quarta-feira, agosto 06, 2008

Cartas de fuzilados

Um post de Fernando Samuel, em cravodeabril.blogspot.com,
obrigou-me a parar com tudo o que intentava fazer e vir aqui, neste blog de livros e parecidos, colocar a capa de José Rodrigues nesta edição da Campo da Letras, de que também se incluem ilustrações no interior. O livro abre, ainda, com um prefácio de António Dias Lourenço. Na página de frontespício, um poema de Bertolt Brecht:
Que tempos são estes,
em que uma conversa sobre árvores
é quase um crime, porque inclui
um silêncio sobre tantos malefícios...

terça-feira, agosto 05, 2008

A Prelo Editora - 14

Entre as áreas que nos parecia que deveriam merecer uma atenção editorial estavam as do desporto e do ar livre.
Mas não do desporto-espectáculo-negócio, em que se estava em trânsito acelerado, mas do desporto como fenómeno social e, para isso, se convidou o Prof. José Esteves para que desse uma ajuda à Prelo. Que não se fez rogado, bem pelo contrário. Que agradado se mostrou.
A colecção chamou-se História e Sociologia do Desporto, e o primeiro título foi um original do José Esteves, O desporto e as estruturas sociais, que se tornou um clássico e foi tendo sucessivas edições.
Depois, publicou-se O boxe - negação do desporto, também de autor português, Prof. Fernando Ferreira, e um terceiro volume, tradução de um original de MaccIntosh, O desporto na sociedade, e muitos outros ficaram por publicar, e estão ali a espreitar, numa pequena estante pessoal dedicada à matéria. No entanto, já depois de Abril, ainda se publicou Os comunistas e o desporto, da autoria de P. Laurent, R. Barran e J.-J Faure.

A acompanhar esta colecção, mas com vida própria, a Prelo editou dois volumes, em colecção autónoma - Ar Livre -, Campismo - Caravanismo, da autoria de A. Almeida Henriques e A Escola de Vela, da autoria do Prof. Jorge Crespo.

segunda-feira, agosto 04, 2008

O teatro no con(tra)texto

O teatro no con(tra)texto
(ensaiozinho)


No teatro, há três componentes:
  • O texto
  • A sua interpretação
  • - pela voz dos intérpretes
  • - pela expressão corporal dos intérpretes
  • O “ambiente” criado pela cenografia (o espaço – também onde e como integrar o público na inter-acção –, a iluminação, o som)

Por isso, há quem considere o teatro a arte das artes, com o encenador a ser o coordenador de todo o trabalho colectivo que o teatro exige. O trabalho do tratamento do texto, o dos actores, o da luz, o do som, o dos coreógrafos, o dos pintores-cenógrafos, o dos músicos, o dos carpinteiros, dos contra-regras, e alguns que já não. Isto digo eu, que de teatro apenas gosto muito, e há muitos anos.
As duas últimas representações ditas teatrais a que assisti agradaram-me imenso. Mas deixaram-me a pensar.
Num caso, porque não estive a assistir a/participar em um espectáculo teatral, estive a assistir ao trabalho visível e espectacular de Maria João Luís, decerto respeitando as instruções do encenador invisível, num discreto espaço cénico apropriado para aquela exibição. Mas… e o texto? Não senti a preocupação de que o texto (e era, ao que me apercebi, muito boa a tradução) chegasse perfeitamente audível ao espectador – a quem se contava a história, ali ao vivo.
Aplaudi calorosamente a Maria João Luís, gostei daquilo a que assisti… mas fiquei a pensar.

Ontem, fui ver, no Meridional teatro, Cabo Verde – contos em viagem. Como é de uso (*) dizer, em boa hora segui o conselho: “não percam!”. É mesmo de não perder, ou era porque foi a última representação.
Por obra e arte de Carla Galvão (e do excelente Fernando Mota), viajei por Cabo Verde, num regresso sempre desejado (“bai é magoado, bem é doce”). Num espaço cénico que nos colocou, aos que se sentaram naquelas cadeiras, onde se queria que estivéssemos (e onde queríamos estar), com o som ali feito sem truques mas quase com magia, a voz e o corpo de Carla Galvão contaram-nos, e fizeram-nos saborear estórias caboverdeanas, com as palavras de tantos (e tão bons) autores que tão bem conhecemos. Mas… os textos, desses autores, foram subalternizados, misturados, amalgamados. E não num texto novo.
O texto tornou-se pretexto, e não foi elemento essencial do acto teatral. Do espectáculo de uma mulher-só, que aplaudi até me cansar, por muito injusto que dizer isto seja para Fernando Mota.
E esta é outra questão que me faz pensar. Parece que o teatro, estes dois actos teatrais a que fui assistir – em que fui participar –, está a transformar o trabalho colectivo que se apresenta ou representa em exibição individual de um trabalho colectivo que se apaga. Diria um vizinho meu, que tem o hábito de repetir o que outros dizem, sinais dos tempos.

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(*) - bilhete do espectáculo, também comprovativo que sou "anormal" (por ter mais de 65 anos!) pois os "normais" pagavam 10 euros!

domingo, agosto 03, 2008

A Prelo Editora - 13

Hoje, tenho de meter este post!
Porquê? Entre outras razões (se razões são), porque já cá devia estar, ligado Biblioteca de Economia, de que o livrinho é um número extra, como I (em romano), porque se me atravessou no caminho quando procuro (desesperadamente...) um exemplar de O manda-chuva, outra edição que tem uma história para contar, porque...
A história de o (quase)diário de uma desvalorização,

desta edição de Novembro de 1967, pode começar a ser contada transcrevendo o início do "antelóquio" que o abre:

«No jornal da manhã de 19. Numa manhã de domingo jornal-lido-na-cama. A libra desvalorizou. Não foi nada que nos obrigasse a saltar para o frio. Mas era uma notícia importante! E durante quatro dias, entre 19 e 23 (hoje), lemos, recortámos, anotámos o que nos ia passando pelas mãos. Primeiro, por necessidade profissional; depois, transcendendo-a; agora, fazendo nascer (e acarinhando) a ideia de comunicar aos outros o resultado em mim de umas horas dedicadas a um assunto. A um assunto que todos toca, interessados ou não. Aos grandes especuladores de Bolsas a sério, aos pequenos especuladores de meses-turismo para aguentar penúria-de-todo-o-ano. (...)»

Um pormenor então não contado: antes de arrancar com o trabalho, telefonei para responsáveis da Seara Nova, de cuja redacção fazia parte, avisando que iria entregar um original sobre a desvalorização da libra, assunto muito importante, para sair no número de Dezembro. Resposta: impossível pois como eu sabia, para que o número estivesse no correio por forma a chegar a casa dos assinantes nos primeiros dias do mês todos os originais e paginação tinham de estar na tipografia até 20 do mês anterior! Definitivo... tivesse a libra desvalorizado mais cedo.
Fiquei "em pólvora". Atirei-me ao trabalho. Comprei um monte de jornais ingleses, franceses, espanhois, recortei, anotei ao lado, montei tudo numa sala de jantar transformada em atelier. Com a extraordinária ajuda de um amigo da Associação dos Estudantes de IST, responsável pela secção de folhas (o Carrilho), fizemos as montagens, fotografámos, levámos para a tipografia (a Novotipo, de um ex-companheiro de Caxias, das raras com off-set).
Ainda em Novembro, antes de sair a revista Seara Nova de Dezembro, a Prelo lançava o liv(inh)o (de 80 páginas) que deve ter sido o primeiro a ser publicado, em todo o mundo, sobre a desvalorização da libra.
Depois do "antelóquio", o sumário era:

  • o significado da desvalorização
  • antecedentes próximos
  • a decisão e os objectivos
  • respostas internas
  • reacções internacionais
  • a posição da Espanha
  • a posição de Portugal
  • os Estados-Unidos
  • "mercado comum"
  • a corrida ao ouro e o sistema (monetário-internacional)



sábado, agosto 02, 2008

A Prelo Editora - 12

De vez em quando, havia edições chamemos-lhe avulsas. Edições em que dá gosto pegar e manusear. Saborear.
Como esta, em que juntam crónicas de Urbano Tavares Rodrigues e fotografias de Eduardo Gageiro. Com textos e fotos no "miolo" que estão bem condizentes com o "aperitivo" da capa...
Ou esta, sobre a parábola de Curvo Semedo, a que até se atribuiu o nome de uma mini-colecção - barcarola - de que Tóssan fez esta bela capa e "encheu" o livrinho com mais 10 desenhos dos seus...

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(...)
«Rapaz, vamos como dantes,
sirvam-nos estas lições:
É mais que tolo quem dá
ao Mundo satisfações»


A Prelo editora - 11

Uma colecção que identificou a Prelo, na sua intervenção socio-política, foi a cadernos de hoje.
Claramente criada para tratar de temas da história e da sociedade portuguesa, o seu 1º volume, de Borges Coelho, Raízes da expansão portuguesa, como que se tornou o seu "emblema". Pelo que é como livro, pelo momento em que foi editado, nos primeiros anos de uma guerra colonial resultado de um esforço sem sentido de fazer parar a História. E de a reescrever.
Seguiram-se, a Raízes da expansão portuguesa,
  • Leituras históricas - as origens da República, de Flausino Torres
  • Ensino: sector em crise, de Rogério Fernandes
  • História contemporânea do povo português - I, de Flausino Torres
  • Revelando a velha África, de Basil Davidson
  • O estatuto da imprensa, de vários
  • A legislação eleitoral e sua crítica, de José Magalhães Godinho
  • A mulher na sociedade contemporânea, colóquios na Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa
  • História contemporânea do povo português - II, de Flausino Torres
  • Capitalismo e emigração em Portugal, de Carlos Almeida e António Barreto
  • História contemporânea do povo português - III, de Flausino Torres
  • Ordem dos advogados, advocacia, de José Magalhães Godinho

As capas e o logotipo eram de Miguel Flávio

sexta-feira, agosto 01, 2008

A Prelo Editora - 10

Na esteira da Biblioteca de Economia e dos PEEP, foram aparecendo outras edições, como a de uns cadernos dedicados a um tema, a que se deu o nome PEEP-estudos.

Aqui, "à mão", estão 7 desses "estudos", sublinhando a importância que neles se reflecte pelos temas da situação das mulheres e da gestão de empresas.





Ó Mia!

De expectante leitura a leitura frustrante (e um pouco... expectorante).
Paciência. Melhores livros virão!

Guardei duas notas:
  • na página 110 - "Desses, como ele dizia, a quem o cu cresce mais que a cadeira."
  • na página 154, duas falas de Munda - "O tempo é o lenço de toda a lágrima" (...) "O senhor não conhece o tempo, não sabe como o tempo é o único remédio"

1º de Maio (em 1962 e em 1974)

O poeta merecia viver!
Daniel Filipe merecia ter vivido o 25 de Abril! Como cantaria o 1º de Maio de 1974?, se assim cantou o 1º de Maio de 1962 (final da 3ª canção):

Vêm com o rosto de todos os dias
o olhar de todos os dias
as mãos e os pés de todos os dias
cansados de preencher impressos
moldar metais
afeiçoar madeiras
rodar motores e válvulas
sujos de óleo e poeira
deslumbrados de sol
operários . empregados de escritório . vendedores de porta a porta
dir-se-ia que cantam
.
De súbito . a cidade parece banhada de alegria
estamos juntos meu Amor
possessos da mesma ira justiceira
Damos as mãos como dois jovens namorados
e sorrimos felizes
à doce primavera acontecida
no magoado coração da pátria

Vêm de toda a parte sem idade
Redescobrem palavras esquecidas
e no silêncio cúmplice desfraldam
um novo e claro amanhecer do mundo
.
Vêm de mãos vazias . nem flores simbólicas
nem ramos de oliveira
Entre os seus dedos apenas desabrocha
o obscuro desejo de apertar outras mãos
como as suas . nervosas . sujas . proletárias
.
E eu limpo . eu meticulosamente barbeado
eu de papéis em ordem
eu vestido de nylon dralon leacril
eu rigorosamente asséptico
eu mergulhado até às virilhas na placidez burguesa
vou convosco cantando companheiros
irmãos em pátria
em sonho em sofrimento
.
Ah riso aberto . coração do povo
cálice . flor . inesperado aroma
doce palavra antiga
liberdade
.
.
Doce palavra antiga, de todos os poetas, também de Éluard
(… Et par le pouvoir d’un mot
je recommence ma vie
je suis né pour te connaître
pour te nommer
liberté).
Ah! os poetas…
por isso eles são o inimigo. Quando têm as mãos nervosas . sujas . proletárias.

quinta-feira, julho 31, 2008

A Prelo Editora - 9

A partir da Biblioteca de Economia, e das suas características iniciais, criou-se um embrião de colaboradores que possibilitaram a tentativa de... fazer uma revista. Que não seria uma revista porque, se fosse, teria de ir à censura prévia e, como livro-caderno, mesmo que saísse com regularidade, "apenas" seria apreendido. E até se poderiam arranjar assinantes para quem enviar os cadernos,
Foi a "aventura" dos cadernos PEEP (Política Económica/Economia Política). O 1º saíu em Janeiro de 1970, o 2º em Março e o 3º em Junho. E cada caderno tinha um tema-título. Como se estava na passagem Salazar-Caetano, foram:
  • 1. fim de década começo de quê?
  • 2. começo de quê viragem para onde?
  • 3. viragem para onde ao serviço de quem?
Foram apreendidos!
O 4º. que saíu em Julho, era dedicado à educação (na perspectiva da economia e do desensenvolvimento). Apreendido foi.
Mas... além de outras peripécias, a Prelo foi intimada a enviar à censura précia os cadernos a partir de nº 5... pois tratava-se de publicação periódica!
Com grande esforço, tendo de fazer material que compensasse os "generosos" cortes da censura, ainda se publicaram:
  • 5. sobre a crescente intervenção do Estado (Novembro de 70)
  • 6. as sociedades multinacionais contra o Estado (Março de 71)
  • 7. Plano (Junho de 71)
  • 8. Função social da maternidade. Moeda europeia (Julho de 71)
  • 9. Duração do trabalho (Novembro de 71)
  • 10. A (nova) política industrial. Alta de preços e custo de viver (Dezembro de 71/Janeiro de 72)
  • 11. Segurança europeia (Abril de 72)
  • 12. A imprensa em questão (Setembro de 72)
  • 13. As férias dos emigrantes. O aumento das rendas de casa (Dezembro de 72)
  • 14/15. O trabalho e a mais-valia (Fevereiro de 74, este número já proíbido por a Prelo não dispor de... alvará para publicações periódicas).

Sempre com capas e paginação do Manuel Augusto Araújo, é justo que se sublinhe.

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visado pela Comissão de Censura



A Prelo Editora - 8

Na Prelo, comecei por dedicar particular atenção, no plano editorial, à economia.
Abalancei-me a criar uma colecção Biblioteca de Economia. Comecei por uma colectânea de textos, A Empresa - célula-base da actividade económica, em que procurei organizar textos em que se divulgasse a discussão então em curso nos países socialistas e em que se colocassem alguns problemas relacionados com a a actividade ao nível da empresa.

Não sendo livro de minha autoria, considero-o - e vivi-o como - o meu primeiro livro. Depois foram-se publicando livros na colecção e sublinho quatro pontos:

  • a sua heterogeneidade, particularmente nos inícios da colecção, pois não se podia definir uma linha editorial como seria desejável;
  • o acolhimento a autores portugueses, que sempre foi estimulada e contribuiu para essa heterogeneidade, até ideológica;
  • a grande atenção à agricultura, sobretudo por influência do Blasco Fernandes;
  • a intenção de publicar textos de ideologia e prática socialista, particularmente depois de 1974, embora antes se tivesse tentado, também nesta colecção, com algumas inevitáveis apreensões.

A Prelo Editora - 7

Uma das primeiras colecções de Prelo foi a diafragma, de fotografia e filme.


terça-feira, julho 29, 2008

A Prelo Editora - 6

Foi no final de 1965, ou início de 1966 ?, que entrei - com o Fráguas Lucas - para a Prelo. Já vinha colaborando com o Viriato Camilo (desde Caxias), como podia e sabia, e entre as "ajudas" tão necessárias não foi das menores ter sido intermediário para o Fráguas Lucas. Mas quando se decidiu formalizar o "apoio" com a entrada para a sociedade por quotas não foi tudo fácil - alguma coisa o é na vida?...- e houve certas reticências. Assim, as primeiras edições da "nova sociedade" tiveram um logotipo diferente.
Mas tenho a enorme satisfação de que uma delas tenha sido a do livro que assinalava os 60 anos de Fernando Lopes Graça. Com um cuidado tratamento gráfico de Pilo da Silva (o Viriato esmerou-se nesta para ele tão significativa edição...) e é um livro (dos muitos) que manuseio com especial carinho.
O que acho, hoje!, estranho é que, em Dezembro de 1966, o Graça tivesse 60 anos (eu tinha 30!), e essa idade fosse considerada "provecta" e merecedora de comemoração! Mas ainda bem que sim, que se fez o livro e que ele viveu muito mais anos, décadas!, até quase aos 90.
Pena é que este livro, com "notas preambulares de João de Freitas Branco Branco e de João Gaspar Simões nunca seja referido - mais um... dos tantos da esquecida Prelo.

segunda-feira, julho 28, 2008

A Prelo Editora - 5

Entre as primeiras colecções da Prelo estava
O Homem no Mundo, que começou por editar 4 livros de crónicas de viagens de autores muito significativos. Nalgumas dessas crónicas encontram-se histórias deliciosas e, pessoalmente, confesso que o livro de Claude Roy me estimulou muito o gosto pelas viagens. Depois, a colecção foi servindo para tudo. Como o nome o acolhia - o homem no mundo...


Mas, vivendo-se a década de 60, começou a ter um enorme peso na vida social portuguesa a emigração, e esta colecção reflectiu-o. Waldemar Monteiro, Manuel Geraldo, Modesto Navarro publicaram livros seus sobre o tema ,e sobre o primeiro se deixa uma nota. Waldemar Monteiro era um jovem jornalista e repórter - também intérprete do "Serviço Social da Mão-de-Obra Estrangeira em França" - que propôs à Prelo o seu original as histórias dramáticas da emigração. O livro foi composto, com um prefácio de Maria Lamas, e o autor fazia a sua última revisão de provas quando num acidente de viação perdeu a vida (a última "história" publicada, requiem por uma flor, é muito interessante e algo premonitória...). Foram essas provas tipográficas que ele transportava que chegaram à editora e deram origem ao livro. Mais uma história dramática...

O livro foi apreendido (como tantos outros da editora...), e só não faço essa referência exaustivamente, que seria interessante, porque implicaria uma pesquisa que, neste momento, não estou em condições de fazer. Aliás, nada é exaustivo neste "trabalho". Anotarei apenas alguns de que me lembrar da apreensão.

sábado, julho 26, 2008

A Prelo Editora - 4

Julgo (mas não juro...) que a primeira edição da Prelo foi O menino entre gigantes, de Mário Domingues (com capa do angolano António Domingues), saída da tipografia em Dezembro de 1960.
Com este livro se iniciou a colecção autores portugueses, a que logo depois se seguiu esse notável Chiquinho, de Baltasar Lopes, autor (e professor) caboverdeano e "claridoso".
Apenas duas anotações: Matai-vos uns aos outros, de Jorge Reis, ganhou em 1962 o “Prémio Camilo Castelo Branco”, criado pela Sociedade Portuguesa de Escritores e Grémio Nacional dos Editores, alguns dos autores portugueses que estão nesta colecção foi na Prelo que publicaram o seu primeiro livro.

sexta-feira, julho 25, 2008

A Prelo Editora - 3

No teatro, área muito cara ao Viriato Camilo, a Prelo lançou-se na edição de duas obras em fascículos, de teatro moderno e de teatro europeu, sob a direcção de Luiz Francisco Rebello e de uma colecção a que se deu o título repertório para um teatro actual, e de uma outra repertório da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, além de um documento, que depois seria o primeiro de uma colecção – o papel do teatro na sociedade contemporânea (comunicações – de Bernardo Santareno, Costa Ferreira, Miguel Franco, Luiz Francisco Rebello, Urbano Tavares Rodrigues, Teatro Moderno de Lisboa, Augusto Sobral – apresentadas no debate realizado na Casa da Imprensa de Lisboa, por ocasião do 4º Dia Mundial do Teatro e respectivas conclusões). As colecções foram dirigidas por Luiz Francisco Rebello, e destaco dois títulos, os cães, de Tone Brulin, actor-encenador e autor belga flamengo, com que se abriu a colecção, um libelo contra o apartheid na África do Sul, apresentado por Rogério Paulo, e Guilherme Tell tem os olhos tristes, uma peça de Alfonso Sastre que muito me impressionou. O “repertório” para a SECTP, que é muito mais largo para além desta lista, é exclusivo de autores portugueses.

quinta-feira, julho 24, 2008

A Prelo Editora - 2

Não se vai fazer o “inventário” exaustivo das edições da Prelo Editora. E muito menos fazer a história da editora, embora talvez valesse a pena porque seria uma história de resistência, a incluir na História da Resistência.
Apenas se deixa um registo. Para que não se perca. Com um ou outro comentário que me pareça adequado, imprescindível, sempre sucinto.
A Prelo Editora foi uma sociedade por quotas criada no começo dos anos 60, em princípio com dois sócios, Rui de Moura e Viriato Camilo. Mas, como Rui de Moura foi preso pela PIDE, começou a existir com Viriato Camilo e Rogério de Moura (da Livros Horizonte) irmão do Rui.
Depois… saiu Rui de Moura, mas foi preso Viriato Camilo!
Na prisão, ainda no Aljube, conheci o Viriato Camilo e fizemos uma “boa temporada” em Caxias na sala 2 r/c dº.
Todos “cá fora” (na “liberdade condicionada” que o fascismo condescendia para sua sobrevivência), retomámos conversas, e a sociedade por quotas começou por ser alargada a Fráguas Lucas e a mim, e, mais tarde, transformada em sociedade anónima. Até à segunda metade da década de 80, a Prelo foi editando, depois de ter passado por uma fase de relativo apogeu, em que se chegou a dispor de umas instalações interessantes aos Capuchos, com livraria… mas tudo feneceu em voragens de várias espécies.

Quando “entrei para a sociedade”, recordo-me de três áreas, de autores portugueses, de autores estrangeiros, de teatro, e de uma colecção "o homem no mundo".
De autores estrangeiros, relevo a edição do que também considero um livro notável ... também na sua edição portuguesa da Prelo:
Tradução (excelente) de Jaime Brasil e capa de arranjo gráfico de Pilo da Silva sobre capa de Brueghel.
O exemplar de que disponho também tem um… ex-libris

quarta-feira, julho 23, 2008

Terras do Feitiço

Não nasci numa “casa de livros”, como tantas vezes desejei, ou tive pena que não tivesse sido.
Mas alguns havia.
Meu pai não era um homem de muitas leituras. Mas era um homem que lia.
Com a 4ª classe, sabia tudo o que aprendera nas velhas escolas de aldeia nos primeiros anos do século XX. O nome de todos os rios e afluentes, de todas as serras.
E lia jornais – ao domingo de manhã, sempre, e muitas vezes a República, lembro-me eu.
E lembro-o por causa desta (re)“descoberta”:

Os livros, então, raramente traziam o ano (ao menos) da edição. Mas este tem uma referência que me comove. Um verdadeiro ex-libris:







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O livro? Curioso… ajudando a perceber um “momento histórico”… Chegando a enternecer quando fala de bichos, "horrorizando" quando fala de humanos, e entre estes (talvez não para o autor)... os pretos!

terça-feira, julho 22, 2008

A Prelo Editora - 1

A sugestão (obrigado, Vitor Dias!) não caiu em. “saco roto”. Ficou a roer-me as canelas… pelo lado de dentro. E quando, nestas “arrumações”, peguei no Pantagruel, a “dentada” foi valente.
Sim, senhor… está decidido: vou fazer um “inventário” da Prelo Editora. Não uma coisa exaustiva, trabalho à séria, de estudioso. Será só uma “arrumação” dentro da (des)”arrumação” em curso. (Mas quando é que eu começo a fazer uma coisa, uminha, de cada vez?).
Então… a Prelo? Vamos a isso… isto é, vou-me a isso.
E logo me assalta a lembrança de homenagem amiga ao Viriato Camilo. Ele foi a Prelo. Outros ajudaram-no. E pouco. E alguns mal. E se, neste trabalho (não à séria, mas trabalho…) vier a precisar de alguma coisa, sei que posso contar com a Maria Teresa e com a Sílvia. E será bom pretexto para estar com elas! Antes das colecções, o Pantagruel. Uma edição de 1967, que faria o ex-libris de qualquer editora. Um clássico – mas dos clássicos! –, de Rabelais, traduzido por Jorge Reis, com mais de cem ilustrações de Júlio Pomar, com orientação gráfica de Alice Jorge. Para mim, uma pequena maravilha!
Teve uma tiragem de 1500 exemplares e 100 assinados por Júlio Pomar e Jorge Reis.
Aquando do lançamento, houve uma exposição dos desenhos do Pomar na Galeria 111, e lembro-me de uma fotografia em que estou com o Manuel Brito, o Igrejas Caeiro, o Fráguas Lucas e que não sei onde pára (talvez a encontre numa próxima, ou longínqua, curva das “arrumações”). (Ah, se esses desenhos tivessem ficado propriedade dos editores…)
Entretanto, a Vega (1994) e a Frenesi (1997), lançaram outras edições portuguesas de Pantagruel, sendo a da Vega, cópia (a meu ver) pobre da da Prelo, também com as ilustrações do Pomar mas, decerto, sem a orientação gráfica da Alice Jorge, e terá sido (talvez…) um êxito comercial. A “nossa” edição (de 1967), em pelo menos um estudo e como referência bibliográfica, aparece com a edição atribuída à Vega e um artigo de Sommer Ribeiro refere os 30 livros que Pomar ilustrou, entre eles o Pantagruel, edição de 1967, mas esquece o editor...











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Como é evidente, mais nenhum livro merecerá este destaque e, por último, deixo uma mensagem particular para C.C. dizendo-lhe que não desisti de encontrar um outro exemplar do “nosso” Pantagruel.


ADENDA:

Entretanto, nestas buscas apareceu-nos a foto referida no textos, mas em que não está Manuel Brito como eu julgava lembrar-me...

Publica-se, como adenda, também para ficar como saudosa e amiga recordação de José Fráguas Lucas

Não passou...

(Também) para que não se pense que, por aqui, se deixou passar a efeméride sem um registo...

assim começa a auto-biografia:
1

Além de me dar a vida, uma constituição física forte e uma ligação duradoura à casa real thembu, a única coisa que o meu pai me concedeu à nascença foi um nome, Rolihlahla. Em xhosa, Rolihlahla significa literalmente “arrancar o ramo de uma árvore”, mas o seu sentido coloquial seria, mais precisamente, “o que causa problemas”. Não acredito que um nome constitua um destino, ou que o meu pai de alguma forma estivesse a adivinhar o meu futuro, mas, anos mais tarde, amigos e família atribuíam ao meu nome de nascença as muitas tempestades que causei e sofri.
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(e, de repente, lembrei-me de como tive a sorte de partilhar a grande alegria com que o Jorge Araújo - que me levava ao comboio depois de uma iniciativa qualquer em que eu participara - me disse ter, naquele momento, recebido a confirmação de que o Campo das Letras ganhara, na Feira de Frankfurt, a edição para Portugal desta auto-biografia do Mandela! SR)