quinta-feira, agosto 30, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 54

Aquilino não se fica, no seu ensaio, pelo riquissimo acervo de informações e comentários sobre Cervantes, o seu tempo, a sua vida, os seus livros e personagens que criou (de que D. Quixote e Sancho são universais e imortais), também trata (e às vezes não muito bem...) outros que dedicaram tempo e páginas a Cervantes e à sua obra. Como Unamuno, que há pouco foi lembrado por também ser Miguel como Cervantes e serem, os dois, "padrinhos" de um outro (falso) Miguel, o Torga.

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Unamuno não temia entrar em contradições porque para ele uma das formas dos entendimentos superiores era o prazer de rectificar-se. Apenas não são susceptíveis de cometer a rectificação os espíritos dogmáticos e portanto tacanhos ou medíocres. Assim, apropósito de D. Quixote, ora lança o anátema: - Morra D. Quixote, e viva Alonso Quixano o Bom! - como virá, mais tarde, neste livro, a bater no peito, repeso do que dissera: - Perdoa-me senhor D. Quixote! Pega-me a tua loucura, pois que sem ti, sem os homens iguais a ti, cavaleiros do ideal, que seria do mundo! Não, viva D. Quixote! D. Quixote maltratado, D. Quixote morto!

Para um artista, Alonso Quixano tem interesse muito aleatório. Este cidadão sensato, que corre as lebres, possui uma livraria recheada de velhos autores, vai à missa, procura trazer igualmente em dia as contas da lavoura e da alma, interessa mais o sociólogo. É nele que repousa a saúde e o bom funcionamento da República. O artista prefere-lhe o maníaco, o original, o excêntrico. Mas à civilização, à Espanha integrada na Europa ou que terá que integrar-se na Europa, ao mundo, poderá haver dúvidas que lhe caiba hesitar e não tenha de decidir-se a extirpar como um cirro este fátuo vivente? Em nome, pois, da paz e do progresso teremos que clamar com Cervantes e o Unamuno da primeira leitura: Viva Alonso Quixano o Bom, e morra D. Quixote! É verdade que um espanhol sem areia não presta; não é espanhol castiço; falta ao quilate. Por outro lado, certas ideias, para que triunfem, têm de enlambuzar-se de loucura. É como certas drogas que a farmacopeia ministra em granjeias cor-de-rosa ou pílulas douradas. Mas o mundo novo tem de fazer-se em equilíbrio e com todas as higienes.

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Desculpem lá. é de perder a respiração. Começa logo por (me) lembrar o sempre lembrado Bento de Jesus Caraça e aquela frase que está no seu busto no ISEG, na R. Miguel Lupi "não receio o erro porque estou sempre pronto a corrigi-lo", que me esforço para que me acompanhe a par e passo. Depois, a Espanha a integrar-se na Europa (!), depois... bom, passo É demais!


o pretenso retrato de Cervantes
(ou será de Alonso Quixano, o Bom?)

quarta-feira, agosto 29, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 53

Ao entrar na estação/capítulo XIV, logo deparamos com Passos na arada, seguidos de A misoginia de Cervantes e de D. Quixote orador socialista. É aliciante. E tanto que paramos nesta última passagem.
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O lado fraco de D. Quixote está na retórica. Algumas vezes lembra um mestre de Salamanca nas Orações de Sapiência, outras vezes um deputado discursando em Cortes. D. Quixote é um arengador e moralista à maneira tão predilecta dos pregadores e exegetas castelhanos, salvo a sapiência e os versículos da Sagrada Escritura.
A discriminação do género humano em classes e suas estirpes, com um desdém manifesto pela ralé e conceitos ridículos quanto à natureza do homem, mostra a pouca ou nenhuma cultura sociológica de Cervantes. A página respectiva, embora escudada na pedantaria didáctica dum mentecapto, é do pior que se escreveu. Quando o novelista sai do terreno da vida comum e entra a discorrer sobre altos temas em estilo de lente, temos droga. o D. Quixote, homem de baldões e tropeçadas, arrancou-o da pele.
(...)
À medida que se vai desenrolando o D. Quixote de la Mancha, a figura do Engenhoso Fidalgo bem como a de Sancho vão-se sublimando. Cervantes acaba por enternecer-se com o seu herói, não digo apiedar-se, que um castelhano não sabe o que é piedade, mas toma-lhe amizade. Parece que sofre com os seus infortúnios e naturais percalços. Por outro lado, as suas loucuras, cambalhotas e extravagâncias já não são tão grotescas. São partes gagas dum doido da família, coitado!
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Que delícia!
E, sobre a primeira parte desta transcrição, lembre-se que o livro foi publicado em 1961!

domingo, agosto 19, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 52

Entretanto, 1640. E um outro caminho para Portugal. Ou o seu caminho. E, de metrópole tipográfica para editar em castelhano, o cadinho da língua portuguesa, outra e bem diferente, nossa e fazendo-nos. E lá vem Mestre Aquilino dizê-lo. Nas páginas 286 e 287:
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Não falando nas citadas edições em castelhano, a primeira demonstração cervantina em Portugal, cronologicamente anterior ao trasladado para português do Engenhoso Fidalgo, que deu a lume a Tipografia Rolandiana, está na representação que teve lugar no teatro do Bairro Alto em 1733 com a Vida do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, por António José.
Primeira tradução livre, fragmentária, para teatro do D. Quixote, por António José da Siva, o Judeu
e Primeira tradução do D. Quixote para português
(de 1794, Com licença da Real Meza da Comissão Geral sobre o Exame, e Censura dos Livros)
A comédia em Portugal, como o resto, não passava de humilde vegetação, meia hierática, meia truanesca, e assim compreende-se que esta fosse uma grosseira vergôntea da grandiosa árvore que plantaram especialmente Lope de Vega, Calderón e Cervantes. De resto, o autor tinha que comprazer com o rebaixado gosto do público, pelo que as cenas decorrem no geral em bufonaria barata, sem lógica, nem graça digna de nome. Se não fossem assim, não tinham um espectador para amostra. Calcule-se o gosto do público lisboeta pelo do público rural hoje em dia. Só compreende a patacoada. Se ouve ler a página mais dramática, desata a rir, sendo o riso a única forma de emotividade.
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Ah, Aquilino, Aquilino... nem te comento.
Lembrar-me eu que, aqui há uns anos, tive o desplante de encenar (pois!) uma comédia de Miguel Cervantes na ARCA (Atouguia)...
Não faço o comentário habitual, pronto!

No cavalo de pau com Sancho Pança - 51

Aquilino passa, a seguir, ao que chama "a irradiação de D. Quixote". Sobretudo em Portugal Que. parte de Espanha era quando Cervantes o escreveu, e por Lisboa foi editado... em castelhano, claro. Ele bem o sublinha, a páginas 285:
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Duas edições lisboninas sairam em 1605, primeiro ano de aparecimento da novela, sucessivamente nas oficinas de Jorge Rodrigues e uma, depois, na de Pedro Craesbeeck. Mas estas não contam, por serem em castelhano, nada tendo a ver com o movimento literário português, em si. Devem, antes, integrar-se no sistema de vascularização idiomática a que se procedia, mais ou menos subconscientemente, a partir de 1580. Mas, uma vez traduzido, começou, como em França, a partir de 1614 a vaga incessante e alterosa de edições.
(...) O certo é que três estampas saíram, a breve prazo umas das outras, dos prelos lisbonenses, facto que pela singularidade requer a sua explicação. Àquela altura dos tempos, as línguas castelhana e portuguesa quase se pareciam como os dois lóbulos de uma dicotilédone depois de lançada à terra e germinar. (...) Mas, o que era mais, Lisboa tornara-se a metrópole tipográfica da Península. Fosse casual incremento da indústria, fosse que a política dos Filipes reconhecesse no desenvolvimento de uma actividade, assim orientada, uma forma de assimilação, o facto é que em Lisboa editavam-se a granel as obras castelhanas.
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Interessante. A fazer pensar. Embora com alguma pressa de dar já já o passo seguinte. Que vai, decerto, ajudar à reflexão.
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Edição raríssima de Lisboa,
a 5ª da obra,
vinda a lume
(com todas as licenças necessárias!)
no mesmo ano da 1ª (1617)

sábado, agosto 18, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 50

O capítulo XII é o da denúncia da contrafacção. Em que Aquilino se irrita com "quem, vivo Cervantes, compôs e publicou aquela segunda parte do Engenhoso Fidalgo que saiu em Tarragona sob o pseudónimo do licenciado Alonso Fernandez de Avellaneda, natural da vila de Tordesillas?". E o zurze. Não vou deter-me nele. Não porque não tenha coisas interessantíssimas mas pelas razões já tantas vezes ditas de que não estou a fazer uma cópia. Deixo, apenas, o sumário de tal capítulo.
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XII
O D. Quixote de la Mancha de Avellaneda. Quem seria o falsário?
Exame sucinto do desaforo.
Condene-se pelo mau gosto; a deformação dos caracteres; a truculência beduína; a falta de curialidade; a indelicadeza nata e agressiva; o escatológico; o pitoresco forjado a martelo; o atraiçoamento da natureza e a incompreensão da vida.
D. Quixote desquixotou-se e Sancho Pança é mais torpe que o bobo da Cória.
Pela esteira de outro é fácil rumar.
Avellaneda permanece catraieiro. A sombra caluniada de Quevedo.
Como se pode confundir a fina prata com o barro mal cozido?
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Assim, damos uma larga passada. Para não dizer um razoável salto. Mas é preciso. O caminho vai longo.

segunda-feira, agosto 13, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 49

Estas passagens em que Aquilino fala mais de Cervantes que de D. Quixote e de Sancho Pança, em que vai escrevendo sobre a sua posição sobre a religião, as suas relações com a Inquisição, ajudam a perceber o tempo em que o livro foi escrito e como o autor vivia uma faceta fulcral desse tempo. Lá está, nas páginas 248 e 249:
Um pretenso retrato de Cervantes que tem sido muito discutido
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Miguel de Cervantes Saavedra era um velho católico, meio ralaço quanto a praticar os actos de culto, o que lhe facultavam seus filactérios de godo, e versando os casos da Santa Inquisição com uma sem-cerimónia doméstica, que significava ser aquele um assunto julgado e aceito nos seus hábitos e consciência. É evidente que semelhante atitude de um dos homens de letras mais notados no primeiro quartel do século só podia aprazer, como condicente, à política da mesma Inquisição, para não dizer à sua ética. Em verdade a terrível alçada, antes religiosa que profana, pois que o seu hibridismo, mais aparente que outra coisa, provinha precisamente da confusão de funções que ao tempo caracterizava o poder, com o que se têm logrado os simples, ou aqueles que não desejam mais que ser logrados, tinha-se identificado com o ser espanhol. Uma perfeita anastomose. Os grandes homens não se envergonhavam, como Lope de Veja, de assoalhar a dignidade de familiar. Rodrigo de Cervantes à sombra do pai, que era juiz no inventário dos judios presos e penitenciados, desempenhou, ao que se depreende, qualquer cargo no tribunal do Santo Ofício de Córdova. O filho não era, pois, alérgico à instituição. O espanhol, na generalidade, acabara por considerá-la tão consubstancial ao curso da vida e necessária como hoje no nosso mundo policiado o papel mundificador de uma piscina.
(…) As alusões à Inquisição, no D. Quixote, nas comédias e entremezes, são bastante frequentes e traduzem esta naturalidade, estado de interpenetração que seria inexplicável doutro modo. Não há facécia, nem desprimor, nem insinuação por parte de Cervantes quando se refere a ela. É o tu cá, tu lá das velhas intimidades. Chama-se tratar um negócio em mangas de camisa.

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... como se têm feito cair em logro os simples, ou aqueles que não desejam mais que em logro cair e nele se deixarem estar... Por outro lado, "o medo guarda a vinha" é fórmula usada ao longo dos tempos por quem detém o poder e que, para o deter e reter, faz dele uso e abuso. Cervantes não seria um exemplo no que respeita a virtudes cívicas, qualquer o tempo e os critérios, serviu-se de artes e manhas para publicar o que publicável fosse do que e como ia escrevendo. Releve-se o homem por mor daquilo de que foi autor e a nós chegou, e motivo foi para o que Aquilino lhe veio acrescentar.

quinta-feira, agosto 09, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 48

Edição rara de Lisboa (de 1617), a 7ª da obra
"Con todas as licencias & aprouaciones necessarias"


Aquilino pôs em tratos (e de polé se diria) Cervantes com a Inquisição. Mas pelos resultados, se consequências houve (e terá havido), bem pode ele dizer que os inquisidores foram tolerantes. É certo que usou Dom Miguel de artes e de manhas, mas também desceu medidos degraus de abdicação, mas também o fez o preciso para ter o "salvo-conduto da loucura". Assim se escreveu, sobretudo a 2ª parte, a várias mãos, ou melhor: com as mãos pelo menos um pouco atadas. Capítulo XI, página 234:
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Haveria pressões, advertências, ameaças à volta de Cervantes e quantos degraus teria descido na escala das abdicações para que lhe deixassem sair a Segunda Parte? Não se sabe. Tudo é abalançar-se a imaginativa aos ventos da conjectura. Não deve porém rejeitar-se a hipótese de que no longo espaço de tempo que mediou entre as Duas Partes Cervantes pudesse ter evoluído. Sempre os indivíduos sofrerão um acendramento espontâneo e surdo, que se opera em conformidade com a índole, nestes pousios cronológicos, tanto no que respeita à inteligência do mundo exterior como à disposição do eu. Sancho, se não mudou de pele como as cobras ruças que comiam os ratos nas saibreiras da Mancha de Toledo, deixou de ser um palonço. Quando o é, fá-lo por maroto. Sabe rifões como se houvesse estudado Virgílio Polidoro. Parece a falar um acertado doutor. Toma-se amiudadas vezes dessa ronha, peculiar aos equilibristas da vida das relações, fértil em cortesias e reticências, e é interessantissimo. Outras vezes prevalece-se da superioridade física que lhe dão as circunstâncias em raptos de cólera, e é um terrível felisteu. Então, saltam-lhe ao ar todas as idolatrias. Numa palavra, refinou, como se houvesse desemburrado em Salamanca, o próprio amo lho diz, esquecido de que saíram poucos dias antes do Eido. Mas o calendário para Cervantes não existe. Peça-se-lhes contas de tudo, menos do descompasso com semelhante monstro.
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Também "pousios cronológicos" temos tido nesta viagem. Sem as contingências que obrigam a descer degraus na escala das abdicações. Claro que não se fica por aqui Aquilino, e as conversas de Cervantes com os oficiais do Santo Ofício são deliciosas. Mas todo o livro o é... e não o posso todo transcrever. No entanto, ainda a estas passagens-paisagens se voltará.

terça-feira, agosto 07, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 47

Quem muitos burricos quer tocar, alguns há-de deixar para trás. Não é verdade, cavalo de pau, que tantas vezes tenho deixado para trás? Mas nem por isso menos interessante tem sido a viagem. Para mim, para mim... Então, agora, chegámos ao cap. X, em que Mestre Aquilino conta da vida de Cervantes, das suas convicções religiosas e como acabou irmão do Santíssimo. Não me vou deter muito. Não porque não encontre que mereça transcrição, que muito há, mas porque se faz tarde. Só um pedacinho... da página 230:
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«.. Já ouvi (dizia o oficial do Santo Ofício que interrogava Cervantes, entre as duas partes de D. Quixote) que os partidários do amor desenvergonhado, o amor sem estola, o amor sem a sanção de Deus, se prevalecem da mesma doutrina do Sr. Miguel Cervantes. Imundo, e aceitá-lo seria a subversão da família a que a Igreja é particularmente atenta, como se vê pela consagração da trindade Jesus, Maria e José. Mas a disciplina, neste particular, já estava há muito estabelecida e, é-me lícito acrescentar, com a sua definição. Qual ela seja eu lho digo, pois parece ignorá-la: "Aquele que prometeu fingidamente casar com alguma mulher solteira não está por si obrigado a cumprir a promessa, mas a compensar o dano que daí nasceu. Porém, se com tal promessa induziu a moça a consentir na cópula, está obrigado a casar com ela, salvo se ela for de inferior condição. Por exemplo, sendo o homem nobre e ela filha de agricultor. Mas satisfaz, dotando-a. Agora, sabendo ela da desigualdade e consentindo na cópula, perde o direito ao dote, porque se infere que ela quis livremente ser enganada."
(...) Cervantes, posto que homem franco e leal, não era destituido de cautelas e manhas. Não trazia bentinhos ao pescoço como as pessoas compleicionalmente simples ou estudadamente cavilosas, empenhadas em tornar públicos os sentimentos de beneplácito comum, mas ia à missa e nunca faltava à mesa da Sagrada Eucarístia pela Páscoa da Ressurreição. Comportava-se, em suma, como um cristão-velho que não precisa de estar constantemente a bater no peito, de maneira ostensiva, para que creiam na sua religiosidade. Em sua consciência bem secretamente devia prevalecer-se de uma regra moral para lá da ética de qualquer credo.
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E muito penou Cervantes. Porque "... há (nas páginas do D. Quixote) uma vegetação libertina que este santo tribunal não pode deixar sem correcção", advertiu duramente o oficial do Santo Ofício, antes da benevolente sentença ("...modere-se nas suas ambições de originalidade feitas à custa de irreverências, desacato do legal e sagrado, e da lei dos bons costumes..."). Teria sido por isso, pelas "cautelas e manhas", que algum tempo medeou entre a 1ª e a 2ª parte de D. Quixote (longo pousio lhe chama Aquilino, que tudo isto ficcionou no seu ensaio). Mas tudo acabou em bem... Na graça do Senhor e Cervantes "irmão do Santíssimo". Ah!, como ainda mais interessante poderia ter sido D. Quixote!...

... que las hay las hay...

Quando a Som da Tinta estava a preparar o lançamento de uma sua edição sobre os “painéis de S. Vicente”, com uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga, e já havia contactos – do autor e da editora – com a directora do museu, esta, de repentemente, não é reconduzida, ou, de forma mais chã, esta é retirada de funções.

Depois, não digam que não há bruxas…

domingo, agosto 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 46

É verdade que estas paragens são de outras "passagens". Mas valem a pena (isto acho eu). Mestre Aquilino detém-se, e detem-nos, a reflectir sobre justiça e juizes. Mas não se julgue que nos deixou apeados do seu cavalo de pau com Sancho Pança para ir ali e já vir. Não. As transcrições são o menos longas de que sou capaz mas levar-nos-ão ao sítio... Ora vejamos:
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Como exalçar a judicatura à sua verdadeira altitude? Pois, antes de tudo, é forçoso que o seu prestígio seja tal que nada de fora o ofusque, cerceando-lhe autoridade. Julgar o nosso semelhante é um acto de ordem transcendental, da máxima responsabilidade, já que toca na relojoaria delicadíssima e sempre problemática do eu, e não pretura de caracacá acessível ao primeiro quidam. A lei moral, essa que rege o homem na vida das relações, não tem princípio nem fim, e por conseguinte devia estar ao abrigo do acidental no plano movediço dos Estados. Mas com a desvirtuação que o mundo vai sofrendo, porventura efeito da viragem que se está a operar no seu âmago, também ela oscila como um cata-vento. Moisés se voltasse hoje quebraria infalivelmente as tábuas de bronze na cabeça dos príncipes.
(...)
A justiça de Sancho correspondia a essa magistratura incodificada, impressionista e animada do desejo de acertar, como a exerceria um sátrapa oriental debonário, desprovido de paixões e igualmente sem desejos. A única diferença é que o senhor governador da Baratária não mandaria por nada deste mundo cortar o pescoço a ninguém, nem meter um cidadão na cadeia por dez réis de mel coado. Governar para ele cifrava-se em arbitrar equidade.
Sancho chegou, sentou-se, logo às primeiras horas do Consulado, na cadeira de juiz - silla del juzgado - e entrou a responder com argúcia de Édipo à perguntas sibilinas que lhe fizeram, Não o embaraçaram as causas mais árduas, que na jurisprudência oficial de qualquer país culto, metido nos varais do Código, daria água pela barba a advogados e juízes, com grande desbarato de selos e papel azul. Porventura o agrado com que vemos brotar os veredictos daquela cabeça de aldeão, socorrido apenas pelo bom senso, derivará do frescor que traz aos nossos hábitos enfastiados de formal, óculos pretos, tossicação de má higiene, becas, Pandectas e diabo a quatro, aquela magistratura viva e de boa vontade. E Sancho conquista-nos pela simplicidade, antes de o admirarmos pela esperteza.
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Como (quase) sempre, é forçado que páro e me apeio. Mas tem de ser. E longo foi o caminho, embora encurtado, que nos trouxe da justiça e dos juízes à governança. Na "tese" aquilina de que governar bem deveria ser arbitrar equidade. Discutível? Decerto que sim, mas só por não poder ser tudo. E não por nos separarem algumas décadas da altura em que o ensaio foi escrito, porque o tempo míngua se nos colocamos na perspectiva de séculos e milénios de humanidade, e no tempo abreviado muita coisa escrita ontem serviria à medida para coisas de que hoje se gostaria de saber escrever. Com a arte que Aquilino maneja para contar o episódio dos dois velhos demandantes em que Sancho, Governador da Baratária, administrou justiça.

sábado, agosto 04, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 45

Depois de, por razões de oportunidade, termos ido a cavalo neste já inseparável companheiro, mais adiante ao fim do livro e a outras paragens (ao anónimo do séc.xxi), volta-se ao rame-rame desta longa viagem. Que se não tem estímulos e derivativos pode enfadar e fazer desistir. Mas não! Para mais, chegados que estamos a uma altura em que Mestre Aquilino se dedica - e a fundo - a dissertar sobre a justiça e a sua administração. Ora veja-se só este excerto, antes de a outros chegarmos, na pág. 208:
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(...) Com os tempos, promulgadas as leis ao sabor das conveniências partidárias, cada filósofo edificando o seu sistema como cada sapateiro batendo a sua sola, julgar tornou-se um mester, tendo perdido o carácter primevo de vocação e austera dignidade. Na tentacularidade das profissões e artesanatos, o juiz é um funcionário público e a justiça um artigo de manipulação. Uma sentença é aviada como uma receita de botica. Numa palavra, a magistratura tornou-se uma carreira lotada e graduada como qualquer outra da vasta burocracia. Em consequência, tem as suas tabelas e os seus cânones à maneira dos índices farmacopaicos. Era inevitável talvez. Todavia, para que na prática não descambasse numa função puramente mecânica, regendo-se pelos artigos do Código como um secretário de Finanças pelos conhecimentosdas matrizes, seria indispensável que gozasse de franquia plena e que do emaranhado das leis, contraditórias algumas vezes, aptas no geral à rabulice, mal expressas, omissas não raro, se ressalvasse um princípio sem o quê tal competência é logro: é que há uma verdade em todos os pleitos humanos, quer dizer, um fundo de razão suprema, de acordo com a ética, de Pedro contra Paulo. (...) A lei que o obriga a contrariar o ditame que lhe aponta a consciência torna-se uma monstruosidade moral, degradante em todos os sentidos. Ipso facto, o juiz deixou de ser juiz para ser um simples mesteiral, empregado taxativo como esses que vêm à nossa porta ler o contador da electricidade e da água e nos passam a nota de consumo. (...) O magistrado deve gozar de independência absoluta perante o mundo e particularmente perante os políticos para não atraiçoar a sua missão.
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E Mestre Aquilino, embalado, continua. E continuarenos nós. Mas é tempo para uma paragem, até para digerir tanto fel que Aquilino, ao tempo, teria razões de sobra para verter (e que pensaria disto o seu filho juiz?!), e outros azedumes que ele possa ter levantado, como o de farmaceuticos, decerto nada agradados por assim se desvalorizar (aliás, como por outros lados e nestes tempos se faz) a nobre tarefa de aviar receitas em boticas...
Breve retomaremos este momento tão interessante do ensaio.

sexta-feira, julho 27, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 44

"...Alonso Quixano acabou por perder o sizo.", di-lo Mestre Aquilino. Mas logo acrescenta que o "cronista" (Cide Hamete Benengeli) fugiu de dizer que essa perda de sizo foi, também, motivada pelos abalos "de um escarcéu interior" e mais acrescenta que "a verdade verdadeira é que não o revolucionaram menos os diabos do livre exame que os macaquinhos da Cavalaria Andante". O que já vai adiantado da página 205:
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Um belo dia, com a alba, abalou pela porta do curral, tendo reforçado o arnês com uma viseira de papelão, que julgou apta a receber qualquer golpe de revés, e com uma lança, cujo pé pediu à pernada de um azinho.
Caminhando à aventura pela terra inçada de nequícia, a febre do apostolado alucinou-o a ponto de lhe alterar na retina a propriedade e a forma das coisas. Salvou o menino flagelado das mãos de um bruto, mas não fez reparo que, ele a despegar, o mesmo bruto rompesse muito a seu cómodo a arrancar a pele ao inocente. Ilibou duas rameiras da vileza com a candura lustral da sua alma, e elas nas costas desataram às gargalhadas. Com a rópia toda, aqueles gigantes a espadelar o azul a grandes pernadas aéreas, que princesa iriam roubar ou que alto malefício tinham na tineira... ? - Esperai lá que já vos arranjo... - disse consigo e arremeteu.
- Olhe que não são gigantes, são moinhos de vento!
- Escusas de gritar, Sancho! Bem dou conta que parecem moínhos. Mas só eu sei o que são. São gigantes. Os meus pesadelos ensinaram-me a decifrar-lhes a expressão fantasmática. Deixa-me com eles!
E D. Quixote, persistindo na transfiguração das coisas pelo mal, não se cansou de apanhar lambada, partir os queixos, dar tombos, desiluso de aqueles que tinham por missão administrar justiça.
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Duas coisas me parecem interessantes, por isso de reter: 1º) que o diálogo entre D. Quixote e Sancho sobre os moinhos não seja de Cervantes, nem da versão de Aquilino do D. Quixote de Cervantes, mas de Aquilino em No cavalo de pau com Sancho Pança; 2º) que aqui comece Mestre Aquilino a atacar-se à justiça... andariam lobos a uivar por muito perto!

segunda-feira, julho 23, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 43

Até pode parecer que Mestre Aquilino faz o cavalo de pau andar às arrecuas. É que, depois de tanto caminho com Cervantes e com Quixote, no capítulo IX, a aproximar-se da página 200, vem contar-nos das "controvérsias a quatro" que antecederam e acompanharam as aventuras do engenhoso fidalgo quando Alonso Quixano era ou a ele voltava para recuperar de tanta tareia que D. Quixote levava. Conversas com o bacharel (Sansão Carrasco), o barbeiro (Mestre Nicolau) e o cura (Pero Pérez). Não será assim. Aquelas controvérsias - que sobretudo eram entre o cura e o bacharel, que o futuro D. Quixote, "menos lido em teologia do que em novelística", coçava o toutiço que muitas voltas dava, e o barbeiro quase só ouvia - estariam bem em qualquer lugar (do livro) e em qualquer tempo (da história).
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A Alonso Quixano preocupava-o sobretudo o problema do mal (...) Simão Carrasco, um dia, à puridade, com brusquidão formulou o terrível raciocínio: bem e mal em si não existem. Bem e mal são os termos em que se processa a luta pela vida. (...) Ter mesa farta, fêmea ou fêmeas para o gozo, a habitação que convém, vestir-se condicentemente com as estações, ser respeitado e temido, eis grosso modo os requisitos que na vida da espécie e, gradativamente, na do indivíduo, determinam os actos do bem e do mal. Ora no dia em que o homem encontre a satisfação das necessidades fundamentais, sem recorrer à violência, ao suborno, ao esbulho mercê de qualquer espécie de predomínio, está esconjurada a peste do mal humano. O homem não será anjo, mas poderá chamar irmão ao seu semelhante.
- E o meu senhor que faz dos templos? - observou sem acrimónia, mas com ar dissaborido, o licenciado Pero Pérez, que ainda ouvira o resto da proposição.
- Resta sempre na vida muito de impenetrável que fornecerá ao homem um pretexto plausível para continuar a tremer maleitas metafísicas - respondeu Sansão Carrasco, com humor.
Para Alonso Quixano, admitindo que o homem, segundo a lição do Resgate, tivesse recuperado o gozo do livre arbítrio, desligado por conseguinte da condenação primeira, certas pessoas eram mais responsáveis do que nunca pelo mal que continuava a lavrar à superfície da terra. Sobretudo os poderosos, os fortes, esses que faziam a lei e articulavam a justiça, e os seus executores, que de coração venal ou leviano cometiam os maiores atropelos contra a humanidade.
Por isso mesmo Alonso Quixano, o Bom, se sentia impelido para a missão augusta que os livros de Cavalaria inculcavam.
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Mas que estou eu a fazer? Isto não é para transcrever tudo. É para abrir apetites para leitura. Páro já. E vou à vida. A outras vidas. Tão torto está o mundo, e eu aqui deleitando-me à desmedida com a escrita sobre quem ensandeceu por tanto o ter querido endireitar. Até breve.

sábado, julho 21, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 42

Ora vamos lá à página 194, procurando não a esgotar...
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Cervantes, de resto, nem sempre esconde o juízo reservado que lhe merecem as mulheres. Deliberadamente é raro que o pronuncie, a não ser a meia voz: E como a mulher tem engenho pronto para tanto amassar ouro como rosalgar... Quando Leandra se deixa raptar pelo aventureiro, que a despoja de quanto leva sobre o corpo e vem dizer: enganou-me; era um ladrão refinado; mas não quis nada com a minha honra - não lhe importa muito que acreditem nela, protótipo como é destas criaturas que se deixam guiar mais pelo instinto de que pelo código moral ou religioso, naturezas portanto com a queda própria da vida que reclama franca alforria. E são elucidativas as seguintes palavras: ...pero los que conocían su discrécion y mucho entendimiento no atribuyeron a ignorancia su pecado, sino a su desenvoltura y a la natural inclinación de las mujeres, que por la mayor parte suele ser desatinada y mal compuesta. E nisto está a sua justificação. As leis da natureza não falseiam elas.
Maritornes é liberal do corpo com toda a gente e esta liberalidade tem o seu quê de cristão e caritativo que nos leva - e antes de mais ninguém o Criador - a perdoar-lhe o que tem de boçal e repulsivo. É estarola, mas boa. Não matou a sede a Sancho, melhor que a Samaritana, pois lhe deu vinho? O que apetece é homem. Nasceu um pouco para isso. A filha do estalajadeiro vai por igual vereda.
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E - repito-me - por ai fora... Mas há que parar, para todos descansarmos um pouco e isto não ser uma cópia mas uma escolha. Mesmo assim, quase ao fim da página 194 cheguei.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 41

E agora? Agora, as mulheres. Na página 193, mas já vinda da página anterior, lá está matéria abundante sobre o tema.
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É um tipo curioso, se bem que bastante unilateral, este da mulher cervantesca. Todas primam por bonitas, melindrosas, extremas no sentir, menos felinas que frágeis, brandas no malefício e melodramáticas na constância. Em geral, oscilam ao vento e voltam ao seu aprumo como as corutas e últimas andadas de ramos de araucárias. É, mercê desta fraqueza inata, que Cervantes lhes atribui dons particulares de duplicidade, como um meio de defesa, condão natural, semelhante ao veneno na glande secretória da cobra.
(...) Pois a mulher interessada, mais particularmente a mulher espanhola, ou, como D. Quixote, visto na simbiose com Sancho, pressente graças porventura a uma clarividente subconsciência psíquica ou esperta intuição, a mesma Espanha, absoluta nos rasgos, oscilando entre todos os contrastes, bizarra e mesquinha, heróica e futre, original como não há segunda no mundo, mas perigosa, tão perigosa que são para pôr de quarentena tanto os seus afagos como as negaças.
As mulheres de Cervantes são pois cortadas segundo certo molde, sem que ele pretenda com isso dignificá-las ou diminuí-las. O retrato não deixa de ter os seus encantos, mas nunca fiar; quando menos se espera, vem a pincelada forte à Velásquez. Aquela Doroteia, sorte de Briseida, subitamente resvala na chochice. Torna-se mexriqueira, senhora comadre e bas-bleu. Mas, repetimos, psicologicamente a figura está tão certa em seus justos valores como qualquer das infantas no quadro das Meninas.
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E por aí fora. E tanto mais que toda a página se foi (apesar de um pequeno mas difícil salto de meia dúzia de linha), e já tanto está a espreitar na página seguinte que não resisto a por ela entrar... mas em outro "post".

No cavalo de pau com Sancho Pança - 40

Retomado o folego (para a inveterada vontade de endireitar o mundo... até nestas tarefas de tão grande gozo pessoal), logo logo na página 185:
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Assim Pança, com o burro e a marranica atávica de escravo, o seu misto de astúcia e de simplicidade, e todas as taras e méritos do homem natural. Posto seja de barro hispânico por índole, é tão cósmico como o amo. Não mais que a truculência com que se move a sua animalidade, segundo por ordem de relevo no teatro cervantesco, revela o poder de vida que lhe foi insuflado. Chama-se a isso conhecimento do homem e imaginação. Quem diz imaginação diz originalidade. Dela se prevalece Cervantes com legítima arrogância... ...soy el primero que he novelado en lengua castellana; que las muchas novelas, que en ella andan impresas, todas son traducidas de lenguas estranjeras; y éstas son mías proprias, no imitadas, ni hurtadas. Mi ingenio las engendró y las parió mi pluma...
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Em meia dúzia de linhas, tantos exactos perfis! De Pança, de seu amo, de Cervantes. De Espanha! Abençoado parto... E também o de Mestre Aquilino, parteiro e parturiente.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 39

Aqui vou. Cavalicando. Contente por estar indo. Procurando o passo certo. Tanto caminho já feito e tanto caminho ainda falta. Vou na página 184 e não quero (porque não posso) transcrever todas as mais de 330 deste livro de maravilha(s).
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D. Quixote, não obstante as jaças de que está mareado, jaças observáveis num belo mármore se o examinarmos à lupa, é um livro eterno. Eterno como o herói, embora forjado com metal único, metal que só se encontra no subsolo psíquico de Espanha. E, por muito que o submetamos à pedra de toque gramatical, léxica, literária, fica pairando imune à análise mais severa e meticulosa. É que cavaleiro, não obstante os vínculos locais, está completo dentro de qualquer homem. Bastas vezes, sopitado como Durandarte sob os filtros de Merlim. Não raro, imóvel no fundo da jaula convencional, contemptor das leis morais e cívicas, e inveterado endireita do mundo torto.
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Por aqui paro. Não por longo ter sido o percurso, mas porque a frase "inveterado endireita do mundo" me obriga a parar. E a apear e a ficar uns momentos a reflectir sobre o mundo torto e a vontade (inveterada) de o endireitar.

sexta-feira, julho 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 38

Breve virei para... Assim escrevi, já lá vai um mês. E um mês passou sem ter dado por isso. Sempre com este "projecto" na cabeça. E adiado. Mas não pode ser! Das coisas que me estão a dar prazer esta é uma das que mais prazer me dá e não arranjo disponibilidade para ela. Isto tem de mudar! Parece que ando nas núvens, meteórico... Vamos lá, cavalinho de pau, à tal página 181 que vira para a 182. Até porque parece apropósito...
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E que D. Quixote passe nas nuvens, meteórico, a sua natureza não deixa de ser amassada bem humanamente segundo a receita de Adão, greda terrenal e cuspo divino. Assim, ver-se-á assoberbado, tanto quanto é consentâneo num homem lunático, por um dos problemas que mais preocupam os homens: o do dinheiro. Diz-se comummente que tal problema foi Balzac que o trouxe à plana da exegese romanesca. Pois anterior a ele, fê-lo com incisivo relevo Cervantes. Era de resto um dos tópicos do realismo picaresco. Sancho dana-se a contar maravedi por maravedi o dinheiro da escarcela. Como não ajustaram a soldada, só de pensar nisso lhe vêm dores de cabeça. Mas deixa, quando for governador, será mesmo negreiro como muito bom vizo-rei das Índias no intuito de amealhar os seus bilhestres para a velhice! D. Quixote, fidalgo pobre, esse, terá de vender duas ou três courelas para prover às necessidades de suas andanças. Previne-o o pretendido castelão que o armou cavaleiro:
- Traga baguinho!
Este circunstancial, que na novelística era tema desdenhado, torna-se no Engenhoso Fidalgo premente apuro e objecto de indeclinável atenção. O próprio cavaleiro se chora de não ser rico bastante para recompensar Sancho como merece. As considerações que na maré oportuna borda sobre a pobreza com tanto amargor, carregadas de tons escuros, pejorativos, traduzem bem a situação económica do novelista: Miserable de aquel que tiene la honra espantadiza y piensa que desde una leguas se le descubre el remiendo del zapato, el trasudor del sombrero, el hilaza del herreruele, y la hambre del estomago.
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Pois muito breve aqui voltarei. Prometo-me!, porque só comigo tenho encargo.

segunda-feira, julho 09, 2007

Boas leituras!...

O psicanalista, professor, Osvaldo Campos de seu nome, tomou para si os males dos pacientes (e dos impacientes) e, por eles, os males do mundo.
Sentiu que agir era preciso. E veio logo a pergunta como agir?
A acção é a primeira regra. Depois, há a do tempo e a do modo, e surge logo a regra do perigo. Entretanto, insinuou-se a regra do dolo formando as cinco regras. Mas foi-se impondo uma última regra, que “eles” queriam definitiva, a regra do silêncio. Da sombra. Por isso, combateremos a sombra.
No entanto, o leitor lembra que há mais regras. Porque é preciso ir mais fundo na acção para que, no tempo e no modo, se vença o dolo quando se afronta o perigo para se quebrar(em) o(s) silêncio(s).
Duas outras regras são indispensáveis: a histórica, isto é, a da luta de classes (desde que e enquanto); e a colectiva, a de tomar partido, a que Maria London grita para fazer coro com os passos batendo no chão do cemitério: “Deixem-me abraçá-los, milhões!”.
Assim é preciso. Para que não fique tudo como o agir “duma bondade defeituosa, uma bondade de parvo, uma justiça de doido”. De um homem só, psicanalista, professor. Só. Apenas com a companhia da ficção literária combatendo a sombra.

Quanto pesa uma alma?
Procurando outras perguntas, Combateremos a Sombra.

S.R.

domingo, junho 24, 2007

Artesanato, poemas de Joaquim Castilho, no dia 30

INFORMAÇÃO-CONVITE

no dia 30 de Junho,
pelas 16 horas

Joaquim Castilho
vai apresentar
o seu livro


no espaço

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haverá, em seguida,
uma pequena feira de livros, com grandes descontos