Foi muito mais que isso. E muito mais foi poderia se não decidisse parar.
Trago a dedicatória que comoveu, a saudade do amigo que, aos 39 anos, morreu.

"Com a camaradagem e a amizade do"! Em Março de 1963, já eu tinha saído da SN há alguns meses, mas mantinham-se a amizade e os contactos.
Como penúltima das transcrições (mais que discutíveis, só justificadas por critérios de memória e de subjectividade), não de Pátria, lugar de exílio mas do livro, o poema I do conjunto de poemas O Viajante Clandestino:
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No exacto automóvel, viajamos.
Em corpo e nervos, sal, angústia, grito.
Suor, temor da noite, aonde vamos?
Direita, esquerda? (Cruzamento). Hesito.
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Onde? Por onde? Somos dois, calados.
A chuva alaga o universo à volta.
À beira d’água, acenam-nos soldados.
Soam no escuro os passos de uma escolta.
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Finco as mãos no volante. Derrapagem
.– ou medo apenas do que vai contigo?
Já está próximo o termo da viagem.
Apertamos as mãos. «Saúde, amigo».
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O relato poético de um “transporte” nesses tempos de clandestinidade e de clandestinos, em que os que não o eram tinham tarefas de apoio.
E termino, porque tem de ser!, com um pequeno trecho em que não falta sequer o nome do camarada que, na clandestinidade, foi preso depois das grandes manifestações de 1 e de 8 de Maio de 1962, e que Daniel Filipe trouxe (só para o poema o teria transportado?) para o poema em que cantou, quase um ano depois, o primeiro de Maio de 1962:
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Pergunto . poderia cantar de modo alheio
dizer outras palavras como quem diz bom dia
poderia acaso ignorar o tempo a tortura a prisão
Bernardino e a pequena rosa
vermelha e orvalhada
insólita no tablier do automóvel azul
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Poderia falar dos dias impossíveis
das manhãs sem revolta . do xadrez matemático
jogado interminavelmente
das virgens . dos poentes . do mar da minha infância
.
Poderia escrever meu amor e pensá-lo
Sem mais nada . sem a rubra mancha de sangue na parede da cela
Sem um nome ou um grito




Começa assim o poema:


Para tornar as coisas (talvez) mais graves para o “editor”, este fez anteceder os “3 textos íntegros” de uma “Razão de ser”, que justificava a edição na procura de “intervir num momento particular da vida política portuguesa”, quando – como afirmara o Presidente do Conselho – “Portugal atravessava um crítico período da sua história” e se mantinha aberta a Assembleia Nacional para discutir alterações à Constituição, a liberdade religiosa e a lei da imprensa. Não hesito em dizer que esse prefácio era um desafio.
Uma primeira é de Outubro de 1973, edição quase artesanal, em que se transcrevem documentos do Conselho Mundial da Paz e um abaixo assinado de portugueses – Declaração sobre a vitória do povo vietnamita e a paz no Mundo – que terminava assim
Mas houve um outro. Também verdadeiro. E nosso. Da Prelo! A que se deu o nome de O Manda-chuva. Editado no ano do livro (ou da leitura).

Camões e o pensamento filosófico do seu tempo, com estudos de Egídio Namorado, Luís de Sousa Rebelo, Roger M. Walker e João Mendes. 




