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"43 reflexões de figuras de referência da Universidade e da vida económica portuguesa". Nem um com uma reflexão marxista-leninista, resmunguei e pousei-o. Ou melhor: rejeitei-o. Depois, repeguei-lhe. O Carvalho da Silva? A sua leitura é, decerto, sindical e para "equilibrar" a do João Proença. Folheei-o. Excerto do Krugman? Tinha de ser! Para fechar o livro, esta verdadeira provocação idiota de um qualquer Arnaldo José da Silva dizendo que "Não existe crise!!! Existe sim, uma propaganda negativa e destruidora feita pelas emissoras de televisão em troca de audiência. Desligue a televisão e trabalhe. Você surpreender-se-á com o seu sucesso!"... A culpa dos trabalhadores, claro!, que vêm muita televisão e trabalham pouco...
Em vez de o pousar apeteceu-me atirá-lo porta fora. Mas podia acertar em alguém...
Continuei a folheá-lo. Se calhar estava a fugir de ler a "reflexão" do meu ex- jovem camarada, colega de brilhante carreira académica, do António Mendonça: A natureza da crise actual.
Comprei o livro, claro. Já li umas páginas. As do António Mendonça, obviamente. Que confrontei com umas outras páginas de sua autoria (em colaboração com o Nelson Ribeiro), num outro livro que fui buscar à estante e de que, de vez em quando, me sirvo. Sobretudo de O marxismo e a crise económica actual, um muito interessante (e pedagógico) estudo de autoria desses colegas.
Que experiência curiosa. A edição é da Caminho, na Biblioteca Universidade Popular (do Porto), animada pela saudoso Armando Castro. De 1985. Dos tempos da esperançosa, ilusória, traidora perestroika. Como eles eram marxistas! Como tantos ficaram orfãos da União Soviética! E, hoje, em que estado estão alguns que até pareciam ter uma certa consistência ideológica...
O interessante é que, ao ler o texto de hoje, ele me parece, nalguns trechos, no diagnóstico, uma tradução para "capitalês" de partes do estudo de há quase 25 anos. No meio de uma incontáveis paradigmas e modelos, que até irritariam o leitor mais benevolente, a tradução de capitalismo por economia de mercado e outras, a ausência de qualquer referência a Marx, marxismo, socialismo, mais-valia, exploração, trabalhadores, essas coisas, brrr..., enterradas avestruzmente, por total omissão, como se de um espectro se tratassem (e tratam!).
Daqui deriva, apesar da utilidade das "hipóteses de apreensão das características fundamentais da crise económica actual", desde que retrovertidas para língua de economista sem fantasmas, a codificada conclusão (bem diferente das de 1985, por oportuno esconjuro ou exorcismo) de que a crise económica actual estaria a abrir "um processo de reconfiguração do modelo de organização económica e de intervenção dos poderes públicos que aponta para um maior controlo das dinâmicas de internacionalização das economias e da globalização para uma recuperação dos instrumentos e do papel da política económica a nível nacional e para uma reestruturação e reforço do papel das instituições económicas internacionais. Em síntese (...) é bem provável que a crise actual represente o fim do modelo e do paradigma económico que a crise dos anos 70 do século passado fez emergir, que a crise, posterior, dos anos oitenta consagrou em termos de paradigma e que a expansão dos anos noventa fez consolidar como modelo global." O fim "disto" e o começo de "quê"?
Será "isto" (o modelo paradigmático...) o capitalismo? O "quê" que se seguirá (ao paradigmático modelo) será o socialismo? Por obra e graça de quem? Ou com luta? E que luta? E de quem?
Ora paradigma para o modelo. Que pena que isto me faz!



Em 1967, a Editorial Estampa lançou uma colecção a que chamou Polémica e de que entregou a direcção a Urbano Tavares Rodrigues. Para o 2º volume da colecção promoveu, em Novembro de 1967, um colóquio sobre a condição da mulher portuguesa para ulterior publicação, e convidou 4 escritores (Agustina Bessa Luís, Augusto Abelaira, Isabel da Nóbrega, Natália Nunes) uma jurista, Maria da Conceição Homem de Gouveia, uma socióloga (também escritora), Isabel Barreno Martins, e um economista, o responsável deste “blog” e “post”.
Tinha então 31 anos, e o convívio com escritores de que era leitor foi, para mim, experiência muito interessante.
Neste 8 de Março de 2009, reproduzo, com ligeiríssimas correcções, o começo da minha intervenção:
Ao aceitar o convite para participar neste debate, se o fiz com muito prazer, desde logo, também, me atribuí tarefas de sacrifício.
Primeiro, porque sentindo que devo apresentar os áridos números, sei que isso me pode tornar no desinteressante estragador de troca de impressões vivas, sobre temas vivos. Paciência! Tentarei pôr gente dentro dos números, adubar a sua aridez com clara significação humana. Depois, e este já não é um problema nosso, mas só meu., muito gostaria de aproveitar quem aqui está encontrado para ser mais a conversar sobre a Mulher, sobre a Mulher e o Homem, sobre o amor possível. A conversa-prazer só facultada a alguns de nós que, por isto ou por aquilo, têm o privilégio de dispor das fatias do bolo património-sócio-cultural que o ser humano vem aumentando desde que começou a sê-lo. É que a disponibilidade para a realização a dois, o tema mãos dadas, “a semente que tu és e a terra que eu sou”, tudo isto nos apela para o conversar-desfrute. E então convosco!…
Mas vamos às tarefas auto-atribuídas. Lá fora, aqui ao lado, há frio, há fome, há quem apanhe chuva(*).
Por uma questão de método, entendo dever estudar-se o problema da condição da mulher por uma forma paralela ao esqueleto de uma formação social. Porque, na minha perspectiva, a condição da mulher resulta, fundamentalmente, de condicionalismos sociais, resulta de um fundo histórico.
Condicionalismos sociais, fundo histórico, que têm as suas raízes na relação Ser Humano-Natureza, no esforço do trabalho dos seres humanos relacionados entre si, para a progressiva libertação das condições impostas pela natureza.
Teríamos assim que dividir a abordagem do problema em estratos:
Vou deter-me, na minha participação, nos dois primeiros aspectos, mas afirmando, como definição fundamental, que nada é estanque.
Sobre a mulher na consciência social quero, no entanto, deixar dois apontamentos. Todo este interesse, todo este levantar a luva para discutir a condição da mulher reflecte que estamos perante um desequilíbrio. Existe, na base das relações sociais, uma transformação que, ao nível superstrutural, não é acompanhada em correspondência.____________________________________________
(*) Nesse fim de dia e começo de noite de 1967, um temporal caíu sobre Lisboa provocando inundações com dimensão e consequências verdadeiramente dramáticas. Ao sair do debate, estava a cidade e os arredores em grande agitação, e destaco a solidariedade que então se organizou e em que os militantes do PCP, na clandestinidade, tiveram relevante intervenção.







Há ainda, nesta reclamação ao director, um ponto 6 em que Álvaro Cunhal coloca problemas da sua situação prisional que são do maior interesse, quer pelo que revelam das condições em que vivia, quer da sua admirável postura de resistência e verticalidade, e de que o “homem de cultura geral”, economista e militante, recomenda vivamente a leitura. Bem como do “post” em ocastendo. Que pode ser lido aqui.
(continuação)
3. A mim mesmo pergunto: terá sido considerado “ciência comunista” a aceitação da evolução das espécies e da origem animal do homem? Ou afirmar haver na obra de Darwin algumas conquistas definitivas da ciência? Será mesmo exacto (aqui não se trata sequer de uma orientação) referir a campanha de silêncio sobre a obra de Darwin e atribuir a causa desse silêncio ao que tal obra afirma ou implica acerca da origem do homem e do mundo e do carácter transitório das sociedades humanas? Será “ciência comunista” afirmar que, no estudo das ciências biológicas antes de Darwin, estavam presentes a teologia e a teleologia e que a negação de Darwin conduz de novo à intervenção duma e de outra? Será “ciência comunista” afirmar as limitações de Darwin no estudo do homem e das sociedades humanas? E que na evolução do homem intervêm factores sociais? E que os sentimentos humanos, os pensamentos humanos, as noções de beleza, de bondade, de justiça não são comuns (ainda que em grau diferente) a moluscos, insectos, peixes, aves e mamíferos (incluindo o homem), mas especificamente humanos, diferenciados de povo para povo e mesmo dentro do mesmo povo através da história? E que no mundo animal e vegetal e na transformação das espécies, assim como na história das sociedades humanas, não se verifica o preceito de Leibniz (natura non fecit saltus [1]) mas há que dar uma grande atenção aos “saltos bruscos” (as “mutações” ou as invasões bárbaras, por exemplo)?
Será menos verdadeiro dizer que Darwin manifestou desprezo (“cientificamente” fundamentado e explicado em numerosas passagens pelos “selvagens”, pelas outras raças, pelas mulheres? Confesso, Sr. Director, que não enxergo aqui (e está aqui condensada toda a passagem censurada da minha carta) qualquer ideia que não seja ou não possa ser aceite por qualquer homem com um mínimo de instrução e que preze a verdade, embora nada tendo de comunista, nem no pensar nem no agir.
(continua)
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[1] - Em latim no original: A Natureza não dá saltos. (N. Ed.)
Ex.º Senhor Director da Cadeia Penitenciária de Lisboa
folheou o livro com o cuidado e enlevo com que se mexe no que é precioso e nos acompanhou por dentro da nossa vida, releu uns pequenos trechos alertando-o para a utilidade/necessidade de uma releitura, encontrou vários nomes citados e com transcrições (como o de Gil Vicente) mas não viu referência explícita a Darwin, embora a abordagem fosse a mesma que está em Contribuição…, das edições avante!, de 1976.
Estou embalado na leitura. Saboreando-a, como dizia José Gomes Ferreira. E como traduzir Chagrin d´école?
Começa logo pelo título. Chagrin é palavra francesa que diz muito e me parece intraduzível. Tristeza, sofrimento, desgosto? Por exemplo, chagrin d'amour, cantam os poetas... franceses. Como o cantariam os poetas portugueses ou que falam a língua portuguesa? E vá lá que, neste caso, desgosto (ou melancolia) de amor não seria muito mau!
E procurei. Não sendo bibliófilo, procurei e aopenas encontrei uma tradução, em edição brasileira, logo da "lusofonia", com o título incrível de Insucesso na escola. Terá o tradutor (que foi uma tradutora) lido o livro?
Ia o leitor em viagem. De muitas horas. Começara a ler A Viagem do Elefante de vagar, pausadamente, em passada lenta e pesada. Assim tinha de ser. Mas as horas de avião foram muitas e muitas gastou, enquantos outros dormiam, a viajar aquele livro até ao fim.