terça-feira, julho 21, 2009

O fantasma sai de cena? - 2

Não sei se Lonoff existiu ou é só ficção de Roth. Como não sei se Zuckerman é Roth, a sua realidade ou a sua ficção.
Também não sei, nem quero saber como Kliman será capaz de tudo fazer para conseguir saber, se Roth tinha 71 anos quando escreveu Exit, tinha sido operado à próstata e usava fraldas dada a incontinência. Ou se o fantasma que sai de cena, segundo Roth, é ele próprio, se é Zuckerman ou se é outro de tantos fantasmas (de Roth e de quem for o leitor) que povoam o livro. E Jammie, e Amy, e Billy, quem são?, ou que realidade foram para serem a ficção que são?
Sei, ah! isso sei, que existiram Hemingway, e Conrad, e Plimpton, e Hawthorne, e igualmente os Bush, e as eleições, e o 11 de Setembro, e todo o ambiente que é, também, o romance. Ah!, e acabo de saber que existem a 71th., e a First Avenue (andei por lá , há dias... pus lá os meus pézinhos).

E estou como ele diz na pág. 38 (quem?, Zuckerman ou Roth, ou os dois?) "Fiz o que fiz - é tudo o que uma pessoa sabe quando olha para trás. Passei pelo que passei levado pela inspiração e pela inépcia que eram minhas - a inspiração era a inépcia - e o mais provável é que agora esteja a fazer o mesmo." E tanto o estou que, agora!, sou eu que estou a fazer o mesmo. Isto é, a subscrever, ou, melhor, a escreversobre.

domingo, julho 19, 2009

Há muitas maneiras de sair de cena - 1

25 de Abril, último "post". Maio. Junho. 20 de Julho. Cabo Verde, Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro), Nova Iorque.
E este "blog" de leituras ao abandono. Por terem parado as leituras? Não. A minha vida é feita de leituras, embora seja certo que muitas tarefas (ah!, a crise, ah!, a campanha das "europeias") e muitas viagens terão tornado menor o ritmo de leitura e/ou esmorecido o estímulo a transcrever impressões de leitura. Até que... Exit - o fantasma sai de cena me tomou de assalto.
(edições Dom Quixote)

Phillip Roth é um autor que se (me) impôs. Quando não se pode ler tudo, há autores de que não se pode perder um livro. Tenho alguns. Este Roth, Pennac, Saramago, Rubem Fonseca. Gostos... embora de muitos outros goste muito.
Já aqui pelas vizinhanças se falou deste livro. E adequadamente. Adequadamente ao livro, ao autor, a quem o leu e comentou. Em quartetodealexandria.blogspot.com. Sem fôlego!
"De uma crueldade fria e impiedosa. De uma lucidez metódica e despudorada. Que fere, rompe e esmaga, e me deixou alerta e sem fôlego.
O prazer incomparável da leitura.
O livro que todos os maiores de 60 anos deveriam ler.
E os outros também."

Claro que sim, diz quem agora acabou de o ler. Mas a crueldade fria e impiedosa, a lucidez metódica e despudorada- que fere, rompe e esmaga -. deixa muito mais alerta e sem fôlego quem, sendo maior de 60 anos, também o é dos 70, e tem mais 2/3 anos que o narrador/autor/peronagem escritor.
Apetece dizer que Roth abusa e, pondo logo no título que o fantasma vai sair de cena, não nos poupa ao "... sermão sobre a linha intransponível que separa a ficção da realidade", ou à "confissão atormentada sob o disfarce de um romance" (pág. 260) que, como autor, parece estigmatizar. Mas que, nesse mesmo diálogo, logo recupera como quem se compraz a remexer nas feridas próprias e no que desperta no leitor que, na ficção, encontra a sua própria realidade, ou o que ela poderia ser, ou que ameaça vir a ser. E brinca, aparentemente jogando com as palavras: "A não ser que seja um romance sob o disfarce de uma confissão atormentada"/"Então porque ficou arrasado ao escrevê-lo?"/"Porque escrever pode arrasar quem escreve...". E pode arrasar quem lê, dirá o leitor, este leitor.
Ademais, o desenrolar do jogo das palavras e das linhas e dos capítulos e dos diálogos do romance, um pé cá um pé lá da fronteira/linha (in)transponível que separa a ficção da realidade, é levado ao excesso de não se referir ao romance que foi escrito, que é aquele daquele escritor que é o autor do romance que está a ser lido, mas a um outro romance que ele quer impedir que seja publicado porque, se vier a ser ficção pode tornar-se uma realidade que não se quer conhecida ou, sendo realidade, não se deseja revelada ao vir a ser ficção.

Que dizer mais? Ah! muito mais... mas, por agora, chega. Há que recuperar algum fôlego.

sábado, abril 25, 2009

Memória do 25 de Abril?

Amanhã, 25 de Abril, que já hoje é, vou "partilhar experiências" a partir do comentário a este livro, de um jovem antropólogo, Tiago Matos Silva, que ainda mais jovem era quando o publicou, há 7 anos.
É um livro interessante, construído sobre depoimentos de "informantes" de 4 famílias (1 de "direita", 2 do "centro", 1 de "esquerda"), com bem discutíveis "etiquestas". As conclusões do livro são, também, uma verdadeira auto-crítica pois denuncia o que o próprio autor fez ao escolher os "informantes", as famílias que ouviu. Talvez, sobretudo, para procurar respostas para as muitas dúvidas que tinha. Dúvidas que estão claras nessas conclusões, em que o vi como um 17º informante. Não me deixando, a mim, dúvidas sobre a sua boa-fé...

Mas. Mas, ao fim destes 7 anos que passaram após a publicação, estou muito curioso em tentar ver como essa boa fé resistiu, em que se tornou, como se confrontará o autor com a experiência, com as vivências, com algumas irrefutáveis verdades históricas, com a crítica às amostras escolhidas e a sua não representação do universo da realidade, tudo coisas que tentarei partilhar. Com ele, e com quem estiver na Biblioteca Municipal de Ourém.

As malhas que o impéri(alismo) ideológico tece!

segunda-feira, abril 13, 2009

No centenário de Soeiro Pereira Gomes

A entrevista com Manuela Câncio Reis (com 99 anos!), em O Mirante, pode ler-se aqui.

domingo, abril 12, 2009

Nos 100 anos de Soeiro Pereira Gomes...

... é interessante ler esta entrevista com Manuela Câncio Reisem

sexta-feira, abril 03, 2009

Leituras desfasadas da "crise"

Estávamos numa outra livraria, na Arquivo, de Leiria, um espaço de que gosto... apesar de algumas más recordações. Passava os olhos pelas capas, naquele exercício tão agradável (mas não só, nem sempre) de saborear títulos, autores, grafismos. Muitos sobre a "crise". Num me detenho

"43 reflexões de figuras de referência da Universidade e da vida económica portuguesa". Nem um com uma reflexão marxista-leninista, resmunguei e pousei-o. Ou melhor: rejeitei-o. Depois, repeguei-lhe. O Carvalho da Silva? A sua leitura é, decerto, sindical e para "equilibrar" a do João Proença. Folheei-o. Excerto do Krugman? Tinha de ser! Para fechar o livro, esta verdadeira provocação idiota de um qualquer Arnaldo José da Silva dizendo que "Não existe crise!!! Existe sim, uma propaganda negativa e destruidora feita pelas emissoras de televisão em troca de audiência. Desligue a televisão e trabalhe. Você surpreender-se-á com o seu sucesso!"... A culpa dos trabalhadores, claro!, que vêm muita televisão e trabalham pouco...

Em vez de o pousar apeteceu-me atirá-lo porta fora. Mas podia acertar em alguém...

Continuei a folheá-lo. Se calhar estava a fugir de ler a "reflexão" do meu ex- jovem camarada, colega de brilhante carreira académica, do António Mendonça: A natureza da crise actual.

Comprei o livro, claro. Já li umas páginas. As do António Mendonça, obviamente. Que confrontei com umas outras páginas de sua autoria (em colaboração com o Nelson Ribeiro), num outro livro que fui buscar à estante e de que, de vez em quando, me sirvo. Sobretudo de O marxismo e a crise económica actual, um muito interessante (e pedagógico) estudo de autoria desses colegas.

Que experiência curiosa. A edição é da Caminho, na Biblioteca Universidade Popular (do Porto), animada pela saudoso Armando Castro. De 1985. Dos tempos da esperançosa, ilusória, traidora perestroika. Como eles eram marxistas! Como tantos ficaram orfãos da União Soviética! E, hoje, em que estado estão alguns que até pareciam ter uma certa consistência ideológica...

O interessante é que, ao ler o texto de hoje, ele me parece, nalguns trechos, no diagnóstico, uma tradução para "capitalês" de partes do estudo de há quase 25 anos. No meio de uma incontáveis paradigmas e modelos, que até irritariam o leitor mais benevolente, a tradução de capitalismo por economia de mercado e outras, a ausência de qualquer referência a Marx, marxismo, socialismo, mais-valia, exploração, trabalhadores, essas coisas, brrr..., enterradas avestruzmente, por total omissão, como se de um espectro se tratassem (e tratam!).

Daqui deriva, apesar da utilidade das "hipóteses de apreensão das características fundamentais da crise económica actual", desde que retrovertidas para língua de economista sem fantasmas, a codificada conclusão (bem diferente das de 1985, por oportuno esconjuro ou exorcismo) de que a crise económica actual estaria a abrir "um processo de reconfiguração do modelo de organização económica e de intervenção dos poderes públicos que aponta para um maior controlo das dinâmicas de internacionalização das economias e da globalização para uma recuperação dos instrumentos e do papel da política económica a nível nacional e para uma reestruturação e reforço do papel das instituições económicas internacionais. Em síntese (...) é bem provável que a crise actual represente o fim do modelo e do paradigma económico que a crise dos anos 70 do século passado fez emergir, que a crise, posterior, dos anos oitenta consagrou em termos de paradigma e que a expansão dos anos noventa fez consolidar como modelo global." O fim "disto" e o começo de "quê"?
Será "isto" (o modelo paradigmático...) o capitalismo? O "quê" que se seguirá (ao paradigmático modelo) será o socialismo? Por obra e graça de quem? Ou com luta? E que luta? E de quem?

Ora paradigma para o modelo. Que pena que isto me faz!

sábado, março 28, 2009

Visitas e viagens a livros e livrarias

Foramos a Caldas da Raínha. Num dia 16 de Março. Porque!
Entre outros lugares, à procura da Rua do Cais que já não se chama rua do cais. Mas ela encontrou o que queria encontrar. Lugares, referências. A casa em que, o jardim onde, aquele sítio de.
Depois, fomos à livraria que sempre encontráramos fechadas, por só por lá passar a dehoras, e onde víamos, na montra, os livros e o gato. Dormindo como um gato.
Foi tudo tão bom. Mesmo quando acompanhado de tristezas irreparáveis, de fundas nostalgias.
Ela o disse no seu blog. No seu Quarteto de Alexandria. E eu comentei.

Visitas e viagens a livros e livrarias - 1

Numa noite em Lisboa, depois de uma viagem de eléctrico do Chiado ao miradouro de Santa Luzia, entrámos numa livraria.
E por ali ficámos, naquele lento deambular entre estantes e escaparates, folheando aqui páginas queridas, descobrindo ali edições desconhecidas ou novas, admirando capas e ilustrações ("olha!, anda aqui ver esta nova do...").
Iamos a uma apresentação de Onde estava vossa mercê.., e chegáramos antes. Em visita antecipada. Alguém, por detrás do balcão, observava os visitantes nocturnos e prematuros, Silenciosa, discreta e atentamente depois das civilizadas boas noites. Mas, inevitavelmente, passámos à fala, à conversa. Sobre livros, livrarias. Sobre vidas.
E veio uma oferta. A pauta do Fado do Aljube em forma de tango (do Aljube logo ali abaixo, dos "curros", e da "enfermaria geral", e da "sala dos operados", e de tantos companheiros e camaradas de Maio de 1963...), fado (para bandolim ou violino) cujos versos completos custariam, à altura, um tostão. Porque os que estão na pauta não são completos. Há trechos cuidadosamente retirados. Por subversivos...
Que bela oferta! De quem mantém viva a fabula urbis, en Lixboa sobre lo mar...

domingo, março 15, 2009

Tempo de leituras e leituras do tempo

“Não tenho tempo para ler”, dizem todos (ou quase). Uns justificam “até gosto de ler, mas não tenho tempo…”; outros acrescentam, peremptórios, “nem gosto!”; ainda há os que se ficam nos meios-termos “não tenho muito o hábito… umas vezes gosto, outras não!”.
Há que fazer alguma coisa, e algumas coisas estão a ser feitas. Não as suficientes.
Cá por mim, ganhei o vício. Bom. A boas horas. Acho eu...
Como escreve Daniel Pennac (mais ou menos assim) em “Comme un roman”, na vida deste tempo em que não há tempo para ler, cada tempo de leitura é tempo que se acrescenta ao tempo… de vida.
Estou a ler dois livros. De dois Prémio Nobel. De 2008. Le Clézio, de literatura, P. Krugman, de economia.
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Estou a gostar do Le Clézio. Não tinha lido nada deste autor. Ah!, a importância do Prémio Nobel!
Gostei logo da capa. E irritou-me o facto, já muitas vezes verificado, da ficha técnica não indicar o(s) autor(es). Porquê? Parece-me falha grave.
Depois, gostei muito da escolha das frase escolhidas para as páginas do "oitavo de entrada". Da dedicatória Às crianças capturadas (terá sido a melhor tradução?); e da canção peruana que explica o título e faz de frontespício do livro Estrella errante/Amor passajeiro/Sigue tu camino/Por mares y tierras/Quebra tus cadenas.
Estou lendo. Devagar. Saboreando. No tempo possível e acrescentado ao tempo de vida.

quarta-feira, março 11, 2009

Manuel da Fonseca

Companheiros destas moengas (e de outras, e de outras) lembraram-me que Manuel da Fonseca, o "nosso Manel", morreu num dia 11 de Março (ah! quantas coisas para lembrar a 11 de Março...).
Dele muito recordo e, de vez em quando - muita vez... - redigo aquela "graça" que ele, com o seu falar tão seu, dizia "isto de viver é muito bonito... acaba é mal!".


Mas, por aquilo que nos deixaste, tu não acabaste, Manel. E ainda bem que viveste. Assim.

E aqui fica o final do Mataram a tuna

Ó meus amigos desgraçados
Se a vida é curta e a morte infinita
Despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
Como era a Tuna do Zé Jacinto
Tocando a marcha Almadanim!




domingo, março 08, 2009

8 de Março - "A Condição da Mulher Portuguesa"

Em 1967, a Editorial Estampa lançou uma colecção a que chamou Polémica e de que entregou a direcção a Urbano Tavares Rodrigues. Para o 2º volume da colecção promoveu, em Novembro de 1967, um colóquio sobre a condição da mulher portuguesa para ulterior publicação, e convidou 4 escritores (Agustina Bessa Luís, Augusto Abelaira, Isabel da Nóbrega, Natália Nunes) uma jurista, Maria da Conceição Homem de Gouveia, uma socióloga (também escritora), Isabel Barreno Martins, e um economista, o responsável deste “blog” e “post”.
Tinha então 31 anos, e o convívio com escritores de que era leitor foi, para mim, experiência muito interessante.
Neste 8 de Março de 2009, reproduzo, com ligeiríssimas correcções, o começo da minha intervenção:
Ao aceitar o convite para participar neste debate, se o fiz com muito prazer, desde logo, também, me atribuí tarefas de sacrifício.
Primeiro, porque sentindo que devo apresentar os áridos números, sei que isso me pode tornar no desinteressante estragador de troca de impressões vivas, sobre temas vivos. Paciência! Tentarei pôr gente dentro dos números, adubar a sua aridez com clara significação humana. Depois, e este já não é um problema nosso, mas só meu., muito gostaria de aproveitar quem aqui está encontrado para ser mais a conversar sobre a Mulher, sobre a Mulher e o Homem, sobre o amor possível. A conversa-prazer só facultada a alguns de nós que, por isto ou por aquilo, têm o privilégio de dispor das fatias do bolo património-sócio-cultural que o ser humano vem aumentando desde que começou a sê-lo. É que a disponibilidade para a realização a dois, o tema mãos dadas, “a semente que tu és e a terra que eu sou”, tudo isto nos apela para o conversar-desfrute. E então convosco!…
Mas vamos às tarefas auto-atribuídas. Lá fora, aqui ao lado, há frio, há fome, há quem apanhe chuva(*).
Por uma questão de método, entendo dever estudar-se o problema da condição da mulher por uma forma paralela ao esqueleto de uma formação social. Porque, na minha perspectiva, a condição da mulher resulta, fundamentalmente, de condicionalismos sociais, resulta de um fundo histórico.
Condicionalismos sociais, fundo histórico, que têm as suas raízes na relação Ser Humano-Natureza, no esforço do trabalho dos seres humanos relacionados entre si, para a progressiva libertação das condições impostas pela natureza.
Teríamos assim que dividir a abordagem do problema em estratos:

  • A mulher como ser biológico, na sua relação com a natureza;
  • A mulher como animal social, na forma como o ser humano se organiza nessa relação;
  • A mulher na consciência social, na representação que dela se tem (e que ela tem de si), nas instituições que traduzem , e tantas vezes forçam, a realidade da relações sociais e que traduzem, e tantas vezes forçam, o equilíbrio das forças sociais em antagonismo.

Vou deter-me, na minha participação, nos dois primeiros aspectos, mas afirmando, como definição fundamental, que nada é estanque.

Sobre a mulher na consciência social quero, no entanto, deixar dois apontamentos. Todo este interesse, todo este levantar a luva para discutir a condição da mulher reflecte que estamos perante um desequilíbrio. Existe, na base das relações sociais, uma transformação que, ao nível superstrutural, não é acompanhada em correspondência.
A literatura, as artes dão-nos esse desajuste. Os códigos civis mostram-nos (ou não nos mostram?) que as situações legais não servem as situações de facto. E, depois, o resultado disso: páginas femininas em profusão e a ganharem dimensão social, pega-se na bibliografia económica e a mulher a aparecer em muitas obras. A mulher (e a sua condição social) em foco. Em causa uma discriminação que, pessoalmente tanto me violenta como a resultante da pigmentação da pele.
Espero, com os números que vou apresentar, ilustrar o que foi dito ou for dito, fornecer elementos úteis a um melhor aperceber da real situação da mulher e, depois, libertar-me para a troca de impressões não quantificada mas, aproveitando números, valorizada. (…)

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(*) Nesse fim de dia e começo de noite de 1967, um temporal caíu sobre Lisboa provocando inundações com dimensão e consequências verdadeiramente dramáticas. Ao sair do debate, estava a cidade e os arredores em grande agitação, e destaco a solidariedade que então se organizou e em que os militantes do PCP, na clandestinidade, tiveram relevante intervenção.

segunda-feira, março 02, 2009

As andorinhas e o amor em matéria de ensino



Pennac! Acabado o livro, há uns dias, continuo "sob influência"... À medida que o tempo passa, depois do saborear, apetece voltar a ler. E a ler volto. Apetece traduzir. E traduzo. O intraduzível! Em texto livre e, obviamente, sem a qualidade literária do que traduzido é. Mas vale a pena. Isto digo eu... E até porque as andorinhas estão a chegar.


As andorinhas e o amor em matéria de ensino

Adormeci tarde, sobre uma página deste livro. Acordei apressado em o continuar. Preparo-me para saltar da cama mas uma subtil barulheira trava-me. Há um desaustinado voajar à volta da casa. Pipilares e mais pipilares, ao mesmo tempo intensos, constantes e contidos. Ah! pois… é a partida das andorinhas!
Todos os anos, por esta altura, elas marcam encontro nos fios da electricidade. Campos e bordas das estradas cobrem-se de despedidas, como numa imagem habitual, para fotógrafo amador. Preparam-se para migrar É a euforia dos reencontros e das partidas. As que ainda voltejam no céu pedem autorização para se alinharem com aquelas já pousadas nos seus lugares nos fios, excitadas pelo desejo de horizonte. Arrumem-se, vá, toca a andar! Já vai, já vai! Há um frenesim de voos de chegada, de voos de falsas partidas, de tudo a postos, aos seus lugares... Uma agitação que vem do norte, em batalhões hitchcockianos, rumo ao sul.
Ora, essa é precisamente a orientação do nosso quarto: norte, sul. Uma clarabóia na parede virada a norte, uma dupla janela na parede virada a sul. E todos os anos o mesmo drama: perturbadas pela transparência dessas aberturas envidraçadas, e em frente uma das outras, um bom par de andorinhas atiram-se de cabeça contra a clarabóia. Por isso, nada de escrita esta manhã. Abro a clarabóia norte e a dupla janela sul, e mergulho na nossa cama. E ali ficamos nós ocupados por uma manhã em observação de esquadrilhas de andorinhas a atravessarem este nosso esconderijo, de repente silenciosas, intimidadas talvez por estes dois corpos alongados que as vêm passar em revista.
Só que, de um lado e de outro da dupla janela, ficam dois estreitos e verticais pedaços de parede. O espaço aberto é largo entre as duas molduras das janelas que dão passagem à vontade a todos os pássaros do céu. Mas… nunca falha, há sempre três ou quatro idiotas que chocam com a parede entre as janelas. São as desalinhadas, as que não seguem o caminho direito e aberto. As que passam ao lado, batendo as asas.
Poc! Ei-las caídas no tapete.
Então, um de nós dois levanta-se, pega na aturdida andorinha na concha da sua mão – não pesam nada, esses ossos cheios de ar –, espera que ela acorde, e encaminha-a a juntar-se às companheiras. A ressuscitada, ainda um pouco grogue, ziguezagueia no espaço reencontrado, depois pica a fundo para o sul e desaparece no seu futuro.
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E pronto!, a minha metáfora vale o que vale mas é a isto que se assemelha amor em matéria de ensino, quando os nossos alunos voam como pássaros loucos: fazer sair do coma escolar uma caterva de desorientadas andorinhas.
Nem sempre se consegue, falha-se por vezes no apontar do rumo, algumas não acordam, ficam no tapete ou partem o pescoço na vidraça mais adiante; e permanecem nas nossas consciências como buracos de remorsos onde repousam as andorinhas mortas no fundo do nosso jardim, mas temos sempre de tentar, nós temos tentado. Eles são os nossos alunos.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Guantánamo - E.U.A. a nú

Edição de 1990
13.000 exemplares
Editora Política
Indice:
  • Prólogo
  • Introdução
  • Antecedentes das relações de Cuba e Estados Unidos
  • A intromissão norte-americana na guerra hispano-cubana
  • A ocupação militar de Cuba pelos Estados Unidos
  • O expansionismo dos Estados Unidos nos finais do século XIX
  • A base naval dos E.U.A. na baía de Guantánamo
  • Uma usurpação a nú
  • A base naval ianque na baía de Guatánamo: ponto de apoio da tirania de Fulgêncio Batista
  • Provocações e agressões a partir da base dos E.U.A. em Guatánamo contra a Revolução Cubana
  • Repercussão internacional da base dos E.U.A. em Guatánamo
  • A continuidade de uma ignomínia
  • Epílogo
  • Anexos
  • - Resolução conjunta aprovada pelo Congresso norte-americano a 18.04.1898
  • - Protocolo de termo de hostilidades entre Estados Unidos e Espanha
  • - Tratado de Paz entre Espanha e os Estados Unidos, assinado em Paris a 10.12.1898
  • - Texto da Emenda Platt
  • - Convénio entre Cuba e Estados Unidos para arrendar aos E.U.A. terras de Cuba para estações carboníferas e navais
  • - Regulamento que determina as condições de arrendamento de Guantánamo e Baía Honda
  • - Tratado para ajustar o título de propriedade da Ilha de Pinos entre Cuba e Estados Unidos
  • - Troca de notas sobre reservas do Tratado para ajustar o título de propriedade da Ilha de Pinos
  • - Tratado de Relações de 1934 com os Estados Unidos
  • Bibliografia


domingo, fevereiro 22, 2009

Mais duas linhas de Chagrin d'école

Na página 138, a terminar um capítulo que todo apetecia traduzir/transcrever:




«- O problema é que se lhes quer fazer crer num mundo em que apenas contam os primeiros violinos.»

sábado, fevereiro 21, 2009

Anti-marxismo militante

Poderia dizer-se, benévola ou condescendentemente, que não sabem o que dizem ou do que escrevem. Mas não é. São manifestações de anti-marxismo militante!
A falar de livros, no actual do Expresso de hoje, em ao pé da letra, António Guerreiro mostra-se muito preocupado porque "Falta à esquerda pensar a questão do trabalho", até porque esta (a esquerda dele) "não consegue ir além da visão marxista: o homem alienando-se num processo de produção que o reifica".
É espantoso como se pode ser tão atrevidamente redutor.
Agarrei no primeiro livro que encontrei sobre Marx e o trabalho em cuja contra-capa leio:
«Esta abordagem, opondo-se à imagem de um pensamento dominado pelo proodutivismo e o positivismo científico, aclara o carácter antropológico do trabalho do trabalho e permite a abertura dos conceitos de Marx a outros saberes.»


E muitas outras abordagens poderiam abrir esses conceitos, de tal modo ricos e prenhes, a muitos outros saberes. A que estão fechados os anti-marxistas militantes.

Chagrin d'école

Página a página, melhor: capítulo a capítulo, vou lendo Pennac. Saboreadamente. E traduzindo. Como este parágrafo de um livro intraduzível(*) a começar pelo título:


«Daqui a sua recusa em compreender o enorme "isto" que "não serve para nada", este desejo de estar noutro lugar, de fazer outra coisa, não importa onde o lugar e não importa que fazer o quê.» (da página 122)

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(*) - para mim, e por mim... porque deveria ser traduzido em todas as línguas de todos os professores. E de leitura obrigatória!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

A "efeméride do dia" - 5

(continuação)

4. Se o que feriu a sensibilidade de V. Ex.ª e determinou a sua decisão foram as alusões, mais que genéricas, à incompatibilidade das ideias darwinistas e da investigação científica com as crenças católicas acerca da origem do mundo e do homem, julgo ser legítimo (sem que isso tenha alguma coisa a ver com política) que qualquer pessoa se pronuncie por umas ou por outras. Aliás na minha carta referia-me à teologia e à teleologia em geral, não abordando nenhuma das mil questões referentes ao catolicismo e à ciência que poderia eventualmente ter abordado. Não sei se V.Ex.ª já leu a Bíblia. Eu li mais que uma vez e com a atenção devida. Não sei se também V.Ex.ª já conversou a este respeito com cientistas católicos quem tenham lido a Bíblia e conheçam a obra de Darwin (não daqueles que defendem a primeira e criticam a segunda, sem jamais terem folheado nem uma nem outra). Eu já conversei e alguma coisa aprendi com eles. Não tenha V.Ex,ª a mínima dúvida de que qualquer antropologista católico se debruça com mais atenção sobre os restos de Neandertal ou de Cro-Magnon do que sobre o número de gerações contadas desde Adão pelos velhos escritores hebraicos; de que qualquer geólogo católico atende mais aos Princípios de Liyell do que à Génese; de que qualquer zoólogo ou botânico católico não ignora nem pretende ignorar Darwin. Ninguém mais do que eu respeita as crenças alheias, como infelizmente não respeitam as minhas. E se um homem culto, ou mesmo apenas instruído, me disser (não por conveniências de qualquer natureza, mas com íntima sinceridade) acreditar nas origens da terra e do homem como o Velho Testamento as descreve, se me disser que a sua inteligência aceita melhor a Génese do que a Origem das Espécies ou os resultados de Laplace, de Newton, de Lyell, isso não faz mais do que comprovar a minha convicção do grande poder que sobre as almas e as inteligências têm as crenças religiosas. Não penso entretanto que exista no mundo um único homem de ciência (seja qual for a sua crença) que se sujeite ao ridículo de defender a imutabilidade das espécies. Nem algum historiador que, no século xx, se sujeite à aventura de estudar pré-história como o fez frei Bernardo de Brito. Mas, Sr. Director, qualquer que seja a opinião que se possa ter sobre este assunto, que tem isto a ver com “política” e com “comunismo”? Que tem isto a ver com ideias que um preso não pode manifestar?
5. Neste momento sou um preso escrevendo ao Director da Cadeia onde me encontro. Sei o que esta situação implica. Mas se me fosse lícito esperar que V.Exª pudesse meditar, apenas com a sua inteligência e o seu espírito crítico, sobre o que nesta carta digo, não tenho dúvidas de que acordaria em que não refiro factos controversos e em que algumas das minhas ideias não excedem conhecimentos elementares ou meras indicações de senso comum (…)»

Há ainda, nesta reclamação ao director, um ponto 6 em que Álvaro Cunhal coloca problemas da sua situação prisional que são do maior interesse, quer pelo que revelam das condições em que vivia, quer da sua admirável postura de resistência e verticalidade, e de que o “homem de cultura geral”, economista e militante, recomenda vivamente a leitura. Bem como do “post” em ocastendo. Que pode ser lido aqui.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

A "efeméride do dia" - 4

(continuação)

3. A mim mesmo pergunto: terá sido considerado “ciência comunista” a aceitação da evolução das espécies e da origem animal do homem? Ou afirmar haver na obra de Darwin algumas conquistas definitivas da ciência? Será mesmo exacto (aqui não se trata sequer de uma orientação) referir a campanha de silêncio sobre a obra de Darwin e atribuir a causa desse silêncio ao que tal obra afirma ou implica acerca da origem do homem e do mundo e do carácter transitório das sociedades humanas? Será “ciência comunista” afirmar que, no estudo das ciências biológicas antes de Darwin, estavam presentes a teologia e a teleologia e que a negação de Darwin conduz de novo à intervenção duma e de outra? Será “ciência comunista” afirmar as limitações de Darwin no estudo do homem e das sociedades humanas? E que na evolução do homem intervêm factores sociais? E que os sentimentos humanos, os pensamentos humanos, as noções de beleza, de bondade, de justiça não são comuns (ainda que em grau diferente) a moluscos, insectos, peixes, aves e mamíferos (incluindo o homem), mas especificamente humanos, diferenciados de povo para povo e mesmo dentro do mesmo povo através da história? E que no mundo animal e vegetal e na transformação das espécies, assim como na história das sociedades humanas, não se verifica o preceito de Leibniz (natura non fecit saltus [1]) mas há que dar uma grande atenção aos “saltos bruscos” (as “mutações” ou as invasões bárbaras, por exemplo)? Será menos verdadeiro dizer que Darwin manifestou desprezo (“cientificamente” fundamentado e explicado em numerosas passagens pelos “selvagens”, pelas outras raças, pelas mulheres? Confesso, Sr. Director, que não enxergo aqui (e está aqui condensada toda a passagem censurada da minha carta) qualquer ideia que não seja ou não possa ser aceite por qualquer homem com um mínimo de instrução e que preze a verdade, embora nada tendo de comunista, nem no pensar nem no agir.


(continua)

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[1] - Em latim no original: A Natureza não dá saltos. (N. Ed.)

A "efeméride do dia" - 3

De páginas 139 a 142 de Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas – II – 1947 – 1964:

«6 de Outubro de 1951

Ex.º Senhor Director da Cadeia Penitenciária de Lisboa

Álvaro Cunhal, preso nesta Penitenciária, vem, perante V.Ex.ª, expor o seguinte:

1. Foi-me hoje devolvida uma carta, que tinha escrito a minha família, com a indicação de não poder seguir, por conter “ciência comunista”. Dada a minha surpresa e o meu pedido para me serem indicadas as passagens da carta que motivaram essa opinião e a decisão correspondente, fui esclarecido que se tratava de tudo quanto nela se dizia acerca da obra de Darwin. Embora eu soubesse o que tinha escrito e, como sempre, me tivesse esforçado (dada a minha situação) para não dizer tudo quanto penso, fui ler e reler a carta censurada. E se, ao ser-me comunicada a decisão acima referida, senti apenas surpresa, depois de nova leitura do que tinha escrito fiquei verdadeiramente perplexo.
2. Se eu tivesse abordado, em volta das teorias darwinistas e à base do marxismo-leninismo, alguns dos problemas cruciantes da sociologia contemporânea; se, em confronto com Darwin, tivesse abordado as formas de selecção na sociedade dividida em classes e aproximado a selecção natural da luta de classes; ou se, contra Darwin, tivesse mostrado como a exploração económica e a opressão política levam muitas vezes à “selecção dos piores”; ou se tivesse abordado o problema da revolução proletária, do socialismo, do desaparecimento das classes e da evolução subsequente da espécie humana; ou se tivesse mostrado como a
struggle for life darwinista não era mais que a concorrência e a luta na sociedade burguesa transplantada para o reino animal e vegetal e uma verdadeira declaração de guerra da burguesia ao proletariado; se tivesse estudado à luz destas noções a sociedade portuguesa contemporânea e alguns aspectos da política seguida actualmente em Portugal – então bem justificado seria que V.Ex.ª considerasse existir na minha carta uma exposição de ideologia comunista. E, dado o regime de falta de liberdade existente em Portugal, seria para mim compreensível que, nesse caso, exercesse a sua censura. Mas, quando tem havido e continua a haver da minha parte o cuidado de não só afastar dos meus estudos problemas como os apontados, como de não abordar na correspondência que possam ser levadas à conta de “políticas”, sinceramente digo que não compreendo a decisão.


(continua)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

A "efeméride do dia" - 2

De páginas 135 a 137 de Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas – II – 1947 – 1964:

6 de Outubro de 1951
(Sobre a obra de Darwin)



Devolvida carta com indicação de não poder seguir nada do que se dizia acerca da obra de Darwin (e seria “ciência comunista”!):

«Tenho estado a fazer uma revisão geral das duas obras de Darwin a fim de ordenar em apontamentos algumas ideias fundamentais. Não só me foi muitíssimo útil esta leitura – dum modo geral pelo que aprendi e, em particular por me permitir um mais completo esclarecimento de um problema em estudo para o ensaio sobre a questão agrária que estou preparando – como me deu profundo prazer. Se é certo que na Descendência do Homem, várias centenas de páginas sobre os “caracteres sexuais secundários” em todas as classes do reino animal se tornam por vezes (só por vezes) um tanto pesadas, há tanto nesta obra como principalmente na Origem algumas conquistas definitivas da ciência e tudo o resto (mesmo quando não é acertado) é extremamente educativo e chega a ser entusiasmante. Contudo, quando se lêem alguns livros escritos e publicados no século xx e quando se ouvem certos conferencistas e outros discursadores, dir-se-ia que Darwin nunca existiu, que nunca foi escrita a Origem das Espécies e que o grande passo dado pela biologia no século xix continua por dar em grande parte do mundo. Há muito que se faz uma verdadeira campanha de silêncio sobre a obra de Darwin. Nos laboratórios e no domínio da técnica aproveitam-se os resultados práticos. Mas em público negam-se as suas ideias teóricas. Não me recordo de ter ouvido o seu nome nos bancos das escolas, nem me consta que haja referências à selecção natural nos livros de “ciências naturais” para estudos secundários. Compreende-se uma tal campanha de silêncio. O evolucionismo nas ciências biológicas (assim como na geologia), além de tudo quanto afirma e implica acerca da origem do homem e do mundo, traz consigo (embora contra a intenção de Darwin) a ideia particularmente indesejável de que também as sociedades humanas evoluem, também nas sociedades humanas nada há de permanente e eterno. Lyell, que descobriu a evolução geológica, duvidou longos anos da evolução das espécies. Darwin, que descobriu a forma da evolução das espécies, nunca compreendeu a evolução do homem e das sociedades humanas. E, contudo, estas conquistas, no domínio da geologia, da biologia e da sociologia, não são de forma alguma divergentes. Mas Lyell só cerca dos 70 anos e contra os seus próprios sentimentos e crenças se rendeu à evidência dos factos e aceitou o transformismo. E Darwin não pôde sair de um grande número de limitações que lhe tolhiam a investigação acerca do homem, não na sua estrutura física (em que foi mestre), mas na sua vida social e na sua actividade intelectual. Respondendo a um autor que lhe oferecera uma obra fundamental de economia política, Darwin escrevia ser apenas um naturalista e nada perceber dessas questões…[1] A resposta não foi sincera, pois Darwin bebera em Malthus a sua struggle for life e a sua “selecção natural”. Mas essa resposta explica a sua impossibilidade de ver além do acanhado horizonte do seu extracto. Daí ter considerado a evolução do homem no ponto de vista exclusivamente biológico como se nela não interviesse fundamentalmente a vida social. Daí ter considerado as superstruturas ideológicas como de natureza puramente animal (e não de origem social) e ter não só aproximado (como seria legítimo) mas identificado as emoções e os sentimentos humanos com os das outras espécies animais. Daí ter aceitado a existência de conceitos universais e imperecíveis como do belo, do justo e do bom. Daí a sua aproximação de certas raças humanas com os animais inferiores não compreendendo as razões do seu atraso e as possibilidades de o superar. Daí a sua incapacidade para compreender que as transformações quantitativas se transformam em qualitativas e a consequente evolução por saltos bruscos, tanto no campo biológico como no social. Daí o seu desprezo pelos “selvagens”, o seu racismo, o seu antifeminismo, o seu espírito marcadamente britânico e whig[2]. Só ideólogos dum novo e ascendente extracto poderiam e puderam romper essas limitações, vencer essas dificuldades e resolver o problema da evolução do homem como evolução distinta (a partir do momento em que criou e empregou instrumentos de trabalho) da evolução das outras espécies vivas. Darwin não pôde alcançar que, desde esse momento, o homem, com um propósito consciente, passou a agir sobre a natureza e a transformá-la. Apesar porém dessas limitações, os resultados fundamentais obtidos por Darwin não só afastaram de vez a teologia e o finalismo do campo das ciências biológicas, como se mantém de pé nos dias de hoje. Antes de Darwin estudava-se a biologia com a ideia formada da imutabilidade das espécies e o próprio Darwin, a declarar a 1ª vez o seu convencimento da evolução, dizia parecer-lhe “estar a cometer um assassínio”. Depois de Darwin só é possível o estudo da biologia iluminado pela ideia da evolução; só é possível o estudo da pré-história iluminado pela ideia de que o homem provém duma espécie inferior desaparecida; e no domínio dos outros ramos da ciência (geologia, embriologia, etc.) não pode haver um estudo científico se se ignorar Darwin. Negando-se Darwin, a ciência volta à sua fase teológica e medieval.»
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[1] - Trata-se de carta datada de 1 de Outubro de 1873 em que Darwin agradece a Karl Marx a oferta que este lhe fizera de um exemplar de O Capital.
(ainda se sublinha o facto de Álvaro Cunhal não ter referido o nome do "autor da obra fundamental” tratando-se de carta que iria passar pela censura da prisão - SR).
[2] - grupo político do parlamento britânico (conservador) no século xix.
(nota de SR).