. Que confrontei com umas outras páginas de sua autoria (em colaboração com o Nelson Ribeiro), num outro livro que fui buscar à estante e de que, de vez em quando, me sirvo. Sobretudo de O marxismo e a crise económica actual, um muito interessante (e pedagógico) estudo de autoria desses colegas.

Que experiência curiosa. A edição é da Caminho, na Biblioteca Universidade Popular (do Porto), animada pela saudoso Armando Castro. De 1985. Dos tempos da esperançosa, ilusória, traidora perestroika. Como eles eram marxistas! Como tantos ficaram orfãos da União Soviética! E, hoje, em que estado estão alguns que até pareciam ter uma certa consistência ideológica...

O interessante é que, ao ler o texto de hoje, ele me parece, nalguns trechos, no diagnóstico, uma tradução para "capitalês" de partes do estudo de há quase 25 anos. No meio de uma incontáveis paradigmas e modelos, que até irritariam o leitor mais benevolente, a tradução de capitalismo por economia de mercado e outras, a ausência de qualquer referência a Marx, marxismo, socialismo, mais-valia, exploração, trabalhadores, essas coisas, brrr..., enterradas avestruzmente, por total omissão, como se de um espectro se tratassem (e tratam!).

Daqui deriva, apesar da utilidade das "hipóteses de apreensão das características fundamentais da crise económica actual", desde que retrovertidas para língua de economista sem fantasmas, a codificada conclusão (bem diferente das de 1985, por oportuno esconjuro ou exorcismo) de que a crise económica actual estaria a abrir "um processo de reconfiguração do modelo de organização económica e de intervenção dos poderes públicos que aponta para um maior controlo das dinâmicas de internacionalização das economias e da globalização para uma recuperação dos instrumentos e do papel da política económica a nível nacional e para uma reestruturação e reforço do papel das instituições económicas internacionais. Em síntese (...) é bem provável que a crise actual represente o fim do modelo e do paradigma económico que a crise dos anos 70 do século passado fez emergir, que a crise, posterior, dos anos oitenta consagrou em termos de paradigma e que a expansão dos anos noventa fez consolidar como modelo global." O fim "disto" e o começo de "quê"?
Será "isto" (o modelo paradigmático...) o capitalismo? O "quê" que se seguirá (ao paradigmático modelo) será o socialismo? Por obra e graça de quem? Ou com luta? E que luta? E de quem?

Ora paradigma para o modelo. Que pena que isto me faz!

sábado, março 28, 2009

Visitas e viagens a livros e livrarias

Foramos a Caldas da Raínha. Num dia 16 de Março. Porque!
Entre outros lugares, à procura da Rua do Cais que já não se chama rua do cais. Mas ela encontrou o que queria encontrar. Lugares, referências. A casa em que, o jardim onde, aquele sítio de.
Depois, fomos à livraria que sempre encontráramos fechadas, por só por lá passar a dehoras, e onde víamos, na montra, os livros e o gato. Dormindo como um gato.
Foi tudo tão bom. Mesmo quando acompanhado de tristezas irreparáveis, de fundas nostalgias.
Ela o disse no seu blog. No seu Quarteto de Alexandria. E eu comentei.

Visitas e viagens a livros e livrarias - 1

Numa noite em Lisboa, depois de uma viagem de eléctrico do Chiado ao miradouro de Santa Luzia, entrámos numa livraria.
E por ali ficámos, naquele lento deambular entre estantes e escaparates, folheando aqui páginas queridas, descobrindo ali edições desconhecidas ou novas, admirando capas e ilustrações ("olha!, anda aqui ver esta nova do...").
Iamos a uma apresentação de Onde estava vossa mercê.., e chegáramos antes. Em visita antecipada. Alguém, por detrás do balcão, observava os visitantes nocturnos e prematuros, Silenciosa, discreta e atentamente depois das civilizadas boas noites. Mas, inevitavelmente, passámos à fala, à conversa. Sobre livros, livrarias. Sobre vidas.
E veio uma oferta. A pauta do Fado do Aljube em forma de tango (do Aljube logo ali abaixo, dos "curros", e da "enfermaria geral", e da "sala dos operados", e de tantos companheiros e camaradas de Maio de 1963...), fado (para bandolim ou violino) cujos versos completos custariam, à altura, um tostão. Porque os que estão na pauta não são completos. Há trechos cuidadosamente retirados. Por subversivos...
Que bela oferta! De quem mantém viva a fabula urbis, en Lixboa sobre lo mar...

domingo, março 15, 2009

Tempo de leituras e leituras do tempo

“Não tenho tempo para ler”, dizem todos (ou quase). Uns justificam “até gosto de ler, mas não tenho tempo…”; outros acrescentam, peremptórios, “nem gosto!”; ainda há os que se ficam nos meios-termos “não tenho muito o hábito… umas vezes gosto, outras não!”.
Há que fazer alguma coisa, e algumas coisas estão a ser feitas. Não as suficientes.
Cá por mim, ganhei o vício. Bom. A boas horas. Acho eu...
Como escreve Daniel Pennac (mais ou menos assim) em “Comme un roman”, na vida deste tempo em que não há tempo para ler, cada tempo de leitura é tempo que se acrescenta ao tempo… de vida.
Estou a ler dois livros. De dois Prémio Nobel. De 2008. Le Clézio, de literatura, P. Krugman, de economia.
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Estou a gostar do Le Clézio. Não tinha lido nada deste autor. Ah!, a importância do Prémio Nobel!
Gostei logo da capa. E irritou-me o facto, já muitas vezes verificado, da ficha técnica não indicar o(s) autor(es). Porquê? Parece-me falha grave.
Depois, gostei muito da escolha das frase escolhidas para as páginas do "oitavo de entrada". Da dedicatória Às crianças capturadas (terá sido a melhor tradução?); e da canção peruana que explica o título e faz de frontespício do livro Estrella errante/Amor passajeiro/Sigue tu camino/Por mares y tierras/Quebra tus cadenas.
Estou lendo. Devagar. Saboreando. No tempo possível e acrescentado ao tempo de vida.

quarta-feira, março 11, 2009

Manuel da Fonseca

Companheiros destas moengas (e de outras, e de outras) lembraram-me que Manuel da Fonseca, o "nosso Manel", morreu num dia 11 de Março (ah! quantas coisas para lembrar a 11 de Março...).
Dele muito recordo e, de vez em quando - muita vez... - redigo aquela "graça" que ele, com o seu falar tão seu, dizia "isto de viver é muito bonito... acaba é mal!".


Mas, por aquilo que nos deixaste, tu não acabaste, Manel. E ainda bem que viveste. Assim.

E aqui fica o final do Mataram a tuna

Ó meus amigos desgraçados
Se a vida é curta e a morte infinita
Despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
Como era a Tuna do Zé Jacinto
Tocando a marcha Almadanim!




domingo, março 08, 2009

8 de Março - "A Condição da Mulher Portuguesa"

Em 1967, a Editorial Estampa lançou uma colecção a que chamou Polémica e de que entregou a direcção a Urbano Tavares Rodrigues. Para o 2º volume da colecção promoveu, em Novembro de 1967, um colóquio sobre a condição da mulher portuguesa para ulterior publicação, e convidou 4 escritores (Agustina Bessa Luís, Augusto Abelaira, Isabel da Nóbrega, Natália Nunes) uma jurista, Maria da Conceição Homem de Gouveia, uma socióloga (também escritora), Isabel Barreno Martins, e um economista, o responsável deste “blog” e “post”.
Tinha então 31 anos, e o convívio com escritores de que era leitor foi, para mim, experiência muito interessante.
Neste 8 de Março de 2009, reproduzo, com ligeiríssimas correcções, o começo da minha intervenção:
Ao aceitar o convite para participar neste debate, se o fiz com muito prazer, desde logo, também, me atribuí tarefas de sacrifício.
Primeiro, porque sentindo que devo apresentar os áridos números, sei que isso me pode tornar no desinteressante estragador de troca de impressões vivas, sobre temas vivos. Paciência! Tentarei pôr gente dentro dos números, adubar a sua aridez com clara significação humana. Depois, e este já não é um problema nosso, mas só meu., muito gostaria de aproveitar quem aqui está encontrado para ser mais a conversar sobre a Mulher, sobre a Mulher e o Homem, sobre o amor possível. A conversa-prazer só facultada a alguns de nós que, por isto ou por aquilo, têm o privilégio de dispor das fatias do bolo património-sócio-cultural que o ser humano vem aumentando desde que começou a sê-lo. É que a disponibilidade para a realização a dois, o tema mãos dadas, “a semente que tu és e a terra que eu sou”, tudo isto nos apela para o conversar-desfrute. E então convosco!…
Mas vamos às tarefas auto-atribuídas. Lá fora, aqui ao lado, há frio, há fome, há quem apanhe chuva(*).
Por uma questão de método, entendo dever estudar-se o problema da condição da mulher por uma forma paralela ao esqueleto de uma formação social. Porque, na minha perspectiva, a condição da mulher resulta, fundamentalmente, de condicionalismos sociais, resulta de um fundo histórico.
Condicionalismos sociais, fundo histórico, que têm as suas raízes na relação Ser Humano-Natureza, no esforço do trabalho dos seres humanos relacionados entre si, para a progressiva libertação das condições impostas pela natureza.
Teríamos assim que dividir a abordagem do problema em estratos:

  • A mulher como ser biológico, na sua relação com a natureza;
  • A mulher como animal social, na forma como o ser humano se organiza nessa relação;
  • A mulher na consciência social, na representação que dela se tem (e que ela tem de si), nas instituições que traduzem , e tantas vezes forçam, a realidade da relações sociais e que traduzem, e tantas vezes forçam, o equilíbrio das forças sociais em antagonismo.

Vou deter-me, na minha participação, nos dois primeiros aspectos, mas afirmando, como definição fundamental, que nada é estanque.

Sobre a mulher na consciência social quero, no entanto, deixar dois apontamentos. Todo este interesse, todo este levantar a luva para discutir a condição da mulher reflecte que estamos perante um desequilíbrio. Existe, na base das relações sociais, uma transformação que, ao nível superstrutural, não é acompanhada em correspondência.
A literatura, as artes dão-nos esse desajuste. Os códigos civis mostram-nos (ou não nos mostram?) que as situações legais não servem as situações de facto. E, depois, o resultado disso: páginas femininas em profusão e a ganharem dimensão social, pega-se na bibliografia económica e a mulher a aparecer em muitas obras. A mulher (e a sua condição social) em foco. Em causa uma discriminação que, pessoalmente tanto me violenta como a resultante da pigmentação da pele.
Espero, com os números que vou apresentar, ilustrar o que foi dito ou for dito, fornecer elementos úteis a um melhor aperceber da real situação da mulher e, depois, libertar-me para a troca de impressões não quantificada mas, aproveitando números, valorizada. (…)

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(*) Nesse fim de dia e começo de noite de 1967, um temporal caíu sobre Lisboa provocando inundações com dimensão e consequências verdadeiramente dramáticas. Ao sair do debate, estava a cidade e os arredores em grande agitação, e destaco a solidariedade que então se organizou e em que os militantes do PCP, na clandestinidade, tiveram relevante intervenção.

segunda-feira, março 02, 2009

As andorinhas e o amor em matéria de ensino



Pennac! Acabado o livro, há uns dias, continuo "sob influência"... À medida que o tempo passa, depois do saborear, apetece voltar a ler. E a ler volto. Apetece traduzir. E traduzo. O intraduzível! Em texto livre e, obviamente, sem a qualidade literária do que traduzido é. Mas vale a pena. Isto digo eu... E até porque as andorinhas estão a chegar.


As andorinhas e o amor em matéria de ensino

Adormeci tarde, sobre uma página deste livro. Acordei apressado em o continuar. Preparo-me para saltar da cama mas uma subtil barulheira trava-me. Há um desaustinado voajar à volta da casa. Pipilares e mais pipilares, ao mesmo tempo intensos, constantes e contidos. Ah! pois… é a partida das andorinhas!
Todos os anos, por esta altura, elas marcam encontro nos fios da electricidade. Campos e bordas das estradas cobrem-se de despedidas, como numa imagem habitual, para fotógrafo amador. Preparam-se para migrar É a euforia dos reencontros e das partidas. As que ainda voltejam no céu pedem autorização para se alinharem com aquelas já pousadas nos seus lugares nos fios, excitadas pelo desejo de horizonte. Arrumem-se, vá, toca a andar! Já vai, já vai! Há um frenesim de voos de chegada, de voos de falsas partidas, de tudo a postos, aos seus lugares... Uma agitação que vem do norte, em batalhões hitchcockianos, rumo ao sul.
Ora, essa é precisamente a orientação do nosso quarto: norte, sul. Uma clarabóia na parede virada a norte, uma dupla janela na parede virada a sul. E todos os anos o mesmo drama: perturbadas pela transparência dessas aberturas envidraçadas, e em frente uma das outras, um bom par de andorinhas atiram-se de cabeça contra a clarabóia. Por isso, nada de escrita esta manhã. Abro a clarabóia norte e a dupla janela sul, e mergulho na nossa cama. E ali ficamos nós ocupados por uma manhã em observação de esquadrilhas de andorinhas a atravessarem este nosso esconderijo, de repente silenciosas, intimidadas talvez por estes dois corpos alongados que as vêm passar em revista.
Só que, de um lado e de outro da dupla janela, ficam dois estreitos e verticais pedaços de parede. O espaço aberto é largo entre as duas molduras das janelas que dão passagem à vontade a todos os pássaros do céu. Mas… nunca falha, há sempre três ou quatro idiotas que chocam com a parede entre as janelas. São as desalinhadas, as que não seguem o caminho direito e aberto. As que passam ao lado, batendo as asas.
Poc! Ei-las caídas no tapete.
Então, um de nós dois levanta-se, pega na aturdida andorinha na concha da sua mão – não pesam nada, esses ossos cheios de ar –, espera que ela acorde, e encaminha-a a juntar-se às companheiras. A ressuscitada, ainda um pouco grogue, ziguezagueia no espaço reencontrado, depois pica a fundo para o sul e desaparece no seu futuro.
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E pronto!, a minha metáfora vale o que vale mas é a isto que se assemelha amor em matéria de ensino, quando os nossos alunos voam como pássaros loucos: fazer sair do coma escolar uma caterva de desorientadas andorinhas.
Nem sempre se consegue, falha-se por vezes no apontar do rumo, algumas não acordam, ficam no tapete ou partem o pescoço na vidraça mais adiante; e permanecem nas nossas consciências como buracos de remorsos onde repousam as andorinhas mortas no fundo do nosso jardim, mas temos sempre de tentar, nós temos tentado. Eles são os nossos alunos.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Guantánamo - E.U.A. a nú

Edição de 1990
13.000 exemplares
Editora Política
Indice:
  • Prólogo
  • Introdução
  • Antecedentes das relações de Cuba e Estados Unidos
  • A intromissão norte-americana na guerra hispano-cubana
  • A ocupação militar de Cuba pelos Estados Unidos
  • O expansionismo dos Estados Unidos nos finais do século XIX
  • A base naval dos E.U.A. na baía de Guantánamo
  • Uma usurpação a nú
  • A base naval ianque na baía de Guatánamo: ponto de apoio da tirania de Fulgêncio Batista
  • Provocações e agressões a partir da base dos E.U.A. em Guatánamo contra a Revolução Cubana
  • Repercussão internacional da base dos E.U.A. em Guatánamo
  • A continuidade de uma ignomínia
  • Epílogo
  • Anexos
  • - Resolução conjunta aprovada pelo Congresso norte-americano a 18.04.1898
  • - Protocolo de termo de hostilidades entre Estados Unidos e Espanha
  • - Tratado de Paz entre Espanha e os Estados Unidos, assinado em Paris a 10.12.1898
  • - Texto da Emenda Platt
  • - Convénio entre Cuba e Estados Unidos para arrendar aos E.U.A. terras de Cuba para estações carboníferas e navais
  • - Regulamento que determina as condições de arrendamento de Guantánamo e Baía Honda
  • - Tratado para ajustar o título de propriedade da Ilha de Pinos entre Cuba e Estados Unidos
  • - Troca de notas sobre reservas do Tratado para ajustar o título de propriedade da Ilha de Pinos
  • - Tratado de Relações de 1934 com os Estados Unidos
  • Bibliografia