O mais sucintamente que me for possível:
1. Enquanto decorria a campanha eleitoral de 1969, aquelas em que se pretendia mostrar que o marcelismo era o pós-salazarismo (ou, até, o anti-salazarismo), resolvi aproveitar a minha participação como candidato em Leiria para, documentalmente, demonstrar que o fascismo continuava, que a continuidade prevalecia sobre a renovação, que as eleições eram a "batotice" habitual.
2. Fui juntando documentação, nomeadamente as folhas (diárias) de informação que se distribuiam - como possível - pela população, todas as tropelias de que éramos alvo, e tinha a intenção de, com os resultados, publicar o livro em "tempo útil", ou seja, logo após as eleições, no começo de Novembro.
3. Para esse objectivo, entreguei o original numa tipografia de alguém com quem tivera um excelente relacionamento durante a campanha, e pedi-lhe a maior brevidade.
4. Dado um inexplicável atraso no recebimento de provas para rever e um silêncio ainda menos explicável, procurei o dono da tipografia - que era fora de Lisboa - e este, muito pesaroso, disse-me ter lido o original, por ser meu, e que, face ao que lera, resolvera não o publicar... porque não podia correr riscos, porque investira tudo naquela tipografia, que dela dependia a vida familiar, e etc., etc.
5. Tentei explicar-lhe que se alguém corria riscos era o autor e a editora, e não a tipografia, mas foi inútil (e doloroso), e voltei para Lisboa com o original.
6. Imediatamente o meti numa segunda tipografia, com que a Prelo trabalhava habitualmente, e pedi a maior urgência.
7. Entretanto, o dono da primeira tipografia escreveu-me uma carta de muito pesar, cheia de má(s) consciências(s), em que reiterava as justificações, e me colocava nos píncaros do heroísmo e a si próprio chamava cobarde e outras coisas pouco simpáticas.
8. Tive, então, uma das ideias mais estúpidas da minha já longa vida (em que não faltam outras...): juntar às provas que tinha em mãos a carta, como posfácio demonstrativo do ambiente em que se vivia e, ao mesmo tempo, assim justificar o atraso da saída do livro relativamente aos propósitos iniciais.
9. Aconteceu o que deveria ter previsto: o responsável da segunda tipografia, se não lera o original, leu o dito posfácio e disse-me, peremptório, que não iria completar a feitura do livro.

10. Seguiram-se laboriosas negociações, em que o consegui convencer a acabar o trabalho, embora, evidentemente, tivesse de... desistir de lhe juntar um posfácio.
11. Assim, o livro veio a terminar o seu calvário, e saíu em Abril de 1970.
12. Mas foi logo cruxificado, isto é, apreendido!
13. Caso para dizer, tal e qual nas demonstrações matemáticas: como queria demonstrar, o fascismo continuava!