sábado, julho 21, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 39

Aqui vou. Cavalicando. Contente por estar indo. Procurando o passo certo. Tanto caminho já feito e tanto caminho ainda falta. Vou na página 184 e não quero (porque não posso) transcrever todas as mais de 330 deste livro de maravilha(s).
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D. Quixote, não obstante as jaças de que está mareado, jaças observáveis num belo mármore se o examinarmos à lupa, é um livro eterno. Eterno como o herói, embora forjado com metal único, metal que só se encontra no subsolo psíquico de Espanha. E, por muito que o submetamos à pedra de toque gramatical, léxica, literária, fica pairando imune à análise mais severa e meticulosa. É que cavaleiro, não obstante os vínculos locais, está completo dentro de qualquer homem. Bastas vezes, sopitado como Durandarte sob os filtros de Merlim. Não raro, imóvel no fundo da jaula convencional, contemptor das leis morais e cívicas, e inveterado endireita do mundo torto.
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Por aqui paro. Não por longo ter sido o percurso, mas porque a frase "inveterado endireita do mundo" me obriga a parar. E a apear e a ficar uns momentos a reflectir sobre o mundo torto e a vontade (inveterada) de o endireitar.

sexta-feira, julho 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 38

Breve virei para... Assim escrevi, já lá vai um mês. E um mês passou sem ter dado por isso. Sempre com este "projecto" na cabeça. E adiado. Mas não pode ser! Das coisas que me estão a dar prazer esta é uma das que mais prazer me dá e não arranjo disponibilidade para ela. Isto tem de mudar! Parece que ando nas núvens, meteórico... Vamos lá, cavalinho de pau, à tal página 181 que vira para a 182. Até porque parece apropósito...
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E que D. Quixote passe nas nuvens, meteórico, a sua natureza não deixa de ser amassada bem humanamente segundo a receita de Adão, greda terrenal e cuspo divino. Assim, ver-se-á assoberbado, tanto quanto é consentâneo num homem lunático, por um dos problemas que mais preocupam os homens: o do dinheiro. Diz-se comummente que tal problema foi Balzac que o trouxe à plana da exegese romanesca. Pois anterior a ele, fê-lo com incisivo relevo Cervantes. Era de resto um dos tópicos do realismo picaresco. Sancho dana-se a contar maravedi por maravedi o dinheiro da escarcela. Como não ajustaram a soldada, só de pensar nisso lhe vêm dores de cabeça. Mas deixa, quando for governador, será mesmo negreiro como muito bom vizo-rei das Índias no intuito de amealhar os seus bilhestres para a velhice! D. Quixote, fidalgo pobre, esse, terá de vender duas ou três courelas para prover às necessidades de suas andanças. Previne-o o pretendido castelão que o armou cavaleiro:
- Traga baguinho!
Este circunstancial, que na novelística era tema desdenhado, torna-se no Engenhoso Fidalgo premente apuro e objecto de indeclinável atenção. O próprio cavaleiro se chora de não ser rico bastante para recompensar Sancho como merece. As considerações que na maré oportuna borda sobre a pobreza com tanto amargor, carregadas de tons escuros, pejorativos, traduzem bem a situação económica do novelista: Miserable de aquel que tiene la honra espantadiza y piensa que desde una leguas se le descubre el remiendo del zapato, el trasudor del sombrero, el hilaza del herreruele, y la hambre del estomago.
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Pois muito breve aqui voltarei. Prometo-me!, porque só comigo tenho encargo.

segunda-feira, julho 09, 2007

Boas leituras!...

O psicanalista, professor, Osvaldo Campos de seu nome, tomou para si os males dos pacientes (e dos impacientes) e, por eles, os males do mundo.
Sentiu que agir era preciso. E veio logo a pergunta como agir?
A acção é a primeira regra. Depois, há a do tempo e a do modo, e surge logo a regra do perigo. Entretanto, insinuou-se a regra do dolo formando as cinco regras. Mas foi-se impondo uma última regra, que “eles” queriam definitiva, a regra do silêncio. Da sombra. Por isso, combateremos a sombra.
No entanto, o leitor lembra que há mais regras. Porque é preciso ir mais fundo na acção para que, no tempo e no modo, se vença o dolo quando se afronta o perigo para se quebrar(em) o(s) silêncio(s).
Duas outras regras são indispensáveis: a histórica, isto é, a da luta de classes (desde que e enquanto); e a colectiva, a de tomar partido, a que Maria London grita para fazer coro com os passos batendo no chão do cemitério: “Deixem-me abraçá-los, milhões!”.
Assim é preciso. Para que não fique tudo como o agir “duma bondade defeituosa, uma bondade de parvo, uma justiça de doido”. De um homem só, psicanalista, professor. Só. Apenas com a companhia da ficção literária combatendo a sombra.

Quanto pesa uma alma?
Procurando outras perguntas, Combateremos a Sombra.

S.R.

domingo, junho 24, 2007

Artesanato, poemas de Joaquim Castilho, no dia 30

INFORMAÇÃO-CONVITE

no dia 30 de Junho,
pelas 16 horas

Joaquim Castilho
vai apresentar
o seu livro


no espaço

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haverá, em seguida,
uma pequena feira de livros, com grandes descontos

quarta-feira, junho 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 37

Intenções tinha, e boas, de fazer o que me prometi no episódio de cópia anterior. Chegar ao fim da página 181 e virá-la para a página 182. Mas o caso é que tropecei nas primeiras linhas da tal página 181 e não resisti, até porque, nessa página, Mestre Aquilino nos ajuda a ler as duas partes do D. Quixote. E pode resistir-se a isto?:
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Na Primeira Parte, Cervantes abstrai do tempo. Dizer que toda ela é um anacronismo de fio a pavio, não é descoberta nenhuma. Somadas diuturnidades da acção, hora por hora, marcha através dos campos de Montiel, estadia na pousada, permanência na Serra Morena, regresso à estalagem do Canhoto, teremos uma semana, e não mais. Todavia tem-se a impressão duma extensa jornada pelos tempos e o espaço. Quem saberá dizer há que séculos o cavaleiro do elmo de papelão saiu a favor dos escuro da alba pela porta travessa da abegoaria? Sancho perdeu a tramontana.(...)
Na Segunda Parte, Cervantes soube eximir-se de todo ao cômputo. O rio não leva margens. Sem pastorais nem flabiaux, reconcentrada a acção, articulados os episódios como num tronco franças e ramos, a pena do escritor lavra direita e segura. O talento de Cervantes, em despeito das inibições e constrangimentos, à medida que se vai expandindo sobe em altitude. Senhor do filão precioso, explora-o firmemente, sem titubear.
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Breve farei o salto de página que me prometi. Mas não resisti à transcrição deste naco, também porque não fui capaz de cavalgar por cima desta questão do sonho e da ausência de cronologia para o reger, como diria o Mestre.

domingo, junho 10, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 36


... e aqui estou, ainda na página 179:

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Ao tempo, esta arenga, cortada ao padrão ciceroniano, devia ser um primor de dialéctica. Hoje, o próprio mundo materialão confere a primazia ao espírito sobre qualquer outra actividade. Ao tempo, o mester das armas estava à cabeça do rol, e compreende-se dado o estado do mundo, cheio de reisetes, príncipes, grãos-duques ou simplesmente duques, rebotalho medieval, que se guerreavam como cães, e predominavam a tudo o mais. D. Quixote é um livro vivo, mesmo com toda esta cambada morta. O pouco que envelheceu está na teórica dos discursos aos cabreiros e parlendas eruditas do cónego prebendado. Mas que árvore frondosa não tem ramos secos?
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Bem a contragosto terei de saltar umas duas páginas. Aqui voltarei, já no fim da página 181 a virá-la para a 182.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 35

Por outras andanças tenho corrido sem de aqui, destas cercanias, sair. E à minha espera - como gostaria de ter razões para dizer... da nossa - estava este pedacinho de prosa que, pelas suas analogias e heresias, parece que Mestre Aquilino o escreu para hoje:
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Nos discursos, D. Quixote é um sofrível deputado socialista conservador, se este amálgama político não é heresia. As suas proposições, que nem sempre são paradoxais, por vezes roçam pela trivialidade. Mas anima-as um propósito de igualização social, não só pelo que lhe vem da prática do mundo como pelo que corresponde ao seu etos de fundo humanitário. O discurso sobre as armas e letras lembra uma destas tiradas de academia em que os sócios, sonolentos, vetustos e conspícuos, acenam com a cabeça aprovativamente e ao fim dão palmas. Tais D. Fernando, o gabiru armoriado, Cardénio, o licantropo, o Cativo, etc.
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Para não ultrapassar a medida que, a juizo do copista, deve ter um "post", vou ali e já venho, logo retomando a arenga.

quinta-feira, junho 07, 2007

Rubem Fonseca!

Duas resposta numa entrevista (em Feliz Ano Novo):

"'Você escreve os seus livros para um leitor imaginário?'

'Entre os meus leitores existem também os que são tão idiotas quanto os legumes humanos que passam todas as horas de lazer olhando televisão. Eu gostaria de poder dizer que a literatura é inútil, mas não é, num mundo em que pululam cada vez mais técnicos. Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fodidos antes mesmo da bomba explodir.'"

"'Última pergunta: você gosta de escrever?'
'Não. Nenhum escritor gosta realmente de escrever. Eu gosto de amar e de beber vinho: na minha idade eu não deveria perder tempo com outras coisas, mas não consigo parar de escrever. É uma doença.'"

domingo, junho 03, 2007

Na Serra de Aire não há, por enquanto, giestas...

... mas haverá!, diz o anónimo do século xxi


e diz, também, que não tendo sido a "enchente" que justificavam o autor (e o livro) e o apresentador (ver blog Vale a pena lutar - combate.blogspot.com), houve uma conversa animada entre estes três e outras e outros que por alí deram por bem ocupada a tarde de sábado.

Depois, ainda houve uma assembleia geral extraordinária que tomou algmas decisões importantes para a Som da Tinta (livraria) de que breve se dará conta.

sábado, junho 02, 2007

Hoje, às 16.30

Por um tempo de giestas...

sexta-feira, maio 25, 2007

O Tempo das giestas", no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

Explicações necessárias(*)

A ideia de escrever este livro surgiu-me quando, há cerca de dois anos, uma senhora se dirigiu à sede do PCP, em Lisboa, procurando saber notícias de um rapaz que conhecera e pelo qual se apaixonara, em 1936, e que, a dada altura, desapareceu misteriosa e definitivamente. No decorrer das buscas a que, durante muito tempo, procedeu, a senhora chegara à conlusão de que o seu apaixonado de então perfilhava ideias comunistas. Daí a procurá-lo onde, presumivelmente, lhe poderiam dar, e deram, notícias: o desaparecimento do jovem - na realidade, militante comunista - decorrera do facto de ter sido preso e deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado.
Obviamente que nem a referida senhora é a personagem Teresa, nem o rapaz por ela procurado é o Simão deste romance. Assim, e porque em ficção (quase) tudo é possível, a personagem Simão será o trigésimo terceiro resistente assassinado pelo fascismo no Campo da Morte Lenta.
Tratando-se de uma obra de ficção, quer os personagens quer a trama desta história são fruto da imaginação do autor.
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(*) - do autor
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O tempo das giestas será apresentado, por Pedro Namora, no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

quarta-feira, maio 23, 2007

Reverte - O escritor, o pintor, o fotógrafo, o repórter de batalhas (por esta ordem... misturando tudo)

O pintor (que fora fotógrafo) deu por terminado o mural em que ajustou contas com a vida (e as guerras) e com os homens, antes de todos com o homem em que as guerras (e a vida) o tinham tornado. Assassino de quem amara, isto é, também de si próprio.
O escritor (que foi repórter) releu as últimas linhas do livro e de novo se interrogou sobre o que encontraria o pintor no final das cento e cinquenta braçadas de ida e mais as cento e cinquenta braçadas que de volta não seriam. Carregou nas teclas ctrl + alt + delete como se fizesse detonar uma mina que lhe destruisse a vida. Aquela vida que vivera, vivendo batalhas. E soube, o escritor, que se vivo queria continuar teria de começar tudo de novo. Deixando o pintor entregue ao destino onde o levassem as trezentas ou mais braçadas mar adentro.

Um livro pare, leia, pense, questione(-se) e ao escritor (e ao pintor, e ao fotógrafo que o pintor foi por jornalista de batalhas ter sido o escritor)

S.R.

domingo, maio 13, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 34

O capítulo VIII, que começa pelo "berço de D. Quixote de la Mancha", dá ganas de que o reproduza todo (qual capítulo não o dá?). Mas não pode ser... vou tentar ser contido. O que tem de ser recontado é como, contado por Mestre Aquilino, aparece Sancho (páginas 177 e 178)

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(...) D. Quixote é o poema da alma popular, escarmentada e sofredora. (...) Faltavam cavadores. Farto de andar pelas estradas e bodegas, (Cervantes) nunca reparara bem em tal gente dobrada para a terra que nos dá de comer e nos come, a regá-la com o suor do rosto. Militar, agente do fisco, pajem de gentis-homens, ocupou-se com a tropa fandanga que topou pelo caminho. Sancho Pança cobriu a lacuna. (...) Faltava ali Sancho. Para onde se meteu o homem que vem escravo desde o princípio do mundo?!

Debalde D. Quixote, quando recebe hospedagem dos cabreiros, o puxa para a sua beira. Ele recusa, é certo que não em nome dos respeitos plebeus, mas da sua comodidade. Acha-se assim mais à vontadinha para comer, beber, arrotar, limpar os beiços ao canhão da véstia, do que muito direito ao lado do amo, velho fidalgo de etiquetas, consoante está afeito a ver, obrigado a trincar com decência e a fingir de bem-educado.

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Por aqui me fico. Por agora, e muito custosamente, pois logo no seguinte parágrafo Aquilino nos diz coisas em que entram palavras como deputado, socialista e conservador. O que tem muita piada (oportuna, direi eu). Lá iremos...

quinta-feira, maio 10, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 33

"O berço de D. Quixote de la Mancha. O cárcere ou os caminhos ensoalhados da Mancha? Índole da novela. A arraia-miúda é chamada a figurar no presépio castelhano. Sancho Pança também é gente (...)".É este o começo do enunciado do capítulo VIII do ensaio de Mestre Aquilino. Que diz tudo - além de tudo o mais que também diz logo a seguir - e dispensa as palavras de introdução e "ponte" que tenho vindo a deixar de minha lavra. Pois caminhemos pelas páginas 176-7 que começam o capítulo.
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O D. Quixote devia ter sido inspirado a Cervantes quando, reagindo o homem de mal consigo e com o mundo, bifurcado no lombo de uma mula passeira, através de caminhos velhos da Mancha, via da terra desdobrar-se o manto florido, as aves em seu bulício, o sol maravilhoso nascer e mergulhar no catafalco da púrpura vespertina, sentindo em suma o repululamento exaltador da vida. A pústula conduz à náusea e não ao arroubo sensorial. E, quanto a elevação, o que medra e cresce desmesuradamente no cárcere é o sentido da liberdade inato em todo o ser vivo. Se os tiranos fossem coagidos a um estágio entre ferros, como aula política, sujeitos ao regime comum, acabariam por ter noção mais exacta e com certeza mais profícua de humanidade.
É bem manifesto que D. Quixote, livro popular, deve à sua índole o império que alcançou sobre a curiosidade comburente do mundo. Tal como a Bíblia, onde os grandes capítulos são aqueles em que palpita e vibra o homem de barro comum: Job, o livro de Rute, os Macabeus, etc. Tal como a Odisseia.
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E por aí fora... como iremos ver mais adiante.

domingo, maio 06, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 32

Aproveito uma trégua em outras obrigações e deveres, para dar mais um pequeno passeio, procurando ajustá-los à dimensão do que chamam "post", ainda pelas mesmas páginas 173/4, onde Mestre Aquilino se encontrou com Ribeiro Colaço, que faz de D. Quixote um desejado D. Sebastião tão idiossincraticamente português.
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Este livro tem a propriedade, pois, de ser uma espécie de quadro parietal, fosforescente, de todos os intuitos filosóficos e sociais, ou apenas a torre roqueira, onde veio esbarrar a Cavalaria. Com igual verosimilhança, o adaptaram a este e aquele padrão, sem igualmente haver seguridade no desmentido.
Assim como assim, depois do Quixote, os romances de Cavalaria caíram no limbo. Estava o desfecho implícito na evolução natural das escolas literárias. Mas a durindana do cavaleiro manchego deu-lhes o golpe de misericórdia. Não foi apenas para as novelas de Cavalaria que soou o dobre a finados. Se-lo-ia, também, para a feudalidade, sobreviva ao Renascimento, com seus condottieri, suas Ordens militares, seu direito absoluto, seu monarquismo absorvente e autocrata. Pelo menos por um longo período. Di-lo Byron no seu D. Juan:
(...)
«Zombando, Cervantes decepou o braço direito de Espanha, que era a sua Cavalaria. A partir dessa data, acabaram ali os heróis. Pagou caro com tal perda a glória de possuir semelhante livro.»
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Apesar de ter dado um salto, pequenino que cavalo de pau não é saltador, saiu o passeio mais largo que o anunciado. Mas que hei-de fazer? Quando me ponho a dar estes passeios difícil é parar quando tudo se antolha matéria a ver e a transcrever. E apetece logo passar ao que Mestre Aquilino chama o "berço do D. Quixote de la Mancha". Lá iremos. Espero que breve.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 31

Desde 5 de Abril, um mês passado, que não dou um passeio neste cavalo de pau, que de tanto repouso tem abusado. E a falta que me tem feito... Como a vida nos afasta de fazer coisas que tanto prazer nos dão! Volto aos ludíbrios que D. Quixote de la Mancha descerra em maior quantidade que "um prisma de cristal ao sol". E só por um exemplos que a nós diz respeito me fico.
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E, vai, uns (dos "astrólogos da literatura") descobriram ali uma sátira e coisas e loisas coevas, outros uma configuração dos tempos futuros. E não faltou quem, avantajando a alça, visse no reticulado do megalómano personificado, não vemos bem com que geometria, o tribunal do Santo Ofício. Finalmente, na mesma ordem de interpretações, Tomás Ribeiro Colaço, no belo livro D. Quixote, Rei de Portugal, sustentou com nutridos e calorosos argumentos a tese de que o cavaleiro manchego, alcandorado a destemperos e loucuras sobre-humanas, era nem mais nem menos D. Sebastião, o Desejado, cuja memória infeliz e trágica, delirante e absurda - notou Cervantes - a piedade do povo lusitano começava a revestir dum indulto exorável de lenda. E neste guindado símbolo, Ribeiro Colaço não foi menos lógico que os outros exegetas.
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E como andei arredado destas tarefas, a elas voltarei breve, se é que não já a seguir...

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia do Livro

Hoje, é o Dia Mundial do Livro. E, se mundial, também o é - ou deveria ser - em Ourém, também o é na livraria Som da Tinta.
Hoje, fomos buscar à estante este livrinho, Aux Livres, Citoyens!, da editora Le Temps des Cerises, publicado em 1993, e que consideramos uma preciosidade.
Traduz-se como o autor, Jean-Michel Leterrier, introduz a sua obra, de 60 páginas, que bem ilustram o sub-título, De la Grande Utilité d'un Plaisir Interdit:

"Se o mundo do trabalho é o mais vezes evocado por aqueles que não o frequentam a não ser de muito longe, a leitura usufrui de um privilégio contrário. Os que mais escrevem ou comentam a crise da leitura são naturalmente aqueles que mais escrevem e lêem."

sábado, abril 07, 2007

A PASSAGEM - uma biografia de Soeiro Pereira Gomes

Acabei, neste sábado, de ler A PASSAGEM - uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, de Manuela Câncio Reis. Deixou-me uma fortíssima impressão.
Como diz Isabel Câncio Reis Nunes (sobrinha da autora), ao introduzir o livro, "Esta é uma história de amor. A história de amor de um homem e de uma mulher, a história de amor de um homem pela terra e pelo Homem", e ao fechá-lo com uma frase de que só quem termina a leitura do livro apreende todo o significado: "Não esqueçamos jamais todos os filhos e filhas das mulheres que nunca foram meninas!".
É uma biografia diferente, humaníssima, em que a ternura, a compreensão do outro e o respeito por si próprio(a) estão em todas as páginas que a autora escreve, servindo-se, por vezes, de depoimentos muito bem integrados no texto, até porque esses depoimentos tão esclarecedores de quem foi e como viveu Soeiro Pereira Gomes servem para distender um pouco, talvez para aliviar alguma excessiva tensão, talvez para enxugar uma lágrima, e muito bem nos localizam entre os meados dos anos 30 (o Tarrafal, a Guerra Civil em Espanha, a luta) e já a segunda metade dos anos 40 (o final da guerra, as esperanças frustradas, a luta), quando Soeiro Pereira Gomes voltou da clandestinidade para morrer.
S.R.

sexta-feira, abril 06, 2007

José Vegar no espaço Som da Tinta

Sábado, 14 de Abril, 16.00 horas
No próximo sábado, dia 14 de Abril, pelas 16.00 horas, José Vegar estará em Ourém, no espaço da livraria-editora Som da Tinta,

não apenas para falar da sua profissão e da sua obra, mas também para, por via da apresentação do seu mais recente livro, contribuir para uma reflexão sobre as transformações por que estão a passar as forças de segurança em Portugal e os desafios que se colocam à sua missão. Reflexão que, face a acontecimentos recentes também vividos por cá – com a redefinição da orgânica e dos territórios de intervenção da GNR e da PSP –, também importa desenvolver localmente.
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José Vegar nasceu em Luanda, em 1969. É jornalista profissional desde 1989, freelancer desde 2000. Trabalhou em jornais diários, Público e 24 Horas, e em hebdomadários, Expresso, O Independente, Semanário e Tal & Qual. Colaborou com revistas diversas, Fortuna, Grande Reportagem, Janus, Jornalismos e Jornalistas, Livros, Maxim e Sábado. Enquanto repórter, esteve presente em cenários de conflito vários, Bósnia, Ruanda, Sara Ocidental, Los Angeles ou Timor-Leste.
Em 1992, foi-lhe atribuída a Menção Honrosa do Clube Português de Imprensa e, em 1993, a Menção Honrosa do Clube de Jornalistas. Em 1997, foi considerado o «Jornalista do Ano». Em 2000, recebeu o Grande Prémio «Gazeta» e, ainda no mesmo ano, os prémios «Jornalismo e Direitos Humanos» e «SAIS – Novartis Portugal». Em 2002, foi galardoado com o Grande Prémio «AMI – Jornalismo contra a Indiferença».
Organizou antologias de reportagem (por exemplo, Reportagem – Uma Antologia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001) e, em conjunto com a procuradora Maria José Morgado, escreveu um dos livros de referência sobre o fenómeno da corrupção, O Inimigo sem Rosto. Fraude e Corrupção em Portugal (Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003). É também autor de um livro policial, Cerco a um Duro (Lisboa, Editorial Notícias, 2005).
O seu livro mais recente, Serviços Secretos Portugueses. História e Poder da Espionagem Nacional (Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007), é o resultado de uma investigação longa e apurada e visa revelar a realidade opaca dos serviços secretos portugueses. Este título é ainda, convém referir, mais um contributo de José Vegar para a compreensão do fenómeno da segurança, ao qual tem dedicado parte significa da sua atenção, o que faz de si uma das vozes portuguesas autorizadas sobre a matéria.

quinta-feira, abril 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 30

Isto está a ficar complicado! Quanto mais avança a viagem, mais difícil se torna. Não por cansaço mas porque a vontade de parar em cada página é quase irresistível. No entanto, é preciso continuar e passar páginas que mereceriam para aqui vir - a meu critério - se é que não todas o mereceriam. Meti-me nisto, e contente estou por o ter feito..., mas está a ser difícil! E mais o irá ficar! Por agora, dou um saltinho até à página 171:
D. Quixote de la Mancha descerra porém mais ludíbrios à vista que um prisma de cristal ao sol. Porque é que sendo cheio de puerilidades e partes gagas resiste ao tempo como qualquer séria e substanciosa obra, digamos estes livros de granito e bronze no género Velho Testamento ou da Odisseia? Demais da indemnidade ao tempo, bate a todos na concorrência do público, o mesmo é que no seu poder de engodo e sedução.
O Engenhoso Fidalgo está dentro de anos a perfazer quatro séculos. Em despeito de haver-se tornado, mormente para os espanhois, uma Sagrada Escritura, portanto uma dogmática com a sua mística, continua a ter leitores que o folheiam com honra e devotos espontâneos que tomam banho mental na linfa das suas páginas como os fiéis de Buda nas águas do Ganges purificador.
Um dos seus aspectos singulares é que se presta às mais variadas interpretações. Cada qual conclui do conteúdo a sabor das suas ideias e do seu credo. Para o realista, é a magna carta; para o democrata, um evangelho. Estão assim recheadas de caricaturas e de símbolos, no parecer de Fulano mais de Beltrano, estas páginas febris.
Como iremos comprovar, em alguns dos muitos exemplos que Meste Aquilino arrola, logo que voltemos a montar no cavalo de pau e prossigamos viagem...