sábado, julho 26, 2008

A Prelo Editora - 4

Julgo (mas não juro...) que a primeira edição da Prelo foi O menino entre gigantes, de Mário Domingues (com capa do angolano António Domingues), saída da tipografia em Dezembro de 1960.
Com este livro se iniciou a colecção autores portugueses, a que logo depois se seguiu esse notável Chiquinho, de Baltasar Lopes, autor (e professor) caboverdeano e "claridoso".
Apenas duas anotações: Matai-vos uns aos outros, de Jorge Reis, ganhou em 1962 o “Prémio Camilo Castelo Branco”, criado pela Sociedade Portuguesa de Escritores e Grémio Nacional dos Editores, alguns dos autores portugueses que estão nesta colecção foi na Prelo que publicaram o seu primeiro livro.

sexta-feira, julho 25, 2008

A Prelo Editora - 3

No teatro, área muito cara ao Viriato Camilo, a Prelo lançou-se na edição de duas obras em fascículos, de teatro moderno e de teatro europeu, sob a direcção de Luiz Francisco Rebello e de uma colecção a que se deu o título repertório para um teatro actual, e de uma outra repertório da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, além de um documento, que depois seria o primeiro de uma colecção – o papel do teatro na sociedade contemporânea (comunicações – de Bernardo Santareno, Costa Ferreira, Miguel Franco, Luiz Francisco Rebello, Urbano Tavares Rodrigues, Teatro Moderno de Lisboa, Augusto Sobral – apresentadas no debate realizado na Casa da Imprensa de Lisboa, por ocasião do 4º Dia Mundial do Teatro e respectivas conclusões). As colecções foram dirigidas por Luiz Francisco Rebello, e destaco dois títulos, os cães, de Tone Brulin, actor-encenador e autor belga flamengo, com que se abriu a colecção, um libelo contra o apartheid na África do Sul, apresentado por Rogério Paulo, e Guilherme Tell tem os olhos tristes, uma peça de Alfonso Sastre que muito me impressionou. O “repertório” para a SECTP, que é muito mais largo para além desta lista, é exclusivo de autores portugueses.

quinta-feira, julho 24, 2008

A Prelo Editora - 2

Não se vai fazer o “inventário” exaustivo das edições da Prelo Editora. E muito menos fazer a história da editora, embora talvez valesse a pena porque seria uma história de resistência, a incluir na História da Resistência.
Apenas se deixa um registo. Para que não se perca. Com um ou outro comentário que me pareça adequado, imprescindível, sempre sucinto.
A Prelo Editora foi uma sociedade por quotas criada no começo dos anos 60, em princípio com dois sócios, Rui de Moura e Viriato Camilo. Mas, como Rui de Moura foi preso pela PIDE, começou a existir com Viriato Camilo e Rogério de Moura (da Livros Horizonte) irmão do Rui.
Depois… saiu Rui de Moura, mas foi preso Viriato Camilo!
Na prisão, ainda no Aljube, conheci o Viriato Camilo e fizemos uma “boa temporada” em Caxias na sala 2 r/c dº.
Todos “cá fora” (na “liberdade condicionada” que o fascismo condescendia para sua sobrevivência), retomámos conversas, e a sociedade por quotas começou por ser alargada a Fráguas Lucas e a mim, e, mais tarde, transformada em sociedade anónima. Até à segunda metade da década de 80, a Prelo foi editando, depois de ter passado por uma fase de relativo apogeu, em que se chegou a dispor de umas instalações interessantes aos Capuchos, com livraria… mas tudo feneceu em voragens de várias espécies.

Quando “entrei para a sociedade”, recordo-me de três áreas, de autores portugueses, de autores estrangeiros, de teatro, e de uma colecção "o homem no mundo".
De autores estrangeiros, relevo a edição do que também considero um livro notável ... também na sua edição portuguesa da Prelo:
Tradução (excelente) de Jaime Brasil e capa de arranjo gráfico de Pilo da Silva sobre capa de Brueghel.
O exemplar de que disponho também tem um… ex-libris

quarta-feira, julho 23, 2008

Terras do Feitiço

Não nasci numa “casa de livros”, como tantas vezes desejei, ou tive pena que não tivesse sido.
Mas alguns havia.
Meu pai não era um homem de muitas leituras. Mas era um homem que lia.
Com a 4ª classe, sabia tudo o que aprendera nas velhas escolas de aldeia nos primeiros anos do século XX. O nome de todos os rios e afluentes, de todas as serras.
E lia jornais – ao domingo de manhã, sempre, e muitas vezes a República, lembro-me eu.
E lembro-o por causa desta (re)“descoberta”:

Os livros, então, raramente traziam o ano (ao menos) da edição. Mas este tem uma referência que me comove. Um verdadeiro ex-libris:







.

.

O livro? Curioso… ajudando a perceber um “momento histórico”… Chegando a enternecer quando fala de bichos, "horrorizando" quando fala de humanos, e entre estes (talvez não para o autor)... os pretos!

terça-feira, julho 22, 2008

A Prelo Editora - 1

A sugestão (obrigado, Vitor Dias!) não caiu em. “saco roto”. Ficou a roer-me as canelas… pelo lado de dentro. E quando, nestas “arrumações”, peguei no Pantagruel, a “dentada” foi valente.
Sim, senhor… está decidido: vou fazer um “inventário” da Prelo Editora. Não uma coisa exaustiva, trabalho à séria, de estudioso. Será só uma “arrumação” dentro da (des)”arrumação” em curso. (Mas quando é que eu começo a fazer uma coisa, uminha, de cada vez?).
Então… a Prelo? Vamos a isso… isto é, vou-me a isso.
E logo me assalta a lembrança de homenagem amiga ao Viriato Camilo. Ele foi a Prelo. Outros ajudaram-no. E pouco. E alguns mal. E se, neste trabalho (não à séria, mas trabalho…) vier a precisar de alguma coisa, sei que posso contar com a Maria Teresa e com a Sílvia. E será bom pretexto para estar com elas! Antes das colecções, o Pantagruel. Uma edição de 1967, que faria o ex-libris de qualquer editora. Um clássico – mas dos clássicos! –, de Rabelais, traduzido por Jorge Reis, com mais de cem ilustrações de Júlio Pomar, com orientação gráfica de Alice Jorge. Para mim, uma pequena maravilha!
Teve uma tiragem de 1500 exemplares e 100 assinados por Júlio Pomar e Jorge Reis.
Aquando do lançamento, houve uma exposição dos desenhos do Pomar na Galeria 111, e lembro-me de uma fotografia em que estou com o Manuel Brito, o Igrejas Caeiro, o Fráguas Lucas e que não sei onde pára (talvez a encontre numa próxima, ou longínqua, curva das “arrumações”). (Ah, se esses desenhos tivessem ficado propriedade dos editores…)
Entretanto, a Vega (1994) e a Frenesi (1997), lançaram outras edições portuguesas de Pantagruel, sendo a da Vega, cópia (a meu ver) pobre da da Prelo, também com as ilustrações do Pomar mas, decerto, sem a orientação gráfica da Alice Jorge, e terá sido (talvez…) um êxito comercial. A “nossa” edição (de 1967), em pelo menos um estudo e como referência bibliográfica, aparece com a edição atribuída à Vega e um artigo de Sommer Ribeiro refere os 30 livros que Pomar ilustrou, entre eles o Pantagruel, edição de 1967, mas esquece o editor...











.


.


.


.


.


.

___________________________________
Como é evidente, mais nenhum livro merecerá este destaque e, por último, deixo uma mensagem particular para C.C. dizendo-lhe que não desisti de encontrar um outro exemplar do “nosso” Pantagruel.


ADENDA:

Entretanto, nestas buscas apareceu-nos a foto referida no textos, mas em que não está Manuel Brito como eu julgava lembrar-me...

Publica-se, como adenda, também para ficar como saudosa e amiga recordação de José Fráguas Lucas

Não passou...

(Também) para que não se pense que, por aqui, se deixou passar a efeméride sem um registo...

assim começa a auto-biografia:
1

Além de me dar a vida, uma constituição física forte e uma ligação duradoura à casa real thembu, a única coisa que o meu pai me concedeu à nascença foi um nome, Rolihlahla. Em xhosa, Rolihlahla significa literalmente “arrancar o ramo de uma árvore”, mas o seu sentido coloquial seria, mais precisamente, “o que causa problemas”. Não acredito que um nome constitua um destino, ou que o meu pai de alguma forma estivesse a adivinhar o meu futuro, mas, anos mais tarde, amigos e família atribuíam ao meu nome de nascença as muitas tempestades que causei e sofri.
________________________________
(e, de repente, lembrei-me de como tive a sorte de partilhar a grande alegria com que o Jorge Araújo - que me levava ao comboio depois de uma iniciativa qualquer em que eu participara - me disse ter, naquele momento, recebido a confirmação de que o Campo das Letras ganhara, na Feira de Frankfurt, a edição para Portugal desta auto-biografia do Mandela! SR)

segunda-feira, julho 21, 2008

De 1958 (tanta coisa há 50 anos...)

Para esta "exposição" de capas de livros que a "arrumação" (?!) a que estou a proceder me vai suscitando, está a formar-se "bicha".
Hoje, e cá por coisas..., vai este, edição de (e "cá por casa" desde) 1958: Com um "bónus"... para "especialistas":


















(...)
(pág. 347)

domingo, julho 20, 2008

Uma verdadeira raridade (ou preciosidade bibliográfica?)

Nas "arrumações":Reproduzo a página-cortina de entrada:
PRIMEIRAS NOÇÕES
DE
ECONOMIA POLITICA OU SOCIAL

CONTENDO
O RESUMO DOS ELEMENTOS DE ECONOMIA POLITICA
E
O VOCABULARIO DA LINGUAGEM ECONOMICA
OBRA ESCRIPTA EM FRANCEZ POR

M. JOSÉ GARNIER
Professor da Escola Imperial de pontes e calçadas e da Escola
superior do commercio de Paris
E TRADUZIDA POR
HENRIQUE MIDORI
Bacharel em Direito, Professor de Oratoria, Poetica e Lit-
teratura no Lyceu Nacional de Lisboa, e encarregado
da Cadeira de Economia Política, Direito Com-
mercial e Administrativo da Escola do
Commercio da mesma Cidade

Nos anos em que Marx publicara O Manifesto (com Engels) e aprofundava os seus estudos e trabalhos sobre economia política (com a Contribuição para a Crítica da Economia Política e os manuscritos de O Capital, que começaria a publicar em 1867, um ano mais tarde desta edição)!

Que achado! Vou deixar um post no anónimosecxxi.blogspot.com

sábado, julho 19, 2008

Ele há coisas...

Nas "arrumações" de livros e papeis, sempre por fazer e sempre a serem feitas, encontrei este livro - esta preciosidade, editada em 1943 - cuja (re)descoberta me encantou. Comecei a andar com ele para todo o lado, naquela osmose livro-leitor que tantas vezes nos faz conviver com gente e situações, nem sempre passando pela leitura.
Foi neste tempo que aconteceu em Loures o que teve tanto relevo mediático. E fiquei a pensar nas coincidências...
Abri e reabri o livro de Joaquim Namorado:
«Porém, só no Romancero gitano GARCIA LORCA atinge a completa maturidade e domínio absoluto dos seus meios de expressão, integrando numa poesia de inspiração popular - herança não só do romancero andaluz mas de alguns dos grandes clássicos espanhóis, LOPE DE VEGA além de todos - certas das mais importantes conquistas do modernismo.
(...)
Os ciganos são "o dramatismo, a vida apaixonada", a raça dos homens que sonha e vive livremente:
Por el olivar venian,
bronce y sueño, los gitanos,
esses cuja tradição de valentia e liberdade não consente o facto de Antoñito el Camborio se deixar prender por cinco guardas civis, a caminho de Sevilha onde ia a ver os toiros. sem que se lhe pergunte (...)»
Na verdade, ele há coincidências...

sexta-feira, julho 18, 2008

Como era o fascismo:

Há 1958, há portanto 50 anos (mas parece que tudo aconteceu há 50 anos...), era eu vice-presidente da Associação dos Estudantes do ISCEF. Foi no meu último ano, tínhamos um programa cheio, e alguém tinha proposto, no início do ano lectivo, que se organizasse um "curso do matemáticas gerais Bento de Jesus Caraça para assinalar o 10º aniversário da morte desse professor ainda tão lembrado na Escola. A AEISCEF meteu-se ao trabalho, informou a Direcção da Escola, como era indispensável. Tudo em regra.
O curso foi organizado, alguns professores colaboraram, como o prof. Ribeiro de Albuquerque, havia dignidade na iniciativa, como o exigia a memória do implicitamente homenageado.
Até que, tudo preparado, nas vésperas, o director da Escola, o prof. Gonçalves Pereira nos chamou para informar que, do Ministério, se via com muita simpatia a iniciativa mas que... o curso não poderia ter no título o nome de Bento de Jesus Caraça, ficaria só Curso de Matemáticas Gerais, e quaisquer referências ao professor Caraça estavam proibidas!
(avante! de 17.07.2008)
Não houve curso!

quinta-feira, julho 17, 2008

O gato é o Gato e as suas circunstâncias

Introdução

Nas minhas leituras em áreas diversas, várias vezes encontro a expressão “o homem e as suas circunstâncias”, que tem uma enorme carga ideológica. Decerto Ortega y Gasset merece a honra da “paternidade” da frase, devendo, por isso, reproduzi-la como ele a disse - "o homem é o homem e as suas circunstâncias (as suas circunstâncias, ou seja aquelas que condicionam a sua existência e o seu agir).
Como em algumas dessas leituras vi quem se apressasse a colocar o h em maiúscula e/ou a acrescentar a mulher, lembrei-me há pouco, numa leitura em que estou, que, por extensão, também se poderia dizer que “o gato é o Gato e as suas circunstâncias”.

O cá de casa

Olho para o Mounti, observo-o, e vejo-o ser as suas circunstâncias. Com a sua ascendência de fera, de lince – calda curta e muito larga – caçador emérito, predador, está outro nesta fase da sua vida. Com a idade, socializou-se. Aos poucos, veio aceitando os humanos depois de ter, não facilmente..., aceite estes que se julgam seus donos. Aparece. Mostra-se. Deixa até que alguns dos visitantes (desde que não crianças, e elesaberá porquê) se aproximem e lhe façam festas. O que, nos primeiros meses e anos, era impossível. Dir-se-á que é a idade. E é. Mas não é só.
No início da nossa convivência, a sua postura era, sempre, a de defesa-fuga ou ataque perante um meio ancestralmente hostil. Um ruído, um gesto brusco, um pé que se aproximava, eram riscos certos. Que passaram a ser potenciais. Que passaram a ser dúvida. Que deixaram de ser ameaça ou desconfiança. A sua existência foi sendo condicionada diferentemente e os seus agires foram sendo diferentes.

As circunstâncias do Mounti


Num ambiente em que não há agressividade, em que raro uma voz se eleva – a não ser, por vezes, para um rir mais alto – em que os pés não pisam ou dão pontapés, em que as mãos não batem mas afagam, o nosso Mounti foi sendo o que as circunstâncias foram fazendo dele.
Não deixou de ser uma “fera”, não se desabituou de caçar, o seu corpo está em permanente exercício e treino como se tivesse jogos olímpicos à porta. Mas é uma fera amansada. Cheia de ternura e de pequenos gestos de convivência.
Evidentemente que, nas nossas circunstâncias, naquilo que condiciona a nossa (humana) existência e agir, também entra e muito a existência, a presença, o comportamento do Mounti. Pelo que ele pede, pelo que ele “diz”, pelo que ele impõe como pequenas rotinas (e, por vezes, inesperads exigências).
Acabo de lhe escovar o pêlo como todas as manhãs é ritual, onde e como ele quer, de pôr a torneira em pingo-a-pingo como ele me pede-ordena, tive de lhe mudar o prato da comida porque ele me fez ver que aquela que lá estava já não era suficientemente fresca.
Por isso, o que estou a ler de Rubem Fonseca me trouxe a esta reflexão. À Ortega y Gasset. Ora toma!

A Elizabeth Feijão

“Elizabeth Feijão era uma gata siamesa vesga, de olhos azuis. Nascera na casa de uma japonesa chamada Mitsuko, que a habituara a comer sardinha crua. Quando foi para minha casa aprendeu a comer ovos, carne, feijão com arroz, mouros e cristianos, à maneira cubana. À medida que envelhecia, Elizabeth, além de de tornar-se rabujenta, passara a exigir, como vitualhas, apenas sardinhas frescas, recusando-se a comê-las se antes tivessem sido congeladas e protestando com insistência e veemênacia se fossem colocadas no seu prato.
(…)
Quando jovem Elizabeth raramente se manifestava, o único ruído que produzia regularmente era o das unhas sendo afiadas no carpete ou nos estofos das poltronas. Era preciso que lhe pisassem o rabo, ou coisa pior, para que emitisse uma pequena miadela. Mas agora dava lancinantes gemidos sem motivo aparente, só cessando quando eu lhe pegava ao colo e lhe dava beijos e falava com ela. Passara a detestar a solidão, um dos grandes prazeres dos gatos jovens e saudáveis. Quando eu chegava a casa, do escritório, ela me seguia pela casa, da maneira indigna dos cães, implorando carinho.”

(pág. 39)

A lembrar Carlos Oliveira

... assim me sinto às vezes...

segunda-feira, julho 14, 2008

Uma sala magenta e uma pistola na capa

Todos os livros têm páginas. Este, A SALA MAGENTA, de Mário de Carvalho, tem 175.
Sem que me entusiasme, gosto da escrita de Mário de Carvalho, e do que conta. Posso não gostar tanto dos personagens, mas que se há-de fazer? Começaram por ser do autor, e ele assim lhes deu vida.
Se todos os livros têm páginas, e este tem 175, deste ficaram-me duas com trechos em registo:
.
1. a descrição de como “À desolação de saber Maria Alfreda abandonada sob a rígida ordenação de montículos, acrescia o desconforto da promiscuidade: todos tão perto, tão chegados, tão apertados, corpo contra corpo. Quem seria aquela gente que enfileirava agora, quase ombro com ombro, com Maria Alfreda e que trouxera para aquele recinto as passadas, os rumores, o cansaço desatento das suas famílias, dos seus conhecimentos? Sempre tão discreta, a reclamar espaço, a defender-se das multidões e dos grupos, aí estava agora Maria Alfreda, alinhada a jeito, a compor o enquadramento, a partilhar o repouso, na indistinção duma formatura.”
2.- e, antes (embora na página a seguir), “Que queria Gustavo de Maria Alfreda? Que ela, enfim, parasse, que o escolhesse de vez, contra um passado preenchido por outras presenças, que supunha todas cativantes e perturbadoras, e também contra um presente desassossegado por interrupções, instabilidade, sinais de alerta e de perigo.”

quinta-feira, julho 03, 2008

A ler A SALA MAGENTA...

... a ironia e, logo-ao-pé, o cinismo como válvulas de escape para o personagem (só para ele?...). De escape à vida que não foi como-deveria-ter-sido, ou como-mereciam-que-tivesse-sido, que outros (com a sua ajuda) a-tivessem-feito.

sexta-feira, junho 27, 2008

Tchinguiz Aitmantov

Não há a intenção de transformar este "blog" numa espécie de obituário. Mas a notícia da morte de Tchinguiz Aitmantov teria de vir para aqui!
A morte, aos 80 anos, do autor de Djamília - que, com Serioja, de Vera Panova, foram dois dos livros que melhor me acompanharam na prisão -, fez-me lembrar tanta coisa...

Só li a notícia no último Expresso, tarde e más horas, e veio alterar todos os meus programas de curto prazo. In Memoriam, José Cutileiro dedica a sua secção a Tchinguiz Aitmantov e faz a consabida referência ao facto de Aragon ter considerado Djamília "a mais bela história de amor" . Honra lhe seja. Que, depois, desmereceu em quatro colunas de mensagem ideológica execrável. Como parece ser obrigação: quando morre um comunista, de que se tem de dizer coisas positivas, por a sua qualidade - humana, profissional, literária, artística, o que for - ser incontroversa e incalável, há que desancar, de maneiras várias e com mentiras ditas como se fossem verdades históricas absolutas, o comunismo, a União Soviética, o Partido Comunista, qualquer que ele seja... desde que seja comunista (*).
Apetecia ficar aqui a falar dos livros de Tchinguiz Aitmantov. Da realidade que ele, com tanta qualidade literária, nos conta. E que fica contada. Indelével.


(*) - É a luta de classes. estúpido! Ainda não percebeste? Como é que te admiras sempre?!

quinta-feira, abril 17, 2008

Morreu o autor de "Discurso sobre o colonialismo"

Morreu Aimé Césaire, fundador do Movimento Negritude (a que se associa, também, o nome de L. Senghor) e autor do "Discurso sobre o colonialismo" de grande importância na luta (ideológica) contra o racismo e o colonialismo (1ª edição em Paris, de 1956, edicão portuguesa - entre outras - de 1971, nos Cadernos para o diálogo, Porto).



Recentemente, no avante!, Odete Santos, num artigo sobre Igualdade, paridade, quotas, começava por uma transcrição de uma intervenção deste poeta e político da Martinica, neste dia da sua morte, aos 94 anos, que deixamos como uma modesta homenagem (e agradecimento!):



"Há palavras de uma tal densidade que não suportam ser menorizadas pela vizinhança de um epíteto qualquer. A palavra igualdade é uma delas. Não há igualdade adaptada, não há igualdade global. A igualdade ou existe ou não existe."
(Excerto de uma intervenção de Aimé Césaire, deputado do Partido Comunista Francês, produzida em 1982 na Assembleia Nacional Francesa a propósito do Estatuto dos Departamentos Ultramarinos).

segunda-feira, abril 14, 2008

De regresso...

Terá passado o período de nojo... talvez demasiado curto para o sentimento de perda.
Entrei numa livraria em Ourém. A Letra. Simpática.
Enquanto conversava com quem a mantém, sobre as dificuldades e as angústias de ser livreiro, ia vendo capas e folheando "novidades". Como gostava tanto de fazer na Som da Tinta.
De repente, vejo uma edição da Bertrand que logo me prendeu os olhos, a atenção, e logo agarrei o livro porque o queria meu, porque o queria levar comigo. Um livro do Aquilino, Um escritor confessa-se, com fotografia do autor, do escritor que se confessa. De quem tanto gosto, e com quem tenho ainda umas contas a ajustar, aqui neste blog, por causa daquela viagem no cavalo de pau com Sancho Pança.
O entusiasmo logo esmoreceu quando, nessa mesma capa, li: prefácio de Mário Soares! Fiquei parado, livro na mão. Quase mecanicamente, folheei aquilo que tinha nas mãos. Saltei as 2 ou 3 páginas do dito prefácio, em que Mário Soares começa, como seria inevitável, a falar de si e da sua relação com Aquilino, onde e como o encontrou, a contar-se. Saltei linhas e essas poucas páginas. Como quem foge. E cai numa longa nota preambular (que nem mereceu a "honra" de estar na capa) de José Gomes Ferreira, de anterior edição, creio que de 1974. (se calhar, ainda ficava pior se tivesse visto o preamulador de parelha com o prefaciador).
Tudo foi demais! Sai da livraria. Zangado. Com o mundo. Com o estado do mundo. Deste mundo prostituto. Com os prostitudos deste mundo. À Ruben Fonseca, e sem memória dos charutos porque nunca fumei.
Terei de lá voltar. Serenados os ânimos... Porque temos de recomeçar a relacionar-me com livrarias e livros. Tenho de fazer umas "pazes". Mas assim é difícil!

quinta-feira, março 06, 2008

Ponto final... parágrafo!

No dia 29 de Fevereiro de 2008, acabou a empresa Som da Tinta , livraria e editora, limitada. Isto é, os sócios, em assembleia geral, puseram fim, formal, ao que já tinham decidido dissolver, liquidar, extinguir. Como as normas determinam, embora ainda haja formalidades por cumprir, como fazer a acta, fazer assinar a acta, como registar, declarar, (a)pagar em suma...
Aqui, iremos - talvez... - contar o que foi esta bela aventura e dizer alguns porquês.
Por agora, fica a informação.
E a afirmação, também, da intenção de continuar. Aqui. Retirando do cabeçado do blog "uma livraria, uma editora" e mantendo "um espaço cultural, um blog".
É assim a vida. Que continua. Como é de uso dizer. Mas difícil de fazer. Com a certeza, sempre renovada, de que sozinho ninguém é capaz. Que com poucos - mesmo muito bons - é quase impossível.

quinta-feira, outubro 04, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 59

Feita a paragem, aproveito a ainda embalagem, e passo já à continuidade do trecho:
_________________________________________
O tonus da nossa época, ou antes a espécie de ondulação psíquica, que se toma do panorama social, vem-lhe mesmo daí. Já a palavra tinha alguma coisa de impostura léxica. Com efeito, este vocábulo foi enxertado na raíz de mistérium, o mesmo é que arcano. Mistificar, na vera acepção, seria pois enganar mercê de processos escuros, pela calada, abusar da boa fé do próximo por artes de berliques e berloques. Quando os oráculos da antiga Roma recolhiam aos santuários e voltavam a dizer que os deuses lhes haviam comunicado tal ou tal desígnio, aqueles que por interesse ou auto-sugestão se não houvessem identificado com a pantominice eram vítimas de uma autêntica mistificação segundo a lei e a forma.
Mistificar tornou-se uma ciência, e lá temos os efeitos em palácio e noutros lugares. Por isso, D. Quixote é a sagrada escritura da rectidão e da pura verdade. E que mais não fosse, pelo inciso contraste de tais factos, uma vez erguida a máscara da pobre res humana, se torna trágica e constrangedor esta farsa larvada de irrisão e dor.
______________________________________
E teríamos chegado à última paragem antes daquelas já transcritas oportunamente noutro lugar, sobre Portugal, a Espanha, a Ibéria. Aqui as retomaremos para terminar viagem. Longa, sim, mas também saborosa e a pedir que seja destacada e de outro modo tratada.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 58

Se o trecho anterior poderia parecer demasiado datado, e por isso algo ultrapassado, este que segue, páginas 325/326, estará também datado mas parece que datado de agora:
_____________________________________________

Hoje, a grande ciência está nos modos de aplicar a mentira. Depois que o homem aprendeu a exercer faculdades do livre exame e a determinar-se perante os fenómenos da natureza, bem decerto que começou a secretar, para isso que Julian Huxley chama o oceano sideral das ideias, intelligentia, ou o seu contributo psiquíco. Cada alma é como uma pequenina fonte que se vai lançando para o córrego, este para o rio, o rio para o mar. Ali se opera a concentração espiritual. Evidente se torna pois que alguns homens são Ebros e Niágaras, outros simples lágimas à superfície da terra. É nesse oceano que flutua toda a sorte de ideias, de opiniões audaciosas, de sistemas exaltados, desde a sabedoria milenária, cujos autores desapareceram há muitos anos ou mesmo há muitos séculos, ao saber crepitantemente actual, com as especulações dos poetas e dos artistas, em suma, a floração do espírito através das idades. O nosso cérebro sobrenada nesse plágio imaterial. Quem quer vai aí buscar o plâncton que lhe permite corporizar os seus conceitos originais, ou o modo de enriquecer a natureza em conhecimento, vontade moral, fé generatriz e até em exaltação e amor.
Deverá acrescentar-se - por honra da firma humana - que a história fazem-na os escrivães da puridade, os apaniguados dos poderosos, as gazetas afectas ou coactas, a literatura regida ou condicionada, e não nasce feita. Em tal grave operação mistificar tornou-se prática universal.
______________________________
Por vários motivos é de fazer aqui uma paragem. Por exemlo, por dimensão do texto que os posts consentem como não exagerado (e alguns já deixei...), porque este último parágrafo é dos que pede "páre, olhe... e pense". Tentarei voltar depressa...

domingo, setembro 30, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 57

E tínhamo-nos despedido, na "paragem" 56, dizendo até já!... Tanto tempo passou, até com a ida de Mestre Aquilino para o Panteão, aqui referida de passagem.
O tempo estã difícil, as solicitações são muitas, Mas queremos levar a jornada até ao fim. Não com sacrifício, com a alegria de cumprir um objectivo e o prazer de ler e reler e dar a ler um livro que bem o merece. e tão esquecido...

Pois vamos até à página 325, onde vamos encontrar o bom (será?) do Sancho:

__________________________________________


Sancho não será pois bom, nem mau, apenas o homem no seu posto. O que são os camponeses, obrigados à força de ardis a defender-se do rico que os explora, do poderoso que lhes bate, do Estado que os carda, ora carneiros, lobos, milhafres sabe-o quem lida com eles. Tudo afinal é a vida, a condicionação do homem, género Sancho, dentro do restante mundo, mas não a bondade intrínseca que Unamuno supôs no escudeiro manchego. Bondade, entanto que postiço, é a de S. Martinho, que repartia a capa com o pedinte; a de Lutero, que, para não quebrar o sono do bichano adormecido, uma vez cortou à tesoura a parte da garnacha em que ele se aninhava; a de S. João de Deus, que pegava nos enfermos às costas e os conduzia ao hospital; a do pobre dos caminhos que reparte o pão com outro mais faminto; em suma, é uma virtude de santos e porventura de tolos. O nosso semelhante, ingrato, pretencioso e troca-tintas, merece tais sacrifícios?

______________________________


Estamos nas páginas finais. Esta imagem do camponês, escusado seria dizê-lo, é a de um tempo em que a agricultura, por aqui, era uma actividade produtiva, e em que não havia televisão e outras formas de aproximar os mundos sem que os mundos tenham deixado de ser vários e díspares.

E esperamos não demorar muito tempo a aqui regressar. Mas alguém, além deste encantado escriba/ copista daria pela falta? Daria ele por não cumprir um propósito e já muito seria.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Aquilino

Hoje, não podia deixar de referir a homenagem nacional a Mestre Aquilino, que nos tem acompanhado, há longos meses, neste blog.
Mais diremos quando possível mas, hoje, apenas fica esta palavra. E a não-surpresa por não ter ouvido uma vez - não ouvi tudo... - citada a versão do D. Quixote e o "nosso" No cavalo de pau com Sancho Pança

quinta-feira, setembro 13, 2007

GMR e SdaT no Jornal de Letras (Listopad)







.

.

.

.

.

.

Na página que publica semanalmente em Jornal de Letras, na edição desta semana Jorge Listopad refere-se a Onde estava Vossa Mercê nos painéis?, de Gonçalo Morais Ribeiro.

O livro será apresentado no domingo, 16, nos Castelos de Ourém, pelas 17 horas.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Informação/convite




No dia 16 de Setembro, domingo, às 17 horas
a

vai promover, num torreão dos Castelos de Ourém

(disponibilizado pela Câmara Municipal),
um debate-apresentação de:



(uma maneira original, fundamentada numa longa investigação,
de levantar uma questão que atravessa a nossa História)





com o autor,
Gonçalo Morais Ribeiro


e “Vossa Mercê”….
onde vai estar no dia 16?

segunda-feira, setembro 03, 2007

Onde estava Vossa Mercê nos painéis?


No termo e nos termos deste seu labor, usando e abusando das disjuntivas, vem o editor e actor de outros estatutos, deixar duas palavras (que sempre mais que duas são…) em honra e louvor de quem congeminou e foi autor desta obra.
Totus in illis, Gonçalo Morais Ribeiro, que parece ter querido fugir a deixar a sua identificação para além de três iniciais arrevesadamente responsabilizadoras, fez das “tábuas” jangada sua, e por elas e nelas viajou, descobrindo caminhos novos, julgando outros ter descoberto, alguns inventando com imaginação e mão fina e afinada.
A outréns, doutores e professores, caberá, ou melhor: caberia, avaliar o mérito (e talvez o atrevimento) desta viagem em que G.M.R. se investiu e revestiu de por vezes curiosas roupagens, e por via da qual se entranhou adentro estranhas gentes, cousas e feitos.
A nós, das edições e de outras (boas) acções e (malas) artes, coube transformar o metódico e caótico (sim, as duas coisas!) original neste volume.
Em nome de



No cavalo de pau com Sancho Pança - 56

Nisto de observar o mundo... palavra a Mestre Aquilino (pág. 324):
_________________________
Nisto de observar o mundo há dois métodos de prospecção. Um que consiste em encarar as coisas no primeiro plano do horizonte. É o processo comum e cómodo, mais condicente com o uso dos sentidos. No primeiro plano, a mulher que amamos é bonita, desejável, cheia de dons. No segundo plano, desdenha-se dela porque há-de envelhecer, tornar-se feia, se não hedionda, matéria pútrida, enfim caveira.
No primeiro plano ama-se a vida, o bem, a glória. No segundo, detesta-se a vida, porque nada há mais transitório, menosprezável, e porque tudo que tem princípio tem fim. Segundo a origem teológica da Terra, tudo começou num nihil mediante uma vontade e acaba em nihil. Também segundo a teoria geológica do nosso Globo, uma série de catástrofes modelaram a sua configuração actual em continentes, mares e ilhas; qualquer catástrofe imprevisível pode produzir nova transmutação, e de uma hora para a outra subverter, com as nossas cidades, o nosso orgulho, a nossa ciência e o nosso património de civilizados. No segundo plano, pois que tudo é efémero, bem e mal, beleza e disformidade equivalem-se na meta de todas as coisas, e tanto vale , enfim, a Vénus de Milo como a estátua de bronze comercial que se vende no bazar. Unamuno via os figurantes do D. Quixote através as lentes fumadas de velho homem, desiluso do plano amável das coisas, de modo geral, às avessas do restante mundo. Dir-se-á: tudo é relativo. Precisamente, a relatividade é ainda, como certeza dialéctica, uma consolação de primeiro plano.
_______________________________
E pronto. Até já.

domingo, setembro 02, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 55

Às vezes, há surpresas. Boas. Uma amiga, das que não fazem comentários..., trouxe-me uma prenda. Para mais pela mão do neto. Uma edição, lá dos anos 50, de D. Quichote - rei de Portugal. de Thomaz Ribeiro Colaço. Já o folheei, e estou preso. O 4º prefácio do autor (!) - D. Sebastião e Camões - é uma carta a Aquilino Ribeiro. O que para lá está, em termos civilizados, muito correctos, de cavalheiros! E Cervantes, e D. Sebastião, e Camões, e D. Quixote, e Sancho. Que material! Mas vou continuar a viagem... Agora, sobre o camponês (pág. 323)
______________________________
O camponês, em si, não é bom nem mau. Mas porque está perto da natureza em tudo o que ela conserva de estático no que concerne às leis genéticas, possui as manhas do homem, ao fundo da escala racional, resultantes do contacto estreito com as necessidades elementares e os seres que lhe parecem úteis. É intuitivo que o entendimento se lhe tenha desenvolvido em conformidade. Cervantes pinta-nos Sancho despojando o frade que D. Quixote deita abaixo da mula com um bote de lança; regateando com o amo a soldada; logrando-o no cômputo e natureza dos açoites que deveria dar na bunda e subestabelece nas árvores para desencanto de Dulcineia, a tanto por peça; sonegando o pecúlio achado na Serra Morena; extorquindo três poldrinhos a Quixote; aferrolhando bem aferrolhada a gratificação com que o duque procura coonestar as pachouchadas que os dois, como uns pelotiqueiros, vieram representar a palácio para seu desenfado. Numa palavra, temos nele o perfeito velhaco (...)
_________________________
Assim, temos Aquilino sociólogo, ou antropõlogo, a fazer alarde de uma dessas cieências sociais. Depois de historiador e, sempre, ensaista e excepcional manejador da língua portuguesa.

quinta-feira, agosto 30, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 54

Aquilino não se fica, no seu ensaio, pelo riquissimo acervo de informações e comentários sobre Cervantes, o seu tempo, a sua vida, os seus livros e personagens que criou (de que D. Quixote e Sancho são universais e imortais), também trata (e às vezes não muito bem...) outros que dedicaram tempo e páginas a Cervantes e à sua obra. Como Unamuno, que há pouco foi lembrado por também ser Miguel como Cervantes e serem, os dois, "padrinhos" de um outro (falso) Miguel, o Torga.

________________________________

Unamuno não temia entrar em contradições porque para ele uma das formas dos entendimentos superiores era o prazer de rectificar-se. Apenas não são susceptíveis de cometer a rectificação os espíritos dogmáticos e portanto tacanhos ou medíocres. Assim, apropósito de D. Quixote, ora lança o anátema: - Morra D. Quixote, e viva Alonso Quixano o Bom! - como virá, mais tarde, neste livro, a bater no peito, repeso do que dissera: - Perdoa-me senhor D. Quixote! Pega-me a tua loucura, pois que sem ti, sem os homens iguais a ti, cavaleiros do ideal, que seria do mundo! Não, viva D. Quixote! D. Quixote maltratado, D. Quixote morto!

Para um artista, Alonso Quixano tem interesse muito aleatório. Este cidadão sensato, que corre as lebres, possui uma livraria recheada de velhos autores, vai à missa, procura trazer igualmente em dia as contas da lavoura e da alma, interessa mais o sociólogo. É nele que repousa a saúde e o bom funcionamento da República. O artista prefere-lhe o maníaco, o original, o excêntrico. Mas à civilização, à Espanha integrada na Europa ou que terá que integrar-se na Europa, ao mundo, poderá haver dúvidas que lhe caiba hesitar e não tenha de decidir-se a extirpar como um cirro este fátuo vivente? Em nome, pois, da paz e do progresso teremos que clamar com Cervantes e o Unamuno da primeira leitura: Viva Alonso Quixano o Bom, e morra D. Quixote! É verdade que um espanhol sem areia não presta; não é espanhol castiço; falta ao quilate. Por outro lado, certas ideias, para que triunfem, têm de enlambuzar-se de loucura. É como certas drogas que a farmacopeia ministra em granjeias cor-de-rosa ou pílulas douradas. Mas o mundo novo tem de fazer-se em equilíbrio e com todas as higienes.

__________________________________

Desculpem lá. é de perder a respiração. Começa logo por (me) lembrar o sempre lembrado Bento de Jesus Caraça e aquela frase que está no seu busto no ISEG, na R. Miguel Lupi "não receio o erro porque estou sempre pronto a corrigi-lo", que me esforço para que me acompanhe a par e passo. Depois, a Espanha a integrar-se na Europa (!), depois... bom, passo É demais!


o pretenso retrato de Cervantes
(ou será de Alonso Quixano, o Bom?)

quarta-feira, agosto 29, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 53

Ao entrar na estação/capítulo XIV, logo deparamos com Passos na arada, seguidos de A misoginia de Cervantes e de D. Quixote orador socialista. É aliciante. E tanto que paramos nesta última passagem.
____________________________________
O lado fraco de D. Quixote está na retórica. Algumas vezes lembra um mestre de Salamanca nas Orações de Sapiência, outras vezes um deputado discursando em Cortes. D. Quixote é um arengador e moralista à maneira tão predilecta dos pregadores e exegetas castelhanos, salvo a sapiência e os versículos da Sagrada Escritura.
A discriminação do género humano em classes e suas estirpes, com um desdém manifesto pela ralé e conceitos ridículos quanto à natureza do homem, mostra a pouca ou nenhuma cultura sociológica de Cervantes. A página respectiva, embora escudada na pedantaria didáctica dum mentecapto, é do pior que se escreveu. Quando o novelista sai do terreno da vida comum e entra a discorrer sobre altos temas em estilo de lente, temos droga. o D. Quixote, homem de baldões e tropeçadas, arrancou-o da pele.
(...)
À medida que se vai desenrolando o D. Quixote de la Mancha, a figura do Engenhoso Fidalgo bem como a de Sancho vão-se sublimando. Cervantes acaba por enternecer-se com o seu herói, não digo apiedar-se, que um castelhano não sabe o que é piedade, mas toma-lhe amizade. Parece que sofre com os seus infortúnios e naturais percalços. Por outro lado, as suas loucuras, cambalhotas e extravagâncias já não são tão grotescas. São partes gagas dum doido da família, coitado!
______________________________
Que delícia!
E, sobre a primeira parte desta transcrição, lembre-se que o livro foi publicado em 1961!

domingo, agosto 19, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 52

Entretanto, 1640. E um outro caminho para Portugal. Ou o seu caminho. E, de metrópole tipográfica para editar em castelhano, o cadinho da língua portuguesa, outra e bem diferente, nossa e fazendo-nos. E lá vem Mestre Aquilino dizê-lo. Nas páginas 286 e 287:
________________________
Não falando nas citadas edições em castelhano, a primeira demonstração cervantina em Portugal, cronologicamente anterior ao trasladado para português do Engenhoso Fidalgo, que deu a lume a Tipografia Rolandiana, está na representação que teve lugar no teatro do Bairro Alto em 1733 com a Vida do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança, por António José.
Primeira tradução livre, fragmentária, para teatro do D. Quixote, por António José da Siva, o Judeu
e Primeira tradução do D. Quixote para português
(de 1794, Com licença da Real Meza da Comissão Geral sobre o Exame, e Censura dos Livros)
A comédia em Portugal, como o resto, não passava de humilde vegetação, meia hierática, meia truanesca, e assim compreende-se que esta fosse uma grosseira vergôntea da grandiosa árvore que plantaram especialmente Lope de Vega, Calderón e Cervantes. De resto, o autor tinha que comprazer com o rebaixado gosto do público, pelo que as cenas decorrem no geral em bufonaria barata, sem lógica, nem graça digna de nome. Se não fossem assim, não tinham um espectador para amostra. Calcule-se o gosto do público lisboeta pelo do público rural hoje em dia. Só compreende a patacoada. Se ouve ler a página mais dramática, desata a rir, sendo o riso a única forma de emotividade.
______________________
Ah, Aquilino, Aquilino... nem te comento.
Lembrar-me eu que, aqui há uns anos, tive o desplante de encenar (pois!) uma comédia de Miguel Cervantes na ARCA (Atouguia)...
Não faço o comentário habitual, pronto!