quinta-feira, março 01, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 24

Este percurso vai ser longo. Segue ao que Aquilino vinha contando a transposição de Miguel Cervantes para D. Quixote, como a vida de um deu vida ao outro. Vamos a isto que as linhas são muitas, passando da página 159 para a 160:

Cervantes era coerente consigo mesmo e com o que escrevia. Que figados poderiam ser os seus depois daqueles desgraçados anos ao serviço d'El-rei, com o odioso lápis e a caderneta de perceptor em punho, invectivado e apupado pelos habitantes, apedrejado, batido, expulso?! Depois, chamado a responder pela porção de géneros prelevados que não deixariam de maquiar moleiros, almocreves, forneiros e coadjutores famélicos?! Que havia de ter em mente senão alucinantes moinhos de vento, absurdos odres de vinho e de azeite, curas nédios montados em horsas do Apocalipse, fidalguinhos marionetes e fidalgarrões de barba branca fluvial, com a vasta choldra de quadrilheiros e pícaros à roda, capazes todos eles, filipinos como eram até à medula, de jogar a túnica do Senhor dos Passos quanto mais de roubar a Manutenção?! Cervantes, em rixa com os moleiros, deu, transposto para o burlesco, o D. Quixote que arremeteu contra moinhos de vento, transfigurados em titãs. Excomungado pelos cabidos e alto clero, nada mais compreensível que o Engenhoso Fidalgo jogasse a sua lança contra os gordos frades de S. Bento. A liteira, guardada pelo biscainho, com a dama que vai ao encontro do seu senhor, alto burocrata nas Índias, - é o dégonflement da sua eterna obsessão de mercê, no Novo Mundo, como o cura de Alcobendas representa o desfrute de seu cunhado seminarista, que lhe havia de palmar a legítima da mulher, ou de seu tio por afinidade Juan Salazar de Palácios, um sacerdote chato e honrado, figurações essas da sua trovoada de sonhos nocturnais. E quem me diz se não foi que mantearam se não em Ecija, em La Rumbla, se não em Castro del Rio, em Carmona, uma vez que é tão fora de razão ver aqueles birbantões, cardadores de Segóvia, vendedores de agulhas e alfinetes de Córdova, belfurinheiros da feira de Sevilha, fazerem-no a Sancho Pança, pobre diabo como eles, tomando dores pelo Canhoto estalajadeiro? A Cova de Montesinhos não é a Cova de Cabra, cujo boqueirão ficaria sempre a lobreguejar na imaginação pávida do menino, quando a família, acossada pelo vendaval da vida, vinha acolher-se à sombra do parente remediado? E Dulcineia não terá pedido emprestada a Catalina aquela sua cerebral e inacessível altanaria, distância idealizada e rigidez de ressentida em que petrificou para com o aventureiro? Não foi com ela que aprendeu a volátil significação do amor?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

António Gedeão-Manuel Freire, a "pedra filosofal" (e outras!)

INFORMAÇÃO-CONVITE

A livraria


inicia, no seu espaço
no dia 10 de Março,
pelas 16 horas,
uma série de iniciativas,
a que deu o nome,
leitores ao encontro de autores,
em que um grupo de leitores
se prepara para conversar com um autor escolhido,
o que poderá ser animado
por um “leitor especial” desse autor.

Para começar,


o autor será António Gedeão e o "leitor" Manuel Freire









- venham sentar-se connosco


sobre uma "pedra filosofal"


(e outras que lhes são comuns)

e conviver

domingo, fevereiro 25, 2007

Os jovens e Zeca Afonso

No sábado, 23 de Fevereiro, fez 20 anos que morreu Zeca Afonso. Um grupo de jovens pediu o espaço Som da Tinta para promover uma iniciativa que homenageasse o cantor e o homem.

O espaço foi cedido com todo o gosto e, além disso, a Som da Tinta mostrou toda a disponibilidade para colaborar na iniciativa.

Foi uma noite linda, pá!

O facto de Zeca Afonso tanto dizer a jovens e a menos jovens, vinte anos passados sobre a sua morte, revela bem a importância da sua mensagem em poema e música, da sua forma de resistência, que tão actual parece. Tão dos nossos dias!

À livraria Som da Tinta só resta agradecer aos jovens promotores e à Vanessa (que bela voz!), ao professor José António e ao João, a excelente noite que a todos proporcionaram.
Venham mais 5... noites como esta!


No cavalo de pau com Sancho Pança - 23

Cá estamos de volta, sem nunca termos deixado de estar. Estas viagens são assim. Vão-se fazendo mesmo quando parece que não estão a ser feitas. E voltamos à página 158, porque dela há muito a (transcre)ver e dela transbordamos para a 159, que não menos tem para ser transcrito. É que estamos no cruzamento dos caminhos de Cervantes com D. Quixote, onde nos trouxe Mestre Aquilino :

Teve alguma vez Cervantes o sentimento de que estava a tirar da alma os imensos pesadelos que a ensombravam e, dobando-os como lã de dobadoira, os traduzia para uma linguagem susceptível de duas percepções? De facto, ele escrevia o seu auto-retrato e, num plano superior, a história de Espanha que, segundo um professor universitário, vista na versão oficial ou acreditada, é uma gigantomaquia sinistra do princípio ao cabo. Se assim é, para conseguir ser exacto, consciente ou subconscientemente, pouco interessa, teve de abstrair das noções estabelecidas, mexer com a ordem das coisas, pôr, digamos, o chamado senso comum de pernas para o ar. O que daí resultou - verdade das verdades - foi uma odisseia de irrisão e de amargura.

Estamos mesmo no cruzamento em que Cervantes cede o passo a D. Quixote. É um momento crucial do livro de Aquilino Ribeiro. Nele nos devemos deter, saboreando a prosa e confrontando as duas vidas, ou uma vida que a outrém (o engenhoso fidalgo dom Quixote de la Mancha) vida deu ao escrever um livro com o nome deste por título, debaixo do nome seu (Miguel de Cervantes Saavedra) como autor (ou acima, conforme as edições).

Voltamos já!

Uma conversa em convívio à volta de Escrever nas paredes

No sábado, realizou-se, no espaço Som da Tinta, a iniciativa anunciada de apresentação do livro de João Lázaro Escrever nas paredes. Foi um começo de tarde agradável, em que se conversou e conviveu, falando das crónicas que compõem o livro. Houve três animadores da conversa: Sérgio Ribeiro (em nome dos "donos da casa" e como apresentador do livro), Georgina Rocha (que seleccionou as crónicas e coordenou) e João Lázaro (que, como autor, não conseguiu escapar-se à exposição pública de que foge mas que, agarrado, se revela um excelente comunicador... sobretudo se não tem que falar da obra própria mas dos temas que a alimentam).
A editora também se fez representar, e bem, por Paula Carvalho.
Embora não tenha sido a enchente que sempre se deseja, a sala estava muito composta, com assistentes interessados e participantes.
Mas não se falou só de Escrever nas paredes, também se conversou sobre as Mulheres à flor da pele, outro livro de João Lázaro que merece ser lido, e de tudo que veio à baila.

Foi "joli c'mo caraças", diria o "pintas" da Zündapp, personagem de uma das crónicas de Escrever nas paredes!

terça-feira, fevereiro 20, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 22

Acompanhando Cervantes, e a sua atribulada vida, vamo-nos aproximando de D. Quixote. A página 158 é uma "ponte", que se atravessa encantado, ao contrário do que sente Cervantes:
O que parece ter valido a Cervantes é que o desencantamento que experimentava agora e logo era menos forte que o seu poder de ilusão. Vencido, sim, mas vencido que não se rende. Escarmenteado de todos os bons e maus trabalhos com o fidalgo e o vilão, o frade e o leigo, o alcaide e o carabineiro, além de pobre, aperreado, era o cão malhadiço que vai sempre ao direito do nariz, fungando, rabo entre as pernas, depois de uma pedrada evitando outra.
Examinando bem, os passos da vida de Cervantes são pois as patacoadas de D. Quixote, traduzidas para ridículo. Compreende-se. O seu prazer de revel foi, servindo-se de um herói estapafúrdio e que ninguém tomaria a sério, zombar du monde et de son père. Que regalo revessar na cara de todos o seu fastio humano, quando não é desprezo descomposto, e ninguém pode pedir-lhe contas?! Ser um doido imenso e irresponsável como Deus, o que em Espanha não é raro, mas se processa sempre na escala homérica!

sábado, fevereiro 17, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 21

Mas voltemos à vida atribulada de Miguel Cervantes. Ainda na página 146, é-nos contado, naquela prosa impar de Aquilino:

Uns sete anos esteve Cervantes sem ir a Esquívias. Apenas uma vez se encontrou com Catalina, sua mulher, e é de supor que, esta, só então comparecesse depois de muito rogada e por comiseração com o prófugo no cartório dum notário. Tão espaçado silêncio significa divórcio de pessoas e lugares. Quem deu causa? Pelo que se conhece da vida de Cervantes, este é que devia ter fornecido à moça inteiriça, digna planta da terreola toledana, suspicaz e apegada à cartilha dos seus maiores, a razão eficiente. Catalina seria daquelas que, quando se entregam, a sua rendição é incondicional. Também, quando lhes dão azo a terem rompido o pacto jurado, nunca mais este se solda como sucede com a faiança fina.
A esposa, ou porque Cervantes desse provas de cansaço e bocejasse, ou a sua atitude fosse de desafecto, pondo a descoberto o móbil interesseiro que o induzira a contrair o enlace, devia tê-lo visto partir sem mágoa. (...) Pode aceitar-se também que se tenham revelado temperamentos diferentes e inconciliáveis, Catalina uma pobre alma antiquada, Cervantes um aventureiro que provara todos os venenos do corpo e do espírito. Convir-se-ia então que seria este um desacordo perdoável. Um zoilo ou um realista dirá que para o homem batido do mundo, que beijara muitas bocas, saboreara o prazer dos sentidos com o requinte que reveste nas cidades e, particularmente, na terra devassa de Argel, envolver-se num negócio de amor, em tudo adamítico e insonso, com uma Eva rústica e sem graça, só havia um remédio, fugir a sete pés. E ele, de facto, fugiu a pés de lobo. Fugiu para Sevilha, e não consta que ela fosse atrás dele ou alguma vez o chamasse.
Mas isto já nos fora contado por Aquilino, que vai desenleando a meada e, por isso, tem de voltar atrás e pegar em fios deixados soltos. E só se repete porque esta prosa é irresistível.

No cavalo de pau com Sancho Pança - 20

Nesta cavalgada que venho fazendo, um pouco solitário, e melhor diria burricada porque o cavalo, sendo de pau, mais burro parece (e digo-o baixinho para ele não me ouvir com suas orelhas de madeira), e em que vimos acompanhando as peripécias de Miguel Cervantes no que vai sendo recolha de material para o seu livro sobre a vida de D. Quixote, que sua e nossa é, é preciso não perder o ambiente que envolve - e contribui - para esse acervo de experiências que vai levar a tão importante marco da literatura. Mestre Aquilino está sempre atento. Atentos temos de estar nós, os leitores. Vejamos as páginas 144 a 146:
A derrota equivaleu à derrocada moral da arrogância espanhola, se neste plâncton meio mitológico, indeciso e fluído, se podem verificar tais sismos invisíveis.Fisicamente, o espanhol mal cambaleou das pernas, como Filipe. As metáforas que daí surgiram são mais de inventiva cortesã, salvo a carta circular que os secretários expediram em seu nome. Nela Filipe revelou-se tal qual aquele fidalgo minhoto, D. José de Enfartauntos, que se fez pintar num retábulo em louvor do Senhor dos Milagres porque, tendo caído duma escada, partiu uma perna quando podia ter partido duas:
(...)
Que os soldados levassem ou não ordem, pondo pé vitorioso em Inglaterra. de passar à naifa homens, mulheres e meninos maiores de 7 anos, e assinalar os menores com o ferro em brasa da escravidão, será calúnia britânica. Os descendentes dos conquistadores do Peru, se encarregariam de fazer obra limpa e asseada. Pelo que respeita a recatolizar Inglaterra e dar cumprimento à bula de Sisto V, renovando a excomunhão fulminada por seus predecessores contra Isabel I, o que ninguém nega, calculamos a que extremos iriam parar as demonstrações de justiça divina exercida pelo braço castelhano. Seguramente à prisão da raínha e entrega ao Papa. Deferida por esta à Santa Inquisição, tínhamos crematório certo do real corpo luterano na praça pública para regozijo dos anjos e não menos regozijo do poviléu, que dava o cavaquinho por estas festas. Havia, ainda, a considerar a elevação das boas almas, em justa contrapartida, aliás, do que a soberana protestante fizera à catolicíssima Maria Tudor.
Filipe nas Instruções não se cansara de incutir ânimo aos expedicionários e rogar-lhes que rezassem muito "por que las vitorias son don de Deus e el las da e quita como quiere".

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

João Lázaro na Som da Tinta

INFORMAÇÃO-CONVITE

Dia 24 de Fevereiro de 2007,
às 16 horas,
em Ourém,
na
apresentação do livro de
JOÃO LÁZAROEscrever nas Paredes
JOÃO LÁZARO é psicólogo clínico e director artístico do Te-Ato, Grupo de Teatro de Leiria. Nasceu em Leiria em 1958, dá aulas na EPO-Ourém.
Em 2000, publicou Mulheres à Flor da Pele.

ESCREVER NAS PAREDES é uma selecção de algumas crónicas que o autor vem publicando, desde 2002, no Jornal de Leiria:
“Tenho urgência de escrever nas paredes (…) Escrever sem pudor fazendo de cada coisa escrita testemunho assumido de uma atitude ocasional, do pensamento ou emoção pressentida. É por isso que há vezes em que gostaria de ser um bocadinho poeta. Não muito."
apareçam!
Jorlis, e Edições e Publicações,Lda
paula.carvalho@movicortes.pt

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 19

Longa vai - e ainda mais longa será - a viagem. Vamos alargar a passada, ultrapassando 12 páginas - e com pesar pois não menos mereciam transcrição que as que já estão e irão ser transcritas. Mas tem de ser!
"Homem desarvorado", Cervantes não podia estar muito tempo casado, recatado e quedo, em Esquívias, suportando suspicácias e outros olhares de través. E a Sevilha voltou, assim como ao serviço do rei. Para função ingrata que nem ofício era. A de comissário cobrador de impostos...
Passemos então à página 139:
Cervantes, se não por génio, evidentemente que por necessidade, teve de desempenhar esse árduo papel. A certa altura, estava de mal com Deus e com os homens. De mal com Deus, pois que foi excomungado duas vezes pelo cabido e arcipreste, seus ministros na terra, e com os homens, isto é, com os governantes, já que três vezes o meteram na cadeia por não apresentar as contas certas ou a tempo, sob acusação de se ter alcançado e cometido indelicadezas com os dinheiros do rei.
É possível que Cervantes se prontificasse a exercer tão execrável função, à falta de melhor sem dúvida, e ainda na esperança de que, desta feita, os seus serviços fossem galardoados com o almejado emprego nas Índias. E então adeus letras!
Pobre e iluso homem! Se malversões cometeu além das que estavam implícitas no seu papel de comissário, não lhe renderam com que sair da cepa torta! Entrou para ele pobre e saiu a tinir. Segundo os documentos exumados do pó dos tombos por Pérez Pastor, se quis, em Novembro de 1590, vestir-se e comprar a Miguel de Cavides & C.ª, mercadores de Sevilha, contra o inverno que se anunciava, raxa de mescla para se vestir, houve de dar Tomás Gutiérrez como fiador de dez ducados em que importava a fazenda. Além de excomungado. e três vezes encarcerado, pago tão tarde e às más horas que teve de levar o débito do seu ordenado para juízo, quando acabou a enorme incumbência não lhe restava no bolso com que mandar cantar um cego.
Viu levantarem-se contra ele os frades, os cabidos, os bispos, personalidades gigantescas e preponderantes do grande mundo eclesiástico. Penou no cárcere de Sevilha, metrópole truculenta do vício, em que aprendeu geringonça e flamenca, e entrou em contacto com pícaros e delinquentes de alta moina. A sua experiência enriqueceu-se à custa de sofrimento e de vexames.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 18

Este vai ser um "post" tipo cópia, sem comentários nem imagens, pois é um longo excerto da vid(inh)a do Cervantes enquanto esposo. Lá por Esquívias. Páginas 126 e 127:
Todavia, a sorte de ser mulher, majorada tempos depois da terça que lhe fez a mãe - contanto que não a pudesse alienar, o que equivale a ter-lhe imposto o regime dotal, havendo por bem recatá-la das unhas do genro, no que aliás Catalina viria a reincidir mais tarde, expressamente, no testamento - daria para matrimónio género burguês, regradinho, estes casais onde o marido faz de barca e a mulher de arca, um a trazer, outro a guardar. Para isso era necessário que Cervantes tomasse o papel a sério, ao mesmo tempo que fidalgo dando leis na arcada, pegando à vara do pálio aos domigos e dias santos, fosse um verdadeiro proprietário de Esquívias. Como tal, teria que à sua altura pegar no podão e podar as cepas, limpar as oliveiras dos galhos mortos e ramagem parasita, plantar o cebolinho, assistir à vindima, à pisa das uvas, à encubação do mosto, ir todas as noites e todas as manhãs encostar o ouvido ao batoque do tonel para avaliar pelo rumor se a fermentação se ia operando satisfatòriamente, não ter escrúpulo de aparelhar as mulas, ser mestre regatão a vender e aprovisionar aos almocreves com o produto das fazendas, etc., etc. Tais funções para Cervantes eram grego. Todavia, com um homem de engenho superior, com era o seu, a agronomia oportuna encontra-se no seguimento da alameda rústica que se trilha. Tivesse ele a pachorra necessária, e sobrar-lhe-ia capacidade para se instruir duma arte que tudo demanda do bom senso, do jeito e do tacto previdente e minucioso. Mas seria preciso que o Cervantes farandoleiro se desdobrasse em abegão, podador, seareiro, viticultor. Pedi-lo a um homem que foi soldado de pré e poeta que se entregou ao sonho a perder de vista terra e mar, para mais aventureiro e corredor das sete partidas, era meter o vento numa arca.
Pobre Cervantes, ainda nos atrevemos a dizer nós... mas logo Aquilino continua "Cervantes devia sentir-se recalcado em sua pessoa, objecto de suspicácia dos parentes da mulher, a começar pela sogra". Adiante, cavalinho, que os "posts" têm limites e isto são coisas lá da vida privada de Miguel e Catalina...

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 17

Casou-se o homem, mais por interesse e recato que por amor - assim sugere Aquilino...
E em Esquívias, nova morada, parece muito ter avançado o D.Quixote. Com a curiosidade de, nesta página 125, aparecer um nome que, em 1960, teria incomodado leitores-censores, se acaso Aquilino não lhes conseguiu escapar à inquisição.

No redondo de muitas léguas, impunha-se pelo borbulhante. De mistura, Quijanos, os bons, Salazares, ávidos e demandistas, e toda a fidalguia provinvial de meia-tijela, poupadinha, cautelosa, prestando ouvido empolgado ao mexerico, lidos de Amadis e do Livro de Carlos Magno, poucos os que assinavam mais do que de cruz, no geral honrando-se todos de suas letras gordas. Se a estes figurantes do Quixote, das novelas e entremezes, nem sempre os trasladou dali, tais quais, com o próprio nome, forneceu-lhe Esquívias bom madeirame para a sua oficina de ficcionista. Pelo processo dos enxambladores, tirando deste e ajuntando daquele, afeiçoando tal outro, corregendo além, assim perfez a lotação da sua romanceada arca de Noé.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 16

Depois da última conversa com a alimária, que nem conversa foi..., tentei reatar as charlas que venho tendo com ela/ele "então... bem disposto? vamos pôr-nos a caminho?!". Mais resmungou que respondeu "bem disposto... bem disposto... ninguém nos liga nenhuma...". Não pude deixar de lhe dar alguma razão, e aproveitei o arremedo de diálogo "na verdade, ninguém nos liga nenhuma...". Quase me interrompeu "... e lá queres tu ir a caminho de lugar nenhum...". Aí irritei-me um bocadinho "... qual a caminho de lugar nenhum?! vamos para a página 124, quando morre o pai do nosso Cervantes... não achas a viagem interessante?" . Assentiu "tá' bem, a viagem é muito gira... gosto tanto como tu de me reencontrar com esse Cervantes e o seu Rocinante, são porreiros... mas ninguém nos liga nenhuma... o que vais fazer, depois, com isto que para aí estás a escrecer e transcrever e ninguém lê?, depois desta caminhada cavalgada nos meus costados?... uma dessas espécie de livrecos para a arca?". Foi a minha vez de resmungar "talvez... e depois? tenho pena que não nos liguem nenhuma mas a viagem vale a pena... vá lá... a caminho da página 124"
Em Junho de 1585 faleceu o pai de Miguel, Rodrigo de Cervantes. Era um tropeço que andava no mundo. Não deixou dívidas, sinal de extrema pobreza. Os ricos, os proprietários, a quem todos fiam, que compram e não pagam logo, é que deixam sempre passivo, por vezes superior à legítima dos herdeiros. Os pobres comparecem limpinhos dessas sarandalhas perante o divino juiz. Figuraram de testemunhas no testamento, tão radical em mandas, dois frades das Mercês, e dois calceteiros. Para Cervantes e família, foi uma semanada, duas, que houve que consagrar à morte do velho. Em 1 de Agosto do mesmo ano, Cervantes comparecia no tabeliãos a assinar uma escritura como fiador dum empresário de comédias. Lá voou outra semanada em Madrid.

Não resisto, desculpem lá os que, eventualmente..., leram este pequeno trecho: que maravilha!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 15

Saltei para a garupa do animal, afaguei-lhe a crina de aparas de madeira, e procurei dar-lhe alento: Eia, vamos lá para a página 107. Então não é que o gajo me voltou um olhar recriminador e me apostrefou entre a enorme dentuça: Disseste, no dia 26de Janeiro, que era ainda hoje ou amanhã... e já passou bem mais que uma semana...? Claro que não me ia desculpar perante tal alimária, e retorqui: 'Tá bem, 'tá bem... dei-te folga e ainda refilas. E olha que depois temos uma longa caminhada até à página 124 e 125. Prepara-te.
Nem me respondeu, só zurrou...
Vamos lá, então, à página 107:
A Espanha preferiu conservar-se abraçada ao espectro da Monarquia Universal e relegou o problema do país insurgido a segunda leitura. Foi o que salvou a frágil nacionalidade, que ao tempo carecia de fibra e espinha própria para resistir ao empalme. Senhorear-se efectivamente de Portugal era questão, mais que de força, de tacto político. Observaram a Filipe, quando chegou a Lisboa, se não foi ele que o concebeu ou o duque de Alba, que era homem astucioso e com largas vistas: - Deixai a Portugal suas leis e usanças; cativai seus fidalgos e sacerdotes com benesses e honrarias; não toqueis em nada que lhes seja sagrado. Esta é a boa táctica e o melhor processo de governar este povo brando e bastante acarneirado. Agora, senhor, se quereis fazer de Portugal uma província espanhola, como o é a Galiza, por exemplo, de modo que jamais se quebrem os vínculos, e que nem ele dê conta, cultivai-lhe o orgulho e a vaidade, mudai a capital de vossos reinos para Lisboa. O português facilmente se ilude; julga que foi ele que ganhou a partida, que é ele que dá leis e, dentro de duas ou três décadas, não há mais nação lusitana nem coisa que se pareça.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 14

Em que trabalhos me meti! Vejo o número de excertos que aqui quero trazer... e assusto-me. Mais ainda quando (tres)leio e acho que devia, também, aproveitar mais este bocadinho... Um sarilho.
Hoje, retomo, numa espécie de encantamento, a página 105 e passo à 106, deixando a 107 para mais logo ou para amanhã, embora já agora aqui fiquem as duas primeiras linhas.
Como iamos transcrevendo...
"E porque não o fez? Filipe II era um homem cheio de dons, mas de defeitos improporcionalmente superiores. O grande óbice dos seus projectos foi querer abarcar e dilatar o mundo, que lhe legou Carlos V, com os restritos braços espanhóis. Sonhava com a monarquia católica universal, e sonhos destes, imperialistas, deram sempre com o sonhador em pantanas. (...) Afinal, foi o rei das grandes frustrações. Pretendeu avassalar a Inglaterra, e as duas ou três vezes que o tentou falhou mais ou menos estrondosamente. (...) procurou subjugar a Inglaterra pelas armas, e a Armada Invencível foi o grande desasatre, primeiro degrau da ruína galopante. Desde esse dia, a Espanha ficou com chaga aberta no flanco . Não houve porém logo sinal. O diagnóstio não fixa, tão-pouco, prazos. E compreende-se, as doenças das nações, sejam graves septicemias ou passageiras furuncoloses, duram o tempo, comparado com o organismo do indivíduo, proporcional à sua longevidade.
(...) Se a Espanha se não distrai com a Flandres e com a Itália e concentra a sua ofensiva sobre Portugal, bem certo que seria absorvido.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 13

Ainda nessa página (já 105...), Aquilino continua a discorrer sobre o tema, e com ele vai até ao fim do capítulo, retomando-o mais adiante e no final do livro.
E, já que me meti nestes trabalhos, não resisto a reproduzir alguns trechos, partindo-os por forma a manter a dimensão que julgo adequada a "post":
Posto isto, parecia que a integração efectiva, corpo e alma, se efectuasse entre Espanha e Portugal por simples impregnação como a levedura na masseira. Para mais,o ocupante saira da mesma cepa, falava uma língua irmã, era similar em costumes e religião, uma fronteira comum e bem vadeável corria de Norte a Sul. Além disso, levava-lhe vantagens em dinamismo, dispor de recursos militares superiores, ser cinco vezes mais populoso e com uma economia muito mais sólida. A absorção não se deu, porém. Mas com certeza ter-se-ia dado, se a Espanha pusesse em jogo os elementos de que virtualmente dispunha.
E porque não o fez? Filipe II era um homem cheio de dons, mas de defeitos improporcionalmente superiores ...
... voltarei breve, Logo que possa!

João Carlos Silva no espaço Som da Tinta

Embora o tempo tivesse sido muito escasso para divulgação e promoção da iniciativa, a oportunidade de ter, de novo, João Carlos Silva no nosso espaço resultou num muito agradável encontro, com apresentação do seu novo livro e com um convívio e uma conversa muito agradáveis em que o nosso convidado confirmou as suas excelentes capacidades de comunicador e de divulgar da cultura, ressaltando-se preocupação com a preservação e a valorização da língua portuguesa. Aliás, o próximo programa de televisão de João Carlos Silva chamar-se-á Sal na língua, título inspirado em Eugénio de Andrade, e percorrerá todos os países onde se fale (e cozinhe) em português.
Embora não tivesse estado uma "enchente", o nosso espaço esteve bem recheado de assistentes... e participantes na conversa.

... e, já agora, "façam o favor de ser felizes"! 'Tá bem?!

quarta-feira, janeiro 24, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 12

Não é largo o passo. Logo na página 104 e seguintes, Aquilino volta ao tema sempre presente, mas nem sempre explícito de Portugal e da Espanha (do láparo e da jibóia), tema que, nestes tempos de uniões europeias e de adesões coincidentes no tempo, tem actualidade maior:
Na conjunção de sessenta anos de Portugal com Espanha, o que mais admira não é o movimento libertador de 1640, que nós ampliámos até à epopeia e que em todas as cortes se chamou conjura e nem atingiu sequer o grau de motim. Com efeito, não se despendeu mais que um tiro, o que matou o secretário de Estado Miguel de Vasconcelos. O que admira é que a Espanha, durante sessenta anos de domínio, não houvesse digerido Portugal. Como se explica que o láparo resistisse ao estômago da jibóia? Reunia o povo português tais qualidades de auto-independência, havendo-de tornado um ser colectivo tão fortemente compleicionado, que a assimilação fosse impossível? Pelo contrário. Mercê, segundo é notório, das virtudes negativas que lhe vinham cultivando desde D. João III, perdera a virilidade e o carácter. A vis de uma nação é feita da sua consciente cidadania. Esta existe consoante o grau de liberdade e de bem-estar que usufrui. Ora em Portugal, com o andar dos tempos, deixara de haver cidadãos para só haver pedintes, escravos e áulicos. Nem uns, nem outros contam para a estruturação de uma pátria. No sentir de Oliveira Martins, a tragédia da sua aniquilação fora decorrendo em lágrimas e desesperos. Tudo isso é falso épos. A verdade é que o colóide perdera todas as condições de vibratilidade. Respondia com indiferença absoluta a males, misérias, extorsões e indignidades do Poder. O português contentava-se em rilhar, metido dentro da sua broa. Não houve sequer pânico. Foi perante um imenso nirvana que se encontraram os Filipes. Mal assomaram à fronteira com certo rompante, abriram-se-lhes as portas de par em par e caíram, tão fácil como em Jericó, os muros dos castelos.
Já volto...

sexta-feira, janeiro 19, 2007

"Façam favor de ser felizes!"

INFORMAÇÃO-CONVITE

Aproveitando a sua estadia em Portugal
e a sua disponibilidade
(gostámos muito de o ter em OURÉM,
mas parece que ele também gostou de cá ter estado…)

JOÃO CARLOS SILVA
vai estar na

no dia 24 de Janeiro, 4ª feira,
a partir das 18.30 horas,
para conversar e conviver,
e apresentar o livro-intimação


apareçam!

No cavalo de pau com Sancho Pança - 11


A vida de Cervantes foi muito atribulada. E dela nos vai dando conta Aquilino no seu ensaio.
Depois de Lisboa (e a ela, e a Portugal, se voltará), "no ano da Graça de 1582", Cervantes escreveu uma carta que mereceu a Aquilino estes comentários (na página 103):

A carta de Cervantes, pródiga em salamaleques e de redacção retorcida, endereçada já de Madrid para Lisboa, parece mais a de um demandante vulgar, corrido, mas sempre delicado, acalentando em si voltar com o cantil, pois que evita queimar as pontes, mas de letras mal estreadas nestas maranhas. Afinal, denuncia o estado de espírito e a situação do homem aux abois com aquele estilo tão fora das normas do cursivo burocrático. esse para o qual os escritores de raça têm visceral inaptidão. O enrodilhado da frase constitui ainda a prova iniludível de quanto o escritor se via contrafeito, sabe-se lá em que horas de desnudez absoluta. Quem em semelhantes auges escreve uma carta com altivez e rectitude mental? O mesmo acontece ao postulante que se apresenta à potestade, de corda ao pescoço. Entaramela-se-lhe a voz e as palavras que profere carecem de propriedade, se algum nexo encerram. O infeliz é canhestro. Odioso. Vendo-se ao espelho, seria o primeiro a reconhecer que merecia ser corrido a pontapés. Em geral despedem-no com requintes de cerimónia e compostura.