segunda-feira, janeiro 08, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 5

Os momentos em que releio e transcrevo Aquilino (no blog da Som da Tinta) são momentos de deleite, de gozo. O pior é a “ressaca” de não ver esses momentos partilhados, de não saber lidos os “posts” e de não os ver comentados.
São reacções que terão a ver, talvez, com o que li, na página 49, em que Aquilino fala “do(s) vago(s) poeta(s) de água doce nas horas de ócio”.
Muito se escreve neste livro sobre Portugal e os portugueses. Na página 61, ainda no episódio do cativeiro de Cervantes, em Alger, pode ler-se:

“Vicente Espinel dizia que não havia ninguém mais doido que um português. Era essa uma forma de elogiá-los, pois que não é com bom senso que se forjam os heróis, nem dos sensatos e prudentes saem os grandes homens em qualquer coisa, mesmo com mulheres. Para Cervantes os portugueses, haja ainda em vista o que diz na Galateia, são os únicos que morrem de amor. Contando a história – escreve ele – la creyerán, por tener casi en costumbre el morir de amor los portugueses."

sábado, janeiro 06, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 4

Da estadia de Cervantes no norte de África, como militar e como cativo, não resisto a transcrever, de duas páginas (41 e 43), uns curtos trechos ilustrado por uma gravura entre as que tive a sorte de encontrar no meio do livro que procurava há 40 anos e encontrei em alfarrabista do Porto (No cavalo de pau com Sancho Pança, Aquilino Ribeiro - 1ª edição, 1960):

"(...)Da massa destes cativos, sem nome, sem medo e sem responsabilidades, saíam os renegados. O sofrimento tinha limites. Uma vez que abjurassem da lei em que haviam nascido e abraçassem o novo estado de coisas, acabava-se o cativeiro. Era disso que se temia o Pe. Graciano no Tratado de la redempción de captivos. Por toda a Berberia se verificava andar a grande maioria dos cristãos esquecida da lei de Deus e em risco de perder-se. Os moiros empenhavam-se particularmente em conduzi-los a renegar, casando-os com as filhas, às vezes ricas e bonitas. E acrescenta na mesma ordem de ideias o padre: Doze mil escudos, ouro, prometia certo moiro a um sacerdote cativo em Tunes se quisesse renegar e casar com a sua menina de 15 anos, a qual era extremamente bem-parecida. Com semelhantes tentações por um lado, sevícias por outro, os trânsfugas para o arraial de Mafona eram aos cardumes."

(...)

"A França amansou e civilizou aquela corda de terras agarenas que andavam fora de toda a lei, arrasando os antros abomináveis. E agora pesam aos argelinos e tunisinos os grilhões que outrora deitavam aos outros. A história vai-se desdobrando segundo um ciclo sem fim e mal é que paguem os homens dois dias de sol com cem anos de tempestade (...)"




sexta-feira, janeiro 05, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 3

Logo logo, na página 27, uma outra pincelada em que, de Aquilino, nos oferecem umas linhas do quadro onde retrata o ambiente em que Miguel Cervantes crescia:

"(...) Madrid adormecia ruminando infinitas hipóteses de perversidade, e a imaginação espanhola, por si fértil, esporeada pelo gume do mistério, tornava-se um muladar fumegante. Que admira que os homens corrompessem e na família não houvesse moral alguma embora com o Cristo pregado do frontal a vigiá-los, ou com a luz do azeite a bruxulear às suas chagas verdes no oratório?
O espanhol vivia exorbitado. E os grandes de Espanha, recios e graves, dir-se-iam todos à uma imbuídos duma pétrea sobranceria, posto que sobre o melancólico, género de altivez como a fachada da catedral de Plasência (...)"

No cavalo de pau com Sancho Pança - 2

Sobre as irmãs de Miguel Cervantes, estas breves e aquilinas pinceladas (páginas 24-25), a que muitas outras se poderiam juntar:

"(...) Presume-se que todas as manhãs, uma das casquivanas pusesse a mantilha:
- Me voy, madre...
- Onde te vas?
- Me voy.
E lá iam para voltar dedigressões de que ninguém lhes pedia contas, como mulheres livres e discretas, muito educadinhas e amáveis ao sentir dos vizinhos, sempre em regra com o cura e as variadas obrigações paroquiais. O termo discreto, que em Cervantes assume uma amplitude enciclopédica no sentido do bom entendimento das coisas e decoro pessoal, aqui tem exacta aplicação(...)"

quinta-feira, janeiro 04, 2007

No cavalo de pau com Sancho Pança - 1

Reler Aquilino, reler o No cavalo de pau com Sancho Pança, é, para mim, intraduzível. Sinto uma sensação de gozo, de saborear, talvez maiores por serem um gozo e um saboreamento adiados .
A acompanhar a tradução do D. Quixote, e antes, e depois, Aquilino documentou-se, estudou, comentou, escreveu sobre Cervantes, a sua vida, o D. Quixote (e o Sancho Pança) que criou.

Cada página quase convida a ser transcrita. Como estímulo à leitura (e não só de Aquilino), vou aproveitar textos sem a certeza de que serei capaz de travar, de não ser excessivo.
Começo pela página 17, em que, ao esboçar o retrato da família de Cervantes, Aquilino escreve:

"(...) O patriarca, Rodrigo Cervantes, era barbeiro-cirurgião, mal-avindo de clientes devido à surdez. O que lhe valia era ser pai de umas raparigas fanchonaças, que representam sempre o melhor chamariz de freguesia em qualquer ramo de negócio. Ao tempo, a arte médica consistia, mais que tudo, em sangrar, sarjar um leicenço com a mesma lanceta da flebotomia, levantar a espinhela caída. Encanar um braço ou perna partida, mediante uma chapada de pez e canas laminadas, era função particular dos algebristas, que mais correntemente chamavam endireitas. Ao tempo revinha ainda aos barbeiros fazer a barba, enfeitar e vestir aos defuntos de qualidade, e desta função piedosa auferiam os melhores réditos(...)"

domingo, dezembro 24, 2006

Vozes inquietas sobre os "anos inquietos"

A sessão no espaço Som da Tinta sobre o livro Os Anos Inquietos trouxe até Ourém três das vozes que se fazem ouvir, ou ler, nesse livro, e alguns amigos que tiveram uma tarde de rico convívio e amena cavaqueira. Manuela Cruzeiro, responsável pelo Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, e que, de certo modo, moderou o animado debate, Carlos Baptista e Fernando Martinho, falaram da História que por eles foi feita, sem se darem ares de heróis, ou sequer de protagonistas, e a conversa foi muito útil para o objectivo de combater a desmemória.


parte da assistência
Foi mais uma sessão Som da Tinta. Em Ourém. E se não teve, de Ourém, a presença que se desejava, ela foi bem maior e mais participativa que em outras iniciativas que, para esse dia, estavam marcadas para Ourém, com programa ambicioso, "nomes sonantes" e "temas grandiloquentes", além da responsabilidade da autarquia na iniciativa, e que teve de ser cancelada, pois na véspera tinham estado presentes 5 pessoas, além dos oradores...
Em Ourém estamos. Em Ourém queremos estar. E em Ourém queremos lutar por aquilo em que acreditamos. Sempre inquietos...
Obrigado do Som da Tinta a quem nos dá razão e força para continuar.
Boas Festas!

sábado, dezembro 09, 2006

Contra a desmemória

"1. Pode separar-se esquecimento e desmemória. Se o primeiro sugere descuido, acidente, o obscurecer casual da reminiscência do passado, a segunda implica um apagamento voluntário da lembrança, um desconhecimento, ou mesmo um desinteresse por áreas do vivido, consideradas irrelevantes e não-instrumentais. (...)"
(início do prefácio de Rui Bebiano, Da desmemória e do seu antídoto).

No dia 16, sábado, no espaço Som da Tinta, a partir das 17 horas.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Anos inquietos

Nenhuma luta começa no tempo e no lugar em que nós, cada um de nós, começamos a lutar.
Nos anos 60, a luta académica foi muito importante para a denúncia e o desmascaramento do regime, que ainda há quem se recuse a chamar-lhe fascista, por ignorância ou por simpatia – confessada ou inconfessada – pelo fascismo.
Anos inquietos – vozes do movimento estudantil em Coimbra (1961-1974) é um livro de testemunhos da luta na Universidade de Coimbra.E é muito interessante, e pedagógico…, ler e interpretar esses testemunhos. Por quem por outros tempos, que atravessaram esses, começou a luta, por quem fez essa mesma luta de maneiras muito diferentes noutros lugares, por quem não viveu esses tempos e nesses lugares e sente necessidade de conhecer como foram vividos. Os tempos e os lugares,
É mais um contributo de Manuela Cruzeiro (Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra), com Rui Bebiano, que ouviram e fixaram as “vozes” de Eliana Gersão, Fernando Martinho, Carlos Baptista, Pio de Abreu, Fátima Saraiva, José Cavalheiro, Luís Januário.
Alguns deles (certos estão, Manuela Cruzeiro, Fernando Martinho, Carlos Baptista) vão estar connosco no espaço Som da Tinta, no dia 16, a partir das 17 horas, para conversarem e connosco conviverem.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

De Rios Velhos e Guerrilheiros - O Livro dos Rios

O novo livro de José Luandino Vieira, o 1º de uma trilogia.

"(...) Acontece, porém, que a escrita de Luandino é de uma inclemência que fere o leitor. (...)" (Dóris Graça Dias)

Digo mais: também eu, sou um rio. (pág. 21)

terça-feira, dezembro 05, 2006

Fica para o ano... e em grande!

Na sua reunião de ontem, a gerência da Som da Tinta resolveu fazer o lançamento, ou a apresentação, de Foto&Legenda em Janeiro, para qua haja uma preparação à altura do evento e para não colidir com a vinda do Benfica jogar com o Juventude Ouriense...
De qualquer modo, o livro será distribuido pelos patrocinadores e colocado à venda durante a próxima semana.
No dia 16 de Dezembro, haverá, no nosso espaço, uma iniciativa de que se dará notícia brevemente.

quinta-feira, novembro 30, 2006

FOTO&LEGENDA em livro

Do "blog" FOTO&LEGENDA, que já tem perto de 300 "posts", retiraram-se sete dezenas com tópicos (nas fotos e/ou nas legendas) que dizem respeito a Ourém e a oureenses.
Formam um livro que a Som da Tinta editou com o entusiasmo de estar a dar mais um contributo (bom ou mau, serão outros a julgar...) para animar e "mostrar" a terra (de) que somos.
Será lançado no fim de semana de 8 a 10 de Dezembro. A data e hora definitiva será anunciada em próximo post.

A capa, de que se reproduz a maquete, é do Filipe Saraiva e os autores/responsáveis (das fotos & das legendas e das legendas & das fotos) são o Nuno Abreu, o Sérgio Faria, o Pedro Gonçalves e o Sérgio Ribeiro (aqui por ordem alfabética de apelidos, embora na capa e no livro seja a dos nomes, assim se satisfazendo dois critérios...), com algumas preciosas ajudas.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Salpicos de uma leitura saboreada - 2

"Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos..."

(página 65)

Salpicos de uma leitura saboreada - 1



"... Terá sido então por essa razão que este livro mudou de nome e passou a chamar-se As pequenas memórias. Sim, as memórias pequenas de quando fui pequeno, simplesmente."

(página 38)

domingo, novembro 26, 2006

No centenário de Fernando Lopes Graça na Som da Tinta


Por fim, o Chorus Auris ofereceu a todos os presentes (de todas as idades!) um belo concerto com obras de Fernando Lopes Graça (tradicionais e "heroicas").

Foi uma grande tarde Som da Tinta. Obrigado a todos!

No centenário de Fernando Lopes Graça na Som da Tinta


depois, António Sousa brindou os muitos presentes com uma verdadeira lição sobre Lopes Graça e Tomar, e também de comunicação.

No centenário de Fernando Lopes Graça na Som da Tinta

primeiro... conversou-se!

quinta-feira, novembro 23, 2006

O Graça (como o carteiro...) toca sempre duas vezes!

No dia 25, no espaço






às 17 horas
António Sousa
e Chorus Auris

No dia 26, no

Um(a) Graça nunca vem só!

E ainda bem!... acompanhado.

segunda-feira, novembro 20, 2006

"Um homem para um século"

O Teatro D. Maria II editou um jornal dedicado à peça que estreou no dia 16, A Casa da Lenha, dedicada a Fernando Lopes Graça, e um texto de Baptista Bastos tem o título Um homem para um século, com um destacável: "Foi preso, perseguido e humilhado. Não abjurou, não traíu, não capitulou."

Quem é António Sousa

A última edição do jornal O Templário dedica duas páginas a Fernando Lopes Graça, não só pela passagem do seu centenário como pela estreia, a 16 de Novembro, da peça A Casa da Lenha, no Teatro Nacional D. Maria II, sobre a vida e a obra do compositor. O texto é de António Torrado, a encenação de João Mota e a direcção musical do maestro Antõnio Sousa.
Como António Sousa é quem vem, a Ourém, à Som da Tinta, falar sobre Fernando Lopes Graça, no próximo dia 25, às 17 horas, pareceu oportuno lembrar quem é António Sousa. O que, para muitos oureenses, é mais que dispensável pois bem o conhecem do Chorus Auris, de que foi maestro muitos anos. Aliás, a iniciativa da Som da Tinta será também um reencontro pois o Chorus Auris dará um concerto com obras de Lopes Graça, como já se anunciou.
António Sousa, que defendeu a semana passada uma (segunda) tese de mestrado, na Universidade Nova de Lisboa, sobre Feranado Lopes Graça tendo obtido um "bom" por unanimidade, é maestro e director artístico da Associação Canto Firme; tem 55 anos, é diplomado em piano e composição, licenciado em ciências musicais, mestre em musicologia histórica, sempre pela Universidade Nova; foi professor de educação musical e orientador para a profissionalização em exercício de professores de educação musical; tem vários discos editados desde 1970; foi elemento da Filarmónica Fraude; é autor de várias publicações sobre a obra de Fernando Lopes Graça, a música contemporânea e a música na Ordem de Cristo.; é membro da comissão coordenadora da secretaria de estado da cultura para o centenário do compositor Fernando Lopes Graça.