quarta-feira, setembro 03, 2008

O livro da Festa

Haverá outros...
Mas este será o livro da Festa do avante! de 2008.

Aqui, neste blog, muito tempo dedicámos a Aquilino Ribeiro, e ao seu No cavalo de pau com Sancho Pança (em cerca de 60 "posts"), e pouco tempo tempo temos dado por tão bem empregue.
Agora, esta edição de Quando os lobos uivam, e com um prefácio (inédito!) de Álvaro Cunhal e ilustrações de João Abel Manta, só pode ser o livro da Festa.
Por muito importantes que outros possam ser...
Aqui se voltará a falar dele.

terça-feira, setembro 02, 2008

A Invenção do Amor

Ouvir
aqui
o poema dito por Daniel Filipe!

segunda-feira, setembro 01, 2008

Pergunto . poderias ter sido de modo alheio?

Não esperava que esta viagem pela Pátria, lugar de exílio desse no que deu. Era para ser um leve recordar de um dos livros que muito me marcaram e que se vai buscar à estante, mais uma vez, para scanear uma capa, folhear, fazer uns comentários, "postar".
Foi muito mais que isso. E muito mais foi poderia se não decidisse parar.
Trago a dedicatória que comoveu, a saudade do amigo que, aos 39 anos, morreu.










"Com a camaradagem e a amizade do"! Em Março de 1963, já eu tinha saído da SN há alguns meses, mas mantinham-se a amizade e os contactos.
Fui preso em 17 de Maio de 1963. E já não voltei a ver Daniel Filipe!. Morreu em 1964, estava eu em Caxias.

Como penúltima das transcrições (mais que discutíveis, só justificadas por critérios de memória e de subjectividade), não de Pátria, lugar de exílio mas do livro, o poema I do conjunto de poemas O Viajante Clandestino:
.
No exacto automóvel, viajamos.
Em corpo e nervos, sal, angústia, grito.
Suor, temor da noite, aonde vamos?
Direita, esquerda? (Cruzamento). Hesito.
.
Onde? Por onde? Somos dois, calados.
A chuva alaga o universo à volta.
À beira d’água, acenam-nos soldados.
Soam no escuro os passos de uma escolta.
.
Finco as mãos no volante. Derrapagem
.– ou medo apenas do que vai contigo?
Já está próximo o termo da viagem.
Apertamos as mãos. «Saúde, amigo».
.
O relato poético de um “transporte” nesses tempos de clandestinidade e de clandestinos, em que os que não o eram tinham tarefas de apoio.
E termino, porque tem de ser!, com um pequeno trecho em que não falta sequer o nome do camarada que, na clandestinidade, foi preso depois das grandes manifestações de 1 e de 8 de Maio de 1962, e que Daniel Filipe trouxe (só para o poema o teria transportado?) para o poema em que cantou, quase um ano depois, o primeiro de Maio de 1962:
.
Pergunto . poderia cantar de modo alheio
dizer outras palavras como quem diz bom dia
poderia acaso ignorar o tempo a tortura a prisão
Bernardino e a pequena rosa
vermelha e orvalhada
insólita no tablier do automóvel azul
.
Poderia falar dos dias impossíveis
das manhãs sem revolta . do xadrez matemático
jogado interminavelmente
das virgens . dos poentes . do mar da minha infância
.
Poderia escrever meu amor e pensá-lo
Sem mais nada . sem a rubra mancha de sangue na parede da cela
Sem um nome ou um grito
.
.
Pergunto. Poderias, Daniel, ter sido de modo alheio?, teres cantado, falado, escrito, sem o teres feito como o fizeste? Só magoa ter sido tão curto o tempo,

1º de Maio de 1962 e 1º de Maio de 1974

O poeta merecia viver! E merecia ter vivido o 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974!
Como cantaria este?, se assim cantou o primeiro de Maio de 1962 (final da 3ª canção):

Vêm com o rosto de todos os dias
o olhar de todos os dias
as mãos e os pés de todos os dias
cansados de preencher impressos
moldar metais
afeiçoar madeiras
rodar motores e válvulas
sujos de óleo e poeira
deslumbrados de sol
operários . empregados de escritório . vendedores de porta
a porta
dir-se-ia que cantam
.
De súbito . a cidade parece banhada de alegria
estamos juntos meu Amor
possessos da mesma ira justiceira
Damos as mãos como dois jovens namorados
e sorrimos felizes
à doce primavera acontecida
no magoado coração da pátria

Vêm de toda a parte sem idade
Redescobrem palavras esquecidas
e no silêncio cúmplice desfraldam
um novo e claro amanhecer do mundo
.
Vêm de mãos vazias . nem flores simbólicas
nem ramos de oliveira
Entre os seus dedos apenas desabrocha
o obscuro desejo de apertar outras mãos
como as suas . nervosas . sujas . proletárias
.
E eu limpo . eu meticulosamente barbeado
eu de papéis em ordem
eu vestido de nylon dralon leacril
eu rigorosamente asséptico
eu mergulhado até às virilhas na placidez burguesa
vou convosco cantando companheiros
irmãos em pátria
em sonho em sofrimento
.
Ah riso aberto . coração do povo
cálice . flor . inesperado aroma
doce palavra antiga
liberdade

.
.
Doce palavra antiga, de todos os poetas, também de Éluard
(… Et par le pouvoir d’un mot
je recommence ma vie
je suis né pour te connaître
pour te nommer
liberté) .
Ah! os poetas…
por isso eles são o inimigo. Quando têm as mãos nervosas . sujas . proletárias.

domingo, agosto 31, 2008

O poeta que merecia a vida

Num outro canto do Rossio, no vértice do quadrilátero oposto ao da estação, eu, vindo do lado oriental da cidade, também fazia por merecer a vida.
Não o sabíamos, mas talvez o adivinhássemos, e desejássemos que tivesse sido aquela a razão para a nossa ausência, no dia preciso e exacto, primeiro de Maio de 1962, para faltarmos no gabinete onde trabalhávamos, secretária com secretária, no 6º andar da Rua Braancamp, e estarmos ali. No Rossio. Gente, massa.
Na minha célula do Partido já falara, com admiração e entusiasmo juvenil (tinha 26 anos!) do meu companheiro de gabinete. Em resposta, tivera reticências, reservas. Nada explícito mas… “nada de confianças … esteve preso e há muita coisa por esclarecer… vou informar-me melhor, mas tem cautela… não te abras com ele…”.
Ficara surpreso, de sobreaviso. Era, no entanto, tão caloroso, tão camarada o nosso relacionamento… Decerto, pensava eu, tratava-se de algum mal entendido.

No Pátria, lugar de exílio estava, talvez..., a resposta. Em quatro versos depois da 3ª canção:
.
Um poeta
roeu as unhas enquanto foi possível
mas faltou-lhe a coragem no momento derradeiro
nós sabemos porquê

.
Quatro versos no meio de um dos (tantos!) momentos empolgantes do poema:
.
Somos a alegria . o corpo e o sal da terra
o sol das manhãs férteis . a música do outono
a própria essência do amor . a força das marés
somos o tempo em marcha
.
Esta é a única verdade
sabemos que vos é difícil aceitá-la
envoltos como estais em suborno e usura
bancos alta finança empréstimos externos
E no entanto esta manhã um pássaro
pousou à vossa beira . embora
inutilmente
.
A pequena dactilógrafa matou-se
nós sabemos porquê
.
Um carpinteiro desempregado rasgou a roupa
e saiu cantando para a rua
nós sabemos porquê
.
Uma noite
a jovem costureira não voltou para casa
nós sabemos porquê
.
Um poeta
Roeu as unhas enquanto foi possível
mas faltou-lhe a coragem no momento derradeiro
nós sabemos porquê
.
Nós sabemos porquê
.
NÓS SABEMOS PORQUÊ
.
E no entanto é doce dizer pátria
sonhar a terra livre e insubmissa
inteiramente nossa
Sonhá-la como se pedra a pedra a construíssemos . Como
se nada houvesse antes de nós
e desde as fundações a erguêssemos completa
pura alegre acolhedora virgem
de medos . mortos insepultos
.
Regresso pelo tempo ao dia de hoje
primeiro de Maio de 1962
hora segunda da meditação
.
.
Regressado estava Daniel Filipe. Ao dia de hoje, no dia de hoje, que era o primeiro de Maio de 1962. Na sua "hora segunda da meditação". Podendo depois, finalmente, sorrir sem amargura. O poeta merecia a vida.

sábado, agosto 30, 2008

Pátria, lugar de exílio

Porquê, Daniel Filipe?
Porquê começaste o dia, aquele preciso dia primeiro de Maio de 1962, exilado na pátria, antes de começar as canções, que cinco são?
E porquê terminaste o dia, esse exacto dia primeiro de Maio de 1962, podendo finalmente sorrir sem amarguras? Porquê?
Pelo que tão belamente nos contas, codificadamente, nas cinco canções entre o começo e o fim do poema.
Porque estiveste, nesse preciso e exacto dia primeiro de Maio de 1962, no Rossio.
.
Tu o dizes, depois da 3ª canção:

Aqui às três da tarde
posso olhar-vos sem medo
e dizer-vos . aqui estou
O poeta é um operário
(Maiakovski)
aprende depressa a matar-me
o poeta é o inimigo

E grita-lo, a quem?
Aos que, depois da 4ª canção, vês assim:

Como lobos de súbito
irrompem na planície citadina
carregados de morte
.
Seu nome é violência
Trazem nas mãos mortíferos sinais
e de órbitas vazias
.
caminham em silêncio
envoltos na terrível solidão
do crime encomendado
.
Marginam as esquinas
escondem o rosto sob o aço liso
dos negros capacetes
.
e anónimos ocultos
pela espessa cortina de ódio e névoa
como robots avançam
.
A morte engatilhada
espera o momento de partir . Agora
Cumpra-se o ritual
.
Uma voz grita . Viva
a liberdade . O coro lhe responde
pontuado de tiros
.
Canalhas . Temos fome
Arranquemos as pedras da calçada
Ó meu amor resiste
.
Resiste de olhos secos
Sem lágrimas . Sem medo . Só talhada
no silex da ira
.
Pronta a dar corpo ao sonho
e entanto testemunha do martírio
companheira e amante
.
De mãos dadas cantando
abrimos flores às balas assassinas
merecemos a vida
.
Que força. Que belo!
E, depois, vem a 5ª canção, a última.
Mas não só o gritava a estes, aos canalhas, como o sussurrava beijando o ouvido da companheira e amante. Também o fazia para si, e para outros.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Merecemos mais Daniel Filipe...

... e não só A Invenção do Amor. Por isso - e por razões pessoais - aqui lhe vou dedicar uns momentos, neste blog de livros e leituras, antes de, a partir do 1º fim-de-semana de Setembro, me dedicar a outro livro. Ele compreenderia.
Pátria, lugar de exílio é um poema - que dá o título ao livro - que conta um dia, o dia 1º de Maio de 1962. Que foi um dia especial (de luta!) para ele e para mim. Nesse dia - o 1º de Maio não era feriado! -, saímos mais cedo do gabinete (ou nem lá fomos...) onde trabalhávamos os dois, com as justificações que cada um arranjou para o director comum. Cada um para as suas tarefas. Adivinhando-nos, mas nada nos dizendo. Era a pátria em que estávamos exilados, na nossa semi-clandestinidade.
Termina assim o poema, depois da 5ª canção, fechando a história de um dia, de um ingresso (ou de um regresso) à luta:

.

Neste ano de 1962
primeiro de maio
ao começo da noite
podemos finalmente olhar no espelho a nossa muda imagem
sem temor nem vergonha
.
Na solidão do quarto . meu Amor
podemos pela primeira vez
deixar de recear futuros julgamentos
e as perguntas silenciosas nos olhos dos vindouros
esquecer a humilhação . o insulto sem resposta
que foi o nosso pão qutotidiano e áspero
.
Agora poderemos ser de novo homens
livres . ainda que presos
mastigando a comida sem o sabor a lágrimas
antes com o sal da esperança
merecido tempero . paga justa da luta
.
Renegamos o passado maculado de angústias
esquecemos as pequenas diárias covardias
os negócios onde tudo se perde e até a honra
.
Neste primeiro de Maio de 1962
podemos finalmente sorrir sem amargura

Fico-me por um desabafo, aqui

Às vezes, uma vontade (quase) irreprimível de dar um murro na mesa (ou em alguém), de gritar umas obscenidades bem vicentinas.
Aqui o faço, ou aqui faço o que me ajude a descomprimir.
O Som da Tinta, além dos encómios públicos, outros envergonhados ou calados, foi uma livraria, um espaço cultural que, entre as mais insuperáveis dificuldades, teve de sofrer a hostilidade (quando não agressão) por “beneficiar” de uma conotação partidária. Pela minha mais notada vontade e actividade, pelo apontar acusador da ligação partidária dos convidados a virem animar o espaço.
Pois ao Som da Tinta veio, por exemplo, um senhor (o Zé Pedro dos “xutos”) que, nas vésperas de ir cantar, com o seu grupo, à Festa do Avante!, acaba de dar uma entrevista em que decretou que «o Partido Comunista tem que se adaptar ao mundo de hoje (tem de deixar de) fechar todas as portas…». Veio (aqui, portas abertas, e vai à Festa…), e foi muito interessante e útil a sua presença, até pelo que disse aos jovens sobre a droga e os seus malefícios…
Aqui, a este espaço – que agora é apenas um blog mantido por este assumido membro do PCP que eu sou –, veio quem foi proposto que viesse, e alguns, mais de uma vez convidados, não vieram (talvez...) por não ter a livraria a conotação partidária que lhes seria conveniente, por ter a que, surdamente, se insinuava mas que não impedia que convidados fossem.
A este espaço vieram Carlos André, Galopim de Carvalho, Hugo Santos, José Fanha, Mia Couto, Pedro Barroso, Pepetela, Rui Pimental, Sérgio Godinho, Vasco Graça Moura, Viriato Soromenho Marques[1], e tantos outros com posições políticas publicamente conhecidas como não sendo do PCP, ou até com assumido posicionamente partidário não no (ou anti) PCP, e muitos outros de que não se conhecem (nem pretendiam conhecer) as posições político-partidárias.
Também vieram convidados, com conhecimento público de pertença ao PCP, como Ilda Figueiredo, José Casanova, José Saramago, Pedro Namora e outros? Ah!, com certeza, e não se esperaria que, neste espaço e sendo eu nele tão influente, se promovesse ou consentisse a nossa auto-discriminação. Bem basta a discriminação que outros, os de "portas abertas", nos fazem quotidianamente e em todas as oportunidades.
Não foi bem um murro na mesa nem uma obscenidade... fiquei-me por um desabafo.
________________________________________
[1] - Todas as referências a nomes por ordem alfabética

quinta-feira, agosto 28, 2008

Daniel Filipe merece mais...

... ou merecemos mais Daniel Filipe.
Daniel Filipe é lembrado por A invenção do Amor. É justo. Mas Daniel Filipe não é o poeta de um poema. Por isso, não é justo que seja lembrado só por esse poema. Além de seis livros de poemas, uma novela (O manuscrito na garrafa) e um livro de crónicas (Discurso sobre a cidade) são a obra deixada publicada, entre 1946 e 1963, por um homem que nasceu em Cabo Verde, em 1925, e morreu em 1964.
Enquanto Daniel Filipe escrevia Pátria, lugar de exílio, trabalhámos no mesmo gabinete, secretária ao lado de secretária.
Ao ver fotografias em que estamos os dois, elementos do Grupo Desportivo da Siderurgia Nacional, mas sobretudo ao tirar da estante este livro e ao relê-lo, mais uma vez, vivo de novo aquele 1º de Maio de 1962, o dia que é, que eu sei que é, o poema que dá o nome ao livro. Não porque ele mo tivesse dito. Porque o adivinhei quando conversámos, como amigos quase confidentes, sobre a gestação do poema, na clandestinidade em que todos vivíamos. Como ele terá adivinhado, pelo que eu lhe disse, naqueles dias, que viveramos de igual maneira aquele dia, aquele 1º de Maio de 1962. Na luta. Calada, mordida, agredida. Na pátria, nosso lugar de exílio.Começa assim o poema:
.
Neste ano de 1962
não . como Nazim Hikmet . no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e . no entanto . prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde
.
Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura
.
Aqui mesmo . a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro nas contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária . de fábrica . com três filhos famintos
Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido . de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz do suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo . apesar de tudo inquieto
apesar de tudo farto
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem . mas precisamente às três da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

sábado, agosto 23, 2008

Uma edição para mostrar que continuávamos em fascismo (e guerra colonial)

O mais sucintamente que me for possível:

1. Enquanto decorria a campanha eleitoral de 1969, aquelas em que se pretendia mostrar que o marcelismo era o pós-salazarismo (ou, até, o anti-salazarismo), resolvi aproveitar a minha participação como candidato em Leiria para, documentalmente, demonstrar que o fascismo continuava, que a continuidade prevalecia sobre a renovação, que as eleições eram a "batotice" habitual.

2. Fui juntando documentação, nomeadamente as folhas (diárias) de informação que se distribuiam - como possível - pela população, todas as tropelias de que éramos alvo, e tinha a intenção de, com os resultados, publicar o livro em "tempo útil", ou seja, logo após as eleições, no começo de Novembro.

3. Para esse objectivo, entreguei o original numa tipografia de alguém com quem tivera um excelente relacionamento durante a campanha, e pedi-lhe a maior brevidade.

4. Dado um inexplicável atraso no recebimento de provas para rever e um silêncio ainda menos explicável, procurei o dono da tipografia - que era fora de Lisboa - e este, muito pesaroso, disse-me ter lido o original, por ser meu, e que, face ao que lera, resolvera não o publicar... porque não podia correr riscos, porque investira tudo naquela tipografia, que dela dependia a vida familiar, e etc., etc.

5. Tentei explicar-lhe que se alguém corria riscos era o autor e a editora, e não a tipografia, mas foi inútil (e doloroso), e voltei para Lisboa com o original.

6. Imediatamente o meti numa segunda tipografia, com que a Prelo trabalhava habitualmente, e pedi a maior urgência.

7. Entretanto, o dono da primeira tipografia escreveu-me uma carta de muito pesar, cheia de má(s) consciências(s), em que reiterava as justificações, e me colocava nos píncaros do heroísmo e a si próprio chamava cobarde e outras coisas pouco simpáticas.

8. Tive, então, uma das ideias mais estúpidas da minha já longa vida (em que não faltam outras...): juntar às provas que tinha em mãos a carta, como posfácio demonstrativo do ambiente em que se vivia e, ao mesmo tempo, assim justificar o atraso da saída do livro relativamente aos propósitos iniciais.

9. Aconteceu o que deveria ter previsto: o responsável da segunda tipografia, se não lera o original, leu o dito posfácio e disse-me, peremptório, que não iria completar a feitura do livro.

10. Seguiram-se laboriosas negociações, em que o consegui convencer a acabar o trabalho, embora, evidentemente, tivesse de... desistir de lhe juntar um posfácio.

11. Assim, o livro veio a terminar o seu calvário, e saíu em Abril de 1970.

12. Mas foi logo cruxificado, isto é, apreendido!

13. Caso para dizer, tal e qual nas demonstrações matemáticas: como queria demonstrar, o fascismo continuava!

domingo, agosto 17, 2008

Neste blog...

... que tem servido de arquivo e de experiências, faltava cá "isto"!

A Prelo Editora - I

Na (re)arrumação dos livros - no caos em que me oriento - de que me fui servindo para esta série sobre a Prelo Editora, encontrei duas edições que seria muito injusto ficarem esquecidas neste "inventário", Decerto voltará a acontecer com outras...

Uma, é esta
um esboço breve de geografia humana de Portugal, da autoria de Carlos Alberto Medeiros, e
um estudo do açoreano Caetano Valadão Serpa sobre A Gente dos Açores, com a sua identificação, emigração e religiosidade, nos séculos XVI-XX

sábado, agosto 16, 2008

A Prelo Editora - edições para-Prelo (2)

Outra edição para-Prelo foi a publicação, em 1971, de textos “íntegros”, assim chamados por serem textos que a censura (ou o crismado, por Marcelo Caetano, aviso prévio) cortara, ou na totalidade, ou em parte substancial, ou apenas uma frase, e que se publicavam na íntegra, “tal como foram escritos”. Para tornar as coisas (talvez) mais graves para o “editor”, este fez anteceder os “3 textos íntegros” de uma “Razão de ser”, que justificava a edição na procura de “intervir num momento particular da vida política portuguesa”, quando – como afirmara o Presidente do Conselho – “Portugal atravessava um crítico período da sua história” e se mantinha aberta a Assembleia Nacional para discutir alterações à Constituição, a liberdade religiosa e a lei da imprensa. Não hesito em dizer que esse prefácio era um desafio.
E, depois dos três exemplos que se pretendia que servissem para mostrar o que se cortava e porquê se cortava – mesmo quando o porquê era pura arbitrariedade –, como se isso não bastasse o que se chamou folheto terminava com um artigo de Jacques Brière, com o título Informar, informar-se: como?, que fora publicado nos cadernos PEEP, sem censura prévia mas apreensão a posteriori!, que informava e comentava as posições do Partido Comunista Francês sobre informação e em que se sublinhava, com ênfase, a importância do informar-se.
Para que não fique apenas a lembrança e a ilustração, junta-se o corte do último parágrafo no artigo sobre desporto – Em que medida é que o espectáculo desportivo é socialmente aceitável – deixando em itálico (e com a cor do lápis azul) a parte cortada:

«(...) Brecht teria dito que “tinha esperanças no espectador desportivo”. Acredito que tivesse dito isso (mais ou menos). Se não o disse (nem Brecht, nem alguém igualmente a usar como autoridade), digo-o eu. Tenho esperanças no espectador desportivo. Porque conhece as regras do jogo, está informado, participa no espectáculo, discute o que o rodeia. É verdade que o jogo de que conhece as regras é alienante (porque não o entende como espectáculo), é verdade que a informação é perturbadora (porque é, também, alimento de mitos e mágicas), é verdade que a participação é acrítica (porque a pseudo-crítica não nasce na razão), é verdade que se discute o que esconde o que devia ser discutido (porque é um espectáculo e não uma luta, porque são as folhas secas e não as raízes).
Mas: o espectador desportivo conhece as regras, está informado, participa, discute. Prova que não dorme. É certo que está bem mais sonâmbulo que acordado. Mas, bolas!, está vivo. E é povo

A Prelo Editora - edições para-Prelo (1)

Em 23 “posts” se fez um inventário (não exaustivo) da actividade editorial da Prelo Editora. Foi quase uma necessidade. Que se satisfez, embora deixando alguma frustração por uma ou outra recordação que essa inventariação nos trouxe não ter encontrado o suporte material que se procurou.
Como adenda, e em razão de se ter, em contrapartida, encontrado uns exemplares do que se poderia chamar edições para-Prelo, aqui se trazem essas “amostras”.
Trata-se de edições que pareceu prudente não incluir (ou sequer propor que se incluísse) na actividade da empresa Prelo Editora, SA, havendo assumpção estritamente pessoal das responsabilidades.
Uma primeira é de Outubro de 1973, edição quase artesanal, em que se transcrevem documentos do Conselho Mundial da Paz e um abaixo assinado de portugueses – Declaração sobre a vitória do povo vietnamita e a paz no Mundo – que terminava assim
As forças da guerra e do militarismo são poderosas. Os obstáculos a vencer são difíceis. Mas o peso da opinião pública é cada vez maior, o papel dos povos e das forças do progresso cada vez mais decisivo para impor a Paz. A Paz é possível. Hoje mais do que nunca devem os Portugueses agir pela Paz.

Duas notas:
  • Portugal vivia sob regime fascista, e este estava em guerra colonial desde 1961;
  • Dos nomes que assinaram o documento (158), alguns já morreram (e de muitos deles se sente uma grande saudade), outros, hoje não assinariam, por “razões” suas, o que então tiveram a coragem de subscrever.

A Prelo Editora - 23

Este é o verdadeiro almanaque Borda d’Água. Que faz 80 anos. Mas houve um outro. Também verdadeiro. E nosso. Da Prelo! A que se deu o nome de O Manda-chuva. Editado no ano do livro (ou da leitura).
Juntou-se um grupo de colaboradores, formou-se uma equipa, e foi decidido conceber e editar O Manda-chuva (com um excelente “boneco” do Manuel Augusto).
Também aqui se queria mostrar. Como “chave de ouro” para esta série de “posts” de lembrança de edições de uma editora. Que existiu e que não pode (não deve!) ser esquecida.
Mas aconteceu o inac(r)e(d)itável (e tantas vezes repetido… raro com esta gravidade). Correram-se os “cantos à casa” e não se encontrou um exemplar! Decerto depois de tanto termos mostrado a prova do que foi a “aventura”, um último exemplar foi emprestado a alguém, com a garantia de que seria devolvido... e devolvido não foi. Isto tem de ser reparado…
Mas, para agora, e para compensar, reproduz-se o que, em 50 anos de economia e militância, lá está como referência a este episódio tão relevante nestes 50 anos. E na Prelo Editora!

«(…) Esta terá sido uma das mais interessantes experiências editoriais a que estive ligado, com a edição, pela Prelo, do “nosso” Borda d´Água. Tal como o original, um calendário-caderno, com pequenos textos e efemérides. Mas, em O Manda-chuva, os curtos textos eram políticos e as referências a datas bem diferentes das dirigidas aos agricultores. Por exemplo, um texto sobre os horóscopos em que, partindo-se da emigração e da guerra colonial, os dois signos eram voltar as costas à Pátria ou lutar para que ela fosse diferente; como efemérides, em vez das dos santos, dias de semear e de colher, ou estando estas tratadas de outra forma, as de 18 de Fevereiro, 5 de Outubro, 8 de Março, 1º de Maio, 7 de Novembro, a da morte de Salazar com um poema de Brecht ao lado – por acaso… – sobre o “pintor de tabuletas”, dedicado a Hitler que, se “voltasse cá”, não arranjaria lugar como contínuo numa repartição pública.(…)
Em suma, uma 1ª edição de 5.000 exemplares e uma 2ª de 6.000, e a PIDE a apreender os que ainda encontrou e a levar “o manda-chuva” da Prelo, que seria eu – isto na opinião deles…–, e um dia (mal) passado numa daquelas salas (até pelas recordações), a ser chateado e intimidado.
Mas até deu algum gozo, pois a minha “defesa” foi a do interesse económico da empresa, comprovado pelas duas edições, tão esgotadas que “eles” só tinham apreendido uns exemplarzitos. E, sempre que perguntada a autoria dos textos, a mesma resposta: se estavam assinados eram aqueles os autores, se não estavam assinados eram da responsabilidade da editora…
Dessa argumentação não sai, e dessa me safei assim. Com grande irritação d”eles” e ameaças correlativas.(…)».

A Prelo Editora - 22

Penúltimo. Não por apenas faltar o que se virá a incluir no último. Não houve a intenção de se ser exaustivo. Algumas edições faltam. Não muitas, mas algumas faltam, talvez com futura reparação.

Um deles porque, no exemplar que tínhamos, na deserta casa da Rua do Sol ao Rato entrou “o bicho” e alimentou-se de Entre os macuas de Angoche. Historiando Moçambique, de Melo Machado, editado em 1970, deixando-o irreconhecível.

Um outro, porque não se encontrou, apesar de muitas buscas, e não se queria deixar de aqui referenciar (para servir, também, de homenagem à autora e à ilustradora), é a pequena obra - mas de grande valor bio-bibliográfico - Camões - Poeta, mancebo e pobre, com texto de Matilde Rosa Araújo e ilustrações de Maria Keil, editado em 1978, na colecção Barcarola.

quinta-feira, agosto 14, 2008

A Prelo Editora - 21

Após o 25 de Abril, no ambiente então criado, a Prelo lançou uma colecção Estudos e Ensaios, cuja direcção entregou a Luís de Sousa Rebelo, que na abertura do primeiro volume, O herói na crónica de. D. João I, de Fernão Lopes, de Maria Lúcia Perrone de Faro Passos, define os propósitos da colecção:

Nela se publicarão trabalhos de autores nacionais de reconhecida competência sobre literatura e história das ideias, dando-se preferência àqueles que versem temas e aspectos da cultura portuguesa.

Era uma colecção dirigida a um público universitário, e conseguiu subsídios da Secretaria de Estado da Cultura, tendo publicado, em 1978, A sátira social de Fernão Mendes Pinto, da autoria de Rebecca Catz, e em 1979 Camões e o pensamento filosófico do seu tempo, com estudos de Egídio Namorado, Luís de Sousa Rebelo, Roger M. Walker e João Mendes.

quarta-feira, agosto 13, 2008

A Prelo Editora - 20

Esta colecção aparece ao contrário do que é - ou foi - costume. Em vez de criar a colecção e procurar originais ou traduções, ao princípio foi o original e, para este, se arranjou uma colecção.
Foi o caso de Mário Castrim ter proposto à Prelo - ou a Prelo pedido a Mário Castrim - um original. Num almoço na Charcutaria Francesa, com o autor, acertaram-se pormenores da edição. Em que colecção? Depois de troca de impressões, surgiu um nome, novo: Cacto! Depois, definição dicionária, mesmo adequada ao original: planta que nasce em terrenos áridos, arenosos ou pedregosos e cujas folhas são geralmente cobertas de espinhos.
Assim nasceu uma nova colecção. E o livro foi um êxito, depois retomado em outras edições em outras editoras (com o habitual esquecimento da primeira, da Prelo).
Mas não se ficou a colecção por um livro. Pelo menos, mais um de Pedro Alvim, O caçador do nada, e outro, Mandamentos e Mitos, de Manoel-Lourenço Forte (pseudónimo). Este, um conjunto de textos socio-linguísticos desmitificadores e desmistificadores, que abre assim «Não sei se há. Mas se houver, o Decálogo do Burguês começa por certo pelo seguinte Mandamento: "Ama a Ordem sobre todas as coisas o o dinheiro como a ti mesmo".»
O livro de Pedro Alvim é uma amostra de como "devem ser" crónicas para um jornal, em que, como ele, mestre, dizia, não pode haver uma palavra a mais nem uma palavra a menos.
Veja-se:

OURO NO DENTE

Aqui está o criado: prato na mão, guardanapo no braço: Alheira, batata, um ovo estrelado. E para beber? Vinho da casa. Vai-se o criado e ficam os dentes. Entre os dentes - um dente de ouro.
Sobremesa: pudim flan.
- Café?
-Café. Café e bagaço.
Vai-se o criado, lembra-se o cliente:
- Palitos, 'favor!
Ei-los na toalha: haste fina de madeira delicia-se no dente aurifulgente. Mas que gajo tão contente!

segunda-feira, agosto 11, 2008

A propósito...

... "cinta" para a 3ª edição, de 1975
(com "dedicatória amiga" do José Esteves)

A propósito...

... e a lembrança de Francisco Lázaro
(com um "companheira dedicatória" do Romeu Correia)