sábado, agosto 04, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 45

Depois de, por razões de oportunidade, termos ido a cavalo neste já inseparável companheiro, mais adiante ao fim do livro e a outras paragens (ao anónimo do séc.xxi), volta-se ao rame-rame desta longa viagem. Que se não tem estímulos e derivativos pode enfadar e fazer desistir. Mas não! Para mais, chegados que estamos a uma altura em que Mestre Aquilino se dedica - e a fundo - a dissertar sobre a justiça e a sua administração. Ora veja-se só este excerto, antes de a outros chegarmos, na pág. 208:
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(...) Com os tempos, promulgadas as leis ao sabor das conveniências partidárias, cada filósofo edificando o seu sistema como cada sapateiro batendo a sua sola, julgar tornou-se um mester, tendo perdido o carácter primevo de vocação e austera dignidade. Na tentacularidade das profissões e artesanatos, o juiz é um funcionário público e a justiça um artigo de manipulação. Uma sentença é aviada como uma receita de botica. Numa palavra, a magistratura tornou-se uma carreira lotada e graduada como qualquer outra da vasta burocracia. Em consequência, tem as suas tabelas e os seus cânones à maneira dos índices farmacopaicos. Era inevitável talvez. Todavia, para que na prática não descambasse numa função puramente mecânica, regendo-se pelos artigos do Código como um secretário de Finanças pelos conhecimentosdas matrizes, seria indispensável que gozasse de franquia plena e que do emaranhado das leis, contraditórias algumas vezes, aptas no geral à rabulice, mal expressas, omissas não raro, se ressalvasse um princípio sem o quê tal competência é logro: é que há uma verdade em todos os pleitos humanos, quer dizer, um fundo de razão suprema, de acordo com a ética, de Pedro contra Paulo. (...) A lei que o obriga a contrariar o ditame que lhe aponta a consciência torna-se uma monstruosidade moral, degradante em todos os sentidos. Ipso facto, o juiz deixou de ser juiz para ser um simples mesteiral, empregado taxativo como esses que vêm à nossa porta ler o contador da electricidade e da água e nos passam a nota de consumo. (...) O magistrado deve gozar de independência absoluta perante o mundo e particularmente perante os políticos para não atraiçoar a sua missão.
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E Mestre Aquilino, embalado, continua. E continuarenos nós. Mas é tempo para uma paragem, até para digerir tanto fel que Aquilino, ao tempo, teria razões de sobra para verter (e que pensaria disto o seu filho juiz?!), e outros azedumes que ele possa ter levantado, como o de farmaceuticos, decerto nada agradados por assim se desvalorizar (aliás, como por outros lados e nestes tempos se faz) a nobre tarefa de aviar receitas em boticas...
Breve retomaremos este momento tão interessante do ensaio.

sexta-feira, julho 27, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 44

"...Alonso Quixano acabou por perder o sizo.", di-lo Mestre Aquilino. Mas logo acrescenta que o "cronista" (Cide Hamete Benengeli) fugiu de dizer que essa perda de sizo foi, também, motivada pelos abalos "de um escarcéu interior" e mais acrescenta que "a verdade verdadeira é que não o revolucionaram menos os diabos do livre exame que os macaquinhos da Cavalaria Andante". O que já vai adiantado da página 205:
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Um belo dia, com a alba, abalou pela porta do curral, tendo reforçado o arnês com uma viseira de papelão, que julgou apta a receber qualquer golpe de revés, e com uma lança, cujo pé pediu à pernada de um azinho.
Caminhando à aventura pela terra inçada de nequícia, a febre do apostolado alucinou-o a ponto de lhe alterar na retina a propriedade e a forma das coisas. Salvou o menino flagelado das mãos de um bruto, mas não fez reparo que, ele a despegar, o mesmo bruto rompesse muito a seu cómodo a arrancar a pele ao inocente. Ilibou duas rameiras da vileza com a candura lustral da sua alma, e elas nas costas desataram às gargalhadas. Com a rópia toda, aqueles gigantes a espadelar o azul a grandes pernadas aéreas, que princesa iriam roubar ou que alto malefício tinham na tineira... ? - Esperai lá que já vos arranjo... - disse consigo e arremeteu.
- Olhe que não são gigantes, são moinhos de vento!
- Escusas de gritar, Sancho! Bem dou conta que parecem moínhos. Mas só eu sei o que são. São gigantes. Os meus pesadelos ensinaram-me a decifrar-lhes a expressão fantasmática. Deixa-me com eles!
E D. Quixote, persistindo na transfiguração das coisas pelo mal, não se cansou de apanhar lambada, partir os queixos, dar tombos, desiluso de aqueles que tinham por missão administrar justiça.
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Duas coisas me parecem interessantes, por isso de reter: 1º) que o diálogo entre D. Quixote e Sancho sobre os moinhos não seja de Cervantes, nem da versão de Aquilino do D. Quixote de Cervantes, mas de Aquilino em No cavalo de pau com Sancho Pança; 2º) que aqui comece Mestre Aquilino a atacar-se à justiça... andariam lobos a uivar por muito perto!

segunda-feira, julho 23, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 43

Até pode parecer que Mestre Aquilino faz o cavalo de pau andar às arrecuas. É que, depois de tanto caminho com Cervantes e com Quixote, no capítulo IX, a aproximar-se da página 200, vem contar-nos das "controvérsias a quatro" que antecederam e acompanharam as aventuras do engenhoso fidalgo quando Alonso Quixano era ou a ele voltava para recuperar de tanta tareia que D. Quixote levava. Conversas com o bacharel (Sansão Carrasco), o barbeiro (Mestre Nicolau) e o cura (Pero Pérez). Não será assim. Aquelas controvérsias - que sobretudo eram entre o cura e o bacharel, que o futuro D. Quixote, "menos lido em teologia do que em novelística", coçava o toutiço que muitas voltas dava, e o barbeiro quase só ouvia - estariam bem em qualquer lugar (do livro) e em qualquer tempo (da história).
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A Alonso Quixano preocupava-o sobretudo o problema do mal (...) Simão Carrasco, um dia, à puridade, com brusquidão formulou o terrível raciocínio: bem e mal em si não existem. Bem e mal são os termos em que se processa a luta pela vida. (...) Ter mesa farta, fêmea ou fêmeas para o gozo, a habitação que convém, vestir-se condicentemente com as estações, ser respeitado e temido, eis grosso modo os requisitos que na vida da espécie e, gradativamente, na do indivíduo, determinam os actos do bem e do mal. Ora no dia em que o homem encontre a satisfação das necessidades fundamentais, sem recorrer à violência, ao suborno, ao esbulho mercê de qualquer espécie de predomínio, está esconjurada a peste do mal humano. O homem não será anjo, mas poderá chamar irmão ao seu semelhante.
- E o meu senhor que faz dos templos? - observou sem acrimónia, mas com ar dissaborido, o licenciado Pero Pérez, que ainda ouvira o resto da proposição.
- Resta sempre na vida muito de impenetrável que fornecerá ao homem um pretexto plausível para continuar a tremer maleitas metafísicas - respondeu Sansão Carrasco, com humor.
Para Alonso Quixano, admitindo que o homem, segundo a lição do Resgate, tivesse recuperado o gozo do livre arbítrio, desligado por conseguinte da condenação primeira, certas pessoas eram mais responsáveis do que nunca pelo mal que continuava a lavrar à superfície da terra. Sobretudo os poderosos, os fortes, esses que faziam a lei e articulavam a justiça, e os seus executores, que de coração venal ou leviano cometiam os maiores atropelos contra a humanidade.
Por isso mesmo Alonso Quixano, o Bom, se sentia impelido para a missão augusta que os livros de Cavalaria inculcavam.
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Mas que estou eu a fazer? Isto não é para transcrever tudo. É para abrir apetites para leitura. Páro já. E vou à vida. A outras vidas. Tão torto está o mundo, e eu aqui deleitando-me à desmedida com a escrita sobre quem ensandeceu por tanto o ter querido endireitar. Até breve.

sábado, julho 21, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 42

Ora vamos lá à página 194, procurando não a esgotar...
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Cervantes, de resto, nem sempre esconde o juízo reservado que lhe merecem as mulheres. Deliberadamente é raro que o pronuncie, a não ser a meia voz: E como a mulher tem engenho pronto para tanto amassar ouro como rosalgar... Quando Leandra se deixa raptar pelo aventureiro, que a despoja de quanto leva sobre o corpo e vem dizer: enganou-me; era um ladrão refinado; mas não quis nada com a minha honra - não lhe importa muito que acreditem nela, protótipo como é destas criaturas que se deixam guiar mais pelo instinto de que pelo código moral ou religioso, naturezas portanto com a queda própria da vida que reclama franca alforria. E são elucidativas as seguintes palavras: ...pero los que conocían su discrécion y mucho entendimiento no atribuyeron a ignorancia su pecado, sino a su desenvoltura y a la natural inclinación de las mujeres, que por la mayor parte suele ser desatinada y mal compuesta. E nisto está a sua justificação. As leis da natureza não falseiam elas.
Maritornes é liberal do corpo com toda a gente e esta liberalidade tem o seu quê de cristão e caritativo que nos leva - e antes de mais ninguém o Criador - a perdoar-lhe o que tem de boçal e repulsivo. É estarola, mas boa. Não matou a sede a Sancho, melhor que a Samaritana, pois lhe deu vinho? O que apetece é homem. Nasceu um pouco para isso. A filha do estalajadeiro vai por igual vereda.
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E - repito-me - por ai fora... Mas há que parar, para todos descansarmos um pouco e isto não ser uma cópia mas uma escolha. Mesmo assim, quase ao fim da página 194 cheguei.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 41

E agora? Agora, as mulheres. Na página 193, mas já vinda da página anterior, lá está matéria abundante sobre o tema.
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É um tipo curioso, se bem que bastante unilateral, este da mulher cervantesca. Todas primam por bonitas, melindrosas, extremas no sentir, menos felinas que frágeis, brandas no malefício e melodramáticas na constância. Em geral, oscilam ao vento e voltam ao seu aprumo como as corutas e últimas andadas de ramos de araucárias. É, mercê desta fraqueza inata, que Cervantes lhes atribui dons particulares de duplicidade, como um meio de defesa, condão natural, semelhante ao veneno na glande secretória da cobra.
(...) Pois a mulher interessada, mais particularmente a mulher espanhola, ou, como D. Quixote, visto na simbiose com Sancho, pressente graças porventura a uma clarividente subconsciência psíquica ou esperta intuição, a mesma Espanha, absoluta nos rasgos, oscilando entre todos os contrastes, bizarra e mesquinha, heróica e futre, original como não há segunda no mundo, mas perigosa, tão perigosa que são para pôr de quarentena tanto os seus afagos como as negaças.
As mulheres de Cervantes são pois cortadas segundo certo molde, sem que ele pretenda com isso dignificá-las ou diminuí-las. O retrato não deixa de ter os seus encantos, mas nunca fiar; quando menos se espera, vem a pincelada forte à Velásquez. Aquela Doroteia, sorte de Briseida, subitamente resvala na chochice. Torna-se mexriqueira, senhora comadre e bas-bleu. Mas, repetimos, psicologicamente a figura está tão certa em seus justos valores como qualquer das infantas no quadro das Meninas.
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E por aí fora. E tanto mais que toda a página se foi (apesar de um pequeno mas difícil salto de meia dúzia de linha), e já tanto está a espreitar na página seguinte que não resisto a por ela entrar... mas em outro "post".

No cavalo de pau com Sancho Pança - 40

Retomado o folego (para a inveterada vontade de endireitar o mundo... até nestas tarefas de tão grande gozo pessoal), logo logo na página 185:
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Assim Pança, com o burro e a marranica atávica de escravo, o seu misto de astúcia e de simplicidade, e todas as taras e méritos do homem natural. Posto seja de barro hispânico por índole, é tão cósmico como o amo. Não mais que a truculência com que se move a sua animalidade, segundo por ordem de relevo no teatro cervantesco, revela o poder de vida que lhe foi insuflado. Chama-se a isso conhecimento do homem e imaginação. Quem diz imaginação diz originalidade. Dela se prevalece Cervantes com legítima arrogância... ...soy el primero que he novelado en lengua castellana; que las muchas novelas, que en ella andan impresas, todas son traducidas de lenguas estranjeras; y éstas son mías proprias, no imitadas, ni hurtadas. Mi ingenio las engendró y las parió mi pluma...
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Em meia dúzia de linhas, tantos exactos perfis! De Pança, de seu amo, de Cervantes. De Espanha! Abençoado parto... E também o de Mestre Aquilino, parteiro e parturiente.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 39

Aqui vou. Cavalicando. Contente por estar indo. Procurando o passo certo. Tanto caminho já feito e tanto caminho ainda falta. Vou na página 184 e não quero (porque não posso) transcrever todas as mais de 330 deste livro de maravilha(s).
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D. Quixote, não obstante as jaças de que está mareado, jaças observáveis num belo mármore se o examinarmos à lupa, é um livro eterno. Eterno como o herói, embora forjado com metal único, metal que só se encontra no subsolo psíquico de Espanha. E, por muito que o submetamos à pedra de toque gramatical, léxica, literária, fica pairando imune à análise mais severa e meticulosa. É que cavaleiro, não obstante os vínculos locais, está completo dentro de qualquer homem. Bastas vezes, sopitado como Durandarte sob os filtros de Merlim. Não raro, imóvel no fundo da jaula convencional, contemptor das leis morais e cívicas, e inveterado endireita do mundo torto.
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Por aqui paro. Não por longo ter sido o percurso, mas porque a frase "inveterado endireita do mundo" me obriga a parar. E a apear e a ficar uns momentos a reflectir sobre o mundo torto e a vontade (inveterada) de o endireitar.

sexta-feira, julho 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 38

Breve virei para... Assim escrevi, já lá vai um mês. E um mês passou sem ter dado por isso. Sempre com este "projecto" na cabeça. E adiado. Mas não pode ser! Das coisas que me estão a dar prazer esta é uma das que mais prazer me dá e não arranjo disponibilidade para ela. Isto tem de mudar! Parece que ando nas núvens, meteórico... Vamos lá, cavalinho de pau, à tal página 181 que vira para a 182. Até porque parece apropósito...
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E que D. Quixote passe nas nuvens, meteórico, a sua natureza não deixa de ser amassada bem humanamente segundo a receita de Adão, greda terrenal e cuspo divino. Assim, ver-se-á assoberbado, tanto quanto é consentâneo num homem lunático, por um dos problemas que mais preocupam os homens: o do dinheiro. Diz-se comummente que tal problema foi Balzac que o trouxe à plana da exegese romanesca. Pois anterior a ele, fê-lo com incisivo relevo Cervantes. Era de resto um dos tópicos do realismo picaresco. Sancho dana-se a contar maravedi por maravedi o dinheiro da escarcela. Como não ajustaram a soldada, só de pensar nisso lhe vêm dores de cabeça. Mas deixa, quando for governador, será mesmo negreiro como muito bom vizo-rei das Índias no intuito de amealhar os seus bilhestres para a velhice! D. Quixote, fidalgo pobre, esse, terá de vender duas ou três courelas para prover às necessidades de suas andanças. Previne-o o pretendido castelão que o armou cavaleiro:
- Traga baguinho!
Este circunstancial, que na novelística era tema desdenhado, torna-se no Engenhoso Fidalgo premente apuro e objecto de indeclinável atenção. O próprio cavaleiro se chora de não ser rico bastante para recompensar Sancho como merece. As considerações que na maré oportuna borda sobre a pobreza com tanto amargor, carregadas de tons escuros, pejorativos, traduzem bem a situação económica do novelista: Miserable de aquel que tiene la honra espantadiza y piensa que desde una leguas se le descubre el remiendo del zapato, el trasudor del sombrero, el hilaza del herreruele, y la hambre del estomago.
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Pois muito breve aqui voltarei. Prometo-me!, porque só comigo tenho encargo.

segunda-feira, julho 09, 2007

Boas leituras!...

O psicanalista, professor, Osvaldo Campos de seu nome, tomou para si os males dos pacientes (e dos impacientes) e, por eles, os males do mundo.
Sentiu que agir era preciso. E veio logo a pergunta como agir?
A acção é a primeira regra. Depois, há a do tempo e a do modo, e surge logo a regra do perigo. Entretanto, insinuou-se a regra do dolo formando as cinco regras. Mas foi-se impondo uma última regra, que “eles” queriam definitiva, a regra do silêncio. Da sombra. Por isso, combateremos a sombra.
No entanto, o leitor lembra que há mais regras. Porque é preciso ir mais fundo na acção para que, no tempo e no modo, se vença o dolo quando se afronta o perigo para se quebrar(em) o(s) silêncio(s).
Duas outras regras são indispensáveis: a histórica, isto é, a da luta de classes (desde que e enquanto); e a colectiva, a de tomar partido, a que Maria London grita para fazer coro com os passos batendo no chão do cemitério: “Deixem-me abraçá-los, milhões!”.
Assim é preciso. Para que não fique tudo como o agir “duma bondade defeituosa, uma bondade de parvo, uma justiça de doido”. De um homem só, psicanalista, professor. Só. Apenas com a companhia da ficção literária combatendo a sombra.

Quanto pesa uma alma?
Procurando outras perguntas, Combateremos a Sombra.

S.R.

domingo, junho 24, 2007

Artesanato, poemas de Joaquim Castilho, no dia 30

INFORMAÇÃO-CONVITE

no dia 30 de Junho,
pelas 16 horas

Joaquim Castilho
vai apresentar
o seu livro


no espaço

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haverá, em seguida,
uma pequena feira de livros, com grandes descontos

quarta-feira, junho 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 37

Intenções tinha, e boas, de fazer o que me prometi no episódio de cópia anterior. Chegar ao fim da página 181 e virá-la para a página 182. Mas o caso é que tropecei nas primeiras linhas da tal página 181 e não resisti, até porque, nessa página, Mestre Aquilino nos ajuda a ler as duas partes do D. Quixote. E pode resistir-se a isto?:
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Na Primeira Parte, Cervantes abstrai do tempo. Dizer que toda ela é um anacronismo de fio a pavio, não é descoberta nenhuma. Somadas diuturnidades da acção, hora por hora, marcha através dos campos de Montiel, estadia na pousada, permanência na Serra Morena, regresso à estalagem do Canhoto, teremos uma semana, e não mais. Todavia tem-se a impressão duma extensa jornada pelos tempos e o espaço. Quem saberá dizer há que séculos o cavaleiro do elmo de papelão saiu a favor dos escuro da alba pela porta travessa da abegoaria? Sancho perdeu a tramontana.(...)
Na Segunda Parte, Cervantes soube eximir-se de todo ao cômputo. O rio não leva margens. Sem pastorais nem flabiaux, reconcentrada a acção, articulados os episódios como num tronco franças e ramos, a pena do escritor lavra direita e segura. O talento de Cervantes, em despeito das inibições e constrangimentos, à medida que se vai expandindo sobe em altitude. Senhor do filão precioso, explora-o firmemente, sem titubear.
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Breve farei o salto de página que me prometi. Mas não resisti à transcrição deste naco, também porque não fui capaz de cavalgar por cima desta questão do sonho e da ausência de cronologia para o reger, como diria o Mestre.

domingo, junho 10, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 36


... e aqui estou, ainda na página 179:

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Ao tempo, esta arenga, cortada ao padrão ciceroniano, devia ser um primor de dialéctica. Hoje, o próprio mundo materialão confere a primazia ao espírito sobre qualquer outra actividade. Ao tempo, o mester das armas estava à cabeça do rol, e compreende-se dado o estado do mundo, cheio de reisetes, príncipes, grãos-duques ou simplesmente duques, rebotalho medieval, que se guerreavam como cães, e predominavam a tudo o mais. D. Quixote é um livro vivo, mesmo com toda esta cambada morta. O pouco que envelheceu está na teórica dos discursos aos cabreiros e parlendas eruditas do cónego prebendado. Mas que árvore frondosa não tem ramos secos?
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Bem a contragosto terei de saltar umas duas páginas. Aqui voltarei, já no fim da página 181 a virá-la para a 182.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 35

Por outras andanças tenho corrido sem de aqui, destas cercanias, sair. E à minha espera - como gostaria de ter razões para dizer... da nossa - estava este pedacinho de prosa que, pelas suas analogias e heresias, parece que Mestre Aquilino o escreu para hoje:
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Nos discursos, D. Quixote é um sofrível deputado socialista conservador, se este amálgama político não é heresia. As suas proposições, que nem sempre são paradoxais, por vezes roçam pela trivialidade. Mas anima-as um propósito de igualização social, não só pelo que lhe vem da prática do mundo como pelo que corresponde ao seu etos de fundo humanitário. O discurso sobre as armas e letras lembra uma destas tiradas de academia em que os sócios, sonolentos, vetustos e conspícuos, acenam com a cabeça aprovativamente e ao fim dão palmas. Tais D. Fernando, o gabiru armoriado, Cardénio, o licantropo, o Cativo, etc.
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Para não ultrapassar a medida que, a juizo do copista, deve ter um "post", vou ali e já venho, logo retomando a arenga.

quinta-feira, junho 07, 2007

Rubem Fonseca!

Duas resposta numa entrevista (em Feliz Ano Novo):

"'Você escreve os seus livros para um leitor imaginário?'

'Entre os meus leitores existem também os que são tão idiotas quanto os legumes humanos que passam todas as horas de lazer olhando televisão. Eu gostaria de poder dizer que a literatura é inútil, mas não é, num mundo em que pululam cada vez mais técnicos. Para cada Central Nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do contrário estamos fodidos antes mesmo da bomba explodir.'"

"'Última pergunta: você gosta de escrever?'
'Não. Nenhum escritor gosta realmente de escrever. Eu gosto de amar e de beber vinho: na minha idade eu não deveria perder tempo com outras coisas, mas não consigo parar de escrever. É uma doença.'"

domingo, junho 03, 2007

Na Serra de Aire não há, por enquanto, giestas...

... mas haverá!, diz o anónimo do século xxi


e diz, também, que não tendo sido a "enchente" que justificavam o autor (e o livro) e o apresentador (ver blog Vale a pena lutar - combate.blogspot.com), houve uma conversa animada entre estes três e outras e outros que por alí deram por bem ocupada a tarde de sábado.

Depois, ainda houve uma assembleia geral extraordinária que tomou algmas decisões importantes para a Som da Tinta (livraria) de que breve se dará conta.

sábado, junho 02, 2007

Hoje, às 16.30

Por um tempo de giestas...

sexta-feira, maio 25, 2007

O Tempo das giestas", no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

Explicações necessárias(*)

A ideia de escrever este livro surgiu-me quando, há cerca de dois anos, uma senhora se dirigiu à sede do PCP, em Lisboa, procurando saber notícias de um rapaz que conhecera e pelo qual se apaixonara, em 1936, e que, a dada altura, desapareceu misteriosa e definitivamente. No decorrer das buscas a que, durante muito tempo, procedeu, a senhora chegara à conlusão de que o seu apaixonado de então perfilhava ideias comunistas. Daí a procurá-lo onde, presumivelmente, lhe poderiam dar, e deram, notícias: o desaparecimento do jovem - na realidade, militante comunista - decorrera do facto de ter sido preso e deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado.
Obviamente que nem a referida senhora é a personagem Teresa, nem o rapaz por ela procurado é o Simão deste romance. Assim, e porque em ficção (quase) tudo é possível, a personagem Simão será o trigésimo terceiro resistente assassinado pelo fascismo no Campo da Morte Lenta.
Tratando-se de uma obra de ficção, quer os personagens quer a trama desta história são fruto da imaginação do autor.
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(*) - do autor
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O tempo das giestas será apresentado, por Pedro Namora, no dia 2 de Junho, no espaço Som da Tinta

quarta-feira, maio 23, 2007

Reverte - O escritor, o pintor, o fotógrafo, o repórter de batalhas (por esta ordem... misturando tudo)

O pintor (que fora fotógrafo) deu por terminado o mural em que ajustou contas com a vida (e as guerras) e com os homens, antes de todos com o homem em que as guerras (e a vida) o tinham tornado. Assassino de quem amara, isto é, também de si próprio.
O escritor (que foi repórter) releu as últimas linhas do livro e de novo se interrogou sobre o que encontraria o pintor no final das cento e cinquenta braçadas de ida e mais as cento e cinquenta braçadas que de volta não seriam. Carregou nas teclas ctrl + alt + delete como se fizesse detonar uma mina que lhe destruisse a vida. Aquela vida que vivera, vivendo batalhas. E soube, o escritor, que se vivo queria continuar teria de começar tudo de novo. Deixando o pintor entregue ao destino onde o levassem as trezentas ou mais braçadas mar adentro.

Um livro pare, leia, pense, questione(-se) e ao escritor (e ao pintor, e ao fotógrafo que o pintor foi por jornalista de batalhas ter sido o escritor)

S.R.

domingo, maio 13, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 34

O capítulo VIII, que começa pelo "berço de D. Quixote de la Mancha", dá ganas de que o reproduza todo (qual capítulo não o dá?). Mas não pode ser... vou tentar ser contido. O que tem de ser recontado é como, contado por Mestre Aquilino, aparece Sancho (páginas 177 e 178)

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(...) D. Quixote é o poema da alma popular, escarmentada e sofredora. (...) Faltavam cavadores. Farto de andar pelas estradas e bodegas, (Cervantes) nunca reparara bem em tal gente dobrada para a terra que nos dá de comer e nos come, a regá-la com o suor do rosto. Militar, agente do fisco, pajem de gentis-homens, ocupou-se com a tropa fandanga que topou pelo caminho. Sancho Pança cobriu a lacuna. (...) Faltava ali Sancho. Para onde se meteu o homem que vem escravo desde o princípio do mundo?!

Debalde D. Quixote, quando recebe hospedagem dos cabreiros, o puxa para a sua beira. Ele recusa, é certo que não em nome dos respeitos plebeus, mas da sua comodidade. Acha-se assim mais à vontadinha para comer, beber, arrotar, limpar os beiços ao canhão da véstia, do que muito direito ao lado do amo, velho fidalgo de etiquetas, consoante está afeito a ver, obrigado a trincar com decência e a fingir de bem-educado.

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Por aqui me fico. Por agora, e muito custosamente, pois logo no seguinte parágrafo Aquilino nos diz coisas em que entram palavras como deputado, socialista e conservador. O que tem muita piada (oportuna, direi eu). Lá iremos...

quinta-feira, maio 10, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 33

"O berço de D. Quixote de la Mancha. O cárcere ou os caminhos ensoalhados da Mancha? Índole da novela. A arraia-miúda é chamada a figurar no presépio castelhano. Sancho Pança também é gente (...)".É este o começo do enunciado do capítulo VIII do ensaio de Mestre Aquilino. Que diz tudo - além de tudo o mais que também diz logo a seguir - e dispensa as palavras de introdução e "ponte" que tenho vindo a deixar de minha lavra. Pois caminhemos pelas páginas 176-7 que começam o capítulo.
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O D. Quixote devia ter sido inspirado a Cervantes quando, reagindo o homem de mal consigo e com o mundo, bifurcado no lombo de uma mula passeira, através de caminhos velhos da Mancha, via da terra desdobrar-se o manto florido, as aves em seu bulício, o sol maravilhoso nascer e mergulhar no catafalco da púrpura vespertina, sentindo em suma o repululamento exaltador da vida. A pústula conduz à náusea e não ao arroubo sensorial. E, quanto a elevação, o que medra e cresce desmesuradamente no cárcere é o sentido da liberdade inato em todo o ser vivo. Se os tiranos fossem coagidos a um estágio entre ferros, como aula política, sujeitos ao regime comum, acabariam por ter noção mais exacta e com certeza mais profícua de humanidade.
É bem manifesto que D. Quixote, livro popular, deve à sua índole o império que alcançou sobre a curiosidade comburente do mundo. Tal como a Bíblia, onde os grandes capítulos são aqueles em que palpita e vibra o homem de barro comum: Job, o livro de Rute, os Macabeus, etc. Tal como a Odisseia.
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E por aí fora... como iremos ver mais adiante.