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quarta-feira, fevereiro 18, 2009

A "efeméride do dia" - 4

(continuação)

3. A mim mesmo pergunto: terá sido considerado “ciência comunista” a aceitação da evolução das espécies e da origem animal do homem? Ou afirmar haver na obra de Darwin algumas conquistas definitivas da ciência? Será mesmo exacto (aqui não se trata sequer de uma orientação) referir a campanha de silêncio sobre a obra de Darwin e atribuir a causa desse silêncio ao que tal obra afirma ou implica acerca da origem do homem e do mundo e do carácter transitório das sociedades humanas? Será “ciência comunista” afirmar que, no estudo das ciências biológicas antes de Darwin, estavam presentes a teologia e a teleologia e que a negação de Darwin conduz de novo à intervenção duma e de outra? Será “ciência comunista” afirmar as limitações de Darwin no estudo do homem e das sociedades humanas? E que na evolução do homem intervêm factores sociais? E que os sentimentos humanos, os pensamentos humanos, as noções de beleza, de bondade, de justiça não são comuns (ainda que em grau diferente) a moluscos, insectos, peixes, aves e mamíferos (incluindo o homem), mas especificamente humanos, diferenciados de povo para povo e mesmo dentro do mesmo povo através da história? E que no mundo animal e vegetal e na transformação das espécies, assim como na história das sociedades humanas, não se verifica o preceito de Leibniz (natura non fecit saltus [1]) mas há que dar uma grande atenção aos “saltos bruscos” (as “mutações” ou as invasões bárbaras, por exemplo)? Será menos verdadeiro dizer que Darwin manifestou desprezo (“cientificamente” fundamentado e explicado em numerosas passagens pelos “selvagens”, pelas outras raças, pelas mulheres? Confesso, Sr. Director, que não enxergo aqui (e está aqui condensada toda a passagem censurada da minha carta) qualquer ideia que não seja ou não possa ser aceite por qualquer homem com um mínimo de instrução e que preze a verdade, embora nada tendo de comunista, nem no pensar nem no agir.


(continua)

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[1] - Em latim no original: A Natureza não dá saltos. (N. Ed.)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

A "efeméride do dia" - 2

De páginas 135 a 137 de Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas – II – 1947 – 1964:

6 de Outubro de 1951
(Sobre a obra de Darwin)



Devolvida carta com indicação de não poder seguir nada do que se dizia acerca da obra de Darwin (e seria “ciência comunista”!):

«Tenho estado a fazer uma revisão geral das duas obras de Darwin a fim de ordenar em apontamentos algumas ideias fundamentais. Não só me foi muitíssimo útil esta leitura – dum modo geral pelo que aprendi e, em particular por me permitir um mais completo esclarecimento de um problema em estudo para o ensaio sobre a questão agrária que estou preparando – como me deu profundo prazer. Se é certo que na Descendência do Homem, várias centenas de páginas sobre os “caracteres sexuais secundários” em todas as classes do reino animal se tornam por vezes (só por vezes) um tanto pesadas, há tanto nesta obra como principalmente na Origem algumas conquistas definitivas da ciência e tudo o resto (mesmo quando não é acertado) é extremamente educativo e chega a ser entusiasmante. Contudo, quando se lêem alguns livros escritos e publicados no século xx e quando se ouvem certos conferencistas e outros discursadores, dir-se-ia que Darwin nunca existiu, que nunca foi escrita a Origem das Espécies e que o grande passo dado pela biologia no século xix continua por dar em grande parte do mundo. Há muito que se faz uma verdadeira campanha de silêncio sobre a obra de Darwin. Nos laboratórios e no domínio da técnica aproveitam-se os resultados práticos. Mas em público negam-se as suas ideias teóricas. Não me recordo de ter ouvido o seu nome nos bancos das escolas, nem me consta que haja referências à selecção natural nos livros de “ciências naturais” para estudos secundários. Compreende-se uma tal campanha de silêncio. O evolucionismo nas ciências biológicas (assim como na geologia), além de tudo quanto afirma e implica acerca da origem do homem e do mundo, traz consigo (embora contra a intenção de Darwin) a ideia particularmente indesejável de que também as sociedades humanas evoluem, também nas sociedades humanas nada há de permanente e eterno. Lyell, que descobriu a evolução geológica, duvidou longos anos da evolução das espécies. Darwin, que descobriu a forma da evolução das espécies, nunca compreendeu a evolução do homem e das sociedades humanas. E, contudo, estas conquistas, no domínio da geologia, da biologia e da sociologia, não são de forma alguma divergentes. Mas Lyell só cerca dos 70 anos e contra os seus próprios sentimentos e crenças se rendeu à evidência dos factos e aceitou o transformismo. E Darwin não pôde sair de um grande número de limitações que lhe tolhiam a investigação acerca do homem, não na sua estrutura física (em que foi mestre), mas na sua vida social e na sua actividade intelectual. Respondendo a um autor que lhe oferecera uma obra fundamental de economia política, Darwin escrevia ser apenas um naturalista e nada perceber dessas questões…[1] A resposta não foi sincera, pois Darwin bebera em Malthus a sua struggle for life e a sua “selecção natural”. Mas essa resposta explica a sua impossibilidade de ver além do acanhado horizonte do seu extracto. Daí ter considerado a evolução do homem no ponto de vista exclusivamente biológico como se nela não interviesse fundamentalmente a vida social. Daí ter considerado as superstruturas ideológicas como de natureza puramente animal (e não de origem social) e ter não só aproximado (como seria legítimo) mas identificado as emoções e os sentimentos humanos com os das outras espécies animais. Daí ter aceitado a existência de conceitos universais e imperecíveis como do belo, do justo e do bom. Daí a sua aproximação de certas raças humanas com os animais inferiores não compreendendo as razões do seu atraso e as possibilidades de o superar. Daí a sua incapacidade para compreender que as transformações quantitativas se transformam em qualitativas e a consequente evolução por saltos bruscos, tanto no campo biológico como no social. Daí o seu desprezo pelos “selvagens”, o seu racismo, o seu antifeminismo, o seu espírito marcadamente britânico e whig[2]. Só ideólogos dum novo e ascendente extracto poderiam e puderam romper essas limitações, vencer essas dificuldades e resolver o problema da evolução do homem como evolução distinta (a partir do momento em que criou e empregou instrumentos de trabalho) da evolução das outras espécies vivas. Darwin não pôde alcançar que, desde esse momento, o homem, com um propósito consciente, passou a agir sobre a natureza e a transformá-la. Apesar porém dessas limitações, os resultados fundamentais obtidos por Darwin não só afastaram de vez a teologia e o finalismo do campo das ciências biológicas, como se mantém de pé nos dias de hoje. Antes de Darwin estudava-se a biologia com a ideia formada da imutabilidade das espécies e o próprio Darwin, a declarar a 1ª vez o seu convencimento da evolução, dizia parecer-lhe “estar a cometer um assassínio”. Depois de Darwin só é possível o estudo da biologia iluminado pela ideia da evolução; só é possível o estudo da pré-história iluminado pela ideia de que o homem provém duma espécie inferior desaparecida; e no domínio dos outros ramos da ciência (geologia, embriologia, etc.) não pode haver um estudo científico se se ignorar Darwin. Negando-se Darwin, a ciência volta à sua fase teológica e medieval.»
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[1] - Trata-se de carta datada de 1 de Outubro de 1873 em que Darwin agradece a Karl Marx a oferta que este lhe fizera de um exemplar de O Capital.
(ainda se sublinha o facto de Álvaro Cunhal não ter referido o nome do "autor da obra fundamental” tratando-se de carta que iria passar pela censura da prisão - SR).
[2] - grupo político do parlamento britânico (conservador) no século xix.
(nota de SR).

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A "efeméride do dia" - 1

Este é o título genérico, retirado de “coisa ouvida”, de uma série de 6 “mensagens” (e do que for que daqui venha a sair) mas poderia ter o título de Carlos Darwin, Álvaro Cunhal na Cadeia Penitenciária, a Questão Agrária em Portugal e mais umas tantas coisas ou, ainda, o de atribulações de um homem de cultura geral, dispersa e difusa.

Andava o pobre homem de cultura geral – dispersa e difusa –, saltitando sobre o que via, ouvia e lia chamar-se “a efeméride do dia”, o bicentenário de Carlos Darwin, nascido a 13 de Fevereiro, e até algo intrigado com tanto relevo, quando tropeçou numa mensagem no blog ocastendo, do António Vilarigues, que transcrevia um texto de Álvaro Cunhal, de Contribuição para o Estudo da Questão Agrária. Leu-o, quase diria avidamente, e foi o começo de um desassossego.
Foi à estante buscar o que considera uma das suas preciosidades bibliográficas, uma edição da Civilização Brasileira, de 1968, de Álvaro Cunhal, A Questão Agrária em Portugal, folheou o livro com o cuidado e enlevo com que se mexe no que é precioso e nos acompanhou por dentro da nossa vida, releu uns pequenos trechos alertando-o para a utilidade/necessidade de uma releitura, encontrou vários nomes citados e com transcrições (como o de Gil Vicente) mas não viu referência explícita a Darwin, embora a abordagem fosse a mesma que está em Contribuição…, das edições avante!, de 1976.
Por aí poderia ter ficado. Satisfeito… ou saboreando. Mas não. Resolveu ir à recente edição das Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, que anda a ler saltitantemente nos intervalos de muita coisa que vai fazendo, e no tomo II (1947-1964) encontrou, entre as páginas 135 e 142, o que não resiste a transcrever.
Porquê? Pelo que são intrinsecamente, e também por poderem contribuir para explicar porquê Darwin pode ser uma, ou uma das diversões oportunas e necessárias para que se fale muito de outros nomes e coisas para que não se fale tanto de Marx, e de como o que este escreveu, com Engels e que, depois, Lenine continuou, nos ajuda a perceber o que se está a passar neste momento da crise do capitalismo, a ganhar consciência e a ganhar força para as rupturas necessárias e urgentes.
Mas não só pelo que são, como textos que, em si mesmos, nos informam sobre Darwin e ajudam a perceber tanto relevo dado à efeméride – cujo é inteiramente justo –, como também pelo que são como textos reveladores das condições em que Álvaro Cunhal esteve preso e com que grandeza moral, cívica, humana, reagiu a essas condições.
Com esses dois textos, o homem de cultura geral – dispersa e difusa – fará as outras “mensagens” neste seu blog.