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terça-feira, setembro 02, 2008

A Invenção do Amor

Ouvir
aqui
o poema dito por Daniel Filipe!

segunda-feira, setembro 01, 2008

Pergunto . poderias ter sido de modo alheio?

Não esperava que esta viagem pela Pátria, lugar de exílio desse no que deu. Era para ser um leve recordar de um dos livros que muito me marcaram e que se vai buscar à estante, mais uma vez, para scanear uma capa, folhear, fazer uns comentários, "postar".
Foi muito mais que isso. E muito mais foi poderia se não decidisse parar.
Trago a dedicatória que comoveu, a saudade do amigo que, aos 39 anos, morreu.










"Com a camaradagem e a amizade do"! Em Março de 1963, já eu tinha saído da SN há alguns meses, mas mantinham-se a amizade e os contactos.
Fui preso em 17 de Maio de 1963. E já não voltei a ver Daniel Filipe!. Morreu em 1964, estava eu em Caxias.

Como penúltima das transcrições (mais que discutíveis, só justificadas por critérios de memória e de subjectividade), não de Pátria, lugar de exílio mas do livro, o poema I do conjunto de poemas O Viajante Clandestino:
.
No exacto automóvel, viajamos.
Em corpo e nervos, sal, angústia, grito.
Suor, temor da noite, aonde vamos?
Direita, esquerda? (Cruzamento). Hesito.
.
Onde? Por onde? Somos dois, calados.
A chuva alaga o universo à volta.
À beira d’água, acenam-nos soldados.
Soam no escuro os passos de uma escolta.
.
Finco as mãos no volante. Derrapagem
.– ou medo apenas do que vai contigo?
Já está próximo o termo da viagem.
Apertamos as mãos. «Saúde, amigo».
.
O relato poético de um “transporte” nesses tempos de clandestinidade e de clandestinos, em que os que não o eram tinham tarefas de apoio.
E termino, porque tem de ser!, com um pequeno trecho em que não falta sequer o nome do camarada que, na clandestinidade, foi preso depois das grandes manifestações de 1 e de 8 de Maio de 1962, e que Daniel Filipe trouxe (só para o poema o teria transportado?) para o poema em que cantou, quase um ano depois, o primeiro de Maio de 1962:
.
Pergunto . poderia cantar de modo alheio
dizer outras palavras como quem diz bom dia
poderia acaso ignorar o tempo a tortura a prisão
Bernardino e a pequena rosa
vermelha e orvalhada
insólita no tablier do automóvel azul
.
Poderia falar dos dias impossíveis
das manhãs sem revolta . do xadrez matemático
jogado interminavelmente
das virgens . dos poentes . do mar da minha infância
.
Poderia escrever meu amor e pensá-lo
Sem mais nada . sem a rubra mancha de sangue na parede da cela
Sem um nome ou um grito
.
.
Pergunto. Poderias, Daniel, ter sido de modo alheio?, teres cantado, falado, escrito, sem o teres feito como o fizeste? Só magoa ter sido tão curto o tempo,

1º de Maio de 1962 e 1º de Maio de 1974

O poeta merecia viver! E merecia ter vivido o 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974!
Como cantaria este?, se assim cantou o primeiro de Maio de 1962 (final da 3ª canção):

Vêm com o rosto de todos os dias
o olhar de todos os dias
as mãos e os pés de todos os dias
cansados de preencher impressos
moldar metais
afeiçoar madeiras
rodar motores e válvulas
sujos de óleo e poeira
deslumbrados de sol
operários . empregados de escritório . vendedores de porta
a porta
dir-se-ia que cantam
.
De súbito . a cidade parece banhada de alegria
estamos juntos meu Amor
possessos da mesma ira justiceira
Damos as mãos como dois jovens namorados
e sorrimos felizes
à doce primavera acontecida
no magoado coração da pátria

Vêm de toda a parte sem idade
Redescobrem palavras esquecidas
e no silêncio cúmplice desfraldam
um novo e claro amanhecer do mundo
.
Vêm de mãos vazias . nem flores simbólicas
nem ramos de oliveira
Entre os seus dedos apenas desabrocha
o obscuro desejo de apertar outras mãos
como as suas . nervosas . sujas . proletárias
.
E eu limpo . eu meticulosamente barbeado
eu de papéis em ordem
eu vestido de nylon dralon leacril
eu rigorosamente asséptico
eu mergulhado até às virilhas na placidez burguesa
vou convosco cantando companheiros
irmãos em pátria
em sonho em sofrimento
.
Ah riso aberto . coração do povo
cálice . flor . inesperado aroma
doce palavra antiga
liberdade

.
.
Doce palavra antiga, de todos os poetas, também de Éluard
(… Et par le pouvoir d’un mot
je recommence ma vie
je suis né pour te connaître
pour te nommer
liberté) .
Ah! os poetas…
por isso eles são o inimigo. Quando têm as mãos nervosas . sujas . proletárias.

domingo, agosto 31, 2008

O poeta que merecia a vida

Num outro canto do Rossio, no vértice do quadrilátero oposto ao da estação, eu, vindo do lado oriental da cidade, também fazia por merecer a vida.
Não o sabíamos, mas talvez o adivinhássemos, e desejássemos que tivesse sido aquela a razão para a nossa ausência, no dia preciso e exacto, primeiro de Maio de 1962, para faltarmos no gabinete onde trabalhávamos, secretária com secretária, no 6º andar da Rua Braancamp, e estarmos ali. No Rossio. Gente, massa.
Na minha célula do Partido já falara, com admiração e entusiasmo juvenil (tinha 26 anos!) do meu companheiro de gabinete. Em resposta, tivera reticências, reservas. Nada explícito mas… “nada de confianças … esteve preso e há muita coisa por esclarecer… vou informar-me melhor, mas tem cautela… não te abras com ele…”.
Ficara surpreso, de sobreaviso. Era, no entanto, tão caloroso, tão camarada o nosso relacionamento… Decerto, pensava eu, tratava-se de algum mal entendido.

No Pátria, lugar de exílio estava, talvez..., a resposta. Em quatro versos depois da 3ª canção:
.
Um poeta
roeu as unhas enquanto foi possível
mas faltou-lhe a coragem no momento derradeiro
nós sabemos porquê

.
Quatro versos no meio de um dos (tantos!) momentos empolgantes do poema:
.
Somos a alegria . o corpo e o sal da terra
o sol das manhãs férteis . a música do outono
a própria essência do amor . a força das marés
somos o tempo em marcha
.
Esta é a única verdade
sabemos que vos é difícil aceitá-la
envoltos como estais em suborno e usura
bancos alta finança empréstimos externos
E no entanto esta manhã um pássaro
pousou à vossa beira . embora
inutilmente
.
A pequena dactilógrafa matou-se
nós sabemos porquê
.
Um carpinteiro desempregado rasgou a roupa
e saiu cantando para a rua
nós sabemos porquê
.
Uma noite
a jovem costureira não voltou para casa
nós sabemos porquê
.
Um poeta
Roeu as unhas enquanto foi possível
mas faltou-lhe a coragem no momento derradeiro
nós sabemos porquê
.
Nós sabemos porquê
.
NÓS SABEMOS PORQUÊ
.
E no entanto é doce dizer pátria
sonhar a terra livre e insubmissa
inteiramente nossa
Sonhá-la como se pedra a pedra a construíssemos . Como
se nada houvesse antes de nós
e desde as fundações a erguêssemos completa
pura alegre acolhedora virgem
de medos . mortos insepultos
.
Regresso pelo tempo ao dia de hoje
primeiro de Maio de 1962
hora segunda da meditação
.
.
Regressado estava Daniel Filipe. Ao dia de hoje, no dia de hoje, que era o primeiro de Maio de 1962. Na sua "hora segunda da meditação". Podendo depois, finalmente, sorrir sem amargura. O poeta merecia a vida.

sábado, agosto 30, 2008

Pátria, lugar de exílio

Porquê, Daniel Filipe?
Porquê começaste o dia, aquele preciso dia primeiro de Maio de 1962, exilado na pátria, antes de começar as canções, que cinco são?
E porquê terminaste o dia, esse exacto dia primeiro de Maio de 1962, podendo finalmente sorrir sem amarguras? Porquê?
Pelo que tão belamente nos contas, codificadamente, nas cinco canções entre o começo e o fim do poema.
Porque estiveste, nesse preciso e exacto dia primeiro de Maio de 1962, no Rossio.
.
Tu o dizes, depois da 3ª canção:

Aqui às três da tarde
posso olhar-vos sem medo
e dizer-vos . aqui estou
O poeta é um operário
(Maiakovski)
aprende depressa a matar-me
o poeta é o inimigo

E grita-lo, a quem?
Aos que, depois da 4ª canção, vês assim:

Como lobos de súbito
irrompem na planície citadina
carregados de morte
.
Seu nome é violência
Trazem nas mãos mortíferos sinais
e de órbitas vazias
.
caminham em silêncio
envoltos na terrível solidão
do crime encomendado
.
Marginam as esquinas
escondem o rosto sob o aço liso
dos negros capacetes
.
e anónimos ocultos
pela espessa cortina de ódio e névoa
como robots avançam
.
A morte engatilhada
espera o momento de partir . Agora
Cumpra-se o ritual
.
Uma voz grita . Viva
a liberdade . O coro lhe responde
pontuado de tiros
.
Canalhas . Temos fome
Arranquemos as pedras da calçada
Ó meu amor resiste
.
Resiste de olhos secos
Sem lágrimas . Sem medo . Só talhada
no silex da ira
.
Pronta a dar corpo ao sonho
e entanto testemunha do martírio
companheira e amante
.
De mãos dadas cantando
abrimos flores às balas assassinas
merecemos a vida
.
Que força. Que belo!
E, depois, vem a 5ª canção, a última.
Mas não só o gritava a estes, aos canalhas, como o sussurrava beijando o ouvido da companheira e amante. Também o fazia para si, e para outros.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Merecemos mais Daniel Filipe...

... e não só A Invenção do Amor. Por isso - e por razões pessoais - aqui lhe vou dedicar uns momentos, neste blog de livros e leituras, antes de, a partir do 1º fim-de-semana de Setembro, me dedicar a outro livro. Ele compreenderia.
Pátria, lugar de exílio é um poema - que dá o título ao livro - que conta um dia, o dia 1º de Maio de 1962. Que foi um dia especial (de luta!) para ele e para mim. Nesse dia - o 1º de Maio não era feriado! -, saímos mais cedo do gabinete (ou nem lá fomos...) onde trabalhávamos os dois, com as justificações que cada um arranjou para o director comum. Cada um para as suas tarefas. Adivinhando-nos, mas nada nos dizendo. Era a pátria em que estávamos exilados, na nossa semi-clandestinidade.
Termina assim o poema, depois da 5ª canção, fechando a história de um dia, de um ingresso (ou de um regresso) à luta:

.

Neste ano de 1962
primeiro de maio
ao começo da noite
podemos finalmente olhar no espelho a nossa muda imagem
sem temor nem vergonha
.
Na solidão do quarto . meu Amor
podemos pela primeira vez
deixar de recear futuros julgamentos
e as perguntas silenciosas nos olhos dos vindouros
esquecer a humilhação . o insulto sem resposta
que foi o nosso pão qutotidiano e áspero
.
Agora poderemos ser de novo homens
livres . ainda que presos
mastigando a comida sem o sabor a lágrimas
antes com o sal da esperança
merecido tempero . paga justa da luta
.
Renegamos o passado maculado de angústias
esquecemos as pequenas diárias covardias
os negócios onde tudo se perde e até a honra
.
Neste primeiro de Maio de 1962
podemos finalmente sorrir sem amargura

quinta-feira, agosto 28, 2008

Daniel Filipe merece mais...

... ou merecemos mais Daniel Filipe.
Daniel Filipe é lembrado por A invenção do Amor. É justo. Mas Daniel Filipe não é o poeta de um poema. Por isso, não é justo que seja lembrado só por esse poema. Além de seis livros de poemas, uma novela (O manuscrito na garrafa) e um livro de crónicas (Discurso sobre a cidade) são a obra deixada publicada, entre 1946 e 1963, por um homem que nasceu em Cabo Verde, em 1925, e morreu em 1964.
Enquanto Daniel Filipe escrevia Pátria, lugar de exílio, trabalhámos no mesmo gabinete, secretária ao lado de secretária.
Ao ver fotografias em que estamos os dois, elementos do Grupo Desportivo da Siderurgia Nacional, mas sobretudo ao tirar da estante este livro e ao relê-lo, mais uma vez, vivo de novo aquele 1º de Maio de 1962, o dia que é, que eu sei que é, o poema que dá o nome ao livro. Não porque ele mo tivesse dito. Porque o adivinhei quando conversámos, como amigos quase confidentes, sobre a gestação do poema, na clandestinidade em que todos vivíamos. Como ele terá adivinhado, pelo que eu lhe disse, naqueles dias, que viveramos de igual maneira aquele dia, aquele 1º de Maio de 1962. Na luta. Calada, mordida, agredida. Na pátria, nosso lugar de exílio.Começa assim o poema:
.
Neste ano de 1962
não . como Nazim Hikmet . no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e . no entanto . prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde
.
Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura
.
Aqui mesmo . a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro nas contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária . de fábrica . com três filhos famintos
Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido . de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz do suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo . apesar de tudo inquieto
apesar de tudo farto
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem . mas precisamente às três da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

sexta-feira, agosto 01, 2008

1º de Maio (em 1962 e em 1974)

O poeta merecia viver!
Daniel Filipe merecia ter vivido o 25 de Abril! Como cantaria o 1º de Maio de 1974?, se assim cantou o 1º de Maio de 1962 (final da 3ª canção):

Vêm com o rosto de todos os dias
o olhar de todos os dias
as mãos e os pés de todos os dias
cansados de preencher impressos
moldar metais
afeiçoar madeiras
rodar motores e válvulas
sujos de óleo e poeira
deslumbrados de sol
operários . empregados de escritório . vendedores de porta a porta
dir-se-ia que cantam
.
De súbito . a cidade parece banhada de alegria
estamos juntos meu Amor
possessos da mesma ira justiceira
Damos as mãos como dois jovens namorados
e sorrimos felizes
à doce primavera acontecida
no magoado coração da pátria

Vêm de toda a parte sem idade
Redescobrem palavras esquecidas
e no silêncio cúmplice desfraldam
um novo e claro amanhecer do mundo
.
Vêm de mãos vazias . nem flores simbólicas
nem ramos de oliveira
Entre os seus dedos apenas desabrocha
o obscuro desejo de apertar outras mãos
como as suas . nervosas . sujas . proletárias
.
E eu limpo . eu meticulosamente barbeado
eu de papéis em ordem
eu vestido de nylon dralon leacril
eu rigorosamente asséptico
eu mergulhado até às virilhas na placidez burguesa
vou convosco cantando companheiros
irmãos em pátria
em sonho em sofrimento
.
Ah riso aberto . coração do povo
cálice . flor . inesperado aroma
doce palavra antiga
liberdade
.
.
Doce palavra antiga, de todos os poetas, também de Éluard
(… Et par le pouvoir d’un mot
je recommence ma vie
je suis né pour te connaître
pour te nommer
liberté).
Ah! os poetas…
por isso eles são o inimigo. Quando têm as mãos nervosas . sujas . proletárias.