e o mês,
e o ano,
e a estação,
e o tempo,
e a hora,
e o momento,
e o formoso país,
e o lugar
em que fui preso aos dois belos olhos que me cativaram...
.
(O Seminarista... aqui voltarei... breve!)
.
Venho de regresso de uma noite diferente. Em Ourém. Porque houve quem a proporcionasse. Iniciativa e trabalho de uma equipa (julgo eu...) que merece parabéns e estímulo
Um serão cultural. De cinema. No Museu Municipal. O ciclo Kusturika. Em Abril.
Venho satisfeito. E impressionado. Não diria em estado de choque... impressionado, está bem.
Não sabia se tinha visto Underground. Não tinha. É Kusturika, em 1996, a contar-nos, doridamente (muito doridamente, embora às vezes não parece, e nos faça sorrir e rir), o seu País, a Iugoslávia. Que era uma vez...
Só três frases gravadas (e não por serem das últimas, embora por razões kusturikas o sejam), e para ficarem como registo desta primeira noite... do resto das nossas vidas oureenses?

Enquanto (vi)via, lembrei-me bastas vezes de Apocalipse Now

E este. Este que me está absorvendo. E a que não chamaria leituras. Que foi editado há duas décadas e que é de urgente reedição.






Por exemplo, à margem da actual polémica suscitada pelo livro de José Saramago, há quem tenha vindo, prenhe de dogmas (decerto gémeos…), invocar os Dez Mandamentos como um “código de boa conduta”, e logo ali, expeditamente, excomungar o autor de um romance que não leu, expulsando-o de seu (e nosso) compatriota.
Deus", 10º - Não cobiçarás a casa do teu próximo e nem a mulher do teu próximo.
Acontece que o li depois de Exit – o fantasma sai de cena, de Phillip Roth, o que tornou a leitura mais… complicada. Dois grandes livros sobre a velhice. Muito diferentes mas iguais no/para este leitor. Que velho é, e se encontrou – aqui e ali… - no que lia em um e no outro livro.
Do de Roth já “prestei contas”. E não foram fáceis… Já do de Chico, essas contas são bem diferentes.
Depois de ter lido umas “coisas interessantes” em que visitou o universo da literatura, com este Leite Derramado, Chico Buarque instalou-se nesse universo de reservado direito de admissão. Este é, na minha leiga opinião, o livro de um escritor.
Um texto consistente, muito bem urdido, com as medidas todas e certas.
E pergunta-se, o leitor que fui do seu livro, como é que ele conseguiu.
É como se o escritor tivesse sido velho, com a memória a falhar e a confundir tudo, e tivesse voltado, novo, rejuvenescido, para contar como tinha sido, como fora ser velho.
Já outros grandes escritores fizeram parecido. Mas só parecido. Por exemplo, e só para exemplo, José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires estiveram, por doença, quase “do outro lado” e voltaram para contar. Mas o Chico não. Porque não é a mesma situação de regresso. É um regresso de onde não se pode ter ido, um regresso de onde se não regressa.
De uma estada num hospital, de um colapso cardíaco, volta-se, ou pode voltar-se, para contar como foi. De um estado de senilidade mesclado de lucidez não se regressa. Até porque as intermitências são definitivas até chegar o fim de tudo.
Chico Buarque sem ter ido, sem ter vivido, sem ter sofrido o que nem sofrido será, regressou. Para contar. Como se tivesse ido, vivido, sofrido.
E, escritor a construir ficção, conta onde foi, como viveu, o que teria sofrido se sofrido fosse, mas conta também, e muito bem, tudo o que é o quadro dessa viagem individual, solitária, que não pode ter feito. Conta o Brasil, conta o contexto, o que foi passado e o que é.
Depois de Roth me ter conquistado e esmagado, Chico veio conquistar-me e fazer-me acreditar que um escritor pode contar o que não viveu, regressar de viagens que não fez, que não podia ter feito.
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Mais coisas direi. A mim mesmo… Tiradas do livro. Só três ou quatro.

